Jornalistas combinaram matérias e submeteram textos a procuradores da República que atuam na força-tarefa do Caso Lava Jato

Deltan Dallagnol, procurador da República e chefe da força-tarefa do Caso Lava Jato em Curitiba.

Deltan Dallagnol, procurador da República e chefe da força-tarefa do Caso Lava Jato em Curitiba.

Nova matéria da Vaza Jato, feita em parceria entre Intercept e a Ilustríssima do Jornal Folha de S. Paulo, publicada nesta sexta-feira (20/12/2019), demonstra que, de acordo com áudios vazados, jornalistas combinaram matérias e submeteram textos a procuradores da Lava Jato.

De acordo com a matéria, “alguns repórteres submeteram ao coordenador da força-tarefa os textos de suas reportagens antes da publicação, para que apontasse erros ou imprecisões. Outros concordaram em publicar entrevistas que Deltan Dallagnol respondeu por escrito, inclusive com o acréscimo de perguntas que não tinham sido feitas”.

O jornalista diz que em dias em que novas fases da operação foram deflagradas, com prisões e buscas realizadas pela Polícia Federal pela manhã, Deltan informou alguns jornalistas com antecedência sobre as ações, encaminhando cedo a eles pelo Telegram as notas oficiais que só foram distribuídas aos outros jornalistas mais tarde.

“Em pelo menos duas ocasiões”, diz a matéria “após levantar o sigilo dos autos de um processo, Sergio Moro segurou a divulgação da chave numérica para permitir que os procuradores a fornecessem primeiro a repórteres de sua escolha, que assim teriam acesso à informação antes de outros veículos”.

Não se trata de vazamentos ilegais já que Moro tornara públicos os autos. Mas ao segurar a divulgação das chaves que davam acesso ao material, Ele garantiu vantagem para os jornalistas selecionados pela força-tarefa em detrimento da promessa original de transparência.

Deltan informou alguns jornalistas com antecedência sobre as ações, encaminhando cedo a eles pelo Telegram as notas oficiais que só foram distribuídas aos outros jornalistas mais tarde.

Deltan e o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima eram os que mais se relacionavam com a imprensa. Ninguém devia falar sem que ambos soubessem. Eles tinham entre as suas atribuições a coordenação da assessoria de comunicação e a orientaram a lhes submeter todas as demandas recebidas.

“Deixem-me saber de tudo que acontece de imprensa”, disse Deltan à equipe de comunicação em fevereiro de 2016. “É importante estar situado e pensar juntos na mensagem global a ser passada”.

Até jornalistas que eram julgados confiáveis, de acordo com a reportagem, foram tratados com frieza quando sugeriram pautas que a força-tarefa achava negativas, arriscadas ou embaraçosas. Vários procuraram Deltan no Telegram para obter informações sobre acordos de delação premiada quando as negociações com os colaboradores estavam em curso e ficaram sem resposta.

“O repórter deu liberdade para fazer novas perguntas, desconsiderar o que entendesse impertinente, criar”, disse o procurador aos assessores certa vez. “Temos na nossa mão o que queremos para dar o foco em que quisermos… as perguntas que criarmos aparecerão como dele, mas temos que manter é claro sigilo sobre isso rs”.

Mídia condescendente

Para o líder Paulo Pimenta (PT-RS), a mídia sempre foi complacente com atitudes antidemocráticas de Bolsonaro. O petista escreveu em sua conta no Twitter: “Com Bolsonaro a grande mídia sempre foi condescendente e barbaridades como defender torturadores e a ditadura militar foram normalizadas. Com a Lava Jato foram além. Alguns jornalistas viraram assessores dos procuradores e foram cúmplices da máfia revelada pela Vaza Jato”.

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Redação do Jornal Grande Bahia
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