Reportagens do Globo e Estadão revelam que Fabrício Queiroz afirmou ter influência em cerca de 500 cargos no Congresso Nacional e que citou gabinete do senador Flávio Bolsonaro

Reportagem do Jornal do Globo apresenta influência política de Fabrício Queiroz no Congresso Nacional.
Reportagem do Jornal do Globo apresenta influência política de Fabrício Queiroz no Congresso Nacional.
Reportagem do Jornal do Globo apresenta influência política de Fabrício Queiroz no Congresso Nacional.
Reportagem do Jornal do Globo apresenta influência política de Fabrício Queiroz no Congresso Nacional.

Cerca de oito meses depois de ser exonerado do gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio, o ex-policial Fabrício Queiroz continua sendo consultado sobre nomeações no Legislativo e admite ainda ter “capital político”, revela reportagem do Jornal O Globo.

Um cópia de áudio que circulou em junho de 2019 na rede social WhatsApp foi obtida pelas reportagens dos jornais o Globo e Estadão. A transcrição do áudio revela que Fabrício Queiroz apresenta influência política no Congresso Nacional, ao sugerir a um interlocutor como proceder para fazer indicações em gabinetes de parlamentares. Na sequência, Fábrico Queiroz cita o gabinete do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).

“O gabinete do Flávio faz fila deputados e senadores lá para conversar com ele. Faz fila. É só chegar: ‘meu irmão, nomeia fulano para trabalhar contigo aí’. Salariozinho bom, para a gente que é pai de família, p* que pariu, cai igual uma uva.”

Procurado pelos veículos de comunicação, Fabrício Queiroz admitiu, por nota, que mantém a influência por ter “contribuído de forma significativa na campanha de diversos políticos no Estado do Rio de Janeiro”. Por nota, Flávio Bolsonaro negou que tenha aceitado indicações do ex-assessor e que mantenha qualquer contato com ele desde o ano passado.

Queiroz é investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro por suposta prática da rachadinha —  quando os servidores comissionados devolvem parte dos salários. Ele esteve no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio entre 2007 e 2018 e, no período, emplacou sete parentes na estrutura.

Transcrição do áudio de Fabrício Queiroz

Tem mais de 500 cargos lá, cara, na Câmara e no Senado. Pode indicar para qualquer comissão ou, alguma coisa, sem vincular a eles (família Bolsonaro) em nada, em nada.

20 continho aí para gente caía bem para c***, meu irmão, entendeu?

Não precisa vincular ao nome. Só chegar lá e, pô cara, o gabinete do Flávio faz fila de deputados e senadores, pessoal para conversar com ele, faz fila.

Só chegar lá e, pô meu irmão, nomeia fulano aí para trabalhar contigo aí, salariozinho bom desse aí, cara, para a gente que é pai de família, cai como uma uva.

Defesa Fabrício Queiroz comenta 

A defesa de Queiroz diz ver “com naturalidade” o capital político de Queiroz. Indicação de eventuais assessores não constitui qualquer ilícito. “A defesa técnica de Fabrício Queiroz vê com naturalidade o fato dele ser uma pessoa que ainda detenha algum capital político, uma vez que nunca cometeu qualquer crime, tendo contribuído de forma significativa na campanha de diversos políticos no Estado do Rio de Janeiro”, diz o advogado Paulo Klein. “Portanto, a indicação de eventuais assessores não constitui qualquer ilícito ou algo imoral, já que, repita -se, Fabrício Queiroz jamais cometeu qualquer ato criminoso.”

Nota de Flávio Bolsonaro

Por nota, o advogado Frederick Wassef que atua na defesa de Flávio Bolsonaro disse que “não é verdade e não procede o que está sendo alegado na suposta gravação que não sei se é Fabrício Queiroz quem  fala ou outra pessoa”. Além disso, segundo ele, “Fabricio Queiroz e Flávio Bolsonaro jamais se encontraram desde o ano passado.  Nunca mais se viram ou se falaram. Jamais neste período, não existe, neste período, qualquer indicação de aproximação ou trabalho de Fabricio Queiroz para Flávio”. Wassef diz que “a gravação deveria passar por perícia da Polícia Federal para garantir sua autenticidade, a comprovação de que é Fabrício Queiroz e que não houve edição ou retirada de contexto da referida gravação”.

Relembre o caso

O Ministério Público quer saber por que Queiroz, de janeiro de 2016 a janeiro de 2017, movimentou em uma conta mais de R$ 1,2 milhão, quantia considerada incompatível com a renda do assessor. Ele trabalhava para Flávio, oficialmente, como motorista.

Em maio, a Justiça do Rio autorizou a quebra de sigilo bancário e fiscal do senador e de Queiroz, atendendo um pedido do Ministério Público Estadual do Rio, junto com famliares de ambos e dezenas de outras pessoas que trabalharam com o então deputado estadual.

Um mês depois, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, suspendeu, a pedido da defesa de Flávio, todos os processos judiciais que tramitam no País onde houve compartilhamento de dados da Receita Federal, do Conselho de Controle de Atividades Financeiras e do Banco Central com o Ministério Público sem uma prévia autorização judicial.

Com a determinação do ministro, todos os casos que tratam do caso ficam suspensos até que o STF decida sobre a questão, incluindo o processo contra Flávio.

Em 30 de setembro, Gilmar Mendes decidiu suspender processos envolvendo a quebra do sigilo de Flávio no caso. A decisão de Gilmar atende ao pedido da defesa do filho do presidente, que alegava que processos que miram Flávio não foram devidamente suspensos, desrespeitando, portanto, a decisão de Toffoli.

Nomeações na ALERJ

Em depoimento, por escrito, entregue ao Ministério Público do Rio em 28 de fevereiro deste ano, Queiroz disse que tinha uma função que “se assemelhava a do chefe de gabinete” e que “tinha a possibilidade de nomear assessores”. No entanto, segundo ele, atuava para “gerenciar as questões relacionadas à atuação dos assessores fora do gabinete do deputado”. Por isso, os funcionários devolviam parte dos salários para ele, o que permitiria supostas contratações de pessoas que não atuavam na Alerj e sim na “base”.

Queiroz se comprometeu a entregar a lista desses funcionários, mas, até o momento, isso não ocorreu. Essas contratações não seguem as regras da Assembleia. Como revelou o GLOBO em agosto, Queiroz conseguiu nomeações para sete parentes no gabinete de Flávio. Esse número inclui a mulher, duas filhas, a enteada, uma ex-cunhada, entre outros familiares.

Além disso, ele admitiu ser o responsável pelas contratações de Danielle Nóbrega e Raimunda Veras Magalhães no gabinete de Flávio Bolsonaro, quando este era deputado estadual. Elas são, respectivamente, ex-mulher e mãe do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega – investigado por ser o líder de uma milícia que atuava na zona oeste do Rio. Danielle ficou nomeada ao longo de dez anos e foi exonerada junto com a ex-sogra em 13 de novembro de 2018.

Em 6 de dezembro do ano passado, conforme o GLOBO mostrou, Queiroz comunicou por Whatsapp a Danielle que ela fora exonerada do gabinete dias antes porque ambos passaram a ser alvo de uma investigação. As apurações sobre rachadinha envolvendo o então deputado estadual começaram a partir de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que apontou movimentações financeiras de R$1,2 milhão entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017.

Dez dias depois da conversa, Queiroz foi para São Paulo iniciar um tratamento de câncer. Ele faltou a todas as convocações do MP e prestou apenas um depoimento por escrito, em fevereiro, no qual admitiu que ficava com parte dos salários dos servidores para supostamente efetuar outras contratações. Depois disso, passou oito meses sem ser visto. Em agosto, a revista Veja divulgou fotos suas no Hospital Albert Einstein, onde faz o tratamento.

Em abril, todos as pessoas que foram funcionários de Flávio na Alerj tiveram o sigilo quebrado em investigação do MP do Rio.O caso, porém, está atualmente suspenso após decisões dos ministros do STF Dias Toffoli e Gilmar Mendes e só será retomado em novembro quando a Corte decidirá sobre o compartilhamento de dados de órgãos de fiscalização como a Receita e o Coaf com investigadores.

*Com informações de Matheus Lara, do Jornal Estado de S.Paulo e de Juliana Dal Piva, do Jornal O Globo.

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