OAB, SINJORBA e deputados criticam prisão de jornalistas de VEJA por PM’s da Bahia; Policial que agride imprensa não passa de marginal fardado

Viatura da Polícia Militar da Bahia: equipe de VEJA foi detida durante investigação da morte de miliciano bolsonarista.
Viatura da Polícia Militar da Bahia: equipe de VEJA foi detida durante investigação da morte de miliciano bolsonarista.
Viatura da Polícia Militar da Bahia: equipe de VEJA foi detida durante investigação da morte de miliciano bolsonarista.
Viatura da Polícia Militar da Bahia: equipe de VEJA foi detida durante investigação da morte de miliciano bolsonarista.

A ação da Polícia Militar da Bahia que resultou na prisão dos jornalistas de VEJA Hugo Marques e Cristiano Mariz nesta sexta-feira (14/02/2020), foi repudiada por parlamentares e pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que a classificaram como um atentado à liberdade de imprensa.

Os repórteres estavam tentando localizar o fazendeiro Leandro Abreu Guimarães, testemunha-chave para esclarecer as circunstâncias da morte do ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, quando foram cercados por duas viaturas da PM. Em uma atitude violenta e arbitrária, os profissionais, mesmo depois de apresentarem suas credenciais, acabaram sendo detidos e levados na sequência ao distrito policial de Pojuca. A polícia apreendeu ali um gravador que continha várias entrevistas registradas durante a apuração do caso pelos repórteres. Vinte minutos depois, devolveu o equipamento e liberou os profissionais de VEJA.

“Inadmissível, arbitrária e abusiva a detenção de jornalistas da revista Veja pela Polícia Militar da Bahia”, disse o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz. “Deve receber repúdio de todos que defendem a liberdade de imprensa e de expressão”, acrescentou.

O PSOL publicou um post, questionando os motivos que levaram à detenção: “É preciso respostas urgentes: o que levou a Polícia da Bahia a deter dois jornalistas da VEJA que investigavam as circunstâncias do assassinato do miliciano Adriano da Nóbrega? O livre exercício do jornalismo é um dos pilares da democracia. A quem interessa esconder os fatos?”

A deputada Erika Kakay (PT-DF) foi na mesma linha: “Jornalistas da VEJA que investigam as circunstâncias da morte de Adriano da Nóbrega são detidos na Bahia. O que já cheirava queima de arquivo, agora, se configura em inaceitável ataque à liberdade de imprensa”.

A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) considerou a ação como uma “gravíssima violação da liberdade de imprensa”. “Mesmo identificados como jornalistas, os repórteres Hugo Marques e Cristiano Mariz foram detidos pela PM baiana”.

A deputada Maria do Rosário (PT-RS) também comentou sobre o caso. “Abordagem policial que leva repórteres para a delegacia e inicia com apreensão de gravador, não dá. Jornalistas buscam informações. Devem agir com responsabilidade de não interferirem em investigações, mas em geral vão contestar o poder público e seu trabalho precisa ser assegurado”, escreveu ela.

Já a deputada Sâmia Bonfim (PSOL-SP) escreveu: “O Brasil está se tornando um lugar cada vez mais perigoso para o livre exercício do jornalismo. Grave sintoma da nossa anormalidade democrática. O que levou a PM da Bahia a levar presos os repórteres da VEJA que investigavam a morte de Adriano da Nóbrega?”

A última edição de VEJA trouxe fotos do corpo do ex-capitão que reforçam suspeitas de que ele foi morto com tiros disparados à curta distância – o que contraria a versão oficial da polícia baiana. As imagens também sugerem que, antes de morrer, Adriano da Nóbrega pode ter sofrido violência. Hoje, a Secretaria da Segurança da Bahia divulgou uma nota sobre a reportagem. O comunicado reconhece que realmente havia lesões no corpo de Adriano da Nóbrega como mostram as fotos reveladas por VEJA.  “Sobre a lesão arredondada na face anterior do corpo de Adriano, trata-se de equimose, não uma queimadura. É uma lesão contundente, obviamente feita com algo arredondado, que pode ter sido ativamente ou passivamente comprimido contra o corpo”, diz o comunicado, sem detalhar a causa do ferimento. Especialistas consultados por VEJA apontam que a marca cilíndrica cravada no peito do ex-capitão morto pode ter sido provocada por um cano de uma arma longa e de grosso calibre, logo após um disparo, enquanto a vítima ainda estava viva.

Sinjorba repudia detenção de jornalistas em exercício profissional e exige retratação por parte do Estado

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (Sinjorba) manifesta veemente repúdio pela prisão, nesta sexta (14/02/2020), de dois jornalistas que apuravam as circunstâncias da morte do ex-capitão Adriano da Nóbrega, acusado de ser chefe da Milícia Escritório do Crime, após “confronto” com a Polícia Militar da Bahia, em Esplanada (BA), domingo passado.

Os dois jornalistas da revista Veja, Hugo Marques e Cristiano Mariz, estavam em pleno e livre exercício profissional e se identificaram quando abordados pela viatura da PM-BA. Mesmo assim, foram conduzidos a uma delegacia e tiveram o gravador de trabalho inspecionado, antes de sua devolução, em claro sinal de intimidação a consecução de suas tarefas.

A Constituição do Brasil garante a liberdade no trabalho da imprensa, preceito magno que vem sendo atropelado pelas autoridades de Segurança Pública. Vivemos um quadro de clara intimidação a quem tenta cumprir o papel social do jornalismo: informar os fatos, de forma transparente e responsável, aos cidadãos brasileiros.

Uma morte cujas circunstâncias e motivações são cercadas de dúvidas impõe que o trabalho da imprensa seja livre de sanções, para um melhor acompanhamento das investigações e divulgação dos fatos. O ocorrido com os dois jornalistas da Veja só ajuda a alimentar as suspeitas de que há mais a se informar do que foi até agora revelado.

O Sinjorba exige do Governo do Estado uma retratação e, sobretudo, uma mudança de postura dos agentes policiais para que cessem os abusos contra o trabalho da imprensa na Bahia

*Com informações da Revista Veja.

Sobre Carlos Augusto 9449 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).