Brincadeira em plenário encerrou a sessão antes da hora, em 1959 | Por Adilson Simas

Fachada do Paço Municipal Maria Quitéria, sede da Prefeitura de Feira de Santana.
Fachada do Paço Municipal Maria Quitéria, sede da Prefeitura de Feira de Santana.
Fachada do Paço Municipal Maria Quitéria, sede da Prefeitura de Feira de Santana.
Fachada do Paço Municipal Maria Quitéria, sede da Prefeitura de Feira de Santana.

Nas suas memórias, publicadas em 2009, o Comendador Jonathas Telles de Carvalho registra fatos pitorescos ocorridos ao longo de sua existência. Um deles teve como cenário o plenário da Câmara Municipal de Feira de Santana quando ainda funcionava no Paço Municipal, sendo “vítima” o vereador e coronel aposentado Arthur Santos. Vale a pena recordar.

O Coronel Arthur e a Câmara Municipal

Jonathas Telles de Carvalho

Incentivado pelos amigos decidi fazer experiência na vida pública, vendo a possibilidade de dedicar-me um pouco mais às causas da nossa comunidade. Corria o ano de 1958 e os partidos políticos indicavam candidatos para o pleito que se avizinhava. Assim é que fui convidado, para ser candidato a vereador, por amigos da UDN, partido representado em nossa cidade por ilustres figuras da sociedade feirense.

Estava bastante motivado, pois via possibilidade de me eleger e, assim, exercer com dignidade mais uma função a serviço do meu povo. Escolhidos os candidatos, todos nós fomos à luta, ao corpo a corpo junto ao eleitorado. Naquele tempo os recursos tecnológicos e financeiros eram escassos, a campanha sendo feita de porta em porta, pedindo votos aos amigos e a quem mais encontrasse nas residências visitadas pelos candidatos.

Havia mais seriedade e comprometimento e, por isso, os candidatos eram mais respeitados pelos eleitores. Não havia a avalanche de candidatos de hoje em dia, o que tornava mais séria e suave a campanha eleitoral. Depois de muita luta muita caminhada e de compromissos assumidos, chegou o grande dia 3 de outubro de 1958, dia das eleições, com posse dos eleitos no dia 31 de janeiro de 1959.

Apesar do meu esforço e do empenho de inúmeros amigos, apenas consegui ficar na suplência. Sabia que era preciso vocação para ser político, o que não era o meu caso, levado apenas pelo entusiasmo contagiante dos amigos. Fiquei na expectativa de assumir o cargo, o que efetivamente ocorreu quando um dos edis, afastou-se para tratamento de saúde.

Passei a frequentar as reuniões semanais da Câmara e sempre me sentava ao lado do vereador Coronel Arthur, militar aposentado. O saudoso amigo Antônio Manuel de Araújo presidia, com muita sobriedade, a Câmara Municipal e em uma das sessões faltou o secretário titular e o presidente da Casa convidou-me, o que foi motivo de muita satisfação.

Um pouco antes, aproveitei um momento de distração do Coronel Arthur e passei goma arábica nas lentes dos seus óculos. Sentei-me, então, à mesa, iniciando meus trabalhos como secretário, lendo o expediente do dia que constava de ata, ofícios e outros documentos pertinentes aos trabalhos legislativos.

Na oportunidade o presidente franqueou a palavra e o primeiro a usar da tribuna foi o coronel Arthur, em cuja mesa de trabalho havia grande quantidade de papeis. Demorando em encontrar os óculos, os localizou e constatou que eles estavam embaçados. Depois de muito tentar limpá-los, ele olhou para mim, mas continuou preocupado com o serviço de limpeza.

Saí da mesa sorrateiramente e o coronel, depois de, finalmente, descobrir que aquilo era uma arte minha, olhou para a mesa e não me viu. Gritou, então, com foz forte: “Cadê Jonas?”.

O vereador ficou tão nervoso que se esqueceu do tratamento formal que era dispensado a seus pares e o presidente, notando o embaraçado do Coronel Arthur, suspendeu a sessão, por alguns minutos e convocou um funcionário da casa para limpar as lentes no nobre vereador… Diante do pitoresco episódio, quando todos brincavam com Arthur que estava irado, o presidente entendeu não haver clima favorável para a continuidade dos trabalhos legislativos, daquela noite e os encerrou.

Depois, descobri que só não fui preso porque tinha imunidade parlamentar, pois o colega vereador queria tomar providências contra mim.

Mas, depois, tudo “terminou em pizza” e o coronel continuou a figurar no meu rol de amizades.

*Adilson Simas é jornalista.

Redação do Jornal Grande Bahia
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