Os protestos e o fracasso do neoliberalismo nos governos da América Latina | Por Clóvis Roberto Zimmermann

Protestos no Chile contestam política neoliberal e perda de direitos sociais.

Protestos no Chile contestam política neoliberal e perda de direitos sociais.

As atuais ondas de protestos que assolam a América Latina possuem íntima relação com os governos neoliberais e seus ajustes fiscais e cortes de gastos sociais. Enquanto que na Europa o Estado gasta mais na área social e os liberais e conservadores são bem mais comedidos e cuidadosos, na América Latina o Estado gasta menos na área social, porém a fome por ajustes e cortes de gastos não ter limites. O livro do professor da Universidade de Berkeley na Califórnia Paul Pierson “Dismantling the Welfare State? Reagan, Thatcher and the Politics of Retrenchment” publicado em 1994 fez história ao demonstrar que nos governos de Reagan e Thatcher houve poucos cortes nas áreas sociais, uma vez que esses governos perceberam que isso seria um grande suicídio político. Além da oposição dos beneficiários e eleitores, as instituições também se opuseram fortemente aos cortes nos gastos, sendo essa a explicação do cuidado dos liberais e conservadores europeus com cortes drásticos na área social.  Em virtude disso o Estado de Bem-Estar social continua vigoroso, bastante generoso e responsável por um volume considerável de gastos públicos, em torno de 30 por cento dos gastos em relação ao PIB. A Inglaterra iniciou o ano de 1900 investindo apenas 2,6 % de seu PIB na área social, enquanto que em 2015 os gastos sociais saltaram para 28,6% de seu PIB. Interessante é que durante o governo de Thatcher houve um aumento dos gastos sociais nesse país. Enquanto que em 1980, início do governo de Thatcher, a Inglaterra gastava 21,5% do PIB na área social, em 1991, logo após o término do governo, esse país gastava 24,7% do PIB em investimentos sociais.

Em geral a Europa vive menores turbulências sociais em virtude desse cuidado dos liberais e conservadores em manter o Estado bastante generoso e atuante na área social. A tese geral de Paul Pierson é de que as políticas neoliberais apresentam pífios resultados econômicos e tendem a encontrar pouco ou quase nenhum apoio popular em qualquer região do mundo.

O grande problema dos liberais da América Latina é trilhar caminhos inexistentes nos países centrais da Europa, que não adotam esse tipo de política, como é o caso do governo de Angela Merkel na Alemanha, oriunda de um partido conservador, mas que fez um governo atuante na em diversas áreas, especialmente na área social, evitando assim fortes conflitos sociais e ganhando as eleições por 4 vezes consecutivas. Tivesse Merkel feito cortes nas áreas sociais, a mesma possivelmente teria perdido as eleições.

Na América Latina, o caso de Macri na Argentina é paradigmático. Depois de 4 anos de mandato, perdeu as eleições que disputou em virtude de suas políticas neoliberais. Dados oficiais do governo da Argentina mostram que o país está em recessão oficial desde setembro de 2018, sendo que Macri herdou o país crescendo 2,7%. Como diria Paul Pierson, o neoliberalismo não é eficiente do ponto de vista eleitoral nem do econômico.

Assim sendo, o grande problema dos governos neoliberais na América Latina é que o corte nos gastos tentem a ser bastante contestadas, seja pelas instituições, seja também pelos beneficiários e eleitores. Enquanto que para os liberais e conservadores Europeus a sobrevivência política é mais importante do que a ideologia, os liberais e as direitas latino-americanos preferem seguir a ideologia liberal europeia e perder as eleições, feitos perfeitos idiotas.

*Clóvis Roberto Zimmermann ([email protected]), doutor em Sociologia pela Universidade de Heidelberg, Alemanha e Professor Adjunto de Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

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Perfil do Autor

Clóvis Roberto Zimmermann
O pesquisador Clóvis Roberto Zimmermann é doutor em Sociologia pela Universidade Heidelberg (Ruprecht-Karls) (2004), possui graduação em Teologia pela Universidade de Heidelberg (Ruprecht-Karls) (1996); é professor adjunto do curso de Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), coordenador da pós-graduação em Ciências Sociais da UFBA e é professor do programa de doutorado em Sociologia da UFBA; tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Políticas Sociais, atuando, principalmente, nos seguintes temas: teoria das políticas sociais, participação popular e direitos humanos. *E-mail: [email protected]