O neoliberalismo não deu certo nos países ditos desenvolvidos | Por Clóvis Roberto Zimmermann

População do Chile protesta contra política neoliberal do Governo de Sebastián Piñera.

População do Chile protesta contra política neoliberal do Governo de Sebastián Piñera.

As recentes ondas de protestos contra as tentativas de implantar medidas neoliberais na América Latina demonstram que esse tipo de política encontra pouca ou quase nenhum apoio popular na região. O grande dilema da América Latina é trilhar caminhos inexistentes nos países ditos desenvolvidos, uma vez que os países centrais não adotam esse tipo de política. O que vemos nesses países é uma consolidação muito robusta de um Estado generosamente atuante em diversas áreas, especialmente na área social. O Estado de Bem-Estar social continua vigoroso, bastante generoso e responsável por um volume considerável de gastos públicos, em torno de 30 por cento dos gastos em relação ao PIB. Assim, a Inglaterra iniciou o ano de 1900 investindo apenas 2,6 % de seu PIB na área social, enquanto que em 2015 os gastos sociais saltaram para 28,6% de seu PIB. Interessante é que na era Thatcher houve um aumento dos gastos sociais nesse país. Enquanto que em 1980, início do governo de Thatcher, a Inglaterra gastava 21,5% do PIB na área social, em 1991, logo após o término do governo, esse país gastava 24,7% do PIB na área social. De lá pra cá tivemos um aumento dos gastos, que hoje representam quase 30% do PIB.

Desde dos anos de 1970 houve um aguçamento da discussão em torno da crise, esfacelamento ou até mesmo do fim do Estado de Bem-Estar social nos países ditos desenvolvidos. Muitas dessas previsões acabaram perdendo rapidamente sua credibilidade, especialmente as que anunciavam o fim iminente do Estado de Bem-Estar social, algo que nunca aconteceu. O fim viria segundo esses ideólogos, sobretudo por conta de constitutivas contradições internas, agudizadas por seu crescimento incontido, além do alerta sobre os efeitos econômicos deletérios da intervenção social estatal. A sugestão neoliberal sempre foi clara, ou seja, diminuir de modo peremptório os gastos sociais para alavancar o crescimento econômico.

Entretanto, as premissas liberais em nada se confirmaram, já que muitas pesquisas recentes confirmam uma grande expansão do gasto social nos países ditos desenvolvidos. Ao comparar níveis de gastos sociais de 1970 na Europa com os atuais, visualiza-se que na França os gastos sociais em relação ao PIB eram de 18,9% em 1970, enquanto que em 2015 esses gastos subiram para 33,9% do PIB.  Ou seja, mesmo com a propagada crise, os gastos sociais quase dobraram, um aumento extraordinário quando a receita neoliberal defendia sua diminuição ou eliminação. A Itália gastava em 1970 em torno de 14,4% de seu PIB em investimentos sociais, passando para 29,9% em 2015.  Na Alemanha e em todos os países da Europa temos tendências semelhantes, ou seja, um aumento exorbitante dos gastos sociais desde a propagada crise do Estado de Bem-Estar social de 1970.

Isso evidencia a completa falácia das expectativas do discurso dos ideólogos liberais, sempre ávidos a diminuir o gasto social ou mesmo eliminá-lo. Friedrich Hayek em seu livro os fundamentos da liberdade de 1960 já alertava para o risco econômico e social de uma redistribuição dos recursos públicos através do Estado de Bem-Estar. Contudo, esses alertas não vingaram nem do ponto de vista econômico, muito menos do ponto de vista político. Desde 1960, os gastos sociais continuaram a subir em todos os países da Europa e nos EUA bem como em grande parte dos países ditos em desenvolvimento. Da mesma forma, estudos demonstram os relevantes impactos desse Estado na diminuição das desigualdades sociais bem como na redução da pobreza.

O grande problema do neoliberalismo é que medidas de corte nos gastos tentem a ser bastante contestadas, seja pelas instituições, seja também pelos eleitores. Em virtude disso Thatcher conseguiu realizar poucas mudanças, aumentando inclusive os gastos. A sobrevivência política foi mais interessante para Thatcher do que seguir fielmente a ideologia neoliberal. Parece que os governos de direita na América Latina não aprenderam a lição. Se continuarem os cortes, os protestos vão aumentar.

*Clóvis Roberto Zimmermann, doutor em Sociologia pela Universidade de Heidelberg, Alemanha e Professor Adjunto de Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). E-mail: [email protected]

Apesar de abrigar apenas 5% da população mundial, os Estados Unidos da América têm 2,3 milhões de pessoas em situação de prisão, ou seja, mais de 25% dos presos do planeta. Dessa população presidiária, 40% é formada por negros, percentual significativo quando considerando que representam apenas 12% da população total dos EUA.

Apesar de abrigar apenas 5% da população mundial, os Estados Unidos da América têm 2,3 milhões de pessoas em situação de prisão, ou seja, mais de 25% dos presos do planeta. Dessa população presidiária, 40% é formada por negros, percentual significativo quando considerando que representam apenas 12% da população total dos EUA.

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About the Author

Clóvis Roberto Zimmermann
O pesquisador Clóvis Roberto Zimmermann é doutor em Sociologia pela Universidade Heidelberg (Ruprecht-Karls) (2004), possui graduação em Teologia pela Universidade de Heidelberg (Ruprecht-Karls) (1996); é professor adjunto do curso de Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), coordenador da pós-graduação em Ciências Sociais da UFBA e é professor do programa de doutorado em Sociologia da UFBA; tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Políticas Sociais, atuando, principalmente, nos seguintes temas: teoria das políticas sociais, participação popular e direitos humanos. *E-mail: [email protected]