Alemanha reforça medidas de segurança contra extrema direita após atentado racista

Governo da Alemanha reforça segurança contra atos terroristas.
Governo da Alemanha reforça segurança contra atos terroristas.
Governo da Alemanha reforça segurança contra atos terroristas.
Governo da Alemanha reforça segurança contra atos terroristas.

Após o choque do ataque racista em Hanau e pressionado por todos os lados a reagir, o governo alemão anunciou nesta sexta-feira (21/02/2020) um fortalecimento da vigilância policial, especialmente em torno das mesquitas, diante de uma ameaça “muito elevada” da extrema direita.

As homenagens em memória das nove vítimas dos tiroteios em Hanau, organizadas na quinta-feira (20) à noite em cerca de 50 cidades alemãs, deram lugar a um debate sobre armas, proteção de minorias e o papel panfletário do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD).

O país registrou três ataques racistas e antissemitas em nove meses: do assassinato de um político pró-migrante até o massacre de Hanau, passando pelo ataque à sinagoga de Halle, em pleno Yom Kippur. Nesse contexto, também marcado pelo desmantelamento de grupos que estariam prontos a agir, “não podemos mais falar de atos individuais (…), mas de um problema político. É hora de encarar”, resumiu nesta sexta-feira o jornal “Tagesspiegel”.

“Bombas-relógio”

Diante deste “grande perigo para a democracia”, segundo a ministra da Justiça, Christine Lambrecht, o governo anunciou as novas medidas nesta sexta-feira. “Lugares sensíveis”, em particular os arredores de mesquitas, aeroportos e fronteiras, terão a segurança reforçada, informou o ministro do Interior, Horst Seehofer.

O governo de Angela Merkel já havia fortalecido significativamente seu arsenal legislativo e de segurança nos últimos meses, principalmente impondo novas obrigações às redes sociais para denunciar conteúdo de ódio, ou protegendo autoridades e ativistas. Berlim tem, no entanto, dificuldades para combater todas as ameaças, em particular as encarnadas por indivíduos solitários, desconhecidos da polícia e legalmente armados, que passam à ação repentinamente, como o assassino de Hanau.

Esses “lobos solitários” que estão se radicalizando na Internet são “bombas-relógio que devemos combater com todos os meios que o Estado constitucional nos oferece”, argumentou a ministra da Justiça.

“O que já é feito no campo do jihadismo” em termos de vigilância on-line, incluindo aplicativos criptografados, “também deve ser realizado no extremismo de direita”, defende Peter Neumann, especialista em terrorismo no King’s College de Londres no “Die Welt”.

O autor do ataque de Hanau, desconhecido da polícia, tinha um site pessoal que misturava teorias raciais e conteúdo de teor conspiratório. Esses “sinais” devem ser antecipados com mais eficácia no futuro, argumenta Neumann.

Agressividade

Outro aspecto da ameaça diz respeito a um possível controle mais rigoroso sobre a posse de armas. Cerca de 5,4 milhões de armas estão em circulação no país, segundo o “Bild”. O Ministério do Interior está particularmente preocupado com o fato de a extrema direita radical estar adquirindo cada vez mais armas de todos os tipos. No contexto de investigações de delitos e crimes atribuídos a extremistas de direita, a polícia apreendeu 1.091 armas em 2018, um número muito superior às 676 apreendidas um ano antes.

Membros da direita conservadora CDU pediram um reforço da legislação sobre armas, uma aposta alta em um país que gosta da caça e do tiro esportivo, disciplina praticada pelo assassino de Hanau. “As armas automáticas não podem mais ser mantidas nas casas de indivíduos, incluindo atiradores esportivos”, considerou o “Frankfurter Allgemeine Zeitung” em seu editorial.

Finalmente, o drama de Hanau tem uma dimensão política em um país marcado pelo crescimento, a partir de 2013, da sigla de extrema direita. O AfD entrou no Parlamento alemão há dois anos.

Abertamente xenófobo e com lideranças que criticam em voz alta o arrependimento alemão sobre o nazismo, esse partido deve ser colocado “sob a vigilância” dos serviços de Inteligência, afirma o secretário-geral do social-democrata SPD, Lars Klingbeil.

“Alguém atirou em Hanau, mas muitos forneceram-lhe munição, e o AfD certamente foi um deles”, denunciou na emissora pública ARD. “O AfD é responsável pela polarização (…) e pela agressividade no discurso político”, resumiu Oliver Decker, especialista em extrema direita da Universidade de Leipzig.

Guterres presta solidariedade à Alemanha após ataque que matou nove pessoas

Autoridades continuam investigando atentados na cidade de Hanau; atirador entrou em bares disparando a esmo; pelo menos cinco vítimas tinham cidadania turca; mídia local fala em crime xenófobo.
O secretário-geral das Nações Unidas disse ter ficado horrorizado com a notícia da morte de nove pessoas na cidade de Hanau, na Alemanha.

De acordo com agências de notícias, as mortes ocorreram quando um atirador entrou em dois bares da cidade, no estado de Hesse, disparando contra as pessoas que estavam nos locais.

AfD é acusada de insuflar o ódio e estimular atentados

Não demorou muito para representantes de partidos políticos alemães associarem o atentado ocorrido nesta quarta-feira (19/02) em Hanau à Alternativa para a Alemanha (AfD), apontando para semelhanças entre a visão de mundo expressada pelo atirador e declarações de membros da sigla populista de direita.

A presidente da União Democrata Cristã (CDU), Annegret Kramp-Karrenbauer, disse que o ataque mostra como é importante manter distância da AfD. “Não pode haver cooperação com um partido que tolera extremistas de direita, ou, eu digo claramente, nazistas, em suas fileiras.”

O secretário-geral do Partido Social-Democrata (SPD), Lars Klingbeil, chamou a AfD de “braço político da extrema direita” e disse que ela deve ser posta sob vigilância pelo serviço secreto interno, que monitora grupos ou pessoas que ofereçam riscos à democracia alemã. Para ele, “uma pessoa atirou em Hanau, mas muitas lhe deram munição, e isso definitivamente inclui a AfD”.

A AfD negou que tenha qualquer relação com o atentado ou com o atirador, que matou nove pessoas de origem estrangeira em dois bares de narguilé. O co-presidente da AfD, Jörg Meuthen, disse que “a instrumentalização política desse ataque terrível é um equívoco cínico” e que se trata da ação de um louco e não de terrorismo de direita ou de esquerda.

É verdade que não são conhecidas ligações entre o atirador de Hanau e a AfD, mas analistas políticos veem uma clara relação entre o atentado e teses defendidas por membros do partido. Em entrevista à emissora alemã ARD, o pesquisador político Carsten Koschmieder afirmou que a legenda populista de direita tem responsabilidade no atentado.

“É evidente que não se pode falar de culpa no sentido jurídico. Mas está claro que a AfD e aquilo que alguns políticos do partido dizem contribui para que crimes como esse ocorram”, afirmou.

Um exemplo são posições do líder da AfD na Turíngia, Björn Höcke. Em livro de sua autoria, ele encampou ideias da ideologia de extrema direita, como a chamada “grande troca populacional”, uma teoria da conspiração que sustenta que governos europeus, com a cooperação das “elites”, conspiram para trocar a população branca por imigrantes de países árabes, muçumanos ou africanos.

O co-líder da bancada do partido no Bundestag, Alexander Gauland, também já fez uso da expressão. Ele declarou em 2017 que a “troca populacional” está “a todo vapor” na Alemanha ao comentar a possibilidade de refugiados sírios levarem seus familiares para o país.

Essa teoria se reflete também no manifesto deixado pelo atirador de Hanau, comenta Koschmieder. “Ele escreveu que o povo alemão está decaindo porque há muitas pessoas com passaporte alemão que nem mesmo são etnicamente alemães. É exatamente o discurso que se ouve na AfD”, observou.

Nas redes sociais, vários usuários comentaram que postagens da AfD costumam associar os bares de narguilé à criminalidade.

Em seu livro, Höcke também defende que imigrantes e refugiados que vivem na Alemanha devem ser expulsos do país, e que “não será sempre possível fazer isso sem a força e sem criar cenas que não são bonitas”.

“No que isso acaba resultando? Sempre numa expulsão violenta, sempre naquilo que vimos na Iugoslávia no início dos anos 1990 e que ficou conhecido como a limpeza étnica”, disse o cientista político Claus Leggewie em entrevista à ARD em agosto de 2019, ao comentar o livro de Höcke no contexto dos atentados de Christchurch, na Nova Zelândia.

*Com informações da AFP, RFI, ONU News e do DW.

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