Catalunha não é Espanha | Por Juarez Duarte Bomfim

Catalunha não é Espanha Foto: Cristina Cerdán IranzoCatalunha não é Espanha Foto: Cristina Cerdán Iranzo
Catalunha não é Espanha Foto: Cristina Cerdán Iranzo

Catalunha não é Espanha. Foto: Cristina Cerdán Iranzo

Nos jogos do Barça — Barcelona Futebol Clube — no Estádio Camp Nou, quando o cronômetro marca 17:14 segundos, a torcida culé se manifesta efusivamente, levantando bandeiras da Catalunha, cantando o hino nacional catalão — Os Segadores — e brandindo uma enorme faixa, com os dizeres, em língua catalã ou inglesa: CATALUNHA NÃO É ESPANHA.

Essa é uma recorrente manifestação, simbólica, pela independência da Comunidade Autônoma da Catalunha — uma das 17 comunidades geopolíticas que se divide o Reino de Espanha. Divisão político-administrativa estruturada com a redemocratização de 1976, após 4 décadas de ferrenha ditadura fascista, do general Francisco Franco (4.12.1892 – 20.11.1975).

O grande prestígio e visibilidade mundial que o time de Lionel Messi goza, por todo o Planeta Bola, fez do Barça uma legenda, um diferencial, seu lema é mès que un Club (mais que um clube), e desde a época do regime franquista esse vitorioso time de futebol é associado à luta de Independência da Catalunha, contra o jugo espanhol.

Por que a manifestação catalã acontece aos 17:14 segundos da partida?

Foi ali, no distante ano de 1714, que a Catalunha perdeu a sua independência frente ao Reino de Castela, após uma heroica resistência ao Cerco de Barcelona, que caiu no 11 de setembro.

Durante as minhas aulas de Doutorado na Universitat de Barcelona, em suas proveitosas aulas, um velho professor de Geografia bromeava (brincava), dizendo que a data nacional da Catalunha era o dia da derrota…

Bem… os nacionalistas catalães ressignificaram a referência a tal data: não se comemora a derrota, e sim a brava resistência.

Camisa do Barça com a bandeira da Catalunha

Camisa do Barça com a bandeira da Catalunha

Estado Espanhol e a Independência de Portugal

O poderoso Estado nacional espanhol começou a ser gestado no Século XV — período das grandes navegações e “descoberta” da América — com o projeto de unificação da Península Ibérica, iniciada pelos reis Católicos Fernando e Isabel.

Uma crise sucessória leva o reino de Espanha a anexar Portugal durante longos 60 anos (1580 – 1640). Estrutura-se a União Ibérica sob domínio de Castela.

A Restauração da Independência de Portugal começará em 1640 e será concluída em 1668. Este é o período da criação do movimento político-religioso milenarista português, com a mística do “retorno do encantado”, o rei Dom Sebastião, morto da batalha de Alcácer Quibir, na África.

O milenarismo português, denominado sebastianismo, visava o retorno das glórias nacionais do passado, apontando para o porvir.

O sebastianismo terá influência sobre a poesia épica de Fernando Pessoa; no movimento de Canudos, no sertão da Bahia – Brasil, liderado pelo beato Antônio Conselheiro — e vai marcar a religiosidade brasileira, com a encantaria paraense e maranhense.

Eu costumava dizer ao historiador baiano Erivaldo Neves que o grande feito histórico português foi manter a sua Colônia americana unida, união que perdurará após a Independência do Brasil (1822), por todo o I e II Império e na República, a partir de 1889.

Professor Erivaldo me contestava, com a seguinte argumentação:

— Este é o segundo grande feito português, o primeiro e maior foi conservar-se independente do jugo espanhol.

Para isso, Portugal foi obrigado a se aliar a uma grande potência econômica e militar, a Inglaterra, e ser por ela protegida. Pagou regiamente por isso, através da transferência de riqueza da colônia brasileira para os ingleses.

A mesma sorte não teve a Catalunha ou outras nacionalidades da Península Ibérica, que caíram sob domínio espanhol — o que ainda perdura.

São várias as nacionalidades subordinadas ao Reino de Espanha, cada qual com a sua língua, sua cultura, tradição, história e identidade.

Se destacam, por visibilidade e peculiaridades locais, as nacionalidades galega, basca (Euskadi) e catalã.

O movimento de independência da Galícia parece diminuto ou não mais existir, e sim de autonomia. Em Euskadi (País basco), a derrota político-militar do ETA e forte repressão contra o terror levou ao refluxo o movimento independentista. Já na Catalunha, o independentismo cresce e floresce. É inexorável.

Repressão do governo de Madri ao catalanismo

São mais de 300 anos de repressão ao catalanismo, por parte do governo espanhol. Desde a dinastia filipina até os dias de hoje. Todavia, que é catalanismo?

O catalanismo ou nacionalismo catalão é o movimento que propõe o reconhecimento da personalidade política e cultural da Catalunha. O nacionalismo e independentismo catalães defendem que a cultura catalã é distinta da espanhola, argumentando que a Catalunha é uma nação oprimida por Espanha desde sua ocupação político-militar em 1714 — quando houve a supressão das instituições catalãs e a proibição de sua língua na administração, mediante os Decretos de Felipe V (19.12.1683 – 9.7.1746)

Os nacionalistas e independentistas catalães denunciam que a Catalunha está submetida a exploração económica por parte do Estado espanhol, sobretudo no que diz respeito ao déficit da balança fiscal da Catalunha, entendendo que esta recebe muito menos do que contribui em matéria de impostos. Por este motivo, a Catalunha vem reclamando historicamente um maior nível de autodeterminação, tanto numa perspectiva legislativa como em matéria de poder executivo, judicial, cultural e económico.

Como a história de dominação da Catalunha pelo reino de Espanha é longa, vamos rememorar fatos historicamente recentes e assaz traumáticos, deflagrados ao longo do Século XX.

No governo republicano de 1931 o movimento de Independência da Catalunha ganhou fôlego. Porém, é na vitória eleitoral da esquerda espanhola, em 1936, que as nacionalidades basca e catalã veem surgir o momento histórico de reivindicar suas independências frente ao governo espanhol, mantendo a aliança política que levou a Frente Popular ao poder — uma ampla coalizão de partidos de esquerda, nacionalistas, movimentos operários e sindicais e o apoio tácito dos anarquistas, importante força política da época.

A insatisfação da burguesia, latifundiários, exército e clero conservador com o rumo esquerdizante do regime político, fez eclodir a sangrenta e longa Guerra Civil Espanhola (1936 – 1939).

Nas mais importantes províncias e capitais espanholas o movimento insurrecional é, inicialmente, derrotado, e se deflagra uma revolução operária comunista-anarquista no campo e em regiões industriais, notadamente na Catalunha revolucionária. Barcelona é intitulada “la Ciudad Roja” (a Cidade Vermelha). O anticlericalismo é marcante nesses movimentos.

A Espanha se divide em 2. A Espanha nacional versus a republicana; fascistas versus rojos.

Nas hostes golpistas se destaca um general “africanista” na liderança do movimento insurgente, Francisco Franco, que terá êxitos militares permanentes ao longo da campanha de derrubada do governo republicano.

A guerra logo se globalizou, sendo determinante para a vitória franquista o apoio militar do fascismo italiano e do nazismo alemão. A neutralidade das potências europeias, França e Inglaterra, foi assaz prejudicial para a República, inclusive com o embargo ao abastecimento de armas pelo governo republicano constituído.

A contrapartida que tentou equilibrar as forças em disputas foi a organização das Brigadas Internacionais de voluntários, militantes liberais, comunistas e trotskistas, românticos e altruísticos, que espontaneamente foram imolados nos campos de batalha espanhol. Tardiamente chegou o apoio bélico soviético, que não logrou êxito.

Euskadi (País Basco) caiu logo em 1937. E uma característica da campanha militar nos 2 primeiros anos é que ela ocorreu fora do território catalão, que permaneceu quase intocado — apenas fustigado por ataques aéreos. Porém, uma guerra visceral se travou internamente, entre nacionalistas, comunistas, trotskistas e anarquistas, o que enfraqueceu a resistência. Nas ruas de Barcelona, repletas de barricadas e sangue, ocorreu uma guerra dentro da guerra.

Em 1938 dá-se início a “mãe de todas as batalhas”, no avanço das tropas franquistas rumo a Catalunha. A longa e custosa Batalha do Ebro — o avanço sobre o Rio Ebro. Quando a vitória dos fascistas é selada, o desfile militar sobre Barcelona ocorre em silêncio, sem resistência armada em defesa da capital catalã. Mais de 500 mil refugiados caminhavam desesperadamente rumo à fronteira com a França, pois a retaliação e vingança dos vitoriosos se anunciava impiedosa.

E foi bastante severa. Não houve anistia, não houve perdão ou reconciliação nacional. Só violência e vingança. Julgamentos sumários e pelotões de fuzilamentos. Por muitos meses e anos seguintes, Madri e Barcelona acordavam com o matraquear das metralhadoras executando sentenciados de véspera.

O ditador Franco, “caudilho pelas graças de Deus”, tinha um sinistro ritual: religiosamente, ao sorver o seu café da manhã, displicentemente assinava as sentenças de morte.

A censura sobre o cotidiano e os costumes na sociedade espanhola ficou sob responsabilidade da Igreja Católica. A Espanha mais se assemelhava a um grande colégio de freiras.

Quando da II Guerra Mundial (1939 – 1945), a França caiu sob jugo alemão, ainda em 1939, e refugiados espanhóis foram entregues à ditadura franquista, entre eles o líder nacionalista catalão Lluys Companys. Barbaramente torturado, foi executado no quartel de Montjuic, montanha da bela capital catalã, debruçada sobre o Mar Mediterrâneo.

Forte repressão é imposta sobre os nacionalismos existentes no território espanhol. Na Catalunha foi proibido se falar em público a língua nacional, sua escrita e seu ensino. Símbolos nacionais catalães e manifestações culturais são proibidos ou desestimulados, como a dança nacional sardana e os castells.

Imaginem a violência real e simbólica de tais proibições: muitos catalães, principalmente das cidades do interior e da zona rural só sabiam se comunicar na sua língua natal. Se o fizessem na via pública, ruas, praças, feiras e repartições, poderiam ser duramente incriminados e punidos.

Uma maneira do governo franquista tentar quebrar o nacionalismo catalão foi o estímulo à migração em massa de espanhóis para esta região. A desestruturação econômica do país com a guerra, e a lenta retomada desenvolvimentista impulsionou levas de migrantes para a dinâmica e sempre pujante economia da região industrial de Barcelona, que os acolhia.

A língua catalã sobreviveu como língua doméstica, língua afetiva. Mais antiga que o castelhano e o português, a identidade catalã está diretamente associada a seu idioma, é o maior dos seus bens culturais – e o que faz aquele povo sobreviver como nação.

Redemocratização da Espanha

Com a redemocratização espanhola a partir de 1976, após a longa noite escura e trevosa sob o domínio do mal, as comunidades autônomas adquiriram relativa autonomia e estatutos próprios. Na Catalunha e em outras nacionalidades, as línguas locais são reconhecidas como idiomas oficiais.

Nesse novo ambiente de distensão política, o nacionalismo catalão floresce.

Através de uma exitosa política educacional e linguista do Govern (Governo catalão), a identidade nacional é retomada e, consequentemente, o catalanismo.

Barcelona no Século XXI

Eu e minha família tivemos uma grata experiência de residir e estudar na Barcelona do início do Século XXI. Período importante para afirmação do catalanismo.

Com a redemocratização e eleições diretas, sucessivas administrações municipais de caráter socialista desconcentrou os investimentos públicos das áreas ricas da Cidade, com inserções de equipamentos públicos nos barrios obreros — antigos bairros operários da indústria têxtil.

As quadras que abrigavam as fábricas do passado foram reconvertidas em espaços públicos e equipamentos de cultura, esporte e lazer. Linhas de metrô foram estendidas para estes bairros, assim como outros tantos investimentos, que deram uma uniformidade de bem-estar urbano, o que fez da capital da Catalunha exemplo e modelo de urbanismo.

Nas escolas de ensino fundamental e médio, tendo como referência o método Paulo Freire, se ensinava cultura e história da Catalunha. A afirmação da língua catalã, para todos os níveis educacionais, veio com uma exitosa política editorial e livresca de publicações em língua catalã, independente do apelo de mercado para as edições.

Minha percepção, como estrangeiro, é de que o catalanismo tem como principal referência cultural e identitária a língua, muito mais do que qualquer outro aspecto cultural que possa ser elencado.

Porém, recordo que era com pompa e circunstância que, em praça pública, os catalães dançavam a sardana e montavam os castells (castelos humanos). Havia um que de desafiador e revolucionário naquelas manifestações culturais, uma mística nacional só compreendida por quem viveu ou teve notícia dos anos de chumbo da ditadura fascista (1939 – 1975).

Castells (Castelos humanos)

Castells (Castelos humanos)

A identidade catalã se constrói também em oposição a hispanidad (nacionalismo espanhol), como no caso do movimento antitaurino na Catalunha, pela proibição de touradas no seu território, o que foi aprovado pelo Parlament de Catalunya (Parlamento da Catalunha), em 2010 — e que gerou mais uma ‘queda de braço’ com o Governo de Madri.

Que dizem os catalães?

Catalunya es la gallina de los huevos de oro para España, por situación, industria, economía, adelantos en medicina y la tecnología mas avanzada y no es prepotencia, es la realidad, no somos ni mejores ni peores, pero si diferentes incluso en el respeto con los animales…— depoimento de uma cidadã da Catalunha.

(Catalunha é a galinha dos ovos de ouro para a Espanha, por sua localização, indústria, economia, avanços na medicina e em tecnologia de ponta. Isso não é prepotência, é a realidade. Não somos melhores nem piores, e sim diferentes, inclusive no respeito aos animais…).

Tourada em Barcelona

Tive a oportunidade de assistir uma corrida de toros (tourada) na Plaza de Toros Monumental de Barcelona, em 2000.

Residindo naquela encantadora cidade, recebemos a visita da sogra, na primavera, período que inicia a temporada de touradas.

A saudosa sogra, de sangue espanhol, alimentava o desejo de assistir uma tourada na Espanha e para lá nos dirigimos, numa tarde ensolarada de sábado. Este que vos escreve, sua amada consorte Cecilia e a senhora sua mãe. A filha Barbara estava impedida de ir, pois era menor de 12 anos. Prestimosa amiga ficou com a criança para liberar os adultos a tal efeméride.

Nos deparamos com a gigantesca arena semivazia e assim, desprezamos a indicação numérica de assentos e nos abrigamos em um sitio sombreado. Havia maior quantidade de manifestantes antitaurinos do lado de fora do que na assistência. Ruidosos, seus brados de protestos acompanhou toda a função que se iniciava.

Um grupo numeroso de turistas japoneses chegou ao local. Pelo incômodo deles, parecia que nós 3 tínhamos sentados em assentos que lhes eram destinados. Gentis, não nos molestaram. Ora… o que não faltavam eram assentos acima, abaixo e aos lados para a acomodação da pequena plateia.

Deu-se início a função. Na plateia, havia um pequeno número de entusiastas daquele sangrento espetáculo. O touro e o toureiro entram na arena, e começa o balé macabro.

Um homem montado adentra o cenário, seu cavalo está protegido por uma couraça das investidas dos chifres do touro. Com uma lança, o cavaleiro fere duramente o indefeso bovino. O público apupa, em protesto pelo que talvez considerasse covardia, e o picador, após sangrar duramente o touro, se retira.

Vou resumir a descrição… no gran finale o toureiro estoca, com sua espada, na altura dos ombros, o coração do condenado touro.

Não sei o que me chamava mais a atenção, a reação do público em volta ou o que acontecia na arena… compadecida, a esposa chorava, os japoneses se horrorizavam, tapavam os olhos e… fugiram em debandada. Ainda aconteceriam mais 5 outros embates dantescos.

A sogra observava curiosa o intrigante espetáculo; este que vos escreve contemplava a tudo, estoicamente…

Triste mesmo era quando uma carroça funerária adentrava o recinto, amarrava o touro morto pelas patas e o retirava da arena, arrastando e deixando um rastro de sangue sobre a areia.

Na saída do sanguinolento evento, os manifestantes antitaurinos bradavam contra o toureiro, os organizadores e o público…

Estado-Nação e nação sem Estado

A Ciência Política desenvolveu o conceito de Estado-Nação para classificar as unidades políticas conhecidas como Estados Modernos, de poder político concentrado e unificado, pós-medieval.

O sociólogo Manuel Castells afirma que assim como existem Estados nacionais, existem nações sem Estados, e para ele, o exemplo disso é a Catalunha.

Nas minhas aulas de Fundamentos de Ciência Política, quando eu conceituava a unidade política denominada ‘Estado’ como a reunião de 3 elementos constitutivos — poder, povo e território — dotado com as características de autonomia e soberania, sempre dou como exemplo de povos sem Estado os palestinos e os catalães.

E a triste conclusão com estes exemplos é de que, enquanto palestinos e catalães não tiverem soberania sobre os seus territórios, isto é, a Palestina e a Catalunha não forem Estados independentes e soberanos, sempre haverá conflitos — que podem descambar para a violência e derramamento de sangue.

Recordo que lá, no distante ano de 2000, o catalanismo e independentismo parecia ser uma unanimidade nas províncias de Tarragona, Girona e Lleida. Já na província e capital Barcelona havia um numeroso contingente de habitantes de origem espanhola, que impedia e dificultava uma possível unanimidade.

Meus jovens colegas de Doutorado eram nascidos na Catalunha e independentistas, mesmo que seus pais e avós fossem espanhóis.

O outro time de futebol barcelonês, o Espanyol, apesar do nome, era um clube de torcida obrera (operária, popular) e catalanista, por tradição.

19 anos depois, os filhos daqueles jovens independentistas são também catalanistas e republicanos. Sim, uma característica do independentismo catalão é que ele é republicano.

Republicanismo

A Espanha vinha de uma tradição monárquica, de séculos, que foi interrompida com o advento da II República (1931 – 1939), experiência cortada com a derrota dos republicanos para as tropas do general Franco, e o advento de uma ditadura fascista.

A longa agonia e doença do ‘generalíssimo’, que precedeu a sua morte, foi marcada por 2 coisas:

– Franco morreu matando. Do seu leito de morte, ainda teve forças para assinar a sentença de fuzilamento de 2 guerrilheiros urbanos catalães, envolvidos em um atentado em Barcelona.

Assim, o general Franco foi uma espécie de Francisco de Assis ao contrário. Conta-se que o Pobrezinho de Assis, moribundo, curava os enfermos que iam visitá-lo. Já o general espanhol feria e matava, duramente.

– Para a transição política post-mortem, Franco arquitetou a restauração da monarquia espanhola, chamando do exilio o sucessor do trono, que viria a ser o rei Juan Carlos.

Quando se deu o processo de redemocratização da Espanha (1976), as forças políticas envolvidas optaram por instituir o regime de Monarquia Parlamentarista, no estilo britânico. Uma tontería espanhola?

Catalunha não tem rei

Catalunha não tem rei

Coração americano

Para um coração americano, republicano, regime monárquico parece ser uma bizarrice europeia, uma extravagancia. “Nobres” seriam os homens brancos ricos, orgulhosos descendentes de escravocratas e colonialistas, que brincam de fingir que são superiores aos demais humanos.

As ideias positivistas fizeram cair por terra o regime monarquista brasileiro, associado ao atraso, ao ultrapassado, irracional. O positivismo tem origem na França.

Talvez por isso, nem todos os europeus são monarquistas: os franceses, por exemplo, resolveram a questão decepando cabeças coroadas.

Já os espanhóis trouxeram de volta o seu rei…

Um artista callejero (artista de rua), com simplicidade, certa vez explicou a um grupo de jovens brasileiros o que é a monarquia espanhola, dentro de um botequim esfumaçado do bairro boêmio do Raval, Barcelona:

— Monarquia é coisa de milionários…

Milionários que vivem às expensas do erário público, poderia completar.

Bem… se a Espanha quer ter rei, rainha, papai noel, fada do dente… que tenha. Todavia… que é que a Catalunha tem a ver com isso?!

Guerra Civil de Espanha, nunca olvidada

Como não houve perdão, anistia e pacificação no pós-Guerra Civil espanhola, e sim vingança e dura punição aos derrotados — fuzilamentos em massa e outras atrocidades — o certo é que as feridas da guerra não cicatrizaram, mesmo passados 80 longos anos. Caso impar na história da humanidade.

Imaginem se ingleses e alemães remoessem as feridas da II Grande Guerra (1939 – 1945)…; se os japoneses e americanos também não virassem essa página da história… possivelmente nem existiria ONU – Organização das Nações Unidas.

No ano de 2007, quando da conclusão do meu Doutorado na Universidad de Salamanca – Espanha, assisti uma conferência sobre a Guerra Civil e, dos relatos da memória da guerra, ouvi o depoimento de um veterano das Brigadas Internacionais, um velho revolucionário francês.

O que, para mim, seria história e memória, distante no tempo, descambou para ásperas discussões e acusações, nas intervenções posteriores à palestra… como se os eventos narrados tivessem ocorrido ontem.

No caso da Catalunha as marcas da tragédia dos anos 1930 são ainda maiores, quando a nação foi submetida ao regime fascista do general Franco a ferro e fogo.

Contra a sentença, independência

Contra a sentença, independência

Referendo de Independência da Catalunha, 2017

A crise atual entre o Governo de Madri e a Comunidade Autônoma da Catalunha é a mais grave de todas, desde a redemocratização da Espanha, em 1976 —  e as consequências parecem imprevisíveis.

No dia 1 de outubro de 2017 o Governo Regional da Catalunha (Generalitat de Catalunya) promoveu um referendo sobre o destino político da Comunidade, desafiando a proibição espanhola.

Neste referendo de independência da Catalunha — Referèndum d’Autodeterminació de Catalunya — os eleitores catalães deviam tomar posição sobre a pergunta: “Quer que a Catalunha seja um Estado independente em forma de república? ”

O Governo Central da Espanha não aceitou a realização do referendo, e tentou impedir pela força a implementação: envio da Polícia Nacional e da Guarda Civil para a Catalunha, encerramento de mesas de votação, confisco de boletins e urnas, ameaça de multa aos funcionários do plebiscito, impedimento dos eleitores entrarem em locais de votação, bloqueio de páginas da internet de apoio ao referendo, ocupação do centro de telecomunicações e tecnologia de informação do governo catalão, impedindo o sufrágio a distância e a contagem dos votos do plebiscito — e recurso a cargas policiais e uso de gás lacrimogêneo, causando centenas de feridos.

Mesmo assim, 92% dos eleitores que acorreram às urnas votaram ‘sim’ pela independência da Catalunha, de um total de 2.286.217 cidadãos que compareceram às urnas (43% dos eleitores registrados).

Com base neste o resultado, no dia 10 de outubro de 2017, o presidente da Generalitat Carles Puigdemont declarou a independência catalã de forma unilateral — ao tempo em que pediu diálogo e negociação com o Governo de Espanha.

A reação de Madri foi dura. Brutal perseguição e encarceramento dos principais líderes do movimento. O president da Generalitat e outros líderes conseguiram fugir. Puigdemont se exilou na Bélgica, sede da UÉ – União Europeia. Não houve reconhecimento do novo Estado independente pela comunidade política internacional.

Os exilados políticos catalães são: Carles Puigdemont, Marta Rovira, Toni Comin, Marixell Serret, Clara Ponseti, Lluis Puig e Ana Gabriel. Um número maior de líderes foi encarcerado.

Carles Puigdemont, Marta Rovira, Toni Comin, Marixell Serret, Clara Ponseti, Lluis Puig e Ana Gabriel

Carles Puigdemont, Marta Rovira, Toni Comin, Marixell Serret, Clara Ponseti, Lluis Puig e Ana Gabriel

Em 14 de outubro de 2019, a Suprema Corte da Espanha condenou nove líderes da tentativa frustrada de independência da Catalunha a penas de prisão que vão de 9 a 13 anos por sedição (uma forma mais branda de rebelião contra a autoridade). A soma das sentenças é de mais de 100 anos de prisão.

Os condenados: Carme Forcadell, que era presidenta do Parlament quando foi detida, o ex-vice-presidente da Generalitat Oriol Junqueras e os ex-secretários de governo Jordi Turull, Joaquim Forn, Raül Romeva, Josep Rull, Dolors Bassa, Meritxell Borràs e Carles Mundó, que se juntaram aos presidentes das associações Òmnium e ANC, Jordi Cuixart e Jordi Sànchez.

Os líderes catalães sentenciados

Os líderes catalães sentenciados

Manifestação pela Independência da Catalunha

Manifestação pela Independência da Catalunha

Por petição popular e dos familiares, os condenados pela luta de independência foram transferidos para cumprirem a pena em uma prisão da Catalunha, Lladoners.

Toda semana recebem a visita de milhares de manifestantes que se concentram do lado de fora da prisão donde se les da el calor y el cariño, apoyo que merecen — nas palavras de uma amiga catalã.

Há um que de dramaticidade épica no destino dos prisioneiros e exilados políticos da Catalunha. Como relata essa mesma amiga:

“Eles foram privados de liberdade por escutar a voz do povo; privados de ver seus filhos crescerem. O filho de Oriol Junqueras tinha poucos meses de nascido; o filho de Jordi Cuixart nasceu quando o pai já se encontrava preso… quando os pais saírem da cadeia, essas crianças terão 12 anos de idade… é uma injustiça que dói em todos nós. A sentenciada Carme Forcadell terá mais de 70 anos ao término de sua pena… Carles Puigdemont no exílio, não pôde se despedir de seu pai, que faleceu semana passada”.

Protestos de massa acontecem desde então em toda a Catalunha contra o veredito da Justiça. Muitos de forma pacífica, outros com violência e enfrentamento das forças policiais.

Manifestação por Independência e protesto contra as sentenças

Manifestação por Independência e protesto contra as sentença

Eleições espanholas de novembro de 2019

Nas eleições gerais de Espanha em 10 de novembro de 2019 há 2 coisas a se destacar:

– a questão catalã esteve no centro dos debates e alimentou a sanha da ultradireita, que cresceu vertiginosamente, tendo como parâmetro as eleições anteriores, apenas 7 meses passados (abril de 2019).

A extrema-direita (Vox) advoga o fim das autonomias regionais e o retorno ao regime centralizador em Madri, como era na ditadura franquista;

– há de se compreender os limites de aferição da vontade popular através da democracia representativa, da eleição de parlamentares.

O uso do Poder Econômico nas eleições corrompe o processo e favorece os mais ricos, que são conservadores e contrários aos interesses da maioria, o povo. O fenômeno da manipulação da vontade popular através do fake news (mentiras) e dos algoritmos das redes sociais – WhatsApp, YouTube, Facebook, Twitter… – compromete qualquer resultado “democrático” e elege abominações.

Neste cenário, não seria surpreendente que, por 30 dinheiros, representantes de um Parlamento qualquer revogassem a lei da gravidade e aprovassem a condução coercitiva de Isaac Newton à cela da cadeia – autor de tal lei.

Assim sendo, no caso espanhol, o resultado eleitoral de 10 de novembro de 2019 reflete apenas parcialmente a realidade das ruas e dos lares: os independentistas catalães não conquistaram maioria no Parlamento de Espanha; e nas pesquisas eleitorais também não se constituem em maioria. Há uma espécie de “empate técnico” na declaração de voto ou de aferição da opinião pública, entre independentistas e não-independentistas.

Todavia, esta situação não resolve o problema, pode apenas adiar — ao tempo em que alimenta o conflito.

É inexorável a marcha da história rumo a reparação do débito dos espanhóis para com a libertária e republicana Catalunha. A independência urge.

Materialmente, objetivamente, parece impossível tal realização, a independência — porém não o é.

Pelas armas não haverá conquista. A Generalitat não dispõe nem disporá de exército libertador; no mais, sacrificar o povo catalão mais uma vez seria uma tragédia histórica sem sentido.

Há um caminho: ahimsa (não-violência)

Houve um orgulhoso império, que duramente submeteu a um virtuoso povo por quase um século: a dominação britânica na Índia (1858 – 1947).

Militarmente, os indianos não conseguiriam obter a sua independência sobre os poderosos e sanguinários britânicos.

Mas surgiu um homem calmo, paciente, determinado, que traçou uma estratégia de libertação do seu povo, através de uma pequena palavra: ahimsa, que significa não-violência.

Este homem chamava-se Monhandas Gandhi, que seu povo o louvou como Mahatma – Grande Alma, pai da nação.

Que o caminho para a Independência da Catalunha seja assim, por ahimsa (não-violência). Este é o devir histórico. A mudança que virá, não importa o que queiram ou pensem os seus inimigos.

Catalunha não é Espanha.

Viva a Catalunha!

Visca Catalunya!

*Juarez Duarte Bomfim, sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]