Lula recebe título de cidadão honorário de Paris; Durante discurso, ex-presidente associa perda de direitos e sofrimento do povo do Brasil aos ataques à democracia

Na capital francesa, ex-presidente critica ataques à democracia no Brasil e agradece apoio da prefeita Anne Hidalgo. Honraria é concedida a personalidades que se destacam pela defesa dos direitos humanos.
Na capital francesa, ex-presidente critica ataques à democracia no Brasil e agradece apoio da prefeita Anne Hidalgo. Honraria é concedida a personalidades que se destacam pela defesa dos direitos humanos.
Na capital francesa, ex-presidente critica ataques à democracia no Brasil e agradece apoio da prefeita Anne Hidalgo. Honraria é concedida a personalidades que se destacam pela defesa dos direitos humanos.
Na capital francesa, ex-presidente critica ataques à democracia no Brasil e agradece apoio da prefeita Anne Hidalgo. Honraria é concedida a personalidades que se destacam pela defesa dos direitos humanos.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu nesta segunda-feira (02/03/2020) o título de cidadão honorário de Paris em uma cerimônia na prefeitura da capital francesa, onde aproveitou para criticar o que chamou de “enfraquecimento do processo democrático” no Brasil.

A honraria a Lula foi concedida pela prefeita de Paris, Anne Hidalgo, em outubro do ano passado, quando ele ainda estava preso, e aprovada pelo Conselho da cidade. De acordo com a prefeitura, a cidadania honorária parisiense é concedida a personalidades que se destacam na defesa dos direitos humanos. Um dos homenageados foi o ex-líder africano Nelson Mandela.

Hidalgo disse que a sucessora de Lula na Presidência, Dilma Rousseff, havia lhe pedido uma ação em favor da libertação do petista, o que a levou a sugerir sua indicação como cidadão honorário de Paris. A prefeita, em plena campanha para a reeleição, destacou o legado do PT na luta pela igualdade social – a qual, segundo ela, está comprometida com a chegada ao poder de Jair Bolsonaro.

A relação entre os governos do Brasil e da França vem se deteriorando, após Bolsonaro entrar em várias ocasiões em confronto com o presidente francês, Emmanuel Macron.

Em seu discurso na prefeitura de Paris, com a presença de Dilma e do ex-candidato do PT à Presidência Fernando Haddad, Lula fez uma série de críticas ao governo Bolsonaro e alertou para o empobrecimento da população brasileira.

Ele disse que o Brasil vive o enfraquecimento da democracia “estimulado pela ganância de poucos e pelo desprezo em relação aos direitos do povo”, e denunciou o que chamou de “ataques ao Estado de direito e à Constituição”.

Lula contou que, ao saber da homenagem de Paris quando estava preso, teve renovadas as esperanças de recuperar a liberdade. O ex-presidente valorizou o reconhecimento vindo de uma cidade que, segundo ele, “tem um apego especial aos direitos humanos e que sempre acolheu os brasileiros e latino-americanos que os defenderam”.

O petista ainda prometeu unir a esquerda nas eleições presidenciais de 2022. Ele disse que, aos 74 anos, está “mais motivado do que nunca para reconquistar a democracia em nosso país”.

Lula foi preso em 2018 por corrupção no caso do apartamento tríplex no Guarujá, quando foi acusado de receber propinas de empreiteiras em troca da concessão de contratos públicos. Ele foi libertado em novembro do ano passado, após 580 dias de encarceramento, depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) mudar as regras para as prisões em segunda instância.

Antes da cerimônia na prefeitura da cidade, Lula se reuniu com líderes da esquerda francesa, como o ex-presidente francês François Hollande e o líder do partido França Insubmissa e ex-candidato à presidência, Jean-Luc Mélenchon.

Ainda em Paris, o ex-presidente participará, juntamente com Dilma e Haddad, de um evento de campanha de Hidalgo, antes de partir para Genebra e Berlim.

Na Suíça, ele deverá participar de uma reunião do Conselho Mundial das Igrejas (CMI), que reúne representantes de mais de 120 países, sob o tema da desigualdade social.

Na capital alemã, Lula se reunirá com líderes políticos e representantes de sindicatos e participará de um ato público em defesa da democracia no Brasil.

A trajetória política de Lula

Lula e as greves do ABC: Em 1975, Lula foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e ganhou projeção nacional ao liderar uma série de greves no final da década. Em 1980, foi preso e processado com base na Lei de Segurança Nacional após comandar uma paralisação que durou 41 dias. Lula ficou 31 dias no cárcere do Dops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social).

Íntegra do pronunciamento do ex-presidente Lula

Senhora Anne Hidalgo,

Senhoras e senhores representantes do Conselho de Paris,

Minhas amigas e meus amigos,

Agradeço de coração o título que a cidade de Paris me concede, por meio de seus representantes. Agradeço especialmente à prefeita Anne Hidalgo, pela generosa indicação, e ao Conselho de Paris que a aprovou.

Este título teria de se estender, na realidade, às mulheres e homens que defendem a democracia e os direitos da pessoa humana, às brasileiras e brasileiros que lutam por um mundo melhor.

Receber este privilégio me emociona, primeiramente, porque a cidade de Paris é universalmente reconhecida como símbolo perpétuo dos Direitos do Homem e da mais elevada tradição de solidariedade aos perseguidos.

E me emociona de maneira especial porque foi concedido num dos momentos mais difíceis da nossa luta, quando me encontrava preso de forma ilegal, uma prisão política num processo que ainda não se encerrou.

Era o momento em que mais precisávamos da solidariedade internacional, para denunciar as injustiças que vinham sendo cometidas contra o povo brasileiro e as agressões ao estado de direito em meu país.

E o povo de Paris, como em tantas outras ocasiões, estendeu a nós sua proteção fraternal. Recordo-me de ter escrito, numa carta de agradecimento em outubro passado, que Paris estava rompendo o muro de silêncio que ocultava os crimes contra a democracia no Brasil.

Gostaria de estar nesta cidade libertária para simplesmente celebrar a fraternidade entre os povos e recordar os laços de solidariedade que nos unem ao longo da História. Afinal, sempre houve lugar para brasileiros e latino-americanos entre os lutadores da liberdade que Paris acolheu.

Mas é meu dever falar aqui em nome dos que sofrem, em meu país, com o desemprego e a pobreza, com a revogação de direitos históricos dos trabalhadores e a destruição das bases de um projeto de desenvolvimento sustentável, capaz de oferecer inclusão e oportunidades para todos.

É meu dever falar em nome de milhões de famílias de agricultores, das populações que vivem à margem dos rios e nas florestas, dos indígenas e dos povos da Amazônia, para denunciar a deliberada destruição das fontes de vida em nosso país, por causa das políticas irresponsáveis e criminosas de um governo que ameaça o planeta.

O que está ocorrendo no Brasil é o resultado de um processo de enfraquecimento do processo democrático, estimulado pela ganância de uns poucos e por um desprezo mesquinho pelos direitos do povo; desprezo que tem raízes profundas, fincadas em 350 anos de escravagismo.

No período historicamente breve em que o Partido dos Trabalhadores governou o Brasil, muitos desses direitos foram colocados em prática pela primeira vez. Dentre eles, o direito fundamental de alimentar a família todos os dias, o que se tornou possível graças à combinação do Bolsa Família com outras políticas públicas, com a valorização do salário e a geração de empregos.

Temos especial orgulho de ter aberto as portas da Universidade para 4 milhões de jovens, na maioria negros, moradores da periferia e dos rincões mais isolados de nosso imenso país; quase sempre os primeiros a conquistar um diploma universitário em gerações de suas famílias.

Milhares desses jovens tiveram a oportunidade de estudar nas melhores universidades do mundo, graças a um programa da presidenta Dilma Rousseff. Certamente alguns deles se encontram em Paris.

Bastaram 13 anos de governos que olharam o povo em primeiro lugar, para começarmos a reverter a doença secular da desigualdade em nosso país.

Foram passos ainda pequenos para a dimensão do desafio, mas estávamos no caminho certo, porque 36 milhões saíram da pobreza extrema e o Brasil saiu do tristemente conhecido Mapa da Fome da ONU.

Este processo, ao longo do qual cometemos erros, certamente, porém muito mais acertos, foi interrompido em 2016 por um golpe parlamentar, sustentado por poderosos interesses econômicos e geopolíticos, com apoio de seus porta-vozes na mídia e em postos-chave das instituições.

Como sabem, a presidenta Dilma, uma mulher honrada, foi afastada pelo Congresso sem ter cometido crime nenhum, num processo em que as formalidades encobriram acusações vazias.

A este primeiro golpe contra a Constituição e a democracia, seguiu-se a farsa judicial em que fui condenado, também sem ter cometido crime algum, por um juiz que hoje é ministro do presidente que ele ajudou a eleger com minha prisão.

Quando a Justiça Eleitoral cassou minha candidatura, contrariando uma determinação da ONU baseada em tratados internacionais assinados pelo Brasil, lançamos a candidatura do companheiro Fernando Haddad.

Ele foi vítima de uma das mais perversas campanhas de mentiras por meio das redes sociais, disparadas e financiadas ilegalmente pelo adversário, num crime eleitoral que denunciamos e que até hoje, passados quase18 meses, não foi julgado pelo tribunal competente.

O candidato que venceu aquelas eleições, dono de um histórico de ataques à democracia e aos direitos humanos, foi poupado pelas grandes redes de televisão de enfrentar em debates o companheiro Haddad. Essa mídia, portanto, é corresponsável pela ascensão de um presidente fascista ao governo do Brasil.

A triste situação em que se encontra meu país e o sofrimento do nosso povo são consequência de repetidos ataques, maiores e menores, ao estado de direito, à Constituição e à democracia.Se hoje estou aqui, num estado provisório de liberdade e ainda sem direitos políticos, é porque em novembro passado, num julgamento por maioria, o Supremo Tribunal Federal do Brasil reconheceu, para todos os cidadãos, o direito constitucional à presunção de inocência que havia sido negado ao cidadão Lula, às vésperas de minha prisão.

Aqui na Europa, quero me encontrar e agradecer a todos que nos apoiaram nesses momentos tão duros. Mas quero especialmente dialogar com os que trabalham para enfrentar a desigualdade, essa doença criada pelo homem e que está corroendo o próprio conceito de humanidade.

Quero compartilhar as políticas exitosas que tivemos no Brasil, conhecer a experiência, os projetos de outros países e dos que estudam e lutam contra a desigualdade no mundo.

No recente encontro que tive com Sua Santidade papa Francisco, fiquei contagiado pelo entusiasmo com que ele convoca os jovens economistas a debater e buscar saídas para essa questão, que é crucial para o presente e o futuro.

Quero propor aos dirigentes políticos, aos governantes e à sociedade civil dos mais diversos países que promovam, não apenas o debate, mas ações concretas em conjunto, para reverter a desigualdade.

Sei que é possível. Temos de ter fé na juventude, como tem o papa Francisco. Temos de ter fé na humanidade e na nossa capacidade de construir, pelo diálogo e pela política, as bases de um mundo mais justo.

Sei o quanto tem sido importante a solidariedade internacional, na Europa, nos Estados Unidos e ao redor do mundo, para que se restaure plenamente o processo democrático, o estado de direito e a justiça para todos em meu país. E mais uma vez agradeço, em nome dos que sofrem com a atual situação.

O povo de Paris me acolhe hoje entre seus cidadãos, como um reconhecimento pelo que fizemos, junto com tantos companheiros e com intensa participação social, para reduzir a desigualdade e combater a fome no Brasil.

Quero me despedir afirmando que nossa luta prosseguirá, com a participação de todos vocês, porque é a luta pela democracia, pela igualdade, pelos direitos dos desprotegidos, pela humanidade e pela paz.

Muito obrigado.

*Com informações do DW.

Ex-presidente Lula ao lado de Anne Hidalgo (e), Dilma Rousseff e Fernando Haddad durante homenagem em Paris.
Ex-presidente Lula ao lado de Anne Hidalgo (e), Dilma Rousseff e Fernando Haddad durante homenagem em Paris.
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