Ex-presidente Lula desafia Jair Bolsonaro e assume liderança da oposição

O ex-presidente Lula durante seu discurso na saída da prisão em Curitiba.

O ex-presidente Lula durante seu discurso na saída da prisão em Curitiba.

Em um discurso de 16 minutos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi solto nesta sexta-feira (08/11/2019) depois de 580 dias detidos na sede da Superintendência da Polícia Federal do Paraná, em Curitiba. Lula atacou setores do Judiciário, o atual ministro de Justiça Sérgio Moro e se referiu ao presidente Jair Bolsonaro “como o mentiroso das redes sociais.”.

“No meu coração só tem espaço para amor, porque o amor vai vencer nesse país. Não é o ódio que vai vencer”, disse o ex-presidente, diante de uma multidão de partidários. “Atualmente o povo está passando mais fome, está desempregado, o povo trabalha para a Uber ou para entregar pizzas de bicicleta”, afirmou. O ex-presidente cumpria, desde abril de 2018 pena de oito anos e dez meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Em seu discurso, Lula também denunciou “o lado podre da Justiça, o lado podre do Ministério Público, o lado podre da Polícia Federal, o lado podre da Receita Federal, capaz de trabalhar pra tentar criminalizar a esquerda, criminalizar o PT, criminalizar o Lula.”.

Na sua saída, ele estava sendo aguardado pelas principais lideranças do Partido dos Trabalhadores (PT), movimentos sociais e as pessoas que acamparam na frente da sede da polícia desde que foi preso. Esta também foi a primeira vez que ele se expôs em público ao lado da namorada, a socióloga Rosângela da Silva. Disse que pretende se casar. O ex-presidente também declarou que irá para São Paulo e depois sairá em caravana pelo país, assumindo seu papel de líder da oposição para as eleições presidenciais de 2022. Lula não exclui sua candidatura, mas sua soltura não o devolve seus direitos políticos – ele é réu em sete ações criminais.

Lula foi beneficiado por uma decisão tomada na véspera pelo Supremo Tribunal Federal, que proibiu o cumprimento de penas de prisão enquanto os acusados não tenham esgotado todos os recursos judiciais – ninguém pode ser condenado antes do chamado trânsito em julgado. O ex-presidente foi condenado por receber um apartamento da empreiteira OAS no Guarujá, litoral de São Paulo, em troca de mediação para contratos na Petrobras.

Mas o ex-sindicalista nega as acusações e se diz vítima de uma manobra jurídica para impedi-lo de disputar as eleições presidenciais de 2018, nas quais Jair Bolsonaro foi eleito.Sua posição ganhou força quando Bolsonaro nomeou o então juiz Sergio Moro, símbolo da Operação Lava Jato e autor da primeira condenação contra o ex-presidente (2003-2010), como ministro da Justiça e Segurança Pública.

Até a noite, o presidente Jair Bolsonaro não tinha reagido diretamente sobre a soltura de Lula, praticamente decidida após a votação no STF que derrubou a prisão após condenação em segunda instância, o que resultará no exame da situação de quase 5.000 presos. Nem todos, no entanto, serão libertados porque alguns terão a prisão preventiva decretada.

Silêncio de Bolsonaro

Dois dos filhos do presidente, no entanto, publicaram diversas mensagens no Twitter. “Milhares de presos serão soltos e atordoarão a todos que independente [sic] de escolha política, gerará [sic] reflexos sociais e econômicos seríssimos internos e externos, para quem está aí ou quem virá”, condenou o vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro. O deputado Eduardo Bolsonaro retuitou mensagem do líder de um movimento conservador: “Lula não será adversário porque está acabado politicamente”.

Segundo analistas, o ex-presidente fortalecerá tanto o PT quanto, paradoxalmente Bolsonaro, que soube canalizar o ódio de parte do eleitorado contra o ex-líder sindical, prometendo inclusive fazer com que o ex-presidente apodrecesse na prisão. “Para Bolsonaro é uma boa notícia porque reforça a polarização ideológica que o elegeu. Veremos Lula mais presente no cenário político e isso permitirá que Bolsonaro reforce seu papel como líder do campo anti-PT”, disse à AFP o analista Thomaz Favaro, da Control Risks.

Jornal O Globo destaca liberdade do ex-presidente Lula.

Jornal O Globo destaca liberdade do ex-presidente Lula.

Publicidade

Compartilhe e Comente

Redes sociais do JGB

Publicidade

Faça uma doação ao JGB

Perfil do Autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518), Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (SINJORBA), Associação Brasileira de Imprensa (ABI Nacional, Matrícula nº E-002907) e Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).