Os desafios políticos de uma sociedade pós-moderna | Por Leonardo Pedreira

Moradores de rua no centro de São Paulo. Superação da desigualdade é um dos desafios da pós-modernidade.

Moradores de rua no centro de São Paulo. Superação da desigualdade é um dos desafios da pós-modernidade.

Parece-me que hoje um discurso se faz bastante difuso em nossa sociedade. Aquele em que a corrupção ocupa um lugar como um mal a ser combatido por conta de seu efeito letal para a formação de uma sociedade mais justa e igualitária.

O problema da corrupção não é algo recente em nossa sociedade e seus efeitos são bastante conhecidos. Marginalidade e exclusão social, racismo e uma série de preconceitos são elementos cada vez mais segregadores e crescentes demonstrando uma total incompatibilidade com aquele projeto de formação de um Estado dito moderno e democrático.

Qual seria a solução para que tais problemas quase que patológicos sejam solucionados ou mesmo minimizados em uma sociedade que parece não querer saná-los?

Grande parte destes obstáculos para a evolução de nossa sociedade tem suas raízes mergulhadas em outras questões que envolvem, por exemplo, o sistema vigente mundial – capitalismo que, naturalmente, é segregador por essência – e desvios de caráter profundamente enraizados em nossas instituições de representatividade política, mas, não só nelas.

Alguns elementos resultados do evento de transição da sociedade de produção para a sociedade de consumo no século XX se apresentam como o marco de um novo tempo que afetará e produzirá uma série de novos padrões de consumo, valores, comportamentos e até mesmo do pensamento, sobretudo, a questão da consciência política. Algo vai se fazer bem presente e determinante nesta sociedade que é, a preocupação com a administração da vida, fator principal que irá caracterizar a modernidade.

Esta preocupação cada vez mais individualista de resolução dos próprios problemas estabeleceu gradativamente um distanciamento, uma lacuna assustadora naquilo que podemos chamar de reflexão moral existente em um passado muito próximo que tinha como objetivo uma solução de bem estar comum à convivência em sociedade, ou seja, a busca pelo bem comum.

Podemos encontrar, por exemplo, nas comunidades mais esquecidas socialmente, as periferias, propostas de transformação dos padrões que foram impostas em seu local de origem que em grande parte determina o futuro dos envolvidos. Uma verdadeira luta diária diante da extraordinária multiplicidade de ofertas de sentidos e padrões que parece se aproximar daquela ideia socrática sobre o segredo da felicidade estar no fato de que, o sujeito encontre a sua forma mais confortável de conviver com esta sociedade constantemente mutante. Mas como? Com que condições?

Refletir e construir sua identidade de modo que o caráter seja uma essência transformadora da realidade marginalizada e excluída por esta sociedade que exerce um poder seletivo e de critérios frágeis, será de grande solução no momento de decidir e construir quais padrões de comportamentos lhe servirá como ferramenta de transformação da realidade individual e, sobretudo, do coletivo segundo o qual, está inserido. É justamente o campo de atuação da educação inclusiva de papel formativo e transformador da realidade social e do papel político forjado com muito afinco pelos movimentos sociais existentes na cidade e no campo que buscam o papel de construção de uma consciência política aos seus envolvidos.

No entanto, vivemos em uma sociedade cada vez mais líquida, sem algo em que se apegar, de constante variação, que estabelece um grande desafio para o futuro da nação e de seus envolvidos e, em muitos casos, como podemos acompanhar no veículo midiático, ao conjunto daquele que, hoje, fazem nossas leis, visto que, o mesmo, se baseia justamente naquilo que parece ser imutável em grande parte, as normas – o que me parece em grande parte, mutável de acordo com momento e o interesse dos envolvidos.

O exemplo disto, parafraseando o filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman, todos os nossos acordos, mesmo aqueles que pareciam ser de longo prazo e sólidos, ocuparam lugares meramente temporário e passageiro, cujo valor, nada mais se encontra limitado até um próximo evento.

O que podemos esperar, o que mais pode ser novidade diante do fato de que, se, nesta mesma sociedade, até mesmo aquele que exerce/exercia o papel social de autoridade constituída democraticamente de forma legal, deixa de o ser diante da mutabilidade daquilo que antes era legal e hoje o deixou de ser?

Neste contexto de verdades e realidades de rápidas transformações, o judiciário, movimentos sociais/políticos e todo o conjunto da sociedade, encontram não só um desafio, mas uma missão, que muito provável, seja o de, deixar passar por Eles, aquelas transformações que parecem buscar e estabelecer novas formas de relações de poder que perdem o sentido da coletividade ampla e objetiva, o estabelecimento de uma nova política de valores e condições que atendam a um grupo específico ou até mesmo o desejo individual no campo da luta política do dia a dia.

Isto quer dizer, que não devemos acompanhar as transformações que surgem naturalmente dos anseios da sociedade? Claro que não. Em muitos casos se faz necessário repensar até mesmo o conjunto de algumas normas que, tendo em vista o conceito, por exemplo, de famílias, grupos étnicos e religiosos que foram determinantes em um dado momento histórico para a exclusão e marginalização dos mesmos, precisam ser revistas com a dada urgência e equilíbrio de modo a atender princípios democráticos de liberdade e igualdade constitucionalmente “garantidos”.

É justamente deste modo que, o conjunto da sociedade deve acompanhar, sobretudo, as formas como as instituições de ações coletivas e políticas buscam apreender como as relações entre pessoas e sociedade, estão sendo construídas nesta sociedade de incertezas e valores dissolutivos para que não culminem, em ações que violem a integridade física, moral e até subjetiva que, cada sujeito, convive em comunidade.

*Leonardo Pedreira é estudante de História na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e de Direito na Faculdade de Tecnologia e Ciência de Feira de Santana  (FTC)([email protected]).

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