“Favela é o maior resumo do Brasil”, afirma Raull Santiago ativista do Complexo do Alemão

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Vista panorâmica do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.
Vista panorâmica do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.
Vista panorâmica do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.
Vista panorâmica do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.

Raull Santiago, nascido no Complexo do Alemão, veio a Paris participar de vários debates sobre segurança pública e institucionalização da violência policial. Compartilhando sua experiência pessoal, ele dialogou com jovens da periferia francesa e afirmou que é preciso que as favelas brasileiras sejam vistas além da ótica da violência.

O ativista participa de diversos projetos em que ensina jovens das periferias a utilizarem novas mídias, como vídeos ou postagens nas redes sociais, para a produção de novas narrativas que possam dar uma outra imagem às favelas, fugindo do clichê do “lugar violento”. Segundo ele, é importante entender que a situação não nasce naquele local, mas vem do próprio Estado.

“Sou do Rio de Janeiro, moro numa favela, e desde sempre violência foi a única política pública que chegava até nós. A forma como nossos governantes nos trataram criou naquele lugar um espaço de violência. (…) A favela é um lugar muito potente. Todo dia, a favela acorda antes de amanhecer para fazer a cidade funcionar, movimentar as coisas”, afirma. “A Favela é o maior resumo de Brasil que eu conheço, você tem indígena, quilombola, nordestino, várias regiões do Brasil agrupadas. Isso é de uma riqueza tão grande”, defende o ativista.

Raull conta que, junto aos jovens, foi desenvolvendo formas de uso da tecnologia para denunciar a violência policial e utilizar a internet para pressionar o governo por políticas públicas. Além, é claro, de transformar a visibilidade da favela, mostrando até para os próprios moradores que é possível ver esse espaço com outros olhos.

Exemplo internacional

Desde sua chegada à França, Raull se deu conta de que os jovens negros franceses de periferia sofriam os mesmos abusos que os brasileiros. “O sistema de controle é muito forte. A polícia está sempre pedindo documentos, impedindo a liberdade de acessar a vida, os lugares, é muito similar. É triste como a estrutura de racismo controla sempre os mesmos corpos.”

Ele finaliza lembrando que não se deve confundir a denúncia dos abusos policiais com um “apoio ao crime”. “Quando você denuncia um mau funcionário público, você presta um serviço à sociedade. Ao mesmo tempo, tentamos mostrar que não é uma perseguição ao indivíduo, mas à estrutura na qual ele está inserido. O policial também vem da periferia e precisa de um trabalho, mas cai dentro de uma instituição que tem problemas históricos”, conclui.

*Por Marcos Lúcio Fernandes, da RFI.

Sobre Carlos Augusto 9668 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).