Governo Bolsonaro chega ao G20 em atrito com europeus

Chefes de Estado em foto oficial da edição 2019 da Cúpula do G20, em Osaka, Japão.

Chefes de Estado em foto oficial da edição 2019 da Cúpula do G20, em Osaka, Japão.

Pouco depois de chegarem ao Japão para a cúpula do G20, o presidente Jair Bolsonaro e sua comitiva reagiram duramente às declarações de líderes europeus que manifestaram preocupação com a política ambiental do Brasil. O principal alvo dos brasileiros foi a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, que disse desejar ter uma discussão com Bolsonaro sobre o desmatamento.

O presidente não reagiu bem à fala da alemã e disse que o “presidente do Brasil que está aqui não é como alguns anteriores que vieram para serem advertidos por outros países”.

Ele ainda afirmou que os alemães têm “a aprender” com os brasileiros. “Nós temos exemplo para dar para a Alemanha sobre meio ambiente, a indústria deles continua sendo fóssil, em grande parte de carvão, e a nossa não. Então eles têm a aprender muito conosco”, comentou o brasileiro.

Mais tarde, foi a vez de o general Augusto Heleno, titular do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), reagir – de maneira mais exaltada – não só à fala de Merkel, mas também a uma declaração do presidente francês, Emmanuel Macron, de que a França não assinará qualquer acordo comercial com o Mercosul caso o Brasil se retire do Acordo de Paris sobre o clima, como já ameaçou Bolsonaro.

Heleno disse que os europeus não têm moral para criticar a política ambiental do Brasil. “A política de meio ambiente é totalmente injusta ao Brasil. O Brasil é um dos países que mais preserva meio ambiente no mundo. Quem tem moral para falar da preservação de meio ambiente do Brasil?”, disse o ministro. “Estes países que criticam? Vão procurar a sua turma.”

Ele ainda acusou os europeus de derrubarem suas próprias florestas e insinuou que países da Europa cobiçam as riquezas naturais brasileiras.

“O que não pode é país dar palpite no Brasil. A gente não dá palpite em ninguém. Por que a gente não dá palpite no meio ambiente da Alemanha? Quais são as florestas que o europeu preservou? Vejam o que a Europa tinha de floresta no início do século e o que tem hoje”, disse Heleno, cometendo um equívoco, já que a Europa tem hoje uma cobertura florestal maior do que no início do século 20 – na Alemanha, um terço do território é coberto por florestas.

“Nunca lembraram disso, agora vêm para cima do Brasil? É muita coincidência, né, um país rico como o Brasil é, e eles vêm cobrar a preservação do meio ambiente da gente”, completou.

O ministro também disse a jornalistas acreditar que os europeus só manifestam preocupação com as florestas brasileiras porque supostamente pretendem explorá-las no futuro.

“Eu não tenho nenhuma dúvida, eu nunca tive nenhuma dúvida. Estratégia de preservar o meio ambiente do Brasil para mais tarde eles explorarem. Está cheio de ONG por trás deles, ONG sabidamente a serviço de governos estrangeiros. Vocês têm que ler mais um pouco sobre isso, viu? Vocês estão muito mal informados.”

Na quarta-feira, em sessão no Bundestag (Parlamento alemão), Merkel disse ver com “grande preocupação” a situação no Brasil, que descreveu como “dramática” sob o governo de Bolsonaro nas questões ambientais e de direitos humanos.

A chanceler respondia a uma pergunta da deputada do Partido Verde Anja Hajduk, que questionou se a Alemanha deveria seguir investindo nas negociações de livre-comércio entre União Europeia (UE) e Mercosul, no momento em que ambientalistas, cientistas e defensores dos direitos humanos denunciam uma deterioração nessas frentes no Brasil.

Para a parlamentar, a UE deveria usar seu peso econômico como instrumento de pressão para que direitos humanos e a defesa do meio ambiente sejam observados em outras partes do mundo, como na América do Sul. Em resposta, Merkel reiterou seu apoio a um desfecho rápido para as negociações de livre-comércio e disse que, em sua visão, a resposta para a situação no Brasil hoje não está em abrir mão de um acordo com o Mercosul.

“Eu, assim como você, vejo com grande preocupação a questão da atuação do novo presidente brasileiro. E a oportunidade será utilizada, durante a cúpula do G20, para falar diretamente sobre o tema, porque eu vejo como dramático o que está acontecendo no Brasil”, afirmou Merkel na ocasião.

“Eu não acho que não levar adiante um acordo com o Mercosul vá fazer com que um hectare a menos de floresta seja derrubado no Brasil. Pelo contrário”, completou a alemã. “Eu vou fazer o que for possível, dentro das minhas forças, para que o que acontece no Brasil não aconteça mais, sem superestimar as possibilidades que tenho. Mas não buscar o acordo de livre-comércio, certamente, não é a resposta para essa questão.”

Já Macron foi mais direto sobre o que espera dos brasileiros. “Se o Brasil deixar o acordo de Paris, até onde nos diz respeito, não poderemos assinar o acordo comercial com eles”, disse o presidente da França a jornalistas no Japão, antes do encontro do G20.

Um desfecho das negociações entre UE e Mercosul, que se arrastam há mais de duas décadas, é dado como próximo por ambas as partes.

No último dia 13 de junho de 2019, a comissária da UE para o Comércio, Cecilia Malmström, afirmou que a conclusão das negociações é sua “prioridade número um” e que pretende fechar o pacto antes do término do atual mandato da Comissão Europeia, em 31 de dezembro.

*Com informações do DW.

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Redação do Jornal Grande Bahia
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