EUA: Democratas intimam Governo Donald Trump a entregar documentos sobre Ucrânia

O presidente Donald J. Trump participa de uma reunião bilateral com o presidente da Ucrânia Volodymyr Zalensky na quarta-feira, 25 de setembro de 2019, no InterContinental New York Barclay, em Nova York.
Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zalensky e Donald Trump, presidente dos EUA. Câmara dos Deputados apura se presidente Trump pressionou o presidente da Ucrânia a investigar o rival democrata Joe Biden.
O presidente Donald J. Trump participa de uma reunião bilateral com o presidente da Ucrânia Volodymyr Zalensky na quarta-feira, 25 de setembro de 2019, no InterContinental New York Barclay, em Nova York.
Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zalensky e Donald Trump, presidente dos EUA. Câmara dos Deputados apura se presidente Trump pressionou o presidente da Ucrânia a investigar o rival democrata Joe Biden.

Deputados que conduzem processo de impeachment dizem ter ficado “sem escolha” a não ser a intimação. Carta afirma que governo se recusou a fornecer documentos voluntariamente e acusa presidente de obstruir o inquérito.

Deputados democratas na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos fizeram um requerimento formal exigindo que a Casa Branca entregue documentos que possam lançar luz sobre os esforços do presidente Donald Trump para pressionar a Ucrânia.

A intimação, emitida na noite de sexta-feira (04/10/2019), é a mais recente escalada do inquérito de impeachment que tramita na Câmara contra o chefe de Estado republicano, impulsionado por um telefonema entre Trump e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, em 25 de julho.

A medida vem após vários apelos para que a Casa Branca entregasse esses documentos voluntariamente. A carta – endereçada ao chefe de gabinete interino, Mick Mulvaney – acusa Trump de “obstrução” e diz que os deputados lamentam em ter que intimar o governo, mas “não tiveram outra escolha”.

“A Casa Branca se recusou a se envolver – ou mesmo responder – a vários requerimentos de documentos de nossos comitês de forma voluntária. Após quase um mês de bloqueio, parece claro que o presidente escolheu o caminho da provocação, da obstrução e do encobrimento”, diz o documento dos parlamentares.

Os democratas deram a Trump o prazo de 18 de outubro para que sejam entregues os documentos solicitados. O não cumprimento “constituirá evidência de obstrução ao inquérito de impeachment da Câmara”, afirma a carta. Intimações também foram enviadas ao advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, e ao secretário de Estado americano, Mike Pompeo.

A intimação à Casa Branca foi assinada pelos deputados Adam Schiff, Elijah Cummings e Eliot Engel, presidentes, respectivamente, dos comitês de inteligência, supervisão e assuntos externos da Câmara dos Representantes, que investigam o escândalo.

Eles também exigem documentos relacionados às negociações entre o vice-presidente americano, Mike Pence, e autoridades ucranianas. Uma notificação enviada anteriormente pelo trio citava relatos de que um assessor de Pence teria ouvido a conversa telefônica de 25 de julho entre Trump e Zelensky.

Os deputados ainda querem saber mais sobre uma reunião que Pence teve em 1º de setembro com Zelensky, a fim de esclarecer se o vice-presidente ajudou Trump na pressão contra a Ucrânia.

O chefe de Estado americano está sendo investigado por supostamente ter usado seu gabinete e a ajuda militar americana para pressionar o líder ucraniano a investigar o ex-vice-presidente Joe Biden, pré-candidato democrata à Casa Branca nas eleições presidenciais de 2020.

Segundo a transcrição do telefonema divulgada pela Casa Branca no final de setembro, Trump pede a Zelensky que apure uma suspeita de que Biden, quando era vice de Barack Obama, teria agido para atrapalhar uma potencial investigação contra seu filho Hunter Biden na Ucrânia. O filho do democrata é membro do conselho de uma empresa de gás ucraniana.

“Biden se gabou de ter parado a promotoria, então se você puder dar uma olhada nisso… para mim, parece algo horrível”, afirmou o presidente americano, de acordo com a transcrição. Zelensky assentiu com o pedido para investigar Biden, possível adversário de Trump nas eleições do próximo ano.

Embora o americano não tenha feito nenhuma promessa específica a Zelensky em troca da colaboração, ele disse em diversos momentos que os Estados Unidos “fazem muito pela Ucrânia”. A imprensa americana e a oposição democrata especulam que o republicano montou um cenário de pressão econômica para conseguir a colaboração do ucraniano.

Uma semana antes do telefonema, Trump havia suspendido uma ajuda militar de cerca de 250 milhões de dólares para a Ucrânia, que trava uma guerra em seu território contra forças apoiadas pela Rússia. Em 11 de setembro, mais de um mês após a conversa, a verba foi descongelada.

O presidente americano nega qualquer irregularidade ou que tenha feito algum tipo de pressão econômica sobre Zelensky. No início da semana, ele qualificou como tentativa de “golpe” o inquérito de impeachment contra ele na Câmara.

Trump ainda insiste que Hunter Biden seja investigado. Na última quinta-feira, ele sugeriu que a “China deveria iniciar uma investigação sobre os Biden”. “O que aconteceu na China é tão ruim quanto o que aconteceu na Ucrânia”, disse o presidente a jornalistas na Casa Branca, sem especificar quais seriam as suspeitas envolvendo Biden e seu filho no país asiático.

A intimação vem num momento em que, segundo Trump, a Casa Branca também prepara uma carta – esta para a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, que anunciou a abertura do processo de impeachment. A intenção é impedir que os democratas conduzam um inquérito contra o chefe de Estado sem uma votação oficial sobre o tema no Congresso.

A carta deve afirmar que o governo não cooperará com a investigação na Câmara sem esse voto. “Enviaremos uma carta. Como todos sabem, fomos tratados de maneira injusta, muito diferente de qualquer outra pessoa”, afirmou o presidente.

Trump reconheceu que os democratas, que formam maioria na Câmara, “têm os votos” para iniciar uma investigação formal de impeachment naquela Casa, mas disse estar confiante de que eles não são suficientes para ganhar no Senado, controlado pelos republicanos.

A denúncia

Em meados de setembro de 2019, jornais americanos publicaram reportagens apontando que um delator – cuja identidade ainda não é conhecida – relatava que Trump havia pedido, durante o telefonema com Zelensky, que a família Biden fosse investigada por supostos atos de corrupção na Ucrânia.

Isso motivou a presidente da Câmara dos Representantes, democrata Nancy Pelosi, a abrir, em 24 de setembro, um pedido de impeachment contra Trump, sob a alegação de que, ao supostamente pressionar Zelensky a agir contra um adversário político, o presidente extrapolou os limites de seu cargo para “solicitar a interferência de um país estrangeiro nas eleições de 2020” e obter ganhos eleitorais.

Pelosi afirmou em seu pronunciamento que Trump “violou seriamente a Constituição”, traiu seu juramento presidencial, a segurança nacional americana e a integridade das eleições do ano que vem.

A queixa divulgada pela Casa Branca

Em 25 de setembro, a Casa Branca divulgou um memorando com anotações (não uma transcrição) sobre a conversa entre Trump e Zelensky, feitas por oficiais que a escutaram.

Segundo o documento, Trump diz a Zelensky:

-“Ouvi dizer que você tinha um procurador que era muito bom e foi demitido e isso é muito injusto. Muita gente está falando sobre isso. Houve muita discussão sobre o filho de Biden; que Biden impediu um processo de acusação [contra o filho] e muita gente quer descobrir mais sobre isso, então o que você conseguir fazer a respeito do procurador-geral, seria ótimo. Biden saiu se gabando de que impediu a investigação, então se você puder dar uma olhada nisso… [O caso] Soa terrível para mim.”

Zelensky responde:

-“Vamos cuidar disso e trabalhar na investigação do caso. Além disso, peço gentilmente se você tem alguma informação adicional para nos oferecer; seria muito útil.”

Trump alega que não pressionou Zelensky a agir, nem condicionou isso a nenhuma ajuda militar americana. Ele admitiu ter pessoalmente bloqueado quase US$ 400 milhões em auxílio militar a Kiev alguns dias antes de sua conversa com Zelensky, mas negou que isso fosse para pressioná-lo — e sim para forçar a “Europa e outros países a também contribuírem” com o governo ucraniano.

“Será que os democratas vão se desculpar depois de ver o que foi dito no telefonema com o presidente da Ucrânia? Deveriam, (foi) uma ligação perfeita — peguei eles de surpresa!”, afirmou Trump pelo Twitter naquele dia.

O documento divulgado pelo Congresso

Dois dias depois, porém, em documento tornado público pelo Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes, o primeiro delator do caso afirma que, nos dias seguintes após o famigerado telefonema de 25 de julho entre Trump e Volodymyr Zelensky, “eu soube de múltiplas autoridades americanas que integrantes de alto escalão da Casa Branca haviam intervindo para um ‘lock down’ (ocultamento) de todos os registros do telefonema, especialmente da transcrição palavra por palavra que havia sido produzida, como de costume, pelo Situation Room (sala de conferências e gerenciamento de inteligência) da Casa Branca”.

“Esse conjunto de ações me mostrou que autoridades da Casa Branca entenderam a gravidade do que havia ocorrido na ligação”, prossegue a queixa do delator.

O delator, segundo o documento, afirma que a transcrição do telefonema não foi arquivada no sistema de informática usual da Casa Branca para ligações cotidianas — em vez disso, foi arquivado em um sistema separado, destinado a informações sigilosas.

O delator ressalta que “não foi testemunha direta dos eventos descritos”, mas diz que achou “críveis os relatos por parte dos meus colegas, porque, em quase todos os casos, diversas autoridades relataram (informações) consistentes entre si”.

Trump reagiu pelo Twitter no mesmo dia. “Um delator com informação de segunda mão? Mais uma notícia falsa! (Foi) um telefonema muito bom, sem pressão (contra o presidente ucraniano). Mais uma caça às bruxas”, escreveu.

No dia 3 de outubro, já dentro do inquérito de impeachment que corre no Congresso americano, vieram a público mensagens de texto trocadas entre diplomatas de alto escalão ligados à Ucrânia.

Segundo a CNN, em uma dessas mensagens, Bill Taylor, diplomata sênior dos EUA na Ucrânia, afirma a Gordon Sondland, embaixador americano na União Europeia:

– “Estamos agora dizendo que assistência de segurança e reuniões com a WH [sigla de Casa Branca] estão condicionadas a investigações?”

Sondland apenas responde “me ligue”.

Em outro trecho das mensagens, divulgado pelo New York Times, Bill Taylor diz a Sondland:

– “Como disse por telefone, acho uma loucura reter assistência de segurança [à Ucrânia] em troca de ajuda com uma campanha política.”

Sondland responde:

– “Bill, acho que você está incorreto quanto às intenções do presidente Trump. O presidente foi claríssimo sobre a nenhuma troca de nenhum tipo. O presidente está tentando avaliar se a Ucrânia vai realmente adotar as reformas e a transparência que o presidente Zelensky prometeu durante sua campanha e sugiro que nós paremos essa ida e vinda de textos”.

As mensagens de texto foram entregues ao Congresso por Kurt D. Volker, antigo enviado do Departamento de Estado americano à Ucrânia, que testemunhou perante a Casa legislativa na última quinta-feira.

Os seis comitês legislativos envolvidos nas investigações do processo de impeachment devem ouvir ainda depoimentos de diversos outros diplomatas, incluindo Gordon Sondland.

Além disso, o Departamento de Estado foi intimado a prover mais documentos relacionados ao telefonema de 25 de julho.

As conclusões desses seis comitês podem embasar ou não uma acusação formal contra Trump e uma eventual votação na Câmara por sua remoção.

*Com informações do DW e BBC News Brasil.

Redação do Jornal Grande Bahia
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