O Ramayana e a tragédia política, social e econômica brasileira | Por Aemulus Máximus

Capa do livro ‘Valmiki's Ramayana: The Great Indian Epic’ (Ramáiana de Valmiki: A Grande Epopéia Indiana). Obra é avaliada, também, como manual de filosofia política.
Capa do livro ‘Valmiki's Ramayana: The Great Indian Epic’ (Ramáiana de Valmiki: A Grande Epopéia Indiana). Obra é avaliada, também, como manual de filosofia política.
Capa do livro ‘Valmiki's Ramayana: The Great Indian Epic’ (Ramáiana de Valmiki: A Grande Epopéia Indiana). Obra é avaliada, também, como manual de filosofia política.
Capa do livro ‘Valmiki’s Ramayana: The Great Indian Epic’ (Ramáiana de Valmiki: A Grande Epopéia Indiana). Obra é avaliada, também, como manual de filosofia política.

Ramayana é um livro sagrado dos hindus, e narra a epopeia do Príncipe Rama em luta contra o mal, representado pelo rei-demônio Ravana. Rama vem à Terra para restabelecer a virtude, a vida reta e justa.

O Ramayana não é só um conto religioso hindu, ele contém os ensinamentos filosóficos dos antigos sábios e pode também ser considerado um tratado de filosofia política — sobre a arte de bem governar.

Os acontecimentos narrados passaram-se em tempos imemoriais, isto é, há milhares e milhares de anos. Os fatos ocorreram na Antiga Índia. Fatos históricos que constituíram a sociedade e espiritualidade indiana. Pode ser lido também na sua dimensão mitológica — simbólica, parabólica e metafórica.

Santo Agostinho, doutor da Igreja, afirmava que as escrituras sagradas deveriam ser lidas duas vezes: a primeira leitura no sentido literal e histórico e a segunda no sentido moral e alegórico. Assim deve ser lida a Bíblia, assim deve ser lido o Ramayana.

O Ramayana e a filosofia política

Das muitas definições do que é política encontramos: realização do interesse coletivo; decisões tomadas em benefício de toda a comunidade; promoção do bem-estar da coletividade… dentre outras.

Todavia, na atualidade política é praticada como o oposto destas nobres definições e intenções; a atividade política é exercida em prejuízo da coletividade, principalmente daqueles mais necessitados — o povo.

Encontramos na contemporaneidade, sob a égide do que se considera “política”, o contrário desta ética — que também é a ética aristotélica — que já se praticava na Índia Antiga, com mandatários virtuosos como o Senhor Rama, governando para o bem-estar dos seus súditos.

Na época atual, considerada Era das Trevas para o hinduísmo, o mal se apossou dos corações e mentes dos governantes e agentes do Estado — quer seja no Executivo, Legislativo e Judiciário — e as decisões são tomadas não em prol do interesse da coletividade, e sim de alguns poucos privilegiados, cujo intuito é de manter e ampliar os seus privilégios, sua avareza, sua ambição – ao custo da infelicidade de muitos ou da maioria.

Do ponto de vista material, a ação nefasta de políticos malfeitores leva as populações mais vulneráveis a condições lamentáveis de existência; do ponto de vista moral, provocam a deterioração de valores humanos que dignificam os indivíduos, e a substituição de valores como paz, justiça e verdade por guerra, injustiça social e a mentira, esta última como maquiavélica estratégia de dominação dos governados.

Aliás, no império da mentira que se transformou o campo da atividade política, o termo “maquiavélico” se tornou bastante brando para compreensão da extrema malignidade que se apossou dos atores políticos.

No caso brasileiro, é com esta desesperançosa realidade que se manifesta a tragédia nacional de que, através dos atos dos agentes políticos, sustentados na mentira, a desgraça se abata sobre a coletividade humana e o meio ambiente.

Cada vez mais se utilizam meios fraudulentos e desonestos para a eleição de indivíduos e grupos políticos que explicitamente objetivam infelicitar os compatriotas, que são enganados e iludidos por malignas e ardilosas tecnologias de manipulação de massa, jamais vistas ou imaginadas num passado recente. Tudo isso usado contra o seu próprio povo, e não contra um agressor externo, como nas guerras convencionais entre nações inimigas.

A possibilidade de um governo sustentado na mentira e na falsidade “dar certo” é nenhuma, mesmo para aqueles que oportunisticamente acreditam que sobre a desgraça alheia se beneficiarão. Exemplos? As elites econômicas que articulam jogar na fome e miséria milhões de trabalhadores, idosos, populações vulneráveis para maximizar seus ganhos também perecerão, mais cedo ou mais tarde.

O que nos ensina o Ramayana

“Somente as pessoas retas merecem governar. Só aqueles que vão pelo caminho da virtude e da conduta reta merecem governar. Quando pessoas com inteligência malévola e vergonhosas habilidades governam uma nação, a Terra degenera em uma imagem das regiões inferiores”.

“Os egoístas atrevidos, os aventureiros de mente estreita, os abutres cobiçosos, as personalidades amantes da vangloria, os indivíduos que só pensam em si mesmos, gente que sofre de inveja crônica, nenhum destes têm o direito de governar. Danificam os interesses de seus compatriotas e destroem as bases da retidão. A república se arruína com eles”.

Sobre a malignidade nas escolhas dos brasileiros

“Tu não tiveste esta ideia fatal agora, não; estava latente aí, como uma semente. De outro modo não se haveria manifestado de repente como uma enorme árvore. Dotada com uma natureza tão malvada”.

“De que serve agora lamentar-se do passado? Tua maldade te ordenou que cortes o tronco e derrubes os galhos; te indicou que cuides da vida dos peixes retirando a água do seu aquário; não sei se rio ou choro ante tua estupidez”.

“Qualquer um que leve adiante um plano malévolo, só obterá uma felicidade temporal; com certeza seu mal proceder lhe conduziria cedo ou tarde à ruína e não haveria escapatória possível”.

Sobre um governo usurpador e ilegítimo

O irmão do Senhor Rama, Bharata, explicando porque não poderia assumir o trono do reino de Ayodhia, o usurpando de Rama:

“Meu governo só provocaria danos ao povo, já que minha ascensão ao poder seria imoral e incorreta. E quem poderia respeitar a um usurpador e obedecer a suas ordens? Não poderia castigar os malfeitores e aos imorais. Com que direito eu poderia corrigir aos que violam a lei quando eu mesmo teria cometido um enorme pecado ao ascender ao governo que não me corresponde por direito? O povo, com toda certeza, me acusaria quando a oportunidade se apresentasse, ainda que pudera guardar silêncio durante algum tempo, por temor a represálias que eu pudesse tomar usando minha autoridade”.

A tragédia social, política e econômica brasileira

Usurpadores e aventureiros destruíram o Estado Democrático de Direito no Brasil. Foi um ardiloso projeto que envolveu agentes dos 3 poderes do Estado — Executivo, Legislativo e Judicario. Existe possibilidade de conserto e remédio para esta tragédia? Há luz no fim do túnel? Há luz na escuridão?

Um otimista pensador alemão escreveu certa vez que “a humanidade só apresenta os problemas que é capaz de resolver”. Porém, para isto, se faz necessário a existência de indivíduos virtuosos. Diógenes, com a sua lanterna nas mãos, continua a procurá-los.

*Aemulus Máximus, cientista social e defensor dos direitos humanos.

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