Festa de Santa Bárbara representa a força, cultura e a fé do povo em celebração no Pelourinho; vento dá início ao ‘Calendário de Festas Populares da Bahia’

Festa de Santa Bárbara, no Pelourinho, em Salvador
Festa de Santa Bárbara, no Pelourinho, em Salvador
Festa de Santa Bárbara, no Pelourinho, em Salvador
Festa de Santa Bárbara, no Pelourinho, em Salvador

Ao raiar do dia 4 de dezembro de 2017, já se podia perceber que não seria uma segunda-feira como todas as outras. No horizonte da manhã surgia o branco sobre o qual canta a sambista Claudete Macêdo todos os anos nesta mesma data, e junto com ele, o Pelourinho se pintava de vermelho. A Alvorada de Fogos anunciava que a Festa de Santa Bárbara enfim havia chegado. Conforme acontece há mais de 200 anos, a Missa Campal reuniu milhares de pessoas que mesmo com diferentes crenças e religiões estavam hoje unidas pela mesma fé na figura sagrada que comandando os raios, ventos e trovoadas representa a força e o espírito aguerrido do povo em meio às dificuldades.

Guardiã oficial da Festa de Santa Bárbara, a Ordem do Rosário dos Pretos conduziu a Missa Campal, celebrada pelo padre Lázaro Muniz, que contou um pouco da história da Padroeira dos Bombeiros e dos Mercados. “Bárbara se preocupava com as pessoas e ansiava entender o por que das coisas, da natureza, da criação. Quando encontrou os cristãos descobriu uma razão para as suas perguntas e abraçou a fé”. A escolha pela fé selou um destino trágico para Bárbara, pois o seu pai, que tinha outros projetos para ela, irado a entregou para as autoridades da cidade, que proibiam o cristianismo. Bárbara terminou decapitada pelo próprio pai, e conta a tradição que, após ter cometido o ato, o homem foi fulminado por um raio. Daí surge a sua relação com os raios e as trovoadas, uma das características que para muitos devotos a aproximam da figura de Iansã no sincretismo religioso. “É importante lembrar que se fossemos tomar as duas por suas características muito próprias nós encontraríamos pouca relação. Iansã era casada e teve filhos, Bárbara era virgem, a idade era diferente, entre várias coisas. Mas aqui entre nós encontramos toda a razão para fazer porque há uma relação muito profunda daquela que é guerreira, defensora da vida, que batalha para defender a fé e iluminar as coisas”, explica o padre Lázaro, justificando porque as manifestações da multidão se misturavam entre “vivas” a Santa Bárbara e “Eparrey Oyá!”.

O culto a Santa Bárbara existe há cerca de 375 anos. A Festa é celebrada há mais de dois séculos e permanece com um forte apelo junto ao povo, abrindo oficialmente o Calendário das Festas Populares da Bahia. Para a secretária de Cultura do Estado, Arany Santana, momentos de dificuldade tornam ainda mais propício ao povo abraçar a fé. “Eu acredito que as mulheres e homens dessa terra veneram a Santa Bárbara porque ela nos dá força para caminhar diante das adversidades, como o racismo, a desigualdade. Sua história inspira especialmente as mulheres negras que trabalham e lutam por suas famílias e por um futuro melhor. Cada ano que passa essa festa se torna maior, assim como a fé das pessoas, que vem em massa celebrar e festejar a ela que nos dá coragem para enfrentar as lutas e desafios” reflete a secretária e filha de Iansã.

A celebração religiosa é marcada por homenagens e ofertas dos fieis. Flores e acarajés são alguns dos itens mais depositados no altar da Missa. A baiana Tereza Conceição, 65, participa do ofertório há 30 anos, desde que começou a trabalhar com a venda de acarajé. “Santa Bárbara que é a dona do acarajé. Então a baiana antes de ir pro ponto tem que se apegar a ela, pedir com fé que alcança”, conta a baiana, que usa uma saia branca com bordados vermelhos identificando a Festa de Santa Bárbara. Já a devota Rosa de Sá por promessa não deposita junto aos outros objetos o pequeno altar com a imagem de Santa Bárbara enfeitada com flores. “Há 12 anos, desde que fui alcançada com a graça de comprar minha casa própria, participo da missa carregando Santa Bárbara em meus braços”, conta.

A Missa Campal trouxe cânticos entoados pelo Coro da Rosário dos Pretos, além da participação da sambista Claudete Macêdo, cuja participação é sempre aguardada e reverenciada na festa, e Mariene de Castro, que ainda fará show no Largo do Pelourinho à noite. A cantora revela que apesar de já ter frequentado muito a Festa, está retornando após cerca de cinco anos ausente. “Estou muito feliz e grata por participar, por cantar aqui hoje. É emocionante ver a Bahia vermelha e branca, reverenciando esta Santa que nos dá tanta força para seguir todos os dias, e ver o sincretismo, o verdadeiro Axé da Bahia”, afirma.

Após o encerramento da Missa, o Cortejo seguiu pelo Terreiro de Jesus, Praça da Sé, Rua da Misericórdia descendo pela Ladeira da Praça, levando Santa Bárbara até o quartel do Corpo de Bombeiros localizado na Barroquinha, onde foi reverenciada pela comunidade e pelos bombeiros militares, que a tem como Padroeira. O Cortejo seguiu pela Baixa dos Sapateiros, até retornar para a Igreja do Rosário dos Pretos, no Pelourinho. Além de Mariene de Castro, que fará show às 18h, atrações como Jorginho Commancheiro, Partido Popular e Viola de Doze realizam apresentações no Largo do Pelourinho.

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