Secretário-geral das Nações Unidas diz que “a marca que vende melhor no mundo hoje é o medo”

António Guterres diz que “a marca que vende melhor no mundo hoje é o medo. O medo conquista audiências, ganha votos, gera clicks".
António Guterres diz que “a marca que vende melhor no mundo hoje é o medo. O medo conquista audiências, ganha votos, gera clicks".

Secretário-geral António Guterres falou aos jornalistas pela primeira vez este ano na sede das Nações Unidas; chefe da organização afirmou que é preciso “recrutar todos os segmentos da sociedade numa batalha por valores”.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse esta sexta-feira que “a marca que vende melhor no mundo hoje é o medo”.

Guterres falava aos jornalistas na sede da ONU, em Nova Iorque, pela primeira vez, em 2019.

O secretario-geral afirmou que se ouvem “ecos preocupantes e cheios de ódio de eras passadas” e “visões venenosas penetrando nos debates políticos”.

Para Guterres, isso exige ação das Nações Unidas em três áreas diferentes.

Medo

O chefe da ONU disse que “o medo conquista audiências, ganha votos, gera clicks.”

Guterres afirmou que o mundo assiste “a um enorme déficit de confiança em governos, instituições políticas e organizações internacionais.”

Segundo o representante, as “explicações podem soar como desculpas e as pessoas podem se tornar alvos fáceis para nacionalistas, populistas e todos aqueles que lucram com o medo.”

Por isso, o chefe da ONU acredita que o maior desafio para governos e instituições no mundo de hoje é “mobilizar soluções que respondam aos medos e ansiedades das pessoas com respostas.”

Resposta

Primeiro, criar soluções concretas para as pessoas que estão sendo deixadas para trás. Para Guterres, a resposta é uma globalização justa e o caminho é a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

O secretário-geral acredita que isto “é ainda mais importante porque o ritmo da mudança apenas vai se intensificar com a revolução tecnologia” que o mundo atravessa. Guterres disse que essa será a sua principal mensagem no Fórum Econômico de Davos, que acontece na próxima semana.

Em segundo lugar, ele afirmou que é preciso continuar a mostrar o valor das Nações Unidas. Segundo ele, isso foi feito nos últimos meses com a aprovação do Programa de Trabalho para o Acordo do Clima de Paris, em Katowice, na Polônia, e do Pacto Global para a Migração Segura, Ordenada e Regular, em Marraquexe, Marrocos.

Guterres também destacou o acordo de cessar-fogo, mediado pela ONU, no Iêmen, dizendo que “abriu uma janela de esperança para a pior catástrofe humanitária do mundo.”

Apesar desses avanços, o chefe da ONU reconheceu que “muitos ainda veem a ONU como pesada e burocrática” e é por isso que a organização “está se reformando para ser mais ágil, flexível e eficiente.”

Luta

Em terceiro lugar, Guterres disse que é preciso “recrutar todos os segmentos da sociedade numa batalha por valores, em particular, para enfrentar a ascensão do discurso de ódio, xenofobia e intolerância.”

O secretario-geral afirmou que se ouvem “ecos preocupantes e cheios de ódio de eras passadas” e “visões venenosas penetrando nos debates políticos”. Ele acrescentou um apelo para que nunca se esqueçam as lições dos anos 1930.

Em todas estas áreas, Guterres disse que “a mensagem é clara: as palavras não são suficientes.”

Para o novo ano, ele disse que está “absolutamente comprometido em garantir que as Nações Unidas sejam uma plataforma de ação para reparar a confiança quebrada num mundo em ruinas.”

Multilateralismo

Na quarta-feira, António Guterres apresentou à Assembleia Geral as principais áreas de ação para 2019 e lembrou as principais conquistas de 2018.

Falando aos jornalistas, o secretário-geral disse que a palavra multilateralismo foi a expressão que mais ouviu nas discussões com os Estados-membros que se seguiram.

Segundo ele, as ameaças da mudança climática, da migração, do terrorismo e da globalização exigem soluções globais, mas “apenas dizer isso não vai fazer com que algo aconteça”. O representante destacou que “dispensar ou difamar aqueles que têm dúvidas sobre o multilateralismo não leva a lugar algum.”

Desigualdade

O chefe da ONU acredita que é preciso perceber porque é que muitas pessoas, em todo o mundo, “não estão convencidas do poder e propósito da cooperação internacional.”

Ele lembrou os anos 90, quando era primeiro-ministro em Portugal, dizendo que existia uma noção “de que a globalização e o progresso tecnológico resolveriam todos os problemas e os seus benefícios chegariam a todos.”

Uma geração mais tarde, o chefe da ONU diz que aconteceram “muitos benefícios”, como “um aumento dramático na riqueza global, a queda da mortalidade infantil, o aumento da expectativa de vida e reduções significativas na pobreza extrema.”

Apesar disso, “as desigualdades cresceram entre os países e ainda mais dentro deles.” Ele acredita que “pessoas, setores e regiões inteiras foram deixados para trás.”

Guterres explicou que “quando as pessoas veem uma economia global fora de sintonia, quando sentem que não têm chance ou esperança e que nenhum líder ou instituição está sintonizada com seus problemas, a instabilidade e a desconfiança chegam certamente em seguida.”

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Carlos Augusto
Sobre Carlos Augusto 9154 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).