As polêmicas em torno da origem da Covid-19

De um Nobel de Medicina até Trump, passando por vários veículos de imprensa, multiplicam-se especulações de que o patógeno da covid-19 teria sido criado em laboratório. Especialistas falam em "politização da pandemia". Instituto de Wuhan disse não haver indícios de traços sintéticos no novo coronavírus.
De um Nobel de Medicina até Trump, passando por vários veículos de imprensa, multiplicam-se especulações de que o patógeno da covid-19 teria sido criado em laboratório. Especialistas falam em "politização da pandemia". Instituto de Wuhan disse não haver indícios de traços sintéticos no novo coronavírus.
De um Nobel de Medicina até Trump, passando por vários veículos de imprensa, multiplicam-se especulações de que o patógeno da covid-19 teria sido criado em laboratório. Especialistas falam em "politização da pandemia". Instituto de Wuhan disse não haver indícios de traços sintéticos no novo coronavírus.
De um Nobel de Medicina até Trump, passando por vários veículos de imprensa, multiplicam-se especulações de que o patógeno da covid-19 teria sido criado em laboratório. Especialistas falam em “politização da pandemia”. Instituto de Wuhan disse não haver indícios de traços sintéticos no novo coronavírus.

Pesquisadores e jornalistas vêm especulando como o coronavírus Sars-cov-2 teria chegado à Wuhan, na China. As suspeitas recaíram principalmente sobre um mercado de peixe em que também eram vendidos animais selvagens. Um estudo publicado pela revista científica Nature sugere que antes de chegar aos seres humanos, o vírus provavelmente foi transmitido de morcegos para o pangolim – um mamífero que se assemelha ao tatu-bola e é vítima do tráfico ilegal de animais selvagens.

Também circularam na mídia, no entanto, notícias de que o vírus possa ter escapado do Instituto de Virologia de Wuhan, situado próximo ao mercado. Na última quinta-feira (16/04/2020) o virologista francês Luc Montagnier divulgou a hipótese de que o Sars-cov-2 seria um vírus manipulado, acidentalmente liberado do laboratório de Wuhan durante a busca de uma vacina contra a aids. Prêmio Nobel de Medicina em 2008 como um dos “descobridores” do vírus da aids, Montagnier diz basear-se nas semelhanças entre o genoma do HIV e o do novo coronavírus.

Segundo uma outra versão, um funcionário do laboratório teria se contaminado acidentalmente e levado a doença para o mundo externo. O diretor do Instituto de Virologia, Yuan Zhiming, rechaçou essa hipótese na imprensa chinesa, negando que qualquer funcionário tenha contraído o vírus. Por sua vez, o presidente americano, Donald Trump, entrou na controvérsia, apoiando a teoria e anunciando que seu governo investigaria os boatos sobre a origem do novo coronavírus.

“É ruim quando alguns estão deliberadamente tentando enganar as pessoas”, acrescentou Yuan sem citar o nome de Trump. O diretor também negou a tese, que já foi rejeitada por especialistas, de que o novo coronavírus teria sido criado em laboratório. “Não há nenhuma evidência de que o vírus seja artificial ou tenha traços sintéticos”, acrescentou.

Teorias e desmentidos

Já em janeiro circulavam nas redes sociais teorias apontando para a instituto em Wuhan, embora acopladas a teorias de conspiração sobre pesquisas secretas de armas biológicas. Na época, o Washington Post descartou a versão de que o vírus pudesse ser de fabricação humana.

Com base nas características do patógeno, virologistas consultados pelo jornal americano excluíram a possibilidade de uma mutação artificialmente induzida. A afirmação foi confirmada por um estudo da equipe de pesquisadores liderada por Kristian G. Andersen, publicada em 17 de março na revista Nature Medicine.

Além disso, o trabalho do instituto em Wuhan não é secreto: revistas especializadas publicaram diversos estudos lá realizados sobre os vírus dos morcegos, de parte dos quais também participaram parceiros ocidentais. Entre outros, o Galveston National Laboratory da Universidade do Texas, tem laços estreitos com a instituição chinesa, e, segundo o jornal britânico Daily Mail, os Estados Unidos igualmente cofinanciaram as pesquisas.

Contudo nada disso descartou a possibilidade de o vírus haver se alastrado através das pesquisas no instituto de Wuhan. No fim de janeiro, a revista Nature lançou um artigo questionando a tese de que o vírus pudesse ter migrado para humanos no mercado de peixe. Um estudo do periódico especializado The Lancet mostrou, ainda, que dos primeiros 41 pacientes de covid-19, 13 não tiveram qualquer contato com o mercado.

Além disso, é possível que o contágio do “paciente zero” já tenha ocorrido em novembro de 2019, apontou o estudo. Na época, numa entrevista à Science, o professor Daniel Lucey, especialista em doenças infecciosas do Centro Médico da Universidade de Georgetown, afirmou que os primeiros casos de doença não tiveram qualquer ligação com o mercado.

Uma explicação possível e reações violentas

Assim, coloca-se a questão de como o vírus surgiu em Wuhan. A professora de virologia Zhengli Shi oferece uma explicação possível: ela participou de pesquisas sobre os vírus dos morcegos no instituto de Wuhan, tendo publicado no início de fevereiro um artigo a respeito na revista Nature.

Num perfil da pesquisadora publicado em 6 de fevereiro pelo South China Morning Post, descreve-se como ela coletou amostras de excrementos dos mamíferos voadores em cavernas de 28 diferentes províncias da China. Em Wuhan, ela compilou um abrangente banco de dados de vírus dos morcegos, descreve o periódico Spektrum/Scientific American.

No começo de 2019, Zhengli publicou com outros colegas um estudo aprofundado sobre os coronavírus transmitidos pelos morcegos. Num espécime do gênero Rhinolophus, ela encontrou coronavírus muito semelhantes ao patógeno transmitido aos humanos.

Graças ao trabalho dessa equipe, o genoma do vírus pôde ser sequenciado tão rapidamente e os resultados disponibilizados ao público mundial, permitindo que a pesquisa de vacinas e os testes de anticorpos se iniciassem em velocidade inédita. Entretanto, nas últimas semanas, Zhengli Shi esteve sujeita a violentas hostilidades nas redes sociais, tanto na Ásia como em outras regiões do planeta.

Seu colega de pesquisas nova-iorquino Peter Daszak, presidente da EcoHealth Alliance, acorreu em defesa dela e de seu trabalho: numa entrevista ao programa Democracy Now, da emissora americana de direito público National Public Radio, classificou como “pura besteira” a afirmação de que o vírus tenha escapado de um laboratório. Ele próprio participou da coleta de amostras dos morcegos, assegurou Daszak, e não se guarda em laboratório nenhum vírus Sars-Cov-2: assim, o boato não passaria de uma “infeliz politização da origem da pandemia”.

Chama ainda a atenção o fato de Pequim ter recentemente restringido o noticiário sobre a origem do novo coronavírus. A embaixada chinesa em Londres reagiu com irritação a especulações da imprensa britânica, qualificando-as de “sem fundamento”, e ressalvando estarem a pleno vapor as investigações para determinar de onde provém o agente da covid-19.

*Com informações do DW.

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