Editorial: A genialidade de Michael Jackson além do tempo; “eu sou vítima da brutalidade”, canta ao lado dos músicos do Oludum

They Don't Care About Us’ é uma música de autoria de Michael Jackson, em protesto contra a exclusão social.
They Don't Care About Us’ é uma música de autoria de Michael Jackson, em protesto contra a exclusão social.

Parece que foi ontem, mas há 23 anos que um dos mais significativos artistas da música pop contemporânea esteve na Bahia e apresentou ao mundo um dos ícones da música. Em 1995, Michael Jackson (1958 – 2009) gravou o clipe da música ‘They Don’t Care About Us’ (Eles não ligam para gente), ao lado de músicos do Olodum, no Pelourinho, em Salvador e de moradores do Morro Santa Marta, no Rio de Janeiro.

A letra da música, associada as imagens do videoclipe, transmite a ideia da denúncia da exclusão social e dos elementos estruturais que reificam a falha da elite nacional em construir um país digno.

São elementos estruturais da exclusão social a violência, baixa qualidade da educação formal e dos serviços de saúde, falta de moradia digna e acesso ao emprego formal. Realmente “eles não ligam para gente”, pode-se concluir diante de um cenário familiar a maioria do povo brasileiro.

Ao comentar sobre a letra da música, Michael Jackson declarou que “a canção é sobre a dor do preconceito e do ódio, e que foi uma maneira de chamar a atenção para problemas sociais e políticos”.

A letra

“Estou cansado de ser vítima do ódio; Eu sou vítima da brutalidade; Mas, se Martin Luther King estivesse vivo, ele não deixaria isso acontecer; Estou cansado de ser vítima da vergonha; Eu sou invisível? Por que você me ignora?; Mas, se Roosevelt estivesse vivo, ele não deixaria isso acontecer”.

As frases da letra da música de Michael Jackson reafirmam a ideia de luta pela igualdade social e pela defesa da reconstrução de um país com base no trabalho. É um apelo, em forma de protesto musical. Mas, “algumas coisas na vida eles não querem enxergar”, diria a legenda da pop arte sobre a elite brasileira.

A cenografia fílmica

Dirigido pelo estadunidense Spike Lee, mesmo diretor do filme-documentário Malcolm X’ (1992), o videoclipe ‘They Don’t Care About Us’, associado a letra da música ,permanecem com um chamado pela construção de uma sociedade mais justa, igualitária e digna, principalmente para os negros, vítimas da violência de um Estado Nação cujo poder é comandado por uma elite plutocrática, autoritária e despótica.

Além do tempo

Os gênios agem de forma simples, a escolha de Spike Lee para dirigir o videoclipe de ‘They Don’t Care About Us’ apenas reafirmou o ideal pela luta de classes, cujo objetivo é o direito à dignidade de vida e a emancipação da classe trabalhadora.

Eu tenho um sonho a relembrar

No eloquente discurso ‘I have a dream’, proferido em  28 de agosto de 1963, em Washington, EUA, Martin Luther King Jr. (1929 – 1968) proclama:

— Cem anos mais tarde, devemos encarar a trágica realidade de que o negro ainda não é livre. Cem anos mais tarde, a vida do negro está, ainda, infelizmente, dilacerada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação.

— Cem anos mais tarde, o negro ainda vive numa ilha isolada de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material.

— Cem anos mais tarde, o negro ainda definha nas margens da sociedade americana estando exilado em sua própria terra.

Confira o vídeo

*Carlos Augusto, cientista social e jornalista.

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Sobre Carlos Augusto 9750 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).