A esquerda sem Lula | Por Tereza Cruvinel

Ato em defesa de ‘Lula Livre, por eleições democráticas’.
Ato em defesa de ‘Lula Livre, por eleições democráticas’.
Ato em defesa de ‘Lula Livre, por eleições democráticas’.
Ato em defesa de ‘Lula Livre, por eleições democráticas’.

Na derrota e na vitória, a forma e a hora contam. A prisão do ex-presidente Lula não aconteceu como desejava o ex-juiz Sergio Moro, como rendição de um réu despojado de tudo o que foi e significou, chegando abatido à cela em Curitiba, acompanhado de advogados. A pressa e o ímpeto do juiz ajudaram Lula a transformar a medida que representaria o triunfo da justiça “para todos” em um ato político de grande força simbólica, juntando as pontas de sua história contra a decretação de sua morte política e do projeto que encarnou. Selou-se a maior derrota da esquerda no Brasil depois da ditadura mas ato final não existe na política. Tudo agora será processado pela maioria que assistiu silenciosa.

Lula apresentou-se após dois dias de resistência popular legítima e pacífica, no sindicato que o projetou, onde foi preso pela ditadura há 38 anos, após uma missa que evocou a por ele celebrada quando estava no DOPS, em memória da mulher Marisa, por cuja morte voltou a culpar a Lava Jato e a mídia. A prisão de agora é outra mas a dramaturgia encenada juntou as pontas da história um PT desafiado a seguir sem Lula.

Pela manhã, acertada com a Polícia Federa a apresentação, os que estavam com ele Lula no sindicato enfrentavam um drama: como dizer a todo aquele povo lá fora que ele se deixaria prender. O povo, inarredável desde sexta-feira, dizia estar lá para impedir a prisão. Resolveu ele que anunciaria pessoalmente a decisão depois da missa.

Depois do desabafo, da sangria de mágoas com todo o processo, incluindo mídia, Lava Jato, Moro, TRF-4 e os procuradores, da evocação das lutas do passado, ele anunciou: “Eu vou atender à vontade deles”, explicando ligeiramente as razões reais da decisão: Moro decretaria a prisão preventiva, ele perderia direito a habeas corpus e a qualquer ação junto ao STF. Adubando o mito, voltou a dizer frases como “se prenderem meus sonhos sonharei pela cabeça de vocês, estarei nos sonhos de vocês”.

Ato encerrado, são dispensáveis registros insinceros, como de Marina Silva, de que é triste a prisão de um presidente que marcou tanto a história política do país, que deixou um legado de grandes mudanças mas …mas a lei é para todos. Ou, como também se tem dito, que o sentido de derrota coletiva com a condenação, por corrupção, do maior líder popular do pais, é compensado pelo que representa de avanço, em sinal de que a sociedade tornou-se mais exigente no combate à corrupção dos políticos. A lei é para todos os pobres, mas no topo (entre os que lá sempre estiveram e os que ousaram lá chegar), vale mais para uns do que para outros. Apressou a condenação de Lula, sem entrar no juízo de sua culpa ou inocência, tirando-o da disputa, mas deixa livres tantos outros políticos alcançados pela Lava Jato. O que é o foro especial senão parte da lei?

Agora virão os desdobramentos políticos, além dos jurídicos, como a possível revisão das prisões em segunda instância. As pesquisas mostrarão a digestão inicial destes fatos. Com o espantalho da esquerda removido, Bolsonaro vai murchar ou crescer? Os candidatos da centro-direita sairão de sua insignificância nas pesquisas? E o PT, como tratará agora da sobrevivência que passa pelas eleições? Até quando dirá que Lula é o candidato, embora isso não faça mais sentido?

Uma reaproximação entre os partidos de esquerda começou há 15 dias, após o manifesto de Celso Amorim neste sentido, aqui divulgado. O PCdoB e sua candidata Manuela D’Ávila, o PSOL e o seu, Guilherme Boulos, cerraram fileiras com o PT em São Bernardo. Antes, fizeram ato conjunto no Rio por Marielle e contra a escalada e ódio da extrema-direita. Ficarão nisso ou poderão evoluir para uma frente eleitoral? São muitos os desafios para a esquerda em seu novo tempo sem Lula.

Sobre Redação do Jornal Grande Bahia 111112 Artigos
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: [email protected]