Mestre Irineu e o episódio do atentado à sua sagrada vida. Perseguição ao CRF – Círculo de Regeneração e Fé | Por Juarez Duarte Bomfim

Mestre Irineu (foto de Vieira de Queirós, 1968)Mestre Irineu (foto de Vieira de Queirós, 1968)
Mestre Irineu (foto de Vieira de Queirós, 1968)

Mestre Irineu (foto de Vieira de Queirós, 1968)

Irineu Serra mergulha no caudaloso e barrento Rio Acre, com largas braçadas tenta alcançar a outra margem, território brasileiro — e fugir dos seus algozes.

Uma saraivada de balas é atirada pelos soldados bolivianos, tentando atingi-lo. Irineu mergulha, para se livrar do ataque fatal. Imerso sob aquelas águas barrentas, busca desviar-se da mira dos atiradores.

As balas zumbem nos seus ouvidos, ameaçadoras, em torno do seu corpo submerso. Até que, um traiçoeiro projétil o atinge entre os dedos da mão direita, próximo ao dedo mínimo — que vai lhe deixar uma marca física permanente.

Atentado à vida do jovem Irineu Serra

É vivo na memória dos contemporâneos do Mestre Irineu Serra o episódio do violento confronto dele e seus companheiros com a polícia boliviana de Cobija, cidade fronteiriça a Brasileia, separadas pelo Rio Acre. Eu mesmo já ouvi o causo através do depoimento de diversos amigos do Norte: Luiz Mendes, Daniel Serra, Saturnino Brito, Tufi Amim, Ladislau Nogueira, João Gomes, Paulo Serra e outros.

Os depoentes não costumam falar sobre a motivação e origem do conflito, e, como em outros episódios da vida do Velho Mestre, as informações são fragmentadas, sem uma datação precisa.

Porém, se acredita que esse confronto ainda tão vívido na memória coletiva, aconteceu no primeiro período da vida do jovem Irineu no território acreano, quando ele residia e trabalhava na região da tríplice fronteira — Brasil, Peru e Bolívia.

Na memória oral, o que se conta é que o jovem Irineu Serra foi atacado e perseguido por soldados bolivianos, não especificando a quantidade deles. Aquele negro alto, forte, em sua defesa, começou a dar uma peia (surra) nos soldados bolivianos — a estatura média e compleição física desses soldados deveria ser de homens pequenos, comparativamente. Porém, eram muitos os que lhe atacavam.

Nesses depoimentos não é contado que existiam companheiros e amigos do jovem Irineu naquela “batalha”, ao seu lado. Todavia, é como se estivesse explícito.

A certa altura da pugna, Irineu levanta do chão um desses soldados, o segurando pelos pés, e faz do agressor uma espécie de bastão, um porrete, com o qual batia nos demais, os derrubando. Em grande quantidade, furiosamente os soldados avançavam, o fustigando, apesar da peia que sofriam.

É aí que os soldados sacam as suas armas de fogo…

Irineu arremessa o “homem-porrete” sobre os demais soldados bolivianos, e resolve bater em retirada. Foge.

Mergulha no caudaloso e barrento Rio Acre e, com largas braçadas tenta alcançar a outra margem do rio, território brasileiro.

Uma saraivada de balas é atirada pelos soldados bolivianos, tentando atingi-lo. Irineu mergulha, para se livrar do ataque letal. Imerso sob aquela água barrenta, busca fugir da mira dos seus algozes.

As balas zumbem nos seus ouvidos, ameaçadoras, em torno do seu corpo submerso. Até que, uma traiçoeira bala o atinge entre os dedos da mão direita, próximo ao dedo mínimo — que vai lhe deixar uma marca física permanente, cicatriz que chegou a ser registrada em sua Carteira de Identidade (ver imagem).

Ouvindo a narrativa da peleja do jovem Irineu com os soldados bolivianos, eu não tinha noção da extensão e gravidade do fato. Luiz Mendes do Nascimento, sim. Pois o ouvira da voz do próprio Mestre. E lhe perguntara:

— Padrinho Irineu, o Senhor matou algum soldado boliviano?

O saudoso amigo Luiz Mendes conta que o Velho Mestre lhe respondia… rindo.

Os detalhes deste marcante episódio da vida de Raimundo Irineu Serra estavam evanescidos pela poeira do tempo e falta de informações maiores, por parte dos antigos companheiros do Mestre Irineu, ainda encarnados.

Até que, em suas minuciosas investigações, o cineasta e pesquisador da ayahuasca, Rune Tavares, se deparou com 2 exemplares do semanário xapuriense Commercio do Acre, de 20 e 27 de agosto de 1916, que são verdadeiras relíquias históricas, por narrar com riqueza de detalhes esses surpreendentes acontecimentos, até então transmitidos oralmente, de geração a geração.

Todavia, não nos apressemos. Para compreender a causa e motivações desse violento conflito, vamos fazer uma retrospectiva da chegada do jovem Irineu Serra ao Acre, a sua vinculação com o CRF – Círculo de Regeneração e Fé, e as perseguições perpetradas aos trabalhadores negros e migrantes pobres, pela classe dominante e aparelho de Estado de 2 países: Brasil e Bolívia.

Carteira de Identidade do Mestre Irineu, com o registro de "uma cicatriz de golpe na mão direita" (Fonte: Moreira e MacRae, 2011)

Carteira de Identidade do Mestre Irineu, com o registro de “uma cicatriz de golpe na mão direita” (Fonte: Moreira e MacRae, 2011)

Beirando a terra, beirando o mar

Seguindo a sua destinação espiritual, o jovem Raimundo Irineu Serra (15.12.1892 – 06.07.1971) alistou-se em um navio para ir a Amazônia. Subiu na embarcação no Porto da Praia Grande, em São Luiz do Maranhão e, beirando a terra, beirando o mar, numa longuíssima viagem — e extensas paradas — o navio margeou a costa brasileira até Belém, navegou subindo o Rio Amazonas até Manaus, de Manaus navegou até o encontro com o Rio Purus, subiu o Purus até a Boca do Acre, continuou a epopeia e chegou a Xapuri, município do então Território Federal do Acre. Corria o ano de 1912.

Irineu foi para o Acre atraído pela extração do látex da seringueira, no período denominado de “Ciclo da Borracha”, em que se observou um intenso fluxo migratório do nordestino assolado pela seca, em direção aos seringais amazônicos. Logo começou a trabalhar numa “colocação” extraindo o cobiçado látex, no ofício de seringueiro.

Lá, na imensidão da Floresta, Irineu reencontrou os seus primos e conterrâneos, Antônio e André Costa e, juntos, se iniciaram nos mistérios da bebida indígena Ayahuasca – a Luz da Floresta.

De quando o Acre se tornou Brasil

A vitória da Revolução Acreana tornou as terras do Acre brasileiras, conquistadas à Bolívia. A pacificação foi realizada em 1903, com a assinatura do Tratado de Petrópolis — negociado com habilidade diplomática pelo Barão de Rio Branco. Assim, o Acre se tornou território nacional.

Foi criado pelo Governo Federal o Departamento do Alto Acre (1903) e a Vila de Xapuri é fundada no ano seguinte (1904), como sede político-administrativa do território recém-conquistado. Em 1913, Xapuri é elevada à categoria de município.

Daí que a Cidade de Xapuri se tornou o centro da vida política, social, cultural e econômica da região, isolada geograficamente na imensidão da floresta amazônica.  A pujante atividade de extração do látex (Ciclo da Borracha) fez da localidade um importante entreposto comercial, que atraiu não apenas migrantes brasileiros nordestinos, mas também a sírios, libaneses, turcos, portugueses e italianos.

Os “representantes do povo” acreano, isto é, os governantes, eram pessoas vindas de outros Estados da Federação, geralmente militares a serviço do Governo Federal.

A sociedade xapuriense da época era estratificada entre a elite — seringalistas, comerciantes, políticos e oficiais militares — e os seringueiros. As relações de trabalho eram servis, análogas à escravidão. Aos seringueiros era inclusive proibido o desenvolvimento da agricultura, para manter a dependência dos trabalhadores com o sistema de endividamento nos “barracões” dos seringalistas.

Os indígenas acreanos, proprietários originários da floresta, foram tangidos violentamente de seu habitat, em um processo de tomada de terras denominado de “correrias”. Os índios tiveram suas terras roubadas pelo rico seringalista, foram cruelmente assassinados, e os sobreviventes, escravizados para servir ao novo senhor das terras — triste realidade que avançou por muitas décadas do Século XX.

Meios de transporte e fundação de Brasileia 

Os navios a vapor eram o meio de transporte que ligavam esta remota região, com o resto do mundo. Na “era de ouro” da economia extrativista do látex, Xapuri recebia companhias de teatro nacionais e internacionais para se apresentarem no teatro local, onde artistas de nomes estrangeiros representavam peças teatrais e concertos, para uma plateia que vestia roupas de moda, francesa.

Apesar da ostentação de luxo e cultura nos palcos teatrais, as condições de vida urbana eram sofríveis: ruas sem calçadas e sem escoamento; precário serviço de iluminação à base de lampiões a querosene; falta de escolas e hospitais; ausência de meios de comunicação e transportes — apenas o uso de canoas a remo e carroças puxadas a boi.

Vizinha a Xapuri foi fundada a Cidade de Brasileia, em 1910, fronteiriça a Ciudad de Cobija, sede do governo do Território Nacional de Colônias da Bolívia, separadas geograficamente pelo Rio Acre. Brasiléia se originou de uma pequena faixa de terra, a partir do antigo Seringal Carmen. Sua formação social era semelhante à Xapuri, só que em menor escala.

É possível que em 1916 ainda existissem tensões na fronteira dos 2 países, principalmente por questões de ordem econômica, pois o cobiçado látex extraído da seringueira, continuava a ser um produto muito valorizado no comércio internacional.

Brasileia será palco dos tristes acontecimentos narrados neste breve artigo.

Foto antiga de Brasileia - Acre

Foto antiga de Brasileia – Acre

O CECP – Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento

É no ambiente social descrito acima que Irineu Serra, os irmãos Costa e um grupo de companheiros de lida se iniciam em uma sociedade ocultista, que ganhava adeptos em todos os rincões desse imenso Brasil: o CECP – Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento.

O Círculo Esotérico foi fundado em 1909 e se apresenta como uma entidade altruísta, sem fins lucrativos. Pessoas de todas as religiões, filosofias, credos, sexos, raças, classes sociais e nacionalidades podem nele se filiar.

O CECP se expandiu vertiginosamente. Já em 1910 são criados os tattwas — centros de irradiação mental, células do Círculo — em diferentes localidades.

Desde o seu início, o CECP tem forte relação com os livros e a leitura. Daí que o filiado necessita ser alfabetizado, ter acesso a um bem que, no Brasil, é de poucos — o livro — e precisa ter gosto pela leitura. Este é o perfil de indivíduos das classes médias urbanas.

Porém, surpreende… e muito! se saber da quantidade de filiações ao Círculo Esotérico nos rincões profundos do Brasil, tanto no interior do Nordeste brasileiro como na longínqua tríplice fronteira com a Bolívia e o Peru, nas localidades de Brasileia e Xapuri (Acre) nos anos 1910.

Nesta região de vastos seringais, onde o jovem Raimundo Irineu Serra bebeu ayahuasca pela primeira vez (1912 ou 1914), organizou-se um Tattwa, o Círculo de Regeneração e Fé (CRF), e os participantes não lembravam em nada o perfil do esoterista urbano, classe média, letrado, pois esta organização possivelmente comportava entre seus participantes uma maioria negra — a começar do presidente, Antônio Raimundo Costa — exercendo as humildes profissões de seringueiros, caçadores, agricultores e trabalhadores braçais semialfabetizados.

O CRF parece ter funcionado de 1916 a 1943 — talvez com interrupção de atividades entre 1926 e 1936.

O Círculo de Regeneração e Fé – CRF

O Círculo de Regeneração e Fé (CRF) foi fundado em 1916, com o lema de “Harmonia, Amor e Verdade”. O grau de formalismo e institucionalização deste centro espiritualista, no coração da floresta amazônica, deveria ser tênue, diminuto. Provavelmente o próprio CECP estivesse ainda em fase de institucionalização. Todavia, pode-se considerar, sem dúvidas, o CRF como um Tattwa, isto é, uma célula do Círculo Esotérico.

Moreira e MacRae (2011) fazem uma detalhada descrição das atividades do CRF e utilizaremos destas informações, a seguir. Esses autores discorrem sobre a composição dos seus membros, que contava com o presidente, Antônio Raimundo Costa, seu irmão André Avelino Costa e o jovem Raimundo Irineu Serra, entre outros maranhenses nas suas fileiras. Cabe destacar que das levas de nordestinos tangidos pela seca e atraídos por promessas de um eldorado do látex, os maiores contingentes migraram do Ceará e Maranhão.

Nas reuniões do CRF se bebia ayahuasca. Dava-se início neste período — primeira década do Século XX — um hábito da população migrante e cabocla, envolvida na atividade da economia do látex, que iria se caracterizar como típica das comunidades rurais do Acre e regiões fronteiriças da Bolívia e Peru: “beber cipó”, isto é, grupos de homens (e raras mulheres) que se reuniam à noite, após a labuta, para comungar daquela bebida originária da Amazônia Ocidental.

Sobre o funcionamento do CECP e o Tattwa CRF – Círculo de Regeneração e Fé, escrevi o artigo “A Doutrina do Daime e o Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento” ( Ver

http://www.jornalgrandebahia.com.br/2015/10/a-doutrina-do-daime-e-o-circulo-esoterico-da-comunhao-do-pensamento/).

Perseguição policial ao CRF – Círculo de Regeneração e Fé

Durante o seu funcionamento, o Tattwa CRF sofreu grande perseguição policial, e isso exigia que se tomassem medidas de precaução, como variar os locais de culto, inclusive fazendo reuniões do outro lado da fronteira, na Bolívia. Assim, a organização e seus membros eram perseguidos tanto pela polícia brasileira como pela polícia boliviana.

Existia uma legislação oficial em curso, pós-abolicionista (de 1890), que criminalizava o que se considerava “feitiçaria”: a prática ilegal da medicina, a magia e proibia o curandeirismo e o uso de “substâncias venenosas” (MacRae, 1992). Estes são mecanismos institucionais de estigmatização e perseguição das comunidades negras e indígenas brasileiras.

Daí que, por muito tempo, as reuniões do CRF eram itinerantes, para evitar a perseguição policial. Muitas vezes, eram realizadas em clareiras, casas de amigos seringueiros, ou outros lugares que proporcionassem certo acobertamento. Moreira e MacRae (2011) levantaram que existem atas do CRF com registro de sessões realizadas nos seringais Marapani (Bolívia), Porvenir (Bolívia), Longa Vida (Brasil), Lago Valencia (Peru), Maldonado (Peru), Novo Plano (Brasil), assim como na sede em Brasileia.

Esta era a maneira daquela agremiação composta por negros e mestiços, trabalhadores rurais, se defenderem e driblarem o poder controlador e repressivo do Estado, realizando suas atividades em um vasto e de difícil acesso território.

Não se tinham detalhes ou maiores informações sobre as perseguições e repressão sofrida pelo CRF na tríplice fronteira — Brasil, Peru e Bolívia — antes de tomarmos contato com o rico e interessante material historiográfico publicado no jornal Commercio do Acre, edições de 20 e 27 de agosto de 1916 (ver imagem).

O semanário acreano havia publicado em suas páginas o resultado da extensão da tragédia, ocorrida nas ruas de Cobija, região portuária, no 14 de agosto de 1916: “saíram feridas levemente algumas praças, gravemente duas e mortalmente duas, todas por arma branca” — todos soldados bolivianos; foram 15 os brasileiros envolvidos no conflito, 6 deles feridos na contenda, alguns gravemente.

A fundação de jornais em Xapuri e o Commercio do Acre

Antes de serem fundados os primeiros jornais em Xapuri, o meio de comunicação eram as cartas, bilhetes ou recados confiados aos comandantes dos navios cargueiros, aos regatões, comboeiros ou aos membros da antiga Guarda Nacional.

Os jornais, quando surgem, são de acesso somente àquelas pessoas que formavam as elites, fossem de natureza econômica, política ou cultural. Os redatores e colaboradores quando não eram militares, eram advogados, o juiz de Direito, o padre ou prósperos comerciantes.

Em 11 de junho de 1915 foi fundado o semanário Commercio do Acre, que circulou até 1922, e logo se tornou o representante cultural da sociedade acreana da época e, como está expresso no próprio título, o jornal era mantido pelos comerciantes locais.

A “linha editorial” explora os problemas diários, informando, denunciando, e dando sugestões para solucioná-los, principalmente os que diziam respeito à crise da economia extrativista que já se iniciara.

A comunicação veiculada atende à ideologia dos que estão na parte superior da pirâmide social, formada pelos donos de seringais, das casas aviadoras… os financiadores do jornal.

Notícias comuns de brigas entre seringueiros alcoolizados, que ocorriam geralmente aos domingos, quando eles iam ao barracão se “aviarem” e, logo depois, se embriagavam e promoviam arruaças, não eram sequer dignas de registro — excepcionalmente o jornal destaca o evento de 14 de agosto de 1916.

Foto antiga do porto de Cobija - Bolívia

Foto antiga do porto de Cobija – Bolívia

Foto antiga do porto de Cobija - Bolívia

Foto antiga do porto de Cobija – Bolívia

Conflito violento de membros do CRF com a polícia da Bolívia

A edição do Commercio do Acre, de 27 de agosto de 1916 (ver imagem) publicou as consequências drásticas do conflito entre a guarnição boliviana e trabalhadores brasileiros, ocorrida 2 semanas antes, em 14 de agosto, incluindo 2 óbitos:

“Saíram feridas levemente algumas praças, gravemente duas e mortalmente duas, todas por arma branca” — soldados bolivianos; dos de Brazilea (Brasileia) o periódico contou 15 pessoas envolvidas na batalha campal. Os brasileiros feridos:

– Antônio Raimundo da Costa, maranhense, por golpe de espadim na sobrancelha direita;

– Antônio Francisco da Silva, paraibano, por bala no joelho, sendo grave o seu estado;

– Roque Candido Gomes, espanhol, por bala em um dos pés;

– Raimundo Irineu da Silva (Raimundo Irineu Serra), maranhense, por bala na mão direita;

– Antônio Alves Maia, cearense, por sabre, levemente;

– Vicente Pereira de Mattos, por bala, levemente.

Commercio do Acre, 20 de agosto de 1916, p. 2

Commercio do Acre, 20 de agosto de 1916, p. 2

Motivo do conflito e as notícias falsas, manipuladas

Na atualidade (2019), os meios de comunicação social e as “redes sociais” assistem um perverso fenômeno denominado, em língua inglesa, de fake news (notícias falsas). O caso é tão generalizado que alguns filósofos e teóricos da comunicação social denominam a triste era em que vivemos de “era da pós-verdade”, onde não existe mais o fato, e sim a narrativa manipulada e dirigida do fato, com uma carga de distorção e mentira que atenda os interesses dos detentores do poder, ou de determinados grupos de pressão.

Nos casos que envolvem autoridades governamentais ou policiais, registrados em BOs – Boletins de Ocorrência e outros documentos oficiais, pode ocorrer intencionalmente a manipulação de fatos, que encubram atos ilícitos praticados pela própria autoridade policial. Exemplo: justificar a eliminação física de uma vítima indefesa com o (falso) argumento de que ela investiu perigosamente contra a autoridade policial.

A imprensa não-investigativa, por comodidade, pode simplesmente divulgar a “versão oficial” dos fatos e dar a estas versões o status de… verdade. Ou por ideologia de classe, preconceituosa e discriminatória, a imprensa burguesa pode, previamente, criminalizar atos dos excluídos sociais, pelo simples fato de serem pobres, pretos, indígenas…

Commercio do Acre, 20 de agosto de 1916, p. 3

Commercio do Acre, 20 de agosto de 1916, p. 3

Análise de discurso do jornal Commercio do Acre

Acompanhem a narrativa do Commercio do Acre (27.8.1916) sobre o violento episódio: o jornal começa a matéria denunciando o comportamento abusivo e autoritário de “algumas praças” — soldados bolivianos. Em 14 de agosto de 1916 os soldados bolivianos conduziam preso um indivíduo de nacionalidade portuguesa, espancando-o durante o trajeto, pelas ruas de Cobija.

Um popular, de nacionalidade brasileira, reclamou contra o procedimento incorreto dos soldados, que não o atenderam, resultando disto um ligeiro conflito, durante o qual o português se evadiu.

Nesta mesma noite, “alguns populares de Brasileia, um tanto alcoolizados, passaram para Cobija e ali, em serenata, alta noite, davam extemporâneos vivas que terminaram por excitá-los cada vez mais”.

A polícia boliviana impediu a manifestação e os expulsou do pais, conduzindo-os para o porto da Cidade, às margens do Rio Acre, fronteira com o Brasil.

Os vivas se repetiam. É dito que se ouviu um brado de “morra a Bolívia”, partido de um mais ébrio que se juntara ao grupo.

Esse foi o estopim para o conflito, pois “provocou a indignação dos bolivianos”. Várias praças atiraram, “havendo numerosos disparos”.

O que de fato parece ter acontecido foi que a polícia boliviana resolveu intervir e encerrar uma cerimônia do CRF, liderada pelo sr. Antônio Costa, dirigente da reunião. Se tratava de uma concentração de “populares”, trabalhadores humildes, que deveria levantar a suspeita das autoridades dos 2 países, buscando caracterizar tal reunião como algo ilegal, proibido, subversivo, os acusando de “perturbar o sossego público”.

Caracterizar como “alcoolizados” os membros do grupo era uma falsa e estigmatizadora compreensão do ato cerimonial que se realizava. A “serenata” em questão significa os cânticos entoados durante a cerimônia. A expansão da consciência que o uso da bebida ayahuasca proporciona, e os efusivos brados de “viva” que, na narrativa do jornal, excitava-os, deveriam fazer parte do ritual. Isso atraiu a atenção da polícia boliviana, que de maneira discriminatória e arbitrária, decidiu por impedir a continuidade da sessão que se realizava. Além disso, deliberou por expulsar do território boliviano os membros do grupo, de maneira violenta, daí a reação dos trabalhadores brasileiros e o grave conflito que se seguiu.

Apesar de fazer acusações contundentes, incriminatórias aos “populares de Brasileia”, — classificá-los como criminosos, alcoolizados, baderneiros — paradoxalmente o periódico afirma “não nos importa, porém, tirar o caso a limpo”(!?).

Mesmo assim vaticina “o procedimento dos populares de Brasileia indo provocar as autoridades do país vizinho, perturbar o sossego público de Cobija, foi criminoso e não era de se estranhar produzisse as tristes consequências que teve”.

Há o intuito de incriminar o ato dos “populares de Brasileia”, mesmo que, paradoxalmente, o jornal afirme que “não nos importa tirar o caso a limpo”.

Commercio do Acre, 27 de agosto de 1916, p. 2

Commercio do Acre, 27 de agosto de 1916, p. 2

Análise de discurso (continuação)

Na narrativa do semanário, a estratificada sociedade acreana é tipificada como tendo uma “parte culta”, a classe dominante, e o povo, de “espírito inculto”.

Os atores sociais envolvidos no violento conflito que se seguiu, são os incultos, nesta peculiar classificação. E pelos fatos acontecidos, chamados de “criminosos” e “delinquentes”. Como se tratava de trabalhadores negro-mestiços, “nossos patrícios” são caracterizados como“ humildes”, “homens rudes, mas de natural ordeiro e pacífico”.

A sociedade brasileira estava recém-saída do sistema escravista, onde os negros continuaram excluídos, sem direitos sociais e políticos, que os distinguiriam da condição de servos e os elevariam a condição de cidadãos.

É também o período da história do Brasil conhecido como República Velha (1889-1930), regime de pacto de dominação das elites agrárias, de marginalização e criminalização dos trabalhadores urbanos e rurais.

Incongruências da narrativa

No primeiro caso de violência policial, os “praças” conduziram o indivíduo de tez branca, de nacionalidade portuguesa, o espancando. Surpreendentemente; com os trabalhadores negro-mestiços brasileiros, o periódico afirma que “a polícia boliviana usou com eles de “excessiva cordura”, com “bons modos”, ao lhes conduzir ao porto, os expulsando do território do país vizinho.

O injustificável estopim para o conflito foi um suposto brado de “morra a Bolívia”, partido de um mais ébrio que se juntara ao grupo — isto é, não pertencia ao grupo original, se juntara posteriormente.

O que poderia ser tolerável ou de menor repercussão junto às “autoridades bolivianas”, já que partiu de um indivíduo “alcoolizado”, que se juntara ao grupo depois, é classificado como de “inominável grosseria”, que provocou a “indignação dos bolivianos” e nessa ocasião deu-se o grande conflito.

Num átimo, a guarnição boliviana, que até então se comportava com “excessiva cordura” e “bons modos”… repentinamente passa a atacar e atirar nos indefesos trabalhadores brasileiros.

É dito que dos 15 brasileiros só 2 ou 3 portavam arma branca, enquanto os praças bolivianos atiraram com arma de fogo, “havendo numerosos disparos”

Os nacionais conseguem fugir, mesmo feridos. Demonstrando boa fé e intuito de colaboração com as autoridades brasileiras, os envolvidos se apresentaram ao Delegado de polícia em Brasileia, tenente Aldhemar Vasconcellos. Aí ocorreu o abusivo fato de que, as vítimas de agressão armada da polícia boliviana foram novamente molestadas, pois aqueles valorosos homens que não se curvaram a tirania da guarnição boliviana foram feitos prisioneiros e encarcerados no presidio do seu próprio país, sofrendo as agruras do sistema carcerário do Departamento do Alto Acre, constituído por diminutas celas onde se confinavam mais de 40 presos — num sistema de justiça composto por muitos réus e poucos advogados.

Na noite seguinte, o delegado de polícia de Brasileia os entregou as autoridades de Cobija, alegando um acordo que havia entre as policias das duas localidades, “para a entrega reciproca de criminosos”.

Incidente diplomático entre Brasil e Bolívia

O conflito violento entre soldados bolivianos com os populares brasileiros, acontecido no território do pais estrangeiro, por sua dimensão e desdobramentos, ameaçou criar uma crise diplomática entre os países, e o próprio Consulado do Brasil em Cobija foi acionado, com o cônsul Dr. Heráclito Ribeiro sendo instado a intervir na contenda.

O jornal Commercio do Acre, edição de 20 de agosto de 1916, na página 3, protesta veementemente contra a entrega dos brasileiros envolvidos no conflito, que foram feitos prisioneiros ao pisarem no solo pátrio, e logo depois foram entregues a polícia boliviana: “é quase inacreditável semelhante noticia e, a ser verdade, o ato da autoridade policial de Brasileia é, sob todos os pontos de vista, injustificável. ”

Continua: “não se pode, em caso algum (…) entregar patrícios nossos, por mais humildes e mesmo por mais criminosos que sejam, a autoridades estrangeiras, negando-se-lhes o único refúgio possível de serem julgados em sua pátria”.

Com erudição, esclarece: “isto é um ponto incontroverso do direito internacional” (…) “Confiamos que o Dr. Heráclito Ribeiro, nosso Consul em Cobija, já tenha feito a reclamação necessária afim de impedir sejam internados na Bolívia os criminosos”.

E apela para o bom senso do “atual Delegado” do Território Nacional de Colônias da Bolívia, Coronel Alberto Ovando, para que a reclamação do Consul fosse “prontamente atendida” evitando assim que o “incidente tome maior vulto”.

Na edição seguinte — o jornal tinha edição semanal —, de 27 de agosto de 1916, o teor do discurso do Commercio do Acre já é outro, contemporizador: argumentando que havia um acordo entre as policias das duas localidades, `para a entrega reciproca de criminosos”. A polícia acreana representada pelo seu delegado, o tenente Aldhemar Vasconcellos.

A matéria informa que “o tenente Aldhemar exigiu como condição da entrega dos presos¨, por se tratar de brasileiros, a sua restituição, “efetuando-se a sua entrega temporária como uma simples satisfação ao público”.

Apesar do jornal não noticiar, provavelmente houve gestões consulares, pois a 21 ou 22 de agosto de 1916 os presos foram restituídos à polícia de Brasileia e “se acham perfeitamente serenados os ânimos de parte a parte, graças principalmente ao acordo, à harmonia de vistas existentes entre as autoridades das duas localidades fronteiriças”.

Conclusão

Consideramos que com a divulgação desse rico material historiográfico trazido pelas 2 edições do jornal Commercio do Acre, de 1916, um episódio marcante na vida do Mestre Raimundo Irineu Serra, fundador da Doutrina do Santo Daime, se tornou relativamente esclarecida.

A discriminação social e racial, perseguições ao associativismo dos trabalhadores brasileiros e intolerância religiosa durante a República Velha, se manifestam nesse episódio, com o detalhe dos eventos ocorrerem nos 2 países — Brasil e Bolívia.

Apesar de todas as dificuldades, o CRF continuou em funcionamento, e o aprendizado que o jovem Irineu Serra teve nesta agremiação esotérica, foi fundamental para a continuidade de sua Missão espiritual aqui no mundo Terra, de “doutrinar o mundo inteiro”.

Bibliografia consultada

BOMFIM, Juarez Duarte. A Doutrina do Daime e o Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento. Disponível em

< http://www.jornalgrandebahia.com.br/2015/10/a-doutrina-do-daime-e-o-circulo-esoterico-da-comunhao-do-pensamento/ > Acesso em 13.12.2019

MENDES, Maria Alzenir Alves Rabelo. Os jornais em Xapuri (Acre) no século XX. Disponível em

< http://eduardoeginacarli.blogspot.com/2009/06/os-jornais-em-xapuriacreno-seculo-xx.html > Acesso em 13.12.2019

MOREIRA, Paulo; MACRAE, Edward. Eu venho de longe. Mestre Irineu e seus companheiros.  EDUFBA – ABESUP. Salvador – Bahia, 2011.

*Juarez Duarte Bomfim, sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]