Carta ao Leitor: O prefácio da História | Por Revista Veja

Capa da edição nº 2667 da Revista Veja, de 1º de janeiro de 2020.

Capa da edição nº 2667 da Revista Veja, de 1º de janeiro de 2020. Com retrospectiva, a Revista Veja acredita estar cumprindo à risca sua missão jornalística: permitir, a partir do presente, a reflexão capaz de alertar para o futuro.

Embora o jornalismo tenha como principal objeto a notícia — ou seja, a informação nova, “quente”, dotada de relevância pública —, é um equívoco supor que seu papel se resuma, em última instância, ao frio registro dos acontecimentos. Mais correto seria dizer, recorrendo aos célebres versos do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), que “o tempo” é sua “matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”. Com essa postura, o jornalismo se torna o prefácio da História. E a História, como bem definiu o escritor espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616) no monumental Dom Quixote, é a “mãe” da verdade, “testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência para o futuro”.

Ao entregar aos leitores, a cada virada de ano, uma edição como esta, de retrospectiva do período de doze meses que acabou de se encerrar, VEJA acredita estar cumprindo à risca sua missão jornalística: permitir, a partir do tempo presente, dos homens presentes, da vida presente — que, pela marcha inexorável das horas, dos dias, das semanas, já se transformaram em testemunhos do passado —, uma reflexão capaz de fazer as vezes de alerta para o futuro.

Haja alertas: este foi o ano das tormentas. E, apesar de alguns avanços extremamente positivos, dos tormentos. O pior é que o exemplo veio de cima. Sem dúvida nenhuma, algumas atitudes tomadas pelo governo Jair Bolsonaro figuraram entre as protagonistas no vexaminoso rol dos desvarios de 2019.

O desprezo do presidente da República ao aquecimento global, por exemplo, não só o levou a fazer declarações estapafúrdias a respeito do assunto como derreteu o prestígio internacional que o país havia conquistado por seu empenho na proteção ao ecossistema. No plano rigorosamente político, as turbulências também se avolumaram. Nem mesmo o ministro Paulo Guedes, da Economia – que iniciou magistralmente, com a reforma da Previdência, os ajustes que podem levar à retomada do crescimento –, deixou de contribuir para isso. Acompanhando um raciocínio leviano do deputado federal Eduardo Bolsonaro, o Zero Três, Guedes se referiu a um eventual retorno do AI-5 na hipótese de “radicalização” das esquerdas.

Destemperado, o próprio Jair Messias ameaçou, em diversos momentos, a imprensa livre — sinônimo de democracia, tal como o respeito ao Supremo Tribunal Federal, alvo recorrente de ataques histéricos de extremistas.

Não fosse a liberdade dos veículos de comunicação, jamais teriam vindo à tona as mensagens do Telegram reveladas pelo site The Intercept Brasil e analisadas por publicações como VEJA, que mostraram como o então juiz Sergio Moro orientava a inclusão de provas em processos da Lava-Jato e palpitava em acordos de delação, entre outras demonstrações de inaceitável parcialidade. Foi o mais duro golpe sofrido pela chamada República de Curitiba, apesar de a popularidade de Moro continuar elevada. O atual ministro da Justiça, porém, amargou a derrubada, no STF, de uma de suas importantes bandeiras: a prisão após a condenação em segunda instância, o que beneficiou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Liberto, o petista discursou, é claro, contra o presidente, alimentando a polarização que tanto favorece a dupla formada pelo ex-metalúrgico e pelo ex-­capitão mas que atrapalha o país.

Nos Estados Unidos, Donald Trump, o modelo do presidente brasileiro, viu correr na Câmara os trâmites para o seu impeachment. No entanto, a probabilidade, hoje, de o atual ocupante da Casa Branca ser expulso de lá é remota — o Senado é de maioria republicana. Já a saída do Reino Unido da União Europeia deve se concretizar em 31 de janeiro. O que acontecerá depois ninguém se arrisca a prever. Idem para o confronto entre China e Hong Kong, em que um número extraordinário de corajosos manifestantes, que têm como ideal uma futura independência, vem enfrentando a polícia. Protestos nas ruas, aliás, foram outra digital de 2019: houve revoltas, legítimas, no Chile, na França, no Irã (a lista é longa).

Tantos atropelos podem estar sinalizando um ano­novo ainda mais difícil. Mas sejamos otimistas. O Brasil tem condições de mudar para melhor em 2020. Ao jornalismo que mereça esse nome, uma importante resolução para o réveillon: continuar a atuar em defesa do Estado democrático de direito e das reformas que podem melhorar a vida dos brasileiros. VEJA se posicionou assim no passado, mantém-se nessa posição no presente e seguirá nela no futuro. É seu compromisso com a História — a “mãe” da verdade, repita-se.

*Editorial publicado na edição eletrônica da Revista Veja, em 27 de dezembro 2019.

*Editorial publicado na edição impressa de nº 2667, da Revista Veja, em 1º de janeiro de 2020.

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Redação do Jornal Grande Bahia
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