Salvador: Espetáculo Zucco segue em cartaz no Teatro Martim Gonçalves

Cena da peça teatral 'Zucco'.
Cena da peça teatral 'Zucco'.
Cena da peça teatral 'Zucco'.
Cena da peça teatral ‘Zucco’.

Inspirada na trajetória psicopata do assassino italiano Roberto Succo, em 1988, o dramaturgo frânces Bernard-Marie Koltès escreveu a peça Zucco que busca colocar uma lupa de aumento para esmiuçar a violência e a crueldade que existe nas interações cotidianas.

Em uma das cenas, depois de já ter feito várias vítimas, o jovem rapaz declara: “Eu sou como um hipopótamo afundado na lama, que se movimenta muito devagar e que nada poderia desviar do caminho nem do ritmo que ele decidiu tomar”.

As aspas anteriores são da personagem Roberto Zucco, nome homônimo da peça – Zucco, espetáculo que será encenado pelos formandos de Interpretação Teatral da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (Etufba), de 07 a 18 de março de 2018, de quarta-feira a domingo, no Teatro Martim Gonçalves, localizado no bairro do Canela. A montagem tem direção de Gil Vicente Tavares e a temporada será inteiramente gratuita.

Zucco contará ainda com um time de peso. Luciano Salvador Bahia, na direção musical. Eduardo Tudella, na Iluminação. A coreógrafa Bárbara Barbará é a responsável pela direção de movimento. Já a figurinista e performer Tina Melo, professora da Etufba, assina o figurino e a maquiagem.

Elementos Cênicos

Escolhida em conjunto pelos atores e direção após a leitura de diversas dramaturgias, a peça é uma boa escolha para os treze atores que estarão em cena, pois permite que todos tenham o seu momento de destaque ao longo das 15 cenas.

O diretor conta que, antes de trabalhar na construção das cenas, fez um laboratório de corpo com os atores, que contou com a participação da coreógrafa e bailarina Bárbara Barbará. “Neste trabalho, trouxe algumas referências musicais como Sepultura, Baco Exu do Blues, entre outras composições, para que os atores pudessem compreender os tônus que as cenas exigiam. Zucco é uma montagem que tem muita agressão e tensão”, explica.

Já a trilha sonora de Zucco, criada por Luciano Salvador Bahia, está sendo construída para ressaltar estes sentimentos e serão utilizados timbres graves com o contrabaixo e tímpanos. “São pequenos trechos musicais que serão usados principalmente nas passagens entre as cenas. Teremos uma cama grave feita de percussão e cordas que servirá de base para muitas cenas, tendo seu volume alterado nos momentos de maior tensão. Tudo isso, visando aumentar ainda mais o clima pesado e violento que as cenas já trazem”, reforça.

A pedido do diretor Gil Vicente Tavares, o cenário é microfonado, pois muitas cenas do espetáculo ocorrem em cenários abertos e microfonar os espaços possibilita que os passos e movimentos de cadeiras sejam amplificados causando uma valorização do ruído natural desses movimentos.

Dramaturgia

A peça é apresentada em quadros interligados e desperta uma reflexão sobre o nosso tempo. Zucco traça um panorama de uma sociedade que carece de afeto nas relações humanas. A falta de amor fica evidente mesmo dentro do núcleo familiar. No seu lugar só se vê violência, crueldade e intolerância.

Koltès construiu uma peça movida por ações, em que os crimes cometidos por Zucco (assassina os pais, um inspetor de polícia e uma criança) não seguem uma lógica consciente, ou seja, não existem psicologismos ou explicações concretas para seus atos. O personagem simplesmente age. Não existe dor ou arrependimento em Zucco. Para ele, o ato de matar nada tem de amoral.

“Eu não tenho inimigos e eu não ataco. Eu acabo com os outros animais não por maldade, mas porque eu não os vi e porque eu pisei em cima deles”, defende-se Zucco. O dramaturgo francês cutuca, provoca e sacode várias esferas sociais. Em meio à poeira que sobe, podemos perceber quanta contradição também existe por trás das máscaras das pessoas comuns.

Para o ator Júnior Brito, Zucco é uma montagem que retrata um universo cruel e paralelo ao nosso, que conecta pontos da subjetividade humana à história revisitada de um assassino real. “As personagens divagam por seus universos interiores, enquanto as verdadeiras sombras escapam na frente dos olhos cansados ou treinados para não ver, daqueles que poderiam ser o impulso para a mudança”, metaforiza o formando do curso de interpretação teatral da Etufba.

Direção

Zucco conta com a direção de Gil Vicente Tavares, professor da Universidade e diretor de grande reconhecimento no cenário teatral baiano. Em 2017, Gil montou duas peças, Os pássaros de Copacabana e Um Vânia, que juntas receberam 9 indicações ao Prêmio Braskem.

Entre os espetáculos recentes podemos destacar também Sargento Getúlio (2011), que recebeu os Prêmios Braskem de melhor espetáculo adulto e melhor ator, além de ter rodado o Brasil com o Palco Giratório; Quarteto (2014); Caymmi: do rádio para o mundo (2014); SADE (2015), texto de Gil, que recebeu o Prêmio Braskem de melhor texto.

Para Tavares, a adaptação de Zucco é um rito de passagem para esses estudantes que estão saindo da academia para entrar no mercado profissional. “Eles estão levando para cena um texto que se tornou um clássico do teatro contemporâneo. Além de estarem experimentando o trabalho em coletivo – são quase 30 pessoas na equipe”, acrescenta o diretor, que convida o público para ver os formandos dando o melhor de si e assistir a transformação desses corpos que estão indo para o mercado profissional.

Agenda

Quando: 07 a 18 de março de 2018 – quarta-feira a sábado, às 20h, e domingo, ás 19h

Onde: Teatro Martim Gonçalves, localizado na Avenida Araújo Pinho, bairro do Canela | Salvador

Redação do Jornal Grande Bahia
Sobre Redação do Jornal Grande Bahia 106739 Artigos
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: [email protected]