Moro | Por Luiz Holanda

Sérgio Moro, ministro da Justiça e Segurança Pública do Governo Bolsonaro.Sérgio Moro, ministro da Justiça e Segurança Pública do Governo Bolsonaro.
Sérgio Moro, ministro da Justiça e Segurança Pública do Governo Bolsonaro.

Sérgio Moro, ministro da Justiça e Segurança Pública do Governo Bolsonaro.

No dia 28/10/2018, recém-eleito presidente da República, Bolsonaro afirmou que convidaria o então juiz federal, Sérgio Moro, para ser seu futuro ministro da Justiça. Disse, também, que o indicaria para uma vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal: “Pretendo convidá-lo para o Ministério da Justiça ou –seria no futuro – abrindo uma vaga no Supremo Tribunal Federal, na qual melhor ele achasse que poderia trabalhar pelo Brasil”.

Como era de se esperar, Moro aceitou o convite, pois pretendia, antes de ser indicado para o Supremo, implementar um programa de combate a corrupção e ao crime organizado, conforme já vinha fazendo na Operação Lava Jato. Naquela ocasião Bolsonaro deu uma entrevista dizendo que Moro teria liberdade total para trabalhar, e que qualquer um poderia ser investigado: “Conversamos por uns 40 minutos. Ele expôs, logicamente, o que ele pretende fazer caso seja ministro. Eu concordei 100% do que ele propôs, né? Ele queria liberdade total para combater a corrupção e o crime organizado e um ministério com poderes para tal. Eu até adiantei; quem sabe uma fração da Coaf do Ministério da Justiça? ”.

Mais adiante, Bolsonaro repetiu que Moro teria ampla liberdade para exercer o seu trabalho, e que órgãos de outras pastas iriam para o Ministério da Justiça, pois “ele tem que ter informações em tempo real do lado dele para tomar providências. Ele tem que ter todos os olhos do governo, uma representação lá dentro pelo menos, para que ele possa decidir de forma rápida o combate ao crime organizado”.

Até aí tudo bem. O problema é que Bolsonaro não esperava que o seu futuro ministro, além de carismático, se tornasse um líder capaz de atrair para si a mais alta aprovação já obtida por um ministro da Justiça. Realmente, Moro se tornou o ministro mais popular do governo Bolsonaro, conhecido por 95% dos brasileiros.

Aprovado por 53% da população, nada mais lógico do que atrair a ira do Planalto, que elaborou um plano para denegrir a reputação do ministro, contando, para tanto, com as informações deturpadas fornecidas mídia e pelo site Intercept Brasil. Daí a frigideira em que foi colocado. Há cinco meses, “a orquestra do capitão executava para Moro uma partitura com muitos tambores e poucos violinos”. Roberto Leonel, um pupilo do ministro, foi afastado do comando do velho Coaf, enquanto o diretor-geral da Polícia Federal, Mauricio Valeixo, continua ameaçado de demissão.

Em junho, um repórter perguntou a Bolsonaro se ele confiava em Moro. A resposta soou corrosiva: “Eu não sei das particularidades da vida do Moro. Eu não frequento a casa dele. Ele não frequenta a minha casa… por questão até de local onde moram nossas famílias. Mas, mesmo assim, meu pai dizia para mim: Confie 100% só em mim e minha mãe”.

Valeixo continua no comando da PF, enquanto Moro foi transferido da frigideira para a chapa de Bolsonaro na sucessão de 2022, ocupando, mesmo que informalmente, o posto de opção como futuro candidato a vice-presidente da República no lugar do general Mourão. Mas isso seria um perigo. Passado o tempo de deixar o governo, com certeza seria demitido, sem chance de se candidatar a qualquer cargo.

Munido de suas próprias pesquisas, Bolsonaro se deu conta de que o excesso de tambores e a escassez de violinos poderiam empurrar Moro não para a vice, mas para a cabeça de uma chapa rival. Ministro mais popular da Esplanada, Moro ficou bem-posto em uma das fotografias tiradas pelo Datafolha: é conhecido por 93% dos brasileiros e aprovado por 53%. Está 23 pontos percentuais acima de Bolsonaro, cuja taxa de aprovação é de 30%.

À medida em que o governo tenta fritar seu ministro, mais ele cresce. Segundo a consultoria Traumann, em uma análise sobre o potencial de prováveis candidatos à presidência do país nas eleições de 2022, Moro ganharia de todos, inclusive de Bolsonaro, no primeiro turno. Quando

resolveu abrir uma conta no Instagram, “a pedido de sua esposa”, Moro atingiu, em sete dias, um milhão de seguidores. A publicação relembra os primeiros passos do ministro no Twitter, que, por sinal, foi um sucesso.

O ciúme dos bolsonarista quase provocou uma ruptura entre Moro e Bolsonaro. O começo foi o afastamento do pessoal de confiança do ministro, a exemplo de Roberto Leonel, do comando do velho Coaf, além da ameaça de destituição do diretor-geral da Polícia Federal, o delegado Mauricio Valeixo. O próprio ministro já foi ameaçado de demissão várias vezes.

Ao ser indagado por um repórter se confiava em Moro, Bolsonaro respondeu: “Eu não sei das particularidades da vida do Moro. Eu não frequento a casa dele. Ele não frequenta a minha casa… por questão até de local onde moram nossas famílias. Mas, mesmo assim, meu pai dizia para mim: Confie 100% só em mim e minha mãe”.

Depois de muitas humilhações, a paciência e a habilidade de Moro fizeram com que ele atingisse um percentual de popularidade que pode fazê-lo sair cabeça de chapa para a presidência da República e ganhar no primeiro turno. Não é sem razão, pois, que, agora, todo mundo o quer no STF, pois, na medida em que mantém sua reputação e torna-se atacado pelo núcleo palaciano, passa a figurar como alternativa real de poder no plano presidencial. Partido ele já tem. Só depende de Bolsonaro.

*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.

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About the Author

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia. E-mail para contato: [email protected]