Experiências de transformação pela literatura são compartilhadas pelo ator Lázaro Ramos com estudantes de Feira de Santana

Ator Lázaro Ramos participa de Tertúlia Cultura com estudantes de Feira de Santana.
Ator Lázaro Ramos participa de Tertúlia Cultura com estudantes de Feira de Santana.
Ator Lázaro Ramos participa de Tertúlia Cultura com estudantes de Feira de Santana.
Ator Lázaro Ramos participa de Tertúlia Cultura com estudantes de Feira de Santana.

A arte transforma tudo à nossa volta. Nos educa, nos conecta com as demais pessoas, nos iguala e nos dá esperança de que a vida pode ser melhor. Muitas vezes também proporciona encontros enriquecedores com pessoas que de longe e de longa data admiramos.

Encontros exatamente como o que aconteceu numa terça-feira deste último julho – mais precisamente no dia 9 de julho de 2019, numa semana de clima mais ameno em Feira de Santana. Naquela tarde, o ator e escritor Lázaro Ramos compartilhou suas impressões de vida e da arte com estudantes, professores, artistas e ativistas culturais da cidade.

A chegada – muito bem guardada em segredo pelo professor Eduardo Brito Correia, diretor do Colégio Estadual Governador Luiz Viana Filho, localizado no bairro Cidade – só foi informado à comunidade escolar poucas horas antes da chegada do escritor. Os estudantes, maiores partícipes da Tertúlia Cultural, só viriam saber da presença ilustre do ator baiano exatamente na hora em que Lázaro adentrava o colégio.

O motivo era mesmo cheio de valor: levar àquele espaço onde a educação de fato acontece apenas as pessoas realmente interessadas em contribuir para o fomento da arte, da literatura e da sua discussão no âmbito escolar. Afinal, quem estaria presente ao evento era muito mais o escritor Lázaro Ramos que o ator da Rede Globo, alçado à fama por papeis que enchem de orgulho todo baiano – ora pelo retrato tão fiel à nossa gente ora pela generosidade de seu talento.

É dele as interpretações de Roque, no famoso Ó pai Ó; de Ezequiel e de João Francisco dos Santos, nos premiados Carandiru e Madame Satã, respectivamente. Isto no cinema. Dentre os papeis da TV, destaque para Foguinho, que caiu nas graças do público, e que lhe valeu uma indicação ao Emmy, prêmio internacional, por sua interpretação na novela Cobras & Lagartos. Para citar algumas das suas dezenas de personagens tão aprovadas pela crítica e mencionar seu talento mais facilmente reconhecido pelo público em geral – o ofício de ator.

O múltiplo Lázaro Ramos

Mas, Lazinho, como é carinhosamente chamado pelos amigos mais próximos, é também cineasta, apresentador e escritor – este último talento desenvolvido desde o ano 2000, quando lançou seu primeiro livro. E é exatamente pelo alcance e repercussão da sua última obra, “Na Minha Pele”, lançada em 2017, que Lázaro Ramos tem tido uma relação cada vez mais próxima com o mundo da literatura e da educação, volta e meia falando para estudantes e professores.

Generoso e extremamente engajado com questões sociais, o ator havia aceitado o convite do professor Eduardo Brito Correia para conhecer o colégio desde o encontro que os dois tiveram num evento em Salvador, ano passado. Sobravam motivos, pois no Colégio Estadual Governador Luiz Viana Filho a literatura e outras expressões culturais viraram pautas prioritárias, paixão cultivada por vários professores.

Voltemos àquela tarde gostosa e aconchegante de julho em Feira de Santana. Durante o bate-papo e visita às instalações – período em torno de três horas – o ator falou de quase tudo. O desafio de vencer as dificuldades que marcam a vida da grande maioria dos brasileiros de origem humilde e afrodescendente foi abordado mais de uma vez, pois o escritor tratou também de motivar os estudantes a acreditarem em seus sonhos. Usou seu exemplo para deixar claro que a vida de quem aparece na televisão nem sempre foi um mar de rosas.

Ao citar Feira de Santana, o ator rememorou a infância – período em que viajava com seus pais, via BR-324, para São Francisco do Conde, cidade de origem da família. “Naquela época, não sabia que poderia vir para Feira ou mesmo fazer uma viagem mais longa do que ao lugar que minha família tinha acesso; não sabia que as pessoas podiam viajar para qualquer lugar”, confessou Lázaro meio emocionado ao falar de uma época tão importante da vida.

“De repente, pegar a BR-324 hoje e vir a Feira – tantas memórias me vêm à mente. Chegar então a uma escola pública com tanta vida, encontrar professores comprometidos… vejo uma alegria nessa recepção, na cara de vocês, estudantes interessados, curiosos… enfim, fico muito feliz”, comemorou o ator.

Protagonista negro

O baiano estava tranquilo, sorridente e aberto ao público. Realmente não se parecia com os atores que vêm a eventos com tempo restrito e quase que indisfarçadamente contam minutos para irem embora, em leves acenos à produção.

Falou da sua relação com a TV, o cinema, as personagens e da sua paixão e dedicação pelo ofício de interpretar. “Ser protagonista tem um peso enorme, vocês não fazem ideia, tem cobrança, mas ao mesmo tempo é um privilégio por que é um lugar que eu sei que poucas pessoas tiveram oportunidade de experimentar. E eu fico desejando que mais pessoas tenham essa chance”, defendeu.

Dedicação x emoção

Entusiasmado, ele contou que a emoção dispensada quando está atuando é visceral. “Tudo que faço tem um pedacinho de mim… Mesmo que mude a voz – ‘ó paí ó!’ – coloque algo mais. Pra mim, é inevitável, eu só consigo fazer as coisas com alma, com muito sentimento”, atestou.

Lázaro Ramos disse que sua profissão “parece o trabalho da mentira por que eu ‘tô’ vivendo uma pessoa que não sou eu, dizendo coisas que não diria, mas no fundo faço com muita verdade por que acho que o público merece, quem me assiste merece. Merece consideração, merece que eu compartilhe a minha emoção. Então, ofereço a ele a melhor sensação possível”. Para tanto, o ator confessou que numa cena de comédia ou de emoção, “se rasga todo para que aquilo represente o sentimento das pessoas”.

Paixão pela arte e pela literatura

Em sua fala, o escritor procurou ainda despertar na comunidade escolar o verdadeiro sentido da arte. Ressaltou que as expressões artísticas são resposta também para tudo de ruim que a vida às vezes nos expõe. “A arte não pode mudar todas as mazelas do mundo, mas continua sendo uma resposta por que ela é transformadora, tem um poder tão grande em todas as áreas – nos traz saúde. A gente ouve uma música e fica mais feliz; assiste a um filme, a uma peça de teatro, chora com o personagem e se livra de alguma dor. Andando nas cidades, encontra-se um artista de rua que oferece sua arte, isto é patrimônio”, reverenciou.

Ao falar do livro “Na minha pele”, Lázaro Ramos contou que resolveu escrever “por que queria que o mundo prestasse atenção aos dados sobre desigualdade racial no Brasil. Fui motivado por uma pesquisa do Instituto IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada. Primeiro apenas analisei os dados, mas me dei conta que o livro ficou muito frio. E entendi que tinha que colocar algo da minha história nele, fui descobrindo coisas que não tinha coragem de expor antes, talvez não quisesse mesmo enxergar”, confessou o escritor.

Apaixonado, ele também se emocionou ao falar da mãe, Célia Maria, citada no início do livro. Empregada doméstica, lembrada por sua firmeza, alegria e senso de humor, Célia faleceu de uma doença rara, quando o ator tinha apenas 17 anos. “Ela já não está aqui comigo, virou estrelinha – acho que esta é uma dor que eu nunca vou superar! E poder escrever para ela me emociona muito por que nessa conversa saem coisas que de repente a gente nunca teve oportunidade de dizer”, emociona-se Lázaro com a recordação. “O livro ajudou a compensar um pouco”, contou.

Escola pública é lugar sagrado

Questionado sobre o momento político enfrentado pelo país – marcado pela aridez social e o poder que exercem os artistas nos protestos cidadãos – Lazinho disse que “é extremamente necessário, cada vez mais, continuar produzindo, criando, fazendo e cuidando da saúde, não podemos adoecer”, recomendou.

Neste sentido, encorajou os estudantes a valorizarem a escola. “A escola pública é um patrimônio do país, de uma cidade; deveria ser tão bem cuidada quanto são as praças públicas em período de eleição. Isto por que a escola representa o ambiente de transformação da sociedade, todo mundo teve um professor que mudou sua vida, de quem lembra pra sempre. Então, o professor deveria ser o profissional mais valorizado do país. Esta é uma relação que a gente nunca mais vai esquecer”, disse dirigindo-se diretamente aos adolescentes. “É esta relação que vai formar vocês, sua identidade. Este é um lugar sagrado, vivo, criativo, que movimenta a sociedade”, destacou recordando uma professora que o acompanhou em Salvador.

Atividades no artista

Um homem sensível e ao mesmo tempo consciente do seu papel pela construção de um mundo melhor. Foi exatamente esta impressão que nos deixou Lázaro Ramos neste contato generoso, naquela tarde em Feira de Santana. Além do bate-papo, mostrou-se ainda educado, interessado e disponível. Viu os trabalhos artísticos, abraçou jovens, adolescentes e crianças. Trocou impressões e elogiou os professores, tirou fotos com o pessoal da escola.

Falou das suas várias atividades e deixou claro que um artista do seu quilate não trabalha apenas quando está na tela da TV ou do cinema. Em bom baianês resumiu: “fico muito agoniado quando estou parado. Então, eu tenho que fazer alguma coisa, fico anotando ideias no meu celular”, soltou (rsrs!).

Agora mesmo o ator acabou de dirigir um filme – “Medida Provisória”, que será lançado ano que vem, sua estreia como diretor de cinema. “Neste momento, ‘tô’ escrevendo mais um livro infantil e pensando em fazer mais uma peça”.

Saudades da Bahia

Lázaro Ramos mora no Rio de Janeiro. Perguntado sobre a saudade da Bahia, foi mais uma vez um entusiasta! “Menina, sinto falta de tudo – de quando a gente sai do aeroporto e vê aqueles bambus, do tipo de lazer que só Salvador oferece. Lugares que eram uma borracharia e de repente viram uma boate; sinto falta do acarajé, do amendoim cozido, que as pessoas de fora nem sabem o que é – risos!!! Do vatapá, afff, muita coisa”, brincou. “Não que o Rio de Janeiro não me trate bem, mas tem algo dos lugares que a gente ia que faz falta pra sempre”, resumiu.

A arte existe por que a vida em si não basta

No Colégio Estadual Governador Luiz Viana Filho, educação, cultura e esporte são indissociáveis. A aposta do professor Eduardo Brito Correia é clara: “entendemos que é somente através destes três elementos centrais da vida que podemos mudar a sociedade. Este é o caminho – além da educação, nos valemos dos recursos da cultura e do esporte para ‘empoderar’ os estudantes e impulsionar a sociedade”, argumenta.

A bem da verdade, a visita do escritor Lázaro Ramos não deixou de ser regada pela fama que acompanha o ator, mas o contato com a arte, a literatura e a música, no fundo, são praticamente lugares comuns na escola. Tanto é que a Tertúlia Cultural foi extremamente prestigiada por convidados da cena artística feirense, todos muito bem habituados com a rotina cheia de vida e de arte da escola.

Participaram do momento a escritora e professora de Literatura da Universidade Estadual de Feira de Santana, Alana Freitas El Fahl; o ator e diretor teatral, Roberval Barreto; o poeta Zecalu; além de jornalistas, professores e entusiastas da cena cultural.

Nos trabalhos anteriores, a tônica tem sido explorar com frequência e riqueza de detalhes a obra dos artistas de Feira de Santana. O fomento à leitura é também parte do projeto político-pedagógico da escola, levado a sério desde o início do ano. “Queremos que nossos estudantes se reconheçam nas produções locais, que se vejam. Além do mais, queremos revelar o talento deles por que, como disse o poeta Ferreira Gular, ‘a arte existe por que a vida em si não basta’. Então, tratamos de proporcionar também o encantamento”, destaca, animado.

De acordo com Eduardo, o colégio não tem verba pública específica para a compra de livros de literatura, mas se vira como pode. “Tratamos de economizar recursos das verbas destinadas a outros materiais. Com uma boa economia, podemos adquirir os livros”, conta. No caso do trabalho com o livro de Lázaro Ramos, foram adquiridos 60 exemplares.

O que toca a minha pele?

Nas salas de aula do Ensino Fundamental II e Médio, o livro “Na minha pele” virou provocação e recurso para mexer naquilo que muitas vezes escondemos por medo ou por um mero receio de encarar a realidade. O problema é que estas escapadas da vida acabam resultando em frustrações que, ora pequenas, ora maiores, podem desencadear bloqueios criativos, timidez, falta de perspectiva, de interesse e paixão pela vida, etc.

Ao perceber esta ponte com a abordagem do livro, as professoras Ilnara Brandão, de História e Filosofia, e Maria Alessandra Públio dos Santos, de Literatura e Produção Textual, resolveram instigar os estudantes a exporem suas experiências.

Afinal, o que toca a minha pele??? A partir das reflexões trazidas pelo autor, os adolescentes e jovens partiram numa busca introspectiva pelas respostas incômodas. “Nossa! O resultado foi surpreendente – eles foram muito além do racismo. Tivemos relatos ricos que apontam para situações típicas do bullying, violência, agressão, uso de álcool na família, conflitos no lar e até mesmo a depressão causada pelo bullying”, avalia a professora Ilnara Brandão.

Se num primeiro momento a provocação do livro e das professoras ecoou num plano íntimo, aos poucos os estudantes foram se soltando. “Quando se libertaram, eles falaram da vida – das dores, dos sofrimentos, realmente se viram nesse universo que são as emoções muitas vezes caladas”, conta Alessandra. Na visão da professora, os recortes literários produzidos revelaram histórias de vida sofridas e tantas vezes omitidas. “Histórias que clamam por valorização e reconhecimento dos outros. ‘Será que algum dia terão orgulho de mim?’ Eles fazem seus questionamentos, muitas vezes cheios de mágoas”, relata.

Desses recortes, saíram trechos de vida densos, provavelmente resultados de conflitos nunca conversados, quase sempre escondidos no âmago da infância: “Minha mãe escolheu a mim. E para que eu nascesse, ela morreu”, soltava um. Noutro: “Quando minha inocência foi tocada, me senti destruída. Por dentro e culpada por aquilo ter acontecido”, revelava outra.

Na área de História, os estudantes traçaram um paralelo entre a abordagem do livro e a história do continente africano, contada sempre a partir da visão eurocêntrica no Brasil. “Tratamos de investigar como eram aqueles reinos antes da chegada dos europeus; pesquisando seu progresso, desmistificando a ideia de continente selvagem, explica Ilnara Brandão.

Para isso, os estudantes fizeram descobertas sobre o avanço do conhecimento naquelas nações, encontrando exemplos reais como o cálculo matemático usado na construção das pirâmides; o conhecimento da anatomia para a mumificação, etc. “Enfim, fomos reconhecer a África e seu povo a partir do seu desenvolvimento”, destaca. Isso nos levou a um patamar ainda mais importante: este em que os estudantes negros e negras possam se reconhecer como povo, tendo orgulho da sua gente. Este é um princípio de igualdade e de equidade que marca a nossa ascendência”, defende a professora. A partir das reflexões e referências, os alunos construíram dioramas sobre a África – maquetes feitas à mão para representar o resultado da pesquisa.

A riqueza dos trabalhos, relatos e a participação dos estudantes despertaram ainda mais o interesse e a admiração de Lázaro Ramos, que certamente voltou ao Rio de Janeiro levando na bagagem mais um extraordinário exemplo da excelência e da grandiosidade da escola pública brasileira.

*Reportagem de Lineia Fernandes.

Ator Lázaro Ramos participa de Tertúlia Cultura com estudantes de Feira de Santana.
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