Reportagem do ICIJ revela nova extensão do milionário esquema de propinas pagas pelo Grupo Odebrecht através da execução de obras públicas em países da América Latina

Reportagem do ICIJ revela que 'Vazamento expõe milhões de dólares em novos pagamentos no escândalo de dinheiro por contrato da Odebrecht'.

Reportagem do ICIJ revela que ‘Vazamento expõe milhões de dólares em novos pagamentos no escândalo de dinheiro por contrato da Odebrecht’.

O Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) publicou nesta terça-feira (26/06/2019) extensa reportagem com título ‘Vazamento expõe milhões de dólares em novos pagamentos no escândalo de dinheiro por contrato da Odebrecht’. A matéria revela casos não relatados de subornos pagos pelo Grupo Odebrecht à novas personalidades, através da execução de obras públicas de grande porte na América Latina, que não foram mencionados, até a presente data, nos processos criminais ou outros inquéritos oficiais. A reportagem tem por base 13 mil documentos do sistema de gerenciamento de dados Drousys, pertencente a Odebrecht, cuja finalidade era realizar parte do controle da propina paga pela companhia.

Em síntese, os registros vazados revelam pagamentos secretos da Odebrecht realizados em vários países e em diversas obras, conforme observa-se a seguir:

— Termelétrica de Punta Catalina: mais de US$ 39 milhões em pagamentos secretos da Odebrecht feitos em conexão com a gigante usina termelétrica de Punta Catalina, na República Dominicana. Duas investigações oficiais sobre esse projeto, que alegaram não encontrar nenhum crime, não mencionam esses pagamentos;

— Gasoduto peruano: 17 pagamentos totalizando mais de US$ 3 milhões relacionados a 1 gasoduto peruano. Entre aqueles programados para receber pagamento, estava uma empresa pertencente a 1 político peruano que, em uma gravação não relacionada e recentemente transmitida por uma estação de notícias local, deu a entender que planejava assassinar 1 adversário;

— Metrô de Quito: e-mails discutindo pagamentos secretos que 1 banco de propriedade de operadores da Odebrecht fez para empresas de gaveta relacionados à construção de 1 sistema de metrô de US$ 2 bilhões na capital do Equador, Quito. Os documentos não dizem quem recebeu o dinheiro;

— Metrôs de Caracas e da Cidade do Panamá: pagamentos relacionados a mais de uma dúzia de outros projetos de infraestrutura em países da região, incluindo mais de US$ 18 milhões ligados ao sistema de metrô na Cidade do Panamá e mais de US$ 34 milhões ligados à Linha 5 do sistema de metrô em Caracas, Venezuela.

Para revelar a dimensão do esquema noticiado pelo ICIJ, observa-se que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos da América (EUA), ao analisar o caso de corrupção envolvendo o Grupo Odebrecht, verificou que se tratava do “maior caso de propina estrangeira da história”.

Possível omissão

Reportagens do The Intercept Brasil e da Folha de S.Paulo, divulgadas a partir de 9 de junho e reunidas sobre o tema ‘as mensagens secretas da Lava Jato (#VazaJato)’, indicam que é possível que o, à época juiz Sérgio Moro e os procuradores membros da Força-tarefa do Caso Lava Jato tivessem omitido propositadamente a extensão do esquema de corrupção do Grupo Odebrecht.

Matérias publicadas pelo Jornal Grande Bahia indicam uma preocupação da força-tarefa do Caso Lava Jato com o sigilo dos dados do sistema Drousys. A este fato pregresso, acrescenta-se que as troca de mensagens realizadas entre o então membro do Poder Judiciário e membros do MPF, divulgas pelo The Intercept e Folha, evidenciam possível tentativa de proteger políticos que faziam oposição ao Governo Rousseff e a liderança política do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP).

Tradução

Redigida em inglês com versão em espanhol, com título original ‘Leak Exposes Millions of Dollars in New Payments In Odebrecht Cash-for-Contracts Scandal’, a reportagem do ICIJ sobre o esquema de corrupção do Grupo Odebrecht é disponibilizado pelo Jornal Grande Bahia (JGB) com a tradução para o idioma português.

Confira a reportagem ‘Vazamento expõe milhões de dólares em novos pagamentos no escândalo de dinheiro por contrato da Odebrecht’

Quando a construtora brasileira Odebrecht S.A. admitiu em dezembro de 2016 um esquema maciço de corrupção que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos descreveu como o “maior caso de suborno estrangeiro na história”, desencadeou uma onda de escândalos políticos na América Latina.

Governos tombaram. Ex-presidentes e outros altos funcionários, juntamente com os executivos da Odebrecht, foram dos cômodos do poder às celas de prisão. A Odebrecht confessou uma contabilidade detalhada de seus crimes e está cooperando com promotores de toda a região que prometeram levar seus colaboradores à justiça.

Mas a confissão da Odebrecht não contou a história toda.

A Divisão de Suborno, nova investigação liderada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, revela que a operação caixa-a-contrato da Odebrecht foi ainda maior do que a empresa reconheceu e envolveu figuras proeminentes e projetos de obras públicas não mencionados nos processos criminais ou outras investigações oficiais até o momento.

Essas descobertas foram feitas em uma nova lista de registros vazados de uma divisão da Odebrecht criada principalmente para gerenciar os subornos da empresa. Os registros foram obtidos pela organização noticiosa equatoriana La Posta e compartilhados com o ICIJ e 17 parceiros de mídia nas Américas. Os registros vazados revelam pagamentos ocultos em toda a região que se estendem muito além do que foi publicamente reportado, incluindo:

Mais de US $ 39 milhões em pagamentos secretos da Odebrecht feitos em conexão com a gigante usina a carvão de Punta Catalina, na República Dominicana. Duas investigações oficiais sobre o projeto que informaram que não encontraram nenhum delito não mencionaram esses pagamentos.

Dezessete pagamentos, totalizando mais de US $ 3 milhões, relacionados a um gasoduto peruano. Entre as pessoas indicadas para receber pagamento estava uma empresa pertencente a um político peruano que, em uma reportagem não relacionada recentemente divulgada por uma estação de notícias local, apareceu para planejar o assassinato de um rival.

E-mails discutindo pagamentos secretos que um banco de operários da Odebrecht fez a empresas-fantasmas relacionadas à construção de um sistema de metrô de US $ 2 bilhões para a capital do Equador, Quito. Os documentos não dizem quem recebeu o dinheiro.

Pagamentos relacionados a mais de uma dúzia de outros projetos de infraestrutura em países da região, incluindo mais de US $ 18 milhões ligados ao sistema de metrô na Cidade do Panamá e mais de US $ 34 milhões conectados à Linha 5 do sistema de metrô em Caracas, Venezuela.

A Odebrecht liquidou funcionários públicos em tal escala que criou uma unidade especial, a Divisão de Operações Estruturadas, com o objetivo principal de administrar subornos. Os arquivos obtidos pela La Posta e ICIJ contêm mais de 13.000 documentos que haviam sido armazenados por essa divisão em uma plataforma secreta de comunicações conhecida como Drousys. Esses arquivos foram obtidos separadamente pela agência de notícias equatoriana Mil Hojas, que se juntou ao projeto.

No Brasil, epicentro do escândalo, o ex-presidente de dois mandatos Luiz Inácio Lula da Silva, descrito por Barack Obama como “o político mais popular do mundo”, ocupa uma prisão que cumpre pena por corrupção e corrupção, inclusive a Odebrecht. delitos conexos. Em 17 de junho, a Odebrecht anunciou que pedia falência para reestruturar US $ 13 bilhões em dívidas.

Por mais de quatro meses, o ICIJ trabalhou em parceria com mais de 50 jornalistas em 10 países para investigar os livros contábeis da divisão de suborno da Odebrecht.

Em uma declaração ao ICIJ, a Odebrecht afirmou estar comprometida com a total cooperação com as autoridades que investigam a corrupção associada à empresa. “A Odebrecht continuará empenhada em um processo de colaboração irrestrita com as autoridades competentes”, afirmou a empresa.

A empresa se recusou a responder a perguntas sobre casos individuais.

Por que alguns casos de corrupção permaneceram escondidos?

O escândalo da Odebrecht tem sido um persistente terremoto político que sacudiu a América Latina.

Revelações sobre pagamentos ilegais derrubaram governos no Brasil e no Peru e levaram à prisão de ex-presidentes dos dois países. Em toda a região, os promotores registraram um fluxo constante de denúncias de funcionários públicos e de outros, à medida que novos destinatários do suborno são descobertos.

Os escândalos de corrupção em torno da Odebrecht provocaram inúmeros protestos em toda a América Latina, incluindo a manifestação de 2017 na República Dominicana.

Mas os arquivos vazados deixam claro que a rede de corrupção da Odebrecht se estende a muitos projetos de obras públicas e figuras públicas que não foram abordadas pela lei, levantando questões sobre se a Odebrecht foi totalmente sincera com as autoridades e sobre a vontade política de alguns promotores de perseguir. casos.

Carlos Pimentel, diretor-executivo do grupo dominicano anticorrupção Participación Ciudadana, disse que a corrupção associada à usina dominicana e a inadequação da resposta do governo mina a credibilidade das instituições políticas do país.

“Há um sistema de cumplicidade no país para o enriquecimento de uma minoria, nos setores público e privado, com base no empobrecimento da maioria”, disse Pimentel. “É o que o caso da Odebrecht deixou.”

O desmascaramento das práticas corruptas da empresa também causou revolta política, provocando revolta contra políticos estabelecidos e alimentando a crescente instabilidade.

“Quando todos os partidos tradicionais são deslegitimados, isso abre muito espaço para um populista insurgente”, disse Yascha Mounk, um cientista político da Universidade Johns Hopkins que estuda o declínio global da democracia liberal.

Depois que o Brasil da Silva foi impedido de concorrer à presidência por causa de sua condenação, os eleitores decidiram eleger um ex-oficial militar ultraconservador, Jair Bolsanaro, que protestou contra as elites corruptas e que uma vez disse que a ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1985 deveria ter matou 30.000 pessoas a mais.

Os arquivos vazados também revelaram o papel desempenhado pelo obscuro mundo das finanças offshore, que tornou possível a divisão de suborno da Odebrecht. Embora os beneficiários do suborno estivessem quase todos na América Latina, os pagamentos fluíam invariavelmente através de um arquipélago secreto de empresas de fachada e contas bancárias offshore.

É incompreensível até mesmo entender como isso aconteceu por tanto tempo

– Shruti Shah, Coalizão pela Integridade

Entidades offshore opacas canalizaram centenas de milhões de dólares em pagamentos secretos através de empresas e bancos em países ao redor do mundo, incluindo Estados Unidos, China, Suíça, Holanda, Emirados Árabes Unidos, Panamá e Antigua. Em um exemplo, os pagamentos passaram da Odebrecht através de uma empresa constituída nas Bahamas para uma com um endereço na República Dominicana, que mais tarde comprou um apartamento de US $ 2 milhões no centro de Manhattan.

Ao todo, a Odebrecht pagou mais de US $ 788 milhões em propinas entre 2001 e 2016, resultando em US $ 3,3 bilhões em benefícios ilícitos, de acordo com o Departamento de Justiça dos EUA.

“É incompreensível até mesmo entender como isso aconteceu por tanto tempo”, disse Shruti Shah, presidente e CEO da Coalition for Integrity, um grupo sem fins lucrativos com sede em Washington que defende controles mais rígidos para conter a corrupção nos negócios e no governo.

Ascensão da Odebrecht

A Odebrecht foi fundada em 1944 por Norberto Odebrecht, descendente de imigrantes alemães do século XIX, na cidade portuária de Salvador da Bahia. Seu pai era dono de uma empresa de construção que foi fechada sob pressão dos altos preços dos materiais em tempo de guerra.

Ao longo das décadas, a Odebrecht tornou-se a maior construtora da América Latina, e os governos de toda a região confiaram nela para realizar importantes obras públicas, desde barragens a rodovias até usinas elétricas.

A empresa atribui seu sucesso a um elevado conjunto de “princípios, conceitos e critérios”, denominado Tecnologia Empresarial Odebrecht, desenvolvido pelo seu fundador. Esses princípios incluem “Educação pelo Trabalho”, “Parceria entre os Membros” e “Confiança nas Pessoas”. Sua liderança se manteve na família Odebrecht, com sua presidência passando de Norberto para seu filho, Emilio, em 1991, e seu neto, Marcelo, em 2009.

Sob a liderança de Marcelo, um executivo magro e de óculos conhecido como “O Príncipe”, as receitas anuais da empresa dispararam, de US $ 17,5 bilhões em 2008 para US $ 45,8 bilhões em 2014. Concorrendo com êxito para projetos de grande sucesso – incluindo o gasoduto de US $ 7 bilhões no Peru, a usina a carvão dominicano de US $ 2 bilhões e o sistema de metrô de US $ 2 bilhões em Quito – a Odebrecht solidificou seu status de empreiteira dominante na América Latina e tornou-se uma das maiores empreiteiras do mundo.

A Odebrecht se beneficiou de laços estreitos com o influente presidente brasileiro da Silva, cuja administração recorreu à empresa para realizar projetos de infraestrutura que faziam parte de sua ambiciosa agenda de combate à pobreza e ao desenvolvimento.

Mas o rápido crescimento da empresa sob Marcelo Odebrecht também foi impulsionado por outro fator: o enxerto em massa.

A escala da operação de suborno da Odebrecht tornou-se tal que, em 2006, a empresa criou uma unidade especializada para gerenciá-la. A Divisão de Operações Estruturadas “funcionava efetivamente como um departamento de suborno”, de acordo com uma declaração de fatos que a empresa reconheceu ser “verdadeira e precisa” como parte de seu acordo judicial com o Departamento de Justiça dos EUA. Todos os pagamentos da unidade estavam fora dos livros, o ex-tesoureiro da divisão, Fernando Migliaccio, iria mais tarde testemunhar para os promotores peruanos e, portanto, ilegal.

No entanto, nem todos os pagamentos da divisão foram subornos, disse a empresa.

“Diversas obras da empresa estão registradas nesses sistemas”, disse a divisão peruana da Odebrecht em uma declaração de julho de 2018, em referência à Drousys e outra plataforma off-books usada pela unidade de Operações Estruturadas. “Isso não significa que todos eles envolvam corrupção ou suborno.”

Por dentro da divisão de suborno

A Divisão de Operações Estruturadas combinou a dissimulação de uma conspiração criminosa com a burocracia dos grandes negócios.

Para se comunicar secretamente, a divisão de suborno criou o sistema Drousys, uma plataforma off-book que inclui e-mails seguros e mensagens instantâneas.

Os funcionários da Odebrecht e os destinatários do suborno são referenciados apenas por nomes de códigos, muitos dos quais ainda precisam ser decifrados. Os funcionários usam nomes como “Gigo” e “Waterloo”, enquanto que os destinatários geralmente recebem nomes mais coloridos, como “Bambi”, “Robocop”, “Darth Vader” e “Stalin”.

Os documentos incluem discussões francas e explícitas sobre como garantir o sigilo do sistema. Uma sequência de e-mails é uma discussão sobre a necessidade de dividir pagamentos multimilionários em incrementos menores para evitar que os bancos fiquem desconfiados.

Também existem planilhas que rastreiam os pagamentos da divisão de suborno. Um lista mais de 600 desembolsos totalizando mais de US $ 230 milhões emitidos a partir do final de 2013 até 2014.

Entre os projetos que os pagamentos secretos da unidade ajudaram a direcionar para a Odebrecht, revelam as investigações criminais, estava o sistema de trânsito rápido em Lima, no Peru; uma represa no estado de Michoacán, México; e um projeto de energia hidrelétrica no Equador.

O sistema de corrupção da Odebrecht foi finalmente derrubado por promotores brasileiros na famosa investigação anticorrupção chamada Operação Lava Jato. Lançada em março de 2014, a investigação inicialmente se concentrou em lavagem de dinheiro em pequenas empresas, como lavagens de carros, mas se expandiu quando o dinheiro sujo levou os investigadores a uma enorme conspiração envolvendo subornos e buscas envolvendo a Petrobras, a Petrobras e a Odebrecht.

Em junho de 2015, autoridades brasileiras investigando suborno, manipulação de licitações e superfaturamento de contratos estaduais prenderam Marcelo Odebrecht. Em março de 2016, um tribunal brasileiro condenou-o a 19 anos de prisão, que mais tarde foi reduzido e convertido em prisão domiciliar em troca de sua cooperação com as autoridades.

Em dezembro de 2016, a empresa Odebrecht chegou a um acordo judicial com promotores do Brasil, dos EUA e da Suíça, os dois últimos países aderiram ao caso ao constatarem que os pagamentos ilegais da empresa haviam passado pelos bancos suíços e norte-americanos. A empresa evitou a acusação ao consentir em uma declaração pública detalhada de seus crimes e concordou em pagar uma multa de US $ 2,6 bilhões.

A “declaração de fatos” de 23 páginas do acordo estabelece detalhadamente a criação da Divisão de Operações Estruturadas e sua finalidade. A Odebrecht admitiu que a divisão canalizou fundos de curto prazo para empresas offshore e bancos baseados em refúgios de sigilo financeiro, às vezes usando contratos fictícios para cobrir suas operações. O dinheiro acabou sendo usado para pagar propinas a políticos, outros funcionários públicos e partidos políticos.

Como parte das divulgações obrigatórias, a Odebrecht entregou documentos do Ministério Público, incluindo planilhas de rastreamento de pagamentos ocultos, declarações de contas bancárias no exterior, e-mails, registros de transações, contratos e registros de computadores, todos armazenados em seu sistema Drousys.

As revelações da Odebrecht provocaram indignação e agitação em toda a América Latina. A prisão do ex-presidente brasileiro Lula por acusações relacionadas à Odebrecht provocou confrontos de rua entre seus partidários e detratores. Na República Dominicana, os manifestantes anticorrupção do Movimiento Verde exigiram o fim da impunidade dos políticos enredados na Odebrecht.

Os acordos de cooperação e confissões geraram acusações de alto perfil. O ex-vice-presidente do Equador, Jorge Glas, está preso após ser condenado por aceitar suborno da Odebrecht. O ex-presidente peruano, Ollanta Humala, enfrenta acusações de corrupção com pena de prisão de 20 anos.

Em abril de 2019, a polícia que transportava um mandado de prisão relacionado à Odebrecht chegou à porta do antecessor de Humala, o ex-presidente peruano de dois mandatos Alan Garcia. Enquanto tentavam prendê-lo, Garcia se trancou em um quarto, sacou uma arma e se matou.

Os promotores disseram que o caso da Odebrecht foi um marco na luta contra a corrupção pública na América Latina e no mundo.

Robert L. Capers, então procurador do Distrito Leste de Nova York, disse em comunicado que anunciou o acordo da Odebrecht: “A mensagem enviada por essa promotoria é que os Estados Unidos, trabalhando com seus parceiros no exterior, não hesitam em responsabilizar as corporações e indivíduos que buscam enriquecer-se através da corrupção das funções legítimas do governo, por mais sofisticado que seja o esquema ”.

A boa impressão

Acontece que o acordo abrangente com o Brasil, os EUA e a Suíça tinha alguns limites significativos.

A Odebrecht, na verdade, não foi feita para contar tudo. Sua declaração detalhada de fatos, por exemplo, revela quanto a empresa pagou em subornos em toda a região, mas não especifica quais projetos foram os sujeitos dos pagamentos ou quem os recebeu.

Os promotores de outros países estão trabalhando com as autoridades brasileiras para construir seus próprios casos e alguns apresentaram acusações contra políticos e outros que foram implicados. no esquema da Odebrecht. A Odebrecht e seus executivos, enquanto isso, estão negociando acordos de imunidade ou clemência em troca de cooperação. Até o momento, existem acordos no Peru, na República Dominicana, no Panamá, no Equador e na Guatemala, além do Brasil, dos EUA e da Suíça.

Um problema é que os países devem concordar em não processar os executivos da Odebrecht que já fizeram acordos com o Brasil.

Mas muito depende de os governos terem recursos para investigar e processar esses crimes e, dizem os analistas, se eles têm vontade política. A operação de suborno da Odebrecht atingiu os níveis mais altos da política e da sociedade em toda a região, e as respostas nacionais variaram muito. Por exemplo, nos últimos dois anos, os promotores peruanos fizeram 68 pedidos de documentos às autoridades brasileiras; Os promotores dominicanos fizeram três.

O economista dominicano

Ainda há muito a ser descoberto sobre o conjunto de empresas, acordos de consultoria e serviços e contas bancárias secretas empregadas pela divisão de suborno da Odebrecht.

Mas uma coisa é clara: os arquivos da Drousys da divisão contêm os nomes de figuras proeminentes em cargos de confiança que nunca foram questionados abertamente sobre suas relações com a Odebrecht – até agora.

Andrés Dauhajre é um membro bem conhecido da elite política da República Dominicana.

O economista, de óculos e prata, escreve uma coluna semanal no jornal El Caribe. Ele fez parte de uma delegação de líderes empresariais que acompanhou o presidente da República Dominicana, Danilo Medina, em uma visita de Estado à China em novembro.

Ele também lidera a Fundação Economia e Desenvolvimento, uma consultoria econômica, sediada na capital dominicana de Santo Domingo, que frequentemente ganha contratos do Estado.

No final de 2013, quando a concessionária estatal da República Dominicana assinou um contrato para construir a usina a carvão de Punta Catalina, uma instalação de 770 megawatts na costa caribenha, ela contratou a consultoria de Dauhajre, juntamente com duas outras, para avaliar a propostas financeiras dos licitantes.

A usina hidrelétrica de Punta Catalina.

Até então, a concessionária estadual havia desqualificado vários licitantes, citando propostas técnicas precárias, e o único candidato remanescente para o cargo era um consórcio liderado pela Odebrecht.

Para ganhar o contrato, a Odebrecht ainda precisava aprovar sua oferta econômica e seu plano de financiamento. Dauhajre e os outros consultores aprovaram seu plano, e a Odebrecht recebeu um contrato de mais de US $ 2 bilhões, centenas de milhões de dólares a mais do que algumas das propostas de seus concorrentes marginalizados.

Quando o escândalo da Odebrecht explodiu na América Latina, a empresa admitiu aos promotores em dezembro de 2016 que seus pagamentos corruptos incluíam 92 milhões de dólares em propinas na República Dominicana. O projeto de Punta Catalina caiu imediatamente sob suspeita.

Uma comissão liderada por um influente clérigo, monsenhor Agripino Núñez Collado, foi nomeado para investigar o contrato. Entre as testemunhas entrevistadas estava Dauhajre.

Em 5 de fevereiro de 2017, três dias depois de seu depoimento, Dauhajre, indignado, rejeitou suspeitas de que o contrato da Odebrecht havia sido inflado.

“A suposta supervalorização de Punta Catalina é a mentira mais vendida na República Dominicana nos últimos anos”, escreveu Dauhajre em sua coluna no El Caribe, uma das várias peças em que defendeu publicamente a usina e seu financiamento. Essas colunas não mencionam qualquer relação financeira entre ele e a Odebrecht.

Por fim, a comissão não encontrou provas de irregularidades nas licitações ou financiamentos da usina, dando uma grande vitória à Odebrecht. O procurador-geral da República Dominicana chegou a uma conclusão semelhante ao anunciar acusações contra sete acusados ​​no caso da Odebrecht em junho de 2018, dizendo que sua equipe havia investigado completamente Punta Catalina e não encontrou provas de corrupção.

Os registros da unidade de Operações Estruturadas da Odebrecht mostram dezenas de pagamentos que parecem ter escapado aos investigadores, que não tiveram acesso aos registros obtidos pelo ICIJ.

Uma planilha rastreando os pagamentos ocultos da unidade de dezembro de 2013 a dezembro de 2014 revela 62 pagamentos totalizando mais de US $ 39 milhões relacionados a uma “Planta Termo”. Cinco dos pagamentos, avaliados em mais de US $ 3,3 milhões, foram direcionados a empresa listada em um endereço dominicano chamado Baker Street Financial Inc.

A planilha indica que pelo menos dois dos pagamentos à Baker Street passaram por uma empresa sediada nas Bahamas, a Fincastle Enterprises Ltd., que foi citada pelos promotores no Peru como um veículo para os subornos da Odebrecht. Esses pagamentos foram feitos em maio e julho de 2014, vários meses após a aprovação do plano financeiro da Odebrecht.

Em 7 de dezembro de 2015, a Baker Street Financial pagou mais de US $ 2 milhões por um apartamento no 12º andar em um elegante prédio envidraçado em um bairro nobre de Manhattan, próximo ao Le Bernardin, o aclamado restaurante francês.

Os registros da venda da cidade de Nova York incluem uma escritura assinada pelo único diretor da Baker Street Financial: Andrés Dauhajre.

Dauhajre disse ao ICIJ que os pagamentos que recebeu da Odebrecht foram para serviços de consultoria que ele forneceu em conexão com o financiamento da usina. Dauhajre disse que a Odebrecht reteve seus serviços no início de 2014, depois que um dos financiadores principais que esperavam financiar o projeto, o Banco de Exportação e Importação dos Estados Unidos, retirou-se devido a uma diretiva dos então U.S. O presidente Obama não deve financiar usinas termoelétricas a carvão devido a suas contribuições para a mudança climática.

Dauhajre disse que ajudou a Odebrecht a encontrar fontes alternativas de financiamento para a usina e que a Odebrecht propôs a Fincastle Enterprises como veículo para seu pagamento.

“A Baker Street Financial prestou com sucesso e eficácia o serviço de consultoria solicitado pela Odebrecht em 2014 e 2015”, disse Dauhajre em carta ao ICIJ. “Foi esse serviço financeiro que gerou a remuneração.”

O elenco cresce

Os arquivos da unidade de Operações Estruturadas envolvem funcionários públicos e cidadãos proeminentes conectados pela primeira vez aos pagamentos ocultos da Odebrecht.

Um desses funcionários é Constantino Galarza Zaldivar, que em outubro foi eleito vice-governador de Callao, uma província urbana que inclui o principal porto do Peru. Uma empresa panamenha, a CGZ Ingenieria Corp., recebeu no final de 2014 dois pagamentos totalizando US $ 240 mil relativos a um gasoduto peruano, segundo a Drousys Records. Galarza, cujas iniciais são CGZ, é o presidente e diretor da CGZ Ingenieria, segundo registros do Registro Corporativo do Panamá.

Galarza também atuou como gerente geral da empresa durante anos, inclusive no momento em que recebeu os pagamentos, de acordo com sua página no LinkedIn. A CGZ Ingenieria oferece serviços de apoio em engenharia, inteligência de negócios e relações jurídicas, financeiras e institucionais, e possui escritórios em Lima, Panamá, Colômbia e Madri, afirma a página da Galarza no LinkedIn.

Galarza não foi vinculada anteriormente à unidade de suborno da Odebrecht. Seu nome surgiu em março em conexão com outra controvérsia. Em uma gravação de áudio tocada no programa de notícias peruano Panorama, Galarza parece planejar o assassinato de seu chefe, o governador de Callao, Dante Mandriotti.

Na gravação, Galarza discute os planos para um sucesso em Mandriotti com um associado desconhecido, dizendo que “um profissional de alto nível do México ou da Colômbia” seria necessário para fazer o trabalho. “Eles precisam colocar um monte de balas nele”, diz Galarza na gravação.

Após o lançamento da gravação, Mandriotti pediu aos promotores que acusassem Galarza de tentativa de homicídio, conspiração e outras ofensas. Os promotores em Callao indicaram que investigariam o assunto.

Em uma coletiva de imprensa, Galarza admitiu que sua voz é ouvida na gravação, mas ele disse que falou em um momento de raiva, sem intenção de realizar um assassinato.

Em uma conversa telefônica inicial com um jornalista do ICIJ em 21 de junho, Galarza negou quaisquer negócios ligados à Odebrecht ou ao gasoduto Gasoducto Sur. Então, em uma entrevista em 24 de junho, Galarza disse que sua empresa foi paga por consultoria financeira indiretamente relacionada ao pipeline. Ele disse que sua empresa foi contratada por uma empresa de construção indiana, a ECI Engineering & Construction Company Ltd., que estava trabalhando em um gasoduto para líquidos que correria paralelo ao Gasoducto Sur. Esse segundo oleoduto, segundo Galarza, era um projeto privado também liderado pela Odebrecht. Ele disse que sua empresa não foi paga diretamente pela Odebrecht e que o gasoduto paralelo não foi realizado.

Na entrevista, Galarza também lançou dúvidas sobre a gravação em que ele discutiu o assassinato de Mandriotti. Ele disse que enquanto algumas partes da gravação eram autênticas, ele disse que outras seções da gravação eram falsas e provavelmente manipuladas.

O alcance da Divisão de Operações Estruturadas se estende por toda a América Latina. Os arquivos mostram um pagamento de US $ 200.000 em janeiro de 2014 para uma empresa panamenha chamada El Facilitador Holdings, relacionada a um projeto de obras públicas chamado “LE LM” nos arquivos da unidade. Não está claro o que é “LE LM” ou para que serve o pagamento.

O presidente e diretor do El Facilitador é um executivo de rádio salvadorenho, José Luis Saca. Ele atua desde 2015 como presidente da Associação Internacional de Radiodifusão, um grupo que representa cerca de 17.000 emissoras de rádio e televisão nas Américas.

Saca, que assessora as Nações Unidas em questões de mídia na qualidade de presidente da associação, viaja na América Latina defendendo a liberdade de imprensa.

Saca não respondeu às perguntas do ICIJ, que incluíam e-mails repetidos, telefonemas e uma carta para a Associação Internacional de Radiodifusão, e uma carta entregue à Radio Corporación, a companhia de rádio salvadorenha onde ele é vice-presidente.

Projetos não revelados

Era uma manhã de sexta-feira na sala de espera do Hospital Infantil Dr. Robert Reid Cabral, em Santo Domingo. Cerca de 50 pessoas – a maioria bebês e outras crianças pequenas e seus pais ansiosos – esperavam em assentos de metal enferrujados para procurar um médico. O quarto estava quente. O som das crianças chorando era constante, inchando e recuando em diferentes partes da sala.

Famílias como essas, disse Pimentel, da Participación Ciudadana, são as verdadeiras vítimas do tipo de corrupção praticada pela Odebrecht. Enquanto os governos desperdiçavam dinheiro em contratos públicos inflados por corrupção, os serviços públicos vitais estavam famintos.

Embora não seja possível atribuir incidentes específicos aos efeitos da corrupção, os números do dólar envolvidos são enormes e os riscos são altos. Por exemplo, em 2014, os pagamentos ocultos da unidade de Operações Estruturadas podem ter ajudado a empresa a ganhar bilhões de dólares em contratos para a usina hidrelétrica de Punta Catalina e outros projetos. No mesmo ano, 11 crianças morreram no hospital infantil porque ficou sem oxigênio. O hospital havia caído em dívida com os fornecedores de oxigênio.

“O que se perde na corrupção é que o Estado dominicano não pode investir em políticas públicas que garantam os direitos das pessoas”, disse Pimentel.

A República Dominicana é uma das meia dúzia de países em que grandes projetos de infraestrutura estão amarrados pela primeira vez à corrupção da Odebrecht.

Um sistema de metrô para Quito – a capital de alta altitude que abriga mais de 1,5 milhão de pessoas – foi o projeto mais importante da Odebrecht no Equador. O orçamento de construção do projeto foi de pouco mais de US $ 2 bilhões. O sistema de 14 quilômetros, previsto para abrir em dezembro, deve transportar até 530 mil passageiros por dia.

Quando o suborno internacional da Odebrecht foi exposto, os promotores locais iniciaram uma investigação sobre se o trabalho da empresa no metrô de Quito havia sido contaminado por subornos. Em março de 2018, depois de mais de um ano no caso, os promotores encerraram a investigação, dizendo que não havia evidências para sustentar as acusações.

Os arquivos da divisão de suborno que podem reabrir as investigações 

Nos e-mails do sistema da Drousys, os funcionários da Odebrecht, codinome “Silver”, “Fred” e “Wilson”, discutem os pagamentos do Metrô de Quito que foram encaminhados por meio de seu departamento. Em julho de 2015, por exemplo, Silver pergunta a Fred se o pagamento pelo Metrô foi feito e se foi feito pelo Meinl Bank, um banco cuja sucursal de Antigua foi adquirida por operários da Odebrecht em 2010 para facilitar pagamentos corruptos, segundo os promotores. Fred respondeu afirmativamente.

“O pagamento do metrô também foi feito através da Meinl”, escreveu Fred em um e-mail para Silver.

A mensagem observa que o pagamento foi feito através da empresa Fortress Investors Ltd., que aparece repetidamente nos arquivos da divisão de suborno como um canal para pagamentos. Os registros não dizem quem recebeu os pagamentos secretos ou a finalidade deles.

Mauricio Rodas, ex-prefeito de Quito, cuja administração aprovou o contrato da Odebrecht, disse a um jornalista do ICIJ que a Odebrecht foi escolhida apenas porque oferecia a proposta econômica menos dispendiosa e que o projeto iria remodelar o transporte em Quito.

Os arquivos vazados da Drousys incluem outros pagamentos secretos relacionados a projetos que até agora não estavam ligados ao escândalo da Odebrecht. O gasoduto Sur, um gasoduto no sul do Peru e o projeto mais proeminente do governo do ex-presidente peruano Ollanta Humala, é mencionado em conexão com 17 pagamentos em 2014, totalizando mais de US $ 3 milhões.

Um promotor peruano acusou Humala e sua esposa, Nadine Heredia, em maio por supostamente lavar os ativos fornecidos pela Odebrecht. Os pagamentos relacionados ao gasoduto de US $ 7 bilhões não foram divulgados pela Odebrecht.

A Ruta Viva, uma rodovia entre Quito e o maior aeroporto do Equador, não é mencionada nos documentos dos procuradores equatorianos, mas é citada no novo conjunto de documentos em conexão com um pagamento de 915.000 em moeda não especificada feito em outubro de 2012, vários meses após a prefeitura concedeu à Odebrecht o contrato para construir a rodovia. Os documentos que vazaram não dizem quem recebeu o pagamento oculto.

No Panamá, o primeiro sistema de trânsito rápido do país, na Cidade do Panamá, e uma expansão do aeroporto da cidade, Tocumen International, estão ligados pela primeira vez a milhões de dólares em pagamentos ocultos feitos em 2014.

Na Venezuela, surgiram novos detalhes mostrando mais de US $ 34 milhões em pagamentos secretos em 2014, vinculados à Linha 5 do Metrô de Caracas, para o qual apenas uma das 10 estações planejadas foi construída.

Não está claro por que os pagamentos ocultos encontrados nos documentos da Drousys não foram revelados em investigações públicas. Em resposta às perguntas do ICIJ sobre o motivo pelo qual não havia agido nos pagamentos revelados na República Dominicana, a Procuradoria Geral da República da República solicitou ao consórcio que entregasse todos os documentos relevantes para as investigações dominicanas.

“Isso levanta o interesse deste organismo de aplicação da lei que um consórcio de jornalistas tem em seu poder informações relevantes para uma investigação criminal”, escreveu a promotora de justiça anticorrupção Laura Maria Guerrero ao ICIJ. “Nós pedimos que você deposite no Ministério Público documentos que apóiem ​​suas declarações.”

(A política do ICIJ não é colaborar ou compartilhar materiais com agências de aplicação da lei.)

Jessica Tillipman, reitora assistente da Escola de Direito da Universidade George Washington, especializada em contratos governamentais e questões anticorrupção, disse que os pagamentos poderiam ser objeto de sondagens criminais em andamento ou que a Odebrecht poderia ter argumentado com sucesso que os pagamentos não violavam a lei. lei.

Se a Odebrecht, por qualquer motivo, retivesse informações sobre seus crimes por parte das autoridades, as consequências poderiam ser terríveis. “Se o governo descobrir depois do fato, isso pode explodir os termos do acordo”, disse Tillipman.

Pimentel, a ativista anticorrupção, disse que o fato de promotores dominicanos não conseguirem fazer mal em projetos como o de Punta Catalina representa uma falha de vontade política em um país onde as elites políticas e econômicas estão intimamente interligadas.

Os cidadãos há muito sabem que a corrupção e a impunidade são problemas sérios, disse Pimentel, mas o caso da Odebrecht revelou que atinge os mais altos níveis de governo. Os escassos resultados das investigações oficiais, segundo ele, demonstram a contínua incapacidade do governo de banir a mancha da Odebrecht.

“O caso da Odebrecht”, disse ele, “serviu para desnudar as instituições da República Dominicana”.

O que é a Odebrecht, Divisão de Suborno e o Acordo Judicial 

O que é a Odebrecht?

A Odebrecht S.A. é a maior empresa de engenharia e contratação da América Latina. Ela foi fundada em 1944 e está sediada em Salvador da Bahia e São Paulo, Brasil.

Ela construiu usinas de energia, ferrovias, portos e aeroportos – inclusive o Aeroporto Internacional de Miami – e está envolvida em mineração, plataformas de petróleo e gás offshore, siderúrgicas, usinas petroquímicas e nucleares e projetos de saneamento e irrigação.

O que é o escândalo da Odebrecht?

O escândalo da Odebrecht derrubou presidentes, outros políticos, empresários e advogados na América Latina e no Caribe. Ele foi revelado em 2014 com as investigações da força-tarefa do Caso Lava Jato sobre casos de corrupção envolvendo a estatal petrolífera brasileira Petrobras. Com a investigação foram descobertos esquemas dee lavagem de dinheiro, suborno e manipulação de licitação em conexão com contratos de obras públicas concedidos a preços inflacionados em uma dezena de países.

Usando uma rede complexa de empresas de fachada, transações não contabilizadas e contas bancárias offshore, e uma divisão de suborno dedicada, a Odebrecht pagou mais de US $ 780 milhões, em cerca de 100 projetos. O suborno foi pago à funcionários do governo, representantes e partidos políticos em países da América Latina e do Caribe. Essa conduta ajudou a conquistar contratos e outros benefícios, totalizando US $ 3,34 bilhões, segundo o Departamento de Justiça dos EUA, que descreveu o esquema como “massivo e sem paralelos”.

O esquema de corrupção liderado pela companhia colocou a política da América Latina no caos como nunca antes.

Nos últimos anos, o escândalo da Odebrecht levou manifestantes às ruas da América Latina, ocupou inúmeros promotores, encheu tribunais e destruiu carreiras históricas depois de gerar bilhões de dólares em ganhos ilícitos.

Acordo judicial 

Em 2016, a Odebrecht assinou um acordo judicial com autoridades dos EUA, Brasil e Suíça, no qual confessou corrupção e pagou US$ 2,6 bilhões em multas em troca de imunidade ou redução de multas para a empresa e seus executivos.

Novas evidências de corrupção, que afetam projetos de grande escala na República Dominicana, Equador, Panamá, Peru e Venezuela não estavam incluídos no acordo judicial celebrado nos EUA ou revelados publicamente, antes das matérias do ICIJ e do La Posta, do Equador.

As reportagens relataram cerca de US $ 230 milhões em pagamentos secretos da Odebrecht à construção de sistemas de trânsito rápido em Quito e na Cidade do Panamá, uma usina a carvão na República Dominicana, um gasoduto no Peru e outros projetos.

Os pagamentos indicam que a operação de suborno da Odebrecht foi ainda maior do que a empresa admitiu publicamente.

A reportagem do ICIJ e a descoberta de outros esquemas de corrupção não confessados pela Odebrecht

A reportagem do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) é assassinada por Sasha Chavkin, com a colaboração de Andersson Boscán, Mónica Velásquez, Romina Mella Pardo, Mónica Almeida, Emilia Diaz-Struck, Dean Starkman, Tom Stites, Joe Hillhouse, Richard H.P. Sia, Fergus Shiel, Margot Williams, Delphine Reuter, Mary Triny Zea, Joseph Poliszuk, Milagros Salazar, Gustavo Gorriti, Ben Wieder, Kevin Hall, Jimmy Alvarado, Amy Wilson-Chapman e Hamish Boland-Rudder.

Ao todo, cerca de 50 jornalistas na América Latina e nos Estados Unidos participam da análise de 13 mil documentos e produção das reportagens envolvendo pagamento de propina pelo Grupo Odebrecht, através do Departamento de Operações Estruturadas.

No Brasil, o jornal digital Poder 360 e a Revista Época informaram que participam da apuração do ICIJ e La Posta sobre novos dados de corrupção envolvendo o Grupo Odebrecht e declaram que novas matérias serão veiculadas com base nos documentos obtidos.

Os documentos sobre casos não confessados de corrução pela Odebrecht foram vazados inicialmente para os site de notícias La Posta, do Equador.

Os 13 mil documentos vazados à imprensa são oriundos do Drousys, sistema criado pela Divisão de Operações Estruturadas da Odebrecht para comunicar o pagamentos secretos de propinas, oriundos de contratos públicos.

O Drousys foi criptografada e identificou funcionários da Odebrecht e centenas de recebedores de pagamentos ilícitos por meio de nomes-código como “Gigo”, “Bambi” e “Waterloo”, muitos dos quais ainda não foram desvendados, ou seja correlacionados com os receptores reais dos subornos.

O Grupo Odebrecht pagou não apenas os políticos, mas também outros funcionários do governo, partidos políticos e candidatos e banqueiros. Os documentos revelam pagamentos secretos canalizados através de uma rede global de empresas offshore e contas bancárias.

13 mil documentos foram utilizados na reportagem do ICIJ. Eles revelam pagamento de milhões de dólares em propina feitos através de contratos de obras públicas realizados pelo Grupo Odebrecht, em países da América Latina.

13 mil documentos foram utilizados na reportagem do ICIJ. Eles revelam pagamento de milhões de dólares em propina feitos através de contratos de obras públicas realizados pelo Grupo Odebrecht, em países da América Latina.

Marcelo Odebrecht liderou a empresa entre 2008 e 2015, época em que foi descoberto o esquema de corrupção. Em 8 de março de 2016, a Justiça Federal condenou o presidente do Grupo Odebrecht a 19 anos e 4 meses de prisão por crimes envolvendo o esquema de corrupção descoberto na estatal Petrobras pela força-tarefa do Caso Lava Jato.

Marcelo Odebrecht liderou a empresa entre 2008 e 2015, época em que foi descoberto o esquema de corrupção. Em 8 de março de 2016, a Justiça Federal condenou o presidente do Grupo Odebrecht a 19 anos e 4 meses de prisão por crimes envolvendo o esquema de corrupção descoberto na estatal Petrobras pela força-tarefa do Caso Lava Jato.

Infográfico relaciona países onde ocorreram transações ocultas do Grupo Odebrecht realizadas no Continente Americano.

Infográfico relaciona países onde ocorreram transações ocultas do Grupo Odebrecht realizadas no Continente Americano.

Reportagem do ICIJ revela que 'Vazamento expõe milhões de dólares em novos pagamentos no escândalo de dinheiro por contrato da Odebrecht'.

Os 13 mil documentos vazados à imprensa são oriundos do Drousys, sistema criado pela Divisão de Operações Estruturadas da Odebrecht para comunicar o pagamentos secretos de propinas, oriundos de contratos públicos.

Confira vídeo com depoimentos utilizados na reportagem

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Perfil do Autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518), Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (SINJORBA), Associação Brasileira de Imprensa (ABI Nacional, Matrícula nº E-002907) e Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).