A guerra das vacinas | Por Luiz Holanda

Cientistas do antigo Instituto Oswaldo Cruz reunidos na biblioteca do Pavilhão Mourisco.

Cientistas do antigo Instituto Oswaldo Cruz reunidos na biblioteca do Pavilhão Mourisco.

A pandemia do Covid-19, que obriga o mundo a procurar uma vacina que possa imunizar as pessoas contra esse vírus maldito, nos faz relembrar uma outra pandemia, ocorrida no Rio de Janeiro, nos idos de 1904.

Naquela época, estourou na cidade maravilhosa uma revolta contra a lei de aplicação obrigatória de uma vacina contra a tuberculose, peste bubônica, febre amarela, varíola, tifo e cólera, que assolavam a população e preocupavam o governo. Era o coronavírus da época.

Durante mais de uma semana feriu-se e matou-se nas ruas da então capital do Brasil, que, na época, tinha cerca de 800 mil habitantes. Bondes incendiados, barricadas, lojas saqueadas e outros crimes eram praticados contra a aplicação da vacina. As autoridades sanitárias, comandadas pelo dr. Osvaldo Cruz, invadiam as casas para vacinar as pessoas à força.

O Exército, incentivado pela imprensa que desorientava seus leitores dizendo que, em vez de imunizar, a vacina provocava a varíola, apoiou a revolta. Considerando a situação do povo na época, a pregação contra o governo recebeu amplo apoio popular. Políticos como o senador Lauro Sodré, e militares como o general Travassos, queriam derrubar o governo. O governo reagiu com dureza: mandou todo mundo para o Acre.

Na época o presidente do Brasil era Rodrigues Alves, que assumiu o governo no Rio de Janeiro com a pandemia da varíola, causada pelo acúmulo de toneladas de lixo. A proliferação de ratos e mosquitos transmitiam a doença, que matava milhares de pessoas anualmente. Daí a vacina obrigatória para acabar com os focos das doenças e o lixo acumulado.

A primeira coisa que o governo fez foi anunciar que pagaria à população por cada rato que fosse entregue às autoridades. O resultado foi o surgimento de criadores desses roedores a fim de conseguirem uma renda extra, tal qual os fabricantes de álcool gel nos dias de hoje. Devido às fraudes, o governo suspendeu a recompensa pelos roedores apreendidos.

A Revolta da vacina, como ficou conhecido o episódio, inspirou minisséries e até ópera. A obra “O Cientista”, do maestro Silvio Barbato, conta a vida de Osvaldo Cruz e registra uma parte do acontecimento.

Desta vez não existe ameaça de revolta contra qualquer vacina que por acaso seja descoberta para evitar o coronavírus. Pelo contrário, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, vem recebendo elogios até da oposição.

Indicado pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado e pelo ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, seus colegas no DEM, Mandetta mantém boas relações com o Congresso, principalmente com Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados e com Davi Alcolumbre, presidente do Senado, ambos críticos de Bolsonaro.

Ainda não existe uma vacina contra o coronavírus, mas tudo indica que vamos conseguir. Seu processo de desenvolvimento se dá a partir da criação de uma partícula semelhante ao vírus, o VLP (Víruslike particle), que são moléculas semelhantes ao vírus sem serem infecciosas, pois não contêm material genético viral. Se essa vacina vier, a revolta vai ser para tomá-la, sem que o Mandetta seja o Osvaldo Cruz do governo Bolsonaro.

*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.

Vista panorâmica Complexo do Castelo de Manguinhos (Castelo Fiocruz).

Vista panorâmica Complexo do Castelo de Manguinhos (Castelo Fiocruz).

Núcleo histórico de Manguinhos, com o Pavilhão do Quinino e o Pavilhão Mourisco, da FIOCRUZ.

Núcleo histórico de Manguinhos, com o Pavilhão do Quinino e o Pavilhão Mourisco, da FIOCRUZ.

Vista do Castelo de Manguinhos (Castelo Fiocruz), com busto de Oswaldo Cruz no primeiro plano.

Vista do Castelo de Manguinhos (Castelo Fiocruz), com busto de Oswaldo Cruz no primeiro plano.

Vista do Castelo de Manguinhos (Castelo Fiocruz).

Vista do Castelo de Manguinhos (Castelo Fiocruz).

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About the Author

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia. E-mail para contato: [email protected]