II Conferência do JGB: ao palestrar sobre Revolução 4.0, jornalista Domingos Meirelles avalia que futuro muda a cada momento e que as transformações atendem ao interesse do mercado

II Conferência do Jornal Grande Bahia com Domingos Meirelles.

II Conferência do Jornal Grande Bahia com Domingos Meirelles.

Domingos Meirelles avaliou que uso das novas tecnologias produz aspectos positivos e negativos na sociedade, a exemplo da radicalização e da veiculação de notícias falsas. Neste contexto, é necessário a atuação do profissional de imprensa, para checagem dos dados, qualificação das fontes e produção de relatos que representam a realidade social e registrem os fatos ocorridos com precisão.

Jornalistas Carlos Augusto e Domingos Meirelles. Presidente da ABI criticou o desenvolvimento tecnológico, que não leva em consideração o bem-estar da Humanidade. Ele apontou que as novas tecnologias permitiram a radicalização do discurso e a veiculação de notícias falsas.

O jornalista Domingos Meirelles, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), palestrou durante a II Conferência do Jornal Grande Bahia (JGB) — ocorrida neste sábado (30/10/2017), no Auditório II do Los Pampas, em Feira de Santana — abordando o tema ‘A retomada do nacional desenvolvimentismo e os desafios do Brasil com o advento da Inteligência Artificial (IA)’.

A II Conferência foi promovida pelo JGB em parceria com a ABI e marca os 10 anos de atuação do Jornal Grande Bahia, veículo de comunicação fundado em 2007 pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto. Além da palestra sobre a 4º Revolução Industrial, Domingos Meirelles apresentou projeto de revitalização dos jornais impressos, desenvolvido pela ABI, em parceiria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). O projeto conta com suporte local do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE).

A Conferência

Ao iniciar a conferência sobre a Quarta Revolução Industrial, denominada, também, de Revolução 4.0 ou Indústria 4.0, Domingos Meirelles citou processos de transformação do mundo do trabalho, ocorridos entre o século XVIII e a primeira metade do século XX, que culminaram com a I, II e III Revolução Industrial.

O jornalista avaliou que exisitu uma intensificação dos processos de transformação da produção com uso de inovações tecnológicas e que o processo foi ainda mais intenso nas décadas mais recentes.

Domingos Meirelles ponderou que até a década de 1960 as transformações demoravam bastante tempo, atravessando séculos. Ele cita o exemplo da invenção da prensa de Gutenberg, ocorrida em 1450, que perdurou até 1886, com a invenção da máquina de linotipo, pelo alemão Ottmar Mergenthaler. A linotipia permitia a composição a quente para impressão gráfica e foi considerada revolucionária, em decorrência da capacidade de produção de conteúdos impressos. Ela passou a ser substituída em meados da década de 1950, nos Estados Unidos, com o advento da fotocomposição (composição a frio). Na imprensa do Brasil, a desativação das máquinas de linotipo ocorreu mais tarde, no início dos anos 1960.

Para expressar as diferenças tecnológicas e como elas afetam o processo de produção da notícia, Domingos Meirelles revela que, em 1976, foi cobrir jornalisticamente os efeitos do terremoto sobre a população da Guatemala, e que foi necessário levar um conjunto de equipamentos técnicos mecânicos e eletrônicos para cobrir o acidente natural.

— Levamos 120 quilos de equipamento técnico, a exemplo de uma máquina de telefoto, laboratório fotográfico, etc. — Informou.

Ele observa que, atualmente, com apenas um celular, aparelho que pesa poucas gramas, pode-se cobrir uma guerra ao vivo, ou outros fatos que ocorram em diversas partes do mundo.

— O futuro, que demorava séculos, passou a ser modificado a cada momento. — Avaliou.

Sobre a intensificação da tecnologia e como ela afeta as relações de trabalho, diminuindo o número necessário de profissionais para execução de tarefas, Domingos Meirelles afirma que isso ocorre para atender os interesses do mercado e que o conjunto de inovações tecnológicas, a exemplo smartphones e tabletes, não estão sendo criados com a finalidade de democratizar o conhecimento, mas como forma de rápida acumulação capitalista

— O futuro é assim, ele muda a cada momento. E eu me pergunto, a serviço de quem? Não está a serviço do ser humano, mas do grande capital, com redução do custo de produção, intensificação da produção, com o mínimo de investimento, mobilização de forças produtivas, e o máximo de lucro. — Infere.

Na sequência, criticou a falta de um projeto de desenvolvimento tecnológico que leve em consideração o ser humano, declarando que as pessoas que atuam no setor de inovação tecnológica têm como meta o enriquecimento pessoal e não o bem-estar da humanidade.

— Os jovens do Vale do Silício, nos Estados Unidos, não estão preocupados com o futuro da humanidade, mas como ganhar dinheiro rápido, tornando-se milionários. Essas mudanças tecnológicas, como os smartphones, surgem para atender o interesse do mercado. — Declarou.

Abordando falhas nos prognósticos sobre como as relações humanas de produção vão ser estabelecidas, Domingos Meirelles avalia que tem ocorrido falhas na abordagem de conceitos.

— Estamos diante de uma série de falsos conceitos que se cristalizaram e consolidaram e que não correspondem a realidade. São construções de narrativas que atendem a determinados interesses de mercado. — Declarou

Sobre as falhas das previsões futuras, ele cita exemplos históricos, como o surgimento do cinema mudo, oportunidade em que foi vaticinado o fim do teatro; a invenção do rádio, que colocaria fim a mídia impressa; e a invenção da televisão colorida e ao vivo, que colocaria fim ao rádio e a mídia impressa.

— Foi justamente com a invenção da televisão colorida e ao vivo, que a imprensa escrita passou por um período profícuo de produção intelectual. — Ponderou.

Demonstrando que mesmo os grandes veículos de comunicação falham, ao estabelecer novas abordagens sobre a produção e o consumo da informação, Domingos Meirelles afirma que o uso das mídias tradicionais que remetem à publicação na internet é um equívoco.

— Para saber mais sobre determinado assunto, a publicação na internet deveria remeter o leitor para que consumisse a informação na mídia impressa. — Sugeriu.

Domingos Meirelles citou, como exemplo contraditório entre os prognósticos sobre produção e consumo da informação, o recente lançamento de um veículo impresso na Alemanha.

— Há três meses, fomos surpreendidos na ABI ao sermos informados que, na Alemanha, foi lançada uma revista de esporte para ser consumida em banca, com tiragem de 300 mil exemplares em papel. — Comentou.

— O que se observa neste cenário? É que não temos uma visão clara sobre o futuro. O que existe são prognósticos construídos a partir de conceitos inconsistentes. Até provem em contrário, o papel vai continuar a existir, porque ele é perene. — Criticou.

Inovação e crise

Crítico dos prognósticos que não levam em conta que a inovação tecnológica apresenta não apenas soluções para as necessidades humanas, mas gera crise, o presidente da ABI afirmou que as notícias falsas (fake news) que circulam nas redes sociais requer redobrada atenção das pessoas e, principalmente, dos jornalistas. Ele lamentou que essas redes sociais no ciberespaço tenham se tornado veículos de disseminação da intolerância e do ódio.

Domingos Meirelles ponderou que existem certos campos da inovação tecnológica que contribui para o bem-estar do ser humano, a exemplo das inovações que ocorreram no campo da medicina e que resultam em menor risco para o paciente e processos rápidos de restabelecimento da saúde.

Citando Umberto Eco, Domingos Meirelles concluiu a II Conferência do Jornal Grande Bahia declarando que “a internet permitiu que o imbecil da aldeia se manifestasse, quando, historicamente, ele só falava quando lhe perguntavam”.

Presenças

A II Conferência do JGB foi coordenada por Carlos Augusto, jornalista, cientista social, diretor do JGB, e pesquisador da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). O público era formado, na maioria, por jornalistas e radialistas. Participaram da atividade, compondo a mesa, Lídice da Mata, senadora da República; Carlos Geilson, radialista, deputado estadual e segundo vice-presidente da Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA); Edmundo Filho, diretor de radiojornalismo da Secretaria de Comunicação da Bahia, representando o secretário estadual André Curvello; Evandro do Nascimento Silva, reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS); Fernando Oliveira, advogado criminalista e diretor jurídico do JGB; José Carneiro Rocha, presidente da Câmara Municipal de Feira de Santana; José de Arimateia, jornalista, bispo da Igreja Universal e deputado estadual pelo PRB Bahia; Angelo Almeida, deputado estadual pelo PSB Bahia; Regina Ferreira, jornalista, vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais da Bahia (SINJORBA) e diretora da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ); Roberto Tourinho, jornalista, advogado, procurador licenciado do município e vereador em Feira de Santana; e Valdomiro Silva, jornalista, secretário de Comunicação Social do Município de Feira de Santana.

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Domingos João Meirelles.
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Sobre o autor

Carlos Augusto

Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: [email protected]