Queda do presidente Evo Morales na Bolívia repercute entre os senadores do Brasil

Crise política conduz grupos à conflito social na Bolívia.
Crise política conduz grupos à conflito social na Bolívia.
Crise política conduz grupos à conflito social na Bolívia.
Crise política conduz grupos à conflito social na Bolívia.

A queda de Evo Morales após 13 anos como presidente da Bolívia, repercutiu entre os senadores brasileiros. Tal como ocorre no país vizinho e em outras partes do mundo, também entre os senadores há interpretações antagônicas para os fatos registrados nos últimos dias. Para os senadores mais alinhados a partidos de esquerda, Evo é vítima de um golpe de Estado. Já os senadores de outros espectros políticos entendem que o ex-presidente boliviano perdeu a legitimidade, após tentar a quarta reeleição num processo contestado por amplos setores sociais daquele país, sob acusações de fraude, com questionamentos inclusive de órgãos multilaterais, como a Organização dos Estados Americanos (OEA).

Tese golpista

O senador Jean Paul Prates (PT-RN) não hesita em qualificar a renúncia de Evo, anunciada neste domingo (10/11/2019), de “um golpe militar direitista, com traços fundamentalistas”. Para ele, a ação é motivada pela disputa sobre o controle das riquezas naturais do país, como petróleo, gás e lítio. O senador cita uma reportagem da BBC Brasil mostrando que a economia boliviana cresce a uma média de 5% ao ano desde 2006, e deve ser a nação sul-americana que mais vai crescer em 2019 (cerca de 4%). Prates ainda vale-se de bons indicadores sociais atingidos nos mandatos do ex-presidente para apontar que “é por causa destes números que não ganham dele no voto”.

“A pobreza extrema caiu de 38,2% para 15,2% entre 2006 e 2018. Também tiveram quedas expressivas os índices de pobreza moderada (de 60,6% para 34,6%), de analfabetismo (de 13% para 2,4%) e de desemprego (de 9,2% para 4,1%) neste mesmo período”, escreveu o senador no Twitter.

Prates ainda condenou atos de violência contra familiares do ex-presidente, contra ex-ministros e rumores de que Evo seria preso. Por fim, o senador aponta que a superação da crise política deve se dar pela convocação de novas eleições, “e não com um golpe militar”.

A Bolívia vive uma conflagração social desde o pleito de 20 de outubro, que deu vitória a Evo para exercer um novo mandato de 6 anos. Para a oposição, o processo foi fraudado. Uma auditoria da OEA defendeu uma investigação isenta sobre o processo por parte de órgãos do Estado boliviano, diante de “registros com alterações e assinaturas falsificadas”. A OEA ainda apontou “manipulações ao sistema de computação de votos”.

Condenação à violência

Para o líder do PT, senador Humberto Costa (PE), a direita “não sabe conviver com a democracia”. O senador defende a tese de que Evo preferiu renunciar “para evitar um derramamento de sangue ainda maior”, e que o ex-presidente agiu como um pacifista durante a crise, ao propor a realização de novas eleições. Mas nem isso impediu o que define como “um golpe militar”. Ele ainda condena a invasão de uma casa do ex-presidente por parte de um grupo paramilitar, ações de violência contra partidários de Evo, e reencaminhou uma mensagem do próprio Evo, afirmando que “estão destruindo o Estado de direito” no país.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) também definiu a queda de Evo como um golpe de Estado, e condenou duramente a violência. No twitter, publicou fotos de ex-prefeitos e ex-dirigentes do antigo governo amarrados a árvores, enquanto sofriam ameaças em plena rua.

O senador Fabiano Contarato (Rede-ES) afirmou que a convulsão na Bolívia tem “elementos de ódio”. Ele lamentou que indígenas, lideranças de movimentos sociais e jornalistas venham sendo perseguidos desde a renúncia de Evo.

A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) ainda opina que os problemas da democracia “não se resolvem com a intervenção das Forças Armadas”. Ele pede que a comunidade internacional esteja atenta quanto às violações de direitos humanos, e que um novo processo eleitoral seja realizado.

Fraude e novas eleições

Em áudio enviado à redação da Agência Senado de Notícias, o presidente da Comissão de Relações Exteriores (CRE), senador Nelsinho Trad (PSD-MS), aponta que Evo caiu após a constatação de que sua última vitória teria sido obtida através de fraude.

Serve de lição, para que testemunhemos que toda ação que arranha a vontade democrática de uma sociedade leva a desdobramentos inimagináveis. Foi o que ocorreu na Bolívia. A OEA constatou fraudes evidentes no processo eleitoral, que são o pilar, o esteio de qualquer democracia. Quando o esteio é abalado, tudo cai por terra. Rogo para que o povo da Bolívia, de forma livre, soberana e democrática, determine um novo destino ao país — declarou Trad.

A vice-líder do PSL, senadora Soraya Thronicke (MS), reproduziu uma mensagem do chanceler Ernesto Araujo, para quem “a tentativa de fraude deslegitimou Evo Morales”. O comentário ainda defende que “não há nenhum golpe na Bolívia, e que esta narrativa só serve para gerar mais violência”. Aponta que o Brasil apoiará a transição “democrática e constitucional”, e que a renúncia “foi um gesto acertado, diante do clamor popular”. Num comentário próprio, Soraya roga para que “logo a Venezuela tenha a mesma sorte que a Bolívia”.

Para a senadora Juíza Selma (Podemos-MT), “graças a Deus a Bolívia acordou”. Ela refuta a tese de que o país sofre um golpe de Estado, e que quem tentou dar um golpe foi Evo Morales, “que fracassou”.

O senador Alvaro Dias (Podemos-PR) é outro que diz que o ex-presidente revoltou a população ao fraudar o pleito, e que após perder o apoio dos militares e policiais, não restou outra saída além de renunciar.

Além de Evo, o vice-presidente Alvaro Linera e as cúpulas da Câmara e do Senado também renunciaram. A senadora Jeanine Añez (opositora de Evo) anunciou que assumiria a presidência interinamente, na condição de vice-presidente do Senado. Em entrevista à mídia boliviana, garantiu que assumirá “com a única intenção de convocar novas eleições num prazo de 90 dias”, como determina a Constituição daquele país em casos de vácuo no poder.

Redação do Jornal Grande Bahia
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