Jornalista Thaís Oyama revela no livro ‘Tormenta – O Governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos’ a paranoia e baixa cognição promovida pelo extremista de direita no comando do Brasil

Na obra 'Tormenta', a jornalista Thaís Oyama mostra como Jair Bolsonaro chegou ao Palácio do Planalto e, principalmente, como ele conduziu o governo federal.Em 'Tormenta - O Governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos', a jornalista Thaís Oyama reúne as principais decisões da administração, as relações com o Congresso Nacional, as participações em fóruns internacionais e as crises mais graves e produz diagnóstico implacável do primeiro ano de Bolsonaro no poder. 
Capa do livro 'Tormenta - O Governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos', obra de autoria Thaís Oyama.

Em ‘Tormenta – O Governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos’, a jornalista Thaís Oyama reúne as principais decisões da administração, as relações com o Congresso Nacional, as participações em fóruns internacionais e as crises mais graves e produz diagnóstico implacável do primeiro ano de Bolsonaro no poder.

Paranoia e baixa cognição no comando do Brasil são abordados no livro ‘Tormenta – O Governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos’ , obra de autoria da jornalista Naief Haddad, que analisa e relata aspecto do primeiro ano do governo do extremista de direita Jair Bolsonaro.

De uma das eleições presidenciais mais polarizadas da história republicana, sai vitorioso Jair Messias Bolsonaro, ex-capitão do Exército que chegou a defender publicamente a tortura, autor de não mais que dois projetos de lei aprovados ao longo de 27 anos de mandato como deputado e merecedor de apenas três dos 512 votos de seus pares na última vez que tentou se eleger presidente da Casa, em 2017.

A partir de um rigoroso trabalho de reportagem, Tormenta revela como opera o governo do 38º presidente da República do Brasil, que forças se digladiam entre as paredes do Palácio do Planalto e de que forma as crenças e os temores ― reais e imaginários ― de Bolsonaro e de seus filhos influenciam os rumos do país.

O livro traz detalhes surpreendentes sobre a crise interna de Jair Bolsonaro, revelando segredos dos generais que o cercam no Palácio, intrigas que corroem o primeiro escalão do poder e bastidores que não chegaram aos jornais.

Em 272, a jornalista apresenta Jair Bolsonaro como um homem público extremamente desconfiado, que cultiva muitas suspeitas, inclusive, em relação àqueles que o cercam.

Mais do que mostrar as peculiaridades e a dinâmica do governo do extremista de direita ― e de situar no calendário os atribulados primeiros 365 dias da gestão ―, a narrativa de Thaís Oyama ajuda o leitor a compreender o ano de 2019 e a vislumbrar o que pode estar por vir.

Trecho do livro sobre ‘O capitão e os generais’

Jair Bolsonaro subiu ao palco de Davos com o cenho franzido. Era o primeiro mandatário sul-americano que abria o Fórum Econômico Mundial. O evento, no dia 22 de janeiro, reuniu na cidade suíça setenta chefes de Estado e de governo e 3500 participantes, entre políticos tarimbados e membros da elite financeira global. De sobretudo de lã, apesar do ambiente superaquecido, o presidente brasileiro começou seu discurso com um improviso: Confesso que estou emocionado e me sinto muito honrado em me dirigir a uma plateia tão seleta. […] O Brasil precisa de vocês, e vocês, com toda certeza em parte, precisam do nosso querido Brasil. Boa tarde a todos”. O tique de apoiar-se de forma alternada numa e noutra perna denunciava seu nervosismo.

No fórum onde se constroem reputações, no ano anterior Emmanuel Macron havia falado por 45 minutos; Donald Trump, por 25 minutos; Temer, por vinte minutos. O presidente brasileiro preferiu adotar o ritmo do Twitter: seu discurso durou pouco mais de seis minutos. Em sua fala, Bolsonaro prometeu arejar o ambiente de negócios no Brasil, além de “resgatar nossos valores” e “defender a família”. Ainda ressaltou as “belezas naturais” do país e convidou os presentes a visitá-lo. Não entusiasmou — suas palavras foram consideradas anticlimáticas e provincianas. A entrevista com Klaus Schwab, na sequência, tampouco conseguiu levantar a plateia. Bolsonaro respondeu às perguntas do fundador e presidente do fórum com frases monossilábicas, a ponto de o anfitrião ter de encerrar em quinze minutos um evento programado para durar meia hora.

Naquela noite, o jantar tradicionalmente oferecido por Schwab homenageava o presidente brasileiro. Compareceram ao evento oitenta pessoas, entre chefes de Estado e CEOs das maiores empresas do mundo. O ex-secretário de Estado americano John Kerry levou dois seguranças; o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, chegou sozinho. Assim, chamou a atenção o tamanho do entourage de Bolsonaro na entrada do restaurante do hotel Morosani Schweizerhof. Além dos ministros Paulo Guedes e Ernesto Araújo, acompanhavam o presidente seu filho Eduardo Bolsonaro; o assessor da Presidência para assuntos internacionais, Filipe Martins; o chefe do cerimonial do Planalto, Carlos Alberto Franco França; seis seguranças; um ajudante de ordens e até o médico do Planalto, Ricardo Peixoto Camarinha.

Na tentativa de furar a barreira, o médico levantava o dedo indicador e dizia: “I am the doctor!”. Teve de ficar do lado de fora do restaurante, assim como Eduardo Bolsonaro — os convites eram restritos. Os convidados foram acomodados em pequenas mesas redondas. Na de Bolsonaro, sentaram-se, nesta ordem: o ministro da Economia, Paulo Guedes; o anfitrião, Klaus Schwab; o presidente brasileiro; e Tim Cook, CEO da Apple. O assessor Filipe Martins, que fazia as vezes de tradutor, ficou entre o empresário americano e Bolsonaro, que não fala inglês. Schwab tentou puxar conversa com o presidente, mas teve mais sucesso com Guedes. Durante o jantar, o ex-capitão foi flagrado diversas vezes olhando para a frente, talheres na mão, enquanto os demais conversavam. No mesmo dia, mais cedo, ele havia sido fotografado almoçando com sua equipe no self-service de um supermercado popular da cidade. Parecia bem mais à vontade.

Antes da viagem para Davos, os primeiros dias do governo já haviam sido marcados por tropeços, recuos e alguns desencontros do presidente com a economia. Só no dia 4 foram três de uma vez. Em uma entrevista concedida de improviso na Base Aérea de Brasília, Bolsonaro disse que o governo poderia aumentar o IOF para compensar a prorrogação de incentivos fiscais nas regiões Norte e Nordeste, e afirmou que o ministro Paulo Guedes anunciaria a possibilidade de reduzir o teto da tabela do Imposto de Renda de 27,5% para 25%. As declarações repercutiram de imediato. Horas depois, porém, o secretário especial da Receita Federal, Marcos Cintra, questionado, desmentiu o que dizia respeito ao ir. “[Bolsonaro] deve ter feito alguma confusão. Não vai haver alteração no Imposto de Renda.”

No final da tarde, Onyx Lorenzoni convocou uma coletiva para negar também o aumento do IOF. “Ele [o presidente] se equivocou”, afirmou o ministro-chefe da Casa Civil. Na mesma entrevista que deu na Base Aérea, Bolsonaro colocou em dúvida um ponto sobre o acordo de fusão entre a Boeing e a Embraer, que naquele momento aguardava o aval do governo. À tarde, as ações da empresa nacional caíram 5%.

Mas nem a performance em Davos nem as evidências de que o presidente estava pouco familiarizado com os planos de sua equipe econômica foram suficientes para derrubar o otimismo entre os apoiadores do governo naquele primeiro mês. Havia sinais de que as coisas poderiam mudar para melhor. Um deles era Bolsonaro ter cumprido a promessa de campanha de não fatiar seu ministério entre partidos em troca de apoio no Congresso, prática que vigorou do governo Sarney ao governo Temer, passando pelos de Lula e Dilma. Dos 22 nomes escolhidos para compor o primeiro escalão, três estavam com o ex-capitão desde o início da campanha e já tinham vagas garantidas naquela época — não necessariamente as que acabaram por ocupar.

Augusto Heleno, por exemplo, iria para a Defesa, mas optou pela Segurança Institucional, um dos ministérios “da casa” — sediado dentro do Palácio do Planalto, o general estaria mais próximo do presidente. O deputado Onyx Lorenzoni ganhou a chefia da Casa Civil. Ex-obscuro parlamentar do DEM, ele se destacou em 2016 ao relatar, e defender, a transformação em lei do projeto das 10 Medidas Contra a Corrupção apresentado pelo procurador Deltan Dallagnol, do Ministério Público Federal.

Um ano antes, meia dúzia de parlamentares passou a se reunir em sua casa para pôr em pé o improvável projeto de fazer Jair Bolsonaro presidente. Alberto Fraga, Capitão Augusto e Major Olimpio, os precursores da turma, vinham de partidos diferentes, mas tinham em comum a bandeira do endurecimento do combate à criminalidade. O advogado Gustavo Bebianno, também aliado de primeira hora, ficou com a poderosa Secretaria-Geral da Presidência. Paulo Guedes já estava anunciado como titular da Economia desde novembro de 2017; o juiz Sergio Moro, estrela mais reluzente daquela constelação, anunciou que aceitara o convite do ex-capitão para ser seu ministro da Justiça quatro dias depois da vitória nas urnas.

Os demais ministros tiveram padrinhos diversos — entre os quais o improviso e o acaso. Marcos Pontes, da pasta de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, foi escolha pessoal de Bolsonaro, que nunca escondeu a admiração pelo “colega da Aeronáutica, colega astronauta e motivo de orgulho para o Brasil, que também esteve na Nasa”.

Tarcísio Gomes de Freitas praticamente “caiu do céu”, nas palavras de um ex-aliado do presidente. Desde janeiro de 2018, um grupo liderado pelos generais Oswaldo Ferreira e Augusto Heleno se reunia no apartamento de Ferreira, na Asa Norte em Brasília, para definir projetos para um futuro governo Bolsonaro. O grupo foi crescendo ao longo da campanha e absorvendo voluntários. Tarcísio Freitas, engenheiro e capitão do Exército, foi um deles. Conta o general Ferreira: “Ele foi lá e apresentou seu currículo de forma espontânea. Logo vimos que era alguém muito capaz”, recorda-se.

Quando o general, por motivos familiares, recusou o convite de Bolsonaro para assumir a pasta da Infraestrutura, lembrou-se logo de Freitas. Foi apoiado por Gustavo Bebianno, que havia pensado em aproveitar o engenheiro para cuidar do PPI — o Programa de Parcerias de Investimentos, tido como fundamental para resolver os gargalos estruturais do país –, mas abriu mão do nome ao saber que o programa ficaria sob responsabilidade de outra pasta.

Se o improviso beneficiou Freitas, hoje das poucas unanimidades do governo, o acaso fez sua parte na escalação de Ernesto Araújo. O diplomata não seria ministro das Relações Exteriores de Bolsonaro se um dia não tivesse escrito o artigo “Trump e o Ocidente”, publicado nos Cadernos de Política Exterior do Itamaraty. No texto, Araújo, então diretor do Departamento dos EUA, Canadá e Assuntos Interamericanos do Ministério das Relações Exteriores, sustentava que o presidente Donald Trump propunha uma “visão do Ocidente não baseada no capitalismo e na democracia liberal, mas na recuperação do passado simbólico […] das nações ocidentais”. No centro dessa visão, estaria “não uma doutrina econômica e política, mas o anseio por Deus, o Deus que age na história”.

Araújo ainda atacava o “marxismo cultural globalista”, que, segundo ele, desejava “um mundo de pessoas ‘de gênero fluido’ e cosmopolitas sem pátria”. O artigo chamou a atenção do jovem Filipe Martins, olavista formado em relações internacionais pela Universidade de Brasília e amigo de Eduardo Bolsonaro.

Ao distribuir o texto num grupo de WhatsApp que incluía o presidente, Martins defendeu, e emplacou, o nome de Araújo para chanceler. Tereza Cristina (Agricultura) e Luiz Henrique Mandetta (Saúde) foram indicações de Onyx Lorenzoni, em costura com as frentes parlamentares. Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) teve mais de um patrono. Ainda na transição, o hoje deputado Julian Lemos, naquele tempo ligado ao grupo Direita Paraíba, sugeriu para a pasta o nome da pastora evangélica — ele a conhecera em 2015 em João Pessoa, quando ela era assessora do senador do PR — atual Partido Liberal, PL— Magno Malta (Malta não se reelegeu em 2018 e atualmente se dedica à carreira de cantor gospel).

A favor da candidata, Lemos argumentou junto a Bolsonaro que “Damares, além de boa, tem uma filha índia”. No início dos anos 2000, a pastora adotou informalmente uma menina, hoje com vinte anos, da tribo kamayurá. Flávio Bolsonaro já havia endossado o nome de Damares, mas, depois da vitória do ex-capitão, a pastora ganhou outro apoio importante no clã presidencial: a primeira-dama, a também evangélica Michelle, que a conhecera quando ambas eram funcionárias do Congresso. Michelle trabalhou na Câmara entre 2006 e 2008, período em que ocupou o cargo de secretária parlamentar nos gabinetes dos ex-deputados Vanderlei Assis (PP), Dr. Ubiali (PSB) e Jair Bolsonaro, com quem se casou em novembro de 2007.

Para Damares, portanto, padrinhos não faltaram. Já com o teólogo Ricardo Vélez Rodríguez deu-se o contrário. Ele assumiu o Ministério da Educação como afilhado político do professor de filosofia on-line Olavo de Carvalho e saiu renegado até por seu protetor. O presidente o demitiu em abril, depois de uma sucessão de trapalhadas que incluiu o pedido para que diretores de escolas filmassem os alunos cantando o Hino Nacional e recitando o lema de campanha de Bolsonaro — “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Na ocasião, Olavo de Carvalho escreveu no Twitter: “Indiquei o professor Vélez para o ministério, mas ele nunca me pediu um conselho. Não tenho nada a ver com qualquer decisão dele”. E poucos dias antes da degola do ex-apaniguado, postou: “Não vou lamentar se o botarem para fora”.

Com o ministério montado, o governo se preparava para dar a largada. Os dias em janeiro eram de esperança, apesar dos solavancos. O círculo empresarial, sobretudo, se convencera de que a condução da economia estava em boas mãos e que o presidente iria dedicar-se à pauta de costumes que norteara sua campanha. Estava de bom tamanho. Mesmo porque os empresários nunca tiveram grandes ilusões quanto àquelas eleições. Haviam perdido a fé em Alckmin, tinham horror ao candidato de Lula e não confiavam em Ciro Gomes. Mas não escolheram Bolsonaro — era o que havia para
o momento.

O mesmo raciocínio ocorreu aos militares. “General Villas Bôas, o que já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui.” Jair Bolsonaro assumira havia menos de 24 horas a Presidência da República quando fez essa declaração enigmática. Discursava no Clube do Exército, apinhado de gente. Num sinal do prestígio e do poder que os militares viriam a ter no governo a partir daquele momento, a cerimônia de posse do novo ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, foi a mais concorrida daquela semana em Brasília. O comandante do Exército ouviu o discurso sentado em uma cadeira de rodas. A máscara de respiração artificial deixava seu nariz um pouco amassado.

*Com informações da Folha de S.Paulo, UOL e Amazon.

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About the Author

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).