Espíritas e católicos em fraterna comunhão | Por João Baptista Herkenhoff

O Diário da alma, escrito por Angelo Roncalli, que em 1958 se tornou papa João XXIII, e publicado após a sua morte, é um diário espiritual íntimo que está nas origens das meditações feitas em seus retiros. É um solilóquio, como ele próprio o chama, utilizando um termo caro a Santo Agostinho. De extrema simplicidade, frustrante para alguns, é o itinerário de uma vida cristã serenamente radicada na Bíblia e numa espiritualidade sacerdotal em que a preocupação principal é o Evangelho vivido. Um texto que é como o fundamento espiritual de ações e decisões que mudaram o rumo da história da Igreja.O 'Diário da alma', escrito por Angelo Roncalli, que em 1958 se tornou papa João XXIII, e publicado após a sua morte, é um diário espiritual íntimo que está nas origens das meditações feitas durante os retiros.
O Diário da alma, escrito por Angelo Roncalli, que em 1958 se tornou papa João XXIII, e publicado após a sua morte, é um diário espiritual íntimo que está nas origens das meditações feitas em seus retiros. É um solilóquio, como ele próprio o chama, utilizando um termo caro a Santo Agostinho. De extrema simplicidade, frustrante para alguns, é o itinerário de uma vida cristã serenamente radicada na Bíblia e numa espiritualidade sacerdotal em que a preocupação principal é o Evangelho vivido. Um texto que é como o fundamento espiritual de ações e decisões que mudaram o rumo da história da Igreja.

O ‘Diário da alma’, escrito por Angelo Roncalli, que em 1958 se tornou papa João XXIII, e publicado após a sua morte, é um diário espiritual íntimo que está nas origens das meditações feitas durante os retiros.

Nasci numa família católica, em Cachoeiro de Itapemirim. Na infância e adolescência respirei um ambiente religioso que não transigia em questões dogmáticas. Só bem adiante é que surgiu João XXIII, o Papa que abriu o diálogo da Igreja Católica com todas as religiões e correntes de opinião.

Vejo na doutrina espírita muita abertura para o próximo, generosidade. Creio que isto é a síntese do Cristianismo. Neste ponto parece-me que podem comungar católicos, espíritas, protestantes e ateus. Incluo seguramente ateus nesta desejada comunhão porque quem ama o próximo, tem paixão pela Justiça, sonha com um mundo de igualdade, esta pessoa vive a essência da Fé porque Fé é vida, e não explicitação verbal. Vejam bem. Eu não desconheço que há aqueles que optam consciente e racionalmente pelo Ateísmo. Respeito esta escolha. Apenas vislumbro a chama da Fé na vida de todo aquele que se consome no amor ao outro, indepentemente de uma subjetiva afirmação teísta.

Se nos debruçarmos sobre os diversos municípios do meu Estado (Espírito Santo) para descobrir, em nossas cidades, instituições que se abrem para o próximo, que se condoem de presos e de prostitutas, que buscam encaminhar crianças, que se dedicam ao cuidado de seres humanos marcados por deficits físicos ou mentais, veremos que muitas dessas instituições, ou a maioria delas, são levadas avante por seguidores do Espiritismo. Acredito que o mesmo fato ocorra em outros Estados do Brasil.

Segundo o relato bíblico, no julgamento final, Jesus Cristo não chamará as pessoas para o lado dos escolhidos, segundo um determinado timbre ou rótulo religioso, mas segundo as obras:

“Vinde a mim, benditos de meu Pai, que me deste pão quando tive fome; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vetistes; enfermo e me visitastes; estava preso e viestes a mim”.

Quando fui juiz de Direito, os desembargadores que melhor entenderam meu trabalho e minhas ações eram espíritas. Cito com reverência dois desses desembargadores: Carlos Teixeira de Campos e Mário da Silva Nunes. Foi graças ao apoio deles que consegui resistir.

Uma decisão que proferi libertando uma pobre prostituta, envolvida com drogas, porque ela seria Mãe, tornou-se nacionalmente conhecida em razão da divulgação dessa sentença pela internet, num site espírita.

Transcrevo a seguir um pequeno trecho do decisório.

“É uma dupla liberdade a que concedo: liberdade para Edna e liberdade para o filho de Edna que, se do ventre da mãe puder ouvir o som da palavra humana, sinta o calor e o amor da palavra que lhe dirijo, para que venha a este mundo tão injusto com forças para lutar, sofrer e sobreviver.

Este Juiz renegaria todo o seu credo, rasgaria todos os seus princípios, trairia a memória de sua Mãe, se permitisse sair Edna deste Fórum sob prisão.

Saia livre, saia abençoada por Deus, saia com seu filho, traga seu filho à luz, que cada choro de uma criança que nasce é a esperança de um mundo novo, mais fraterno, mais puro, algum dia cristão.”

Os espíritas compadeceram-se de Edna e entenderam porque o juiz a libertou, ainda que, naquele momento histórico (1976), fosse a droga considerada, mesmo o simples consumo, um crime gravíssimo. Através de flagrantes de droga foram colhidos pela rede das prisões muitos opositores do regime político então vigente.

*João Baptista Herkenhoff ([email protected]), 83 anos, juiz de Direito aposentado e escritor.

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About the Author

João Baptista Herkenhoff
João Baptista Herkenhoff possui graduação em Direito pela Faculdade de Direito do Espírito Santo (1958) , mestrado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1975) , pós-doutorado pela University of Wisconsin - Madison (1984) e pós-doutorado pela Universidade de Rouen (1992) . Atualmente é PROFESSOR ADJUNTO IV APOSENTADO da Universidade Federal do Espírito Santo. Contato: Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas, Departamento de Direito. Avenida Fernando Ferrari, 514 | Goibeiras 29075-910 - Vitoria, ES - Brasil | Home-page: www.jbherkenhoff.com.br |E:mail: [email protected] | Telefone: (27)3335-2604