Demitido da presidência Correios, general rebate presidente Jair Bolsonaro e diz “não fui sindicalista”; Juarez Cunha informa que jamais recebeu orientação para privatizar estatal

Jornalista da Revista Época Guilherme Amado entrevista Juarez Cunha, general, ex-presidente dos Correios.
Jornalista da Revista Época Guilherme Amado entrevista Juarez Cunha, general, ex-presidente dos Correios.
Jornalista da Revista Época Guilherme Amado entrevista Juarez Cunha, general, ex-presidente dos Correios.
Jornalista da Revista Época Guilherme Amado entrevista Juarez Cunha, general, ex-presidente dos Correios.

Guilherme Amado entrevista Juarez Aparecido de Paula Cunha, general, ex-presidente dos Correios, demitido pelo presidente Jair Bolsonaro. Veiculada na sexta-feira (21/06/2019), a entrevista é parte dos conteúdos que a Revista Época aborda sobre o Desgoverno Bolsonaro.

Confira trecho da entrevista com o general Juarez Cunha, ex-presidente dos Correios

Demitido da presidência dos Correios e acusado por Jair Bolsonaro de ter agido como “sindicalista”, o general Juarez Cunha rebateu o presidente. Disse que “de maneira nenhuma” foi sindicalista, defendeu a estatal e afirmou que jamais recebeu ordem do governo para privatizar a empresa.

“O saldo foi excepcional. Temos que fortalecer a imagem de uma empresa eficiente, que presta um bom serviço público”.

No primeiro dia útil fora da estatal, ele disse que ainda não tem planos, e que descansa.

“O pessoal ficou triste com a minha saída. Eles voltaram a ter orgulho de trabalhar para os Correios”, afirmou, e emendou que os Correios são mal interpretados: “É um dos grandes problemas que nós temos: a falta de conhecimento sobre o trabalho espetacular que é feito”.

A entrevista

Como foram os sete meses como presidente dos Correios?

— O saldo foi excepcional. Em termos financeiros, a empresa está com excelentes perspectivas para o futuro. Este é o ano mais crítico, mas os Correios vão terminar o ano de 2019 com saldo positivo. Está muito bem. E as perspectivas para 2020 são muito boas. A empresa vai estar muito bem financeiramente. Vai sair daquela crise que foi gerada lá em 2012, 2013. Eu acredito que a partir do ano que vem nós já vamos ter condições de atenuar um passivo aí desde aquela época. Hoje nós temos em torno de R$ 2,5 bilhões de passivo por conta da crise que tivemos.

Bolsonaro disse que o demitiu porque o senhor agiu como “sindicalista”, em um evento no começo do mês na Câmara. Sua demissão foi por isso, ou houve outras razões?

— Foi determinante, não há dúvida. Eu entendo a decisão do presidente, até porque a prioridade que ele tem que dar é para a política de governo. Os Correios têm sua missão definida pela universalidade. Nós temos que estar em todos os municípios, atender a todos os cidadãos brasileiros, contribuir com a inclusão social, integração nacional. Nós não podemos ter uma preferência político-partidária. A empresa não pode ter um lado político-partidário. Ela tem que atender a todos. Minha ida à Câmara naquele dia foi nesse sentido. Os Correios são uma empresa do Estado, e como estatal, têm que atender a todo mundo. Eu acho que o termo universalidade é fundamental. Talvez universalista ficaria mais adequado do que sindicalista.

O senhor foi sindicalista, como disse o presidente?

— Não (fui sindicalista) . De maneira nenhuma. Eu fui para lá somente para falar dos Correios. Mais nada. Só falei dos Correios, da situação dos Correios, do trabalho social, de inclusão social, de integração nacional que ele faz. Eu não conhecia aquele ambiente. Não sabia como seria. O ambiente era realmente agitado.

Bolsonaro também criticou uma foto que o senhor tirou com opositores do governo naquele dia.

— Ali, na verdade, é uma foto do pessoal dos Correios que estava lá. Tinha um grupo grande de empregados dos Correios, carteiros. Eu estava lá atrás, saindo, e me chamaram para tirar a foto.

O senhor se arrepende de algo?

— Olha, eu… De repente eu faria diferente, sim. Eu não sabia o que iria acontecer lá. De repente eu teria tomado mais cuidado. Até porque eu não tinha intenção nenhuma. Na verdade a única coisa que eu queria lá era mostrar os Correios. Como a coisa foi levada para um outro lado, eu faria diferente nesse sentido, de me precaver de determinadas coisas.

O senhor irritou o Planalto por ter relativizado a privatização dos Correios?

— Não houve nenhum descumprimento de ordem da minha parte em relação às diretrizes do governo. Até porque em nenhum momento eu recebi uma comunicação: “A orientação agora é esta, nós vamos fazer”. Não recebi. Então eu vinha na minha posição de defesa dos Correios. Faltou um pouco de comunicação. Não é botando culpa em ninguém, não é nada disso. Esse episódio talvez tenha sido gerado por conta dessa falta de comunicação.

O senhor não recebeu nenhuma orientação sobre a privatização?

— Não.

Os Correios terão saúde financeira?

— Não há dúvida nenhuma de que o resultado dos Correios no ano que vem será muito bom. Pode esperar. Não podemos divulgar isso ainda, até porque são assuntos reservados da empresa. Mas as perspectivas são muito boas.

O senhor dizia que os funcionários deveriam se motivar por trabalhar na estatal.

— A empresa também melhorou em termo do moral, da vontade de produzir, de trabalhar. O pessoal está animado. Então houve uma recuperação, tanto financeira quanto psicológica. O pessoal voltou a ter orgulho de ser empregado dos Correios. Você tem que falar que os funcionários são fundamentais. É o exercício da liderança.

Mas o senhor foi demitido. O moral da empresa fica arranhado?

— O pessoal ficou triste com a minha saída. Mas o general Floriano Peixoto, que está chegando, é uma pessoa excepcional. É meu amigo de mais de 45 anos, fiquei muito satisfeito com a indicação dele. Tenho certeza de que o Floriano vai prosseguir nesse trabalho de recuperação da empresa, sem problema nenhum. É uma pessoa serena, educada, amigo de todos. Ele vai me substituir muito bem.

Os Correios são tachados de ineficientes. A empresa é mal interpretada?

— Sim. É um dos grandes problemas que nós temos: a falta de conhecimento sobre o trabalho espetacular que é feito. É uma empresa de 356 anos e desempenha um papel fundamental junto à sociedade brasileira.

O que fazer com a imagem da empresa?

— Comunicação é fundamental. Não só dentro dos Correios, para manter nosso pessoal motivado. Nós temos que mostrar os Correios, melhorar em termos operacionais. Isso aí fortalece a imagem dos Correios para fora. Sempre foi uma empresa muito querida na população, mas houve uma queda nessa percepção. Temos que fortalecer essa imagem, de uma empresa eficiente, que presta um bom serviço público. Isso aí é fundamental.

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