“Médico não cura doença do espírito” (Mãe Socorro) | Por Adilson Simas

Artigo revela as ligações históricas da cidade de Feira de Santana com as religiões de matriz africana.
Artigo revela as ligações históricas da cidade de Feira de Santana com as religiões de matriz africana.
Artigo revela as ligações históricas da cidade de Feira de Santana com as religiões de matriz africana.
Artigo revela as ligações históricas da cidade de Feira de Santana com as religiões de matriz africana.

Depois de destacar Helena do Bode na reportagem ‘Bandeira branca nos domínios dos terreiros de mães-de-santo’, a edição especial de aniversário da cidade do jornal A Tarde de junho de 1978, fala de Mãe Socorro. Vale a pena relembrar.

Mãe Socorro

A poucos metros de distância, além da bandeira branca uma placa de acrílico diz: “Candomblé de Mãe Socorro”. Batemos palma e uma voz lá de dentro responde: “Pode entrar”.

A sala é grande, mas parece acanhada, tantos os objetos ali dispostos: taças ganhas em campeonato, fantasias de carnaval, máquina de costura, Peji. Na galeria de retratos destacam-se o sorridente Chico Pinto e o ex-governador Faria Lima, amigos e conselheiros de Mãe Socorro.

E lá está ela que nem uma rainha no trono. Longos cabelos lisos, de índia emolduram-lhe um rosto de feições finas e olhos penetrantes. Ao seu redor uns quatro ou cinco meninos nus de cintura para cima. Uma jovem penteia seus cabelos oleosos e brilhantes.

Mãe Socorro é pernambucana de Serra Talhada. Seu nome mesmo é Maria do Socorro Romão. Chegou a Feira de Santana com 4 anos. Aos 3 anos, diz ela, “eu era louca, cega e aleijada”.

Parece rememorar o passado. Retoma o fio da meada: – “Minha mãe já não tinha mais médico para me levar. E eu não melhorava. Pudera! Médico não cura doença do espírito. O que eu tinha mesmo era os maus espíritos encostados”.

Cresceu, ficou boa e se tornou mãe-de-santo. É filha de criação de Menininha do Gantois. Em compensação possui também 8 filhas de criação e “não sei quantas filhas-de-Santo”.

– Querido se preciso de alguém para me ajudar é só dar um grito e aqui aparece gente de todos os cantos.

Mãe Socorro é mãe de três filhos, um dos quais, advogado em Salvador. Além de candomblés ela pratica umbanda e espiritismo. A maioria dos seus trabalhos gira em torno de doenças não curáveis pelos médicos. Costuma dizer que não cobra consultas. Nem toma dinheiro adiantado.

– Quando eles se curam e têm consciência pagam como podem e o que podem, diz Mãe Socorro, com o olhar longe e sonolento pelo pente que é carinhosamente passado em seus cabelos lisos por uma de suas filhas adotivas.

Dona da Escola de Samba Escravos do Oriente, várias vezes ganhadora de taças na Micareta de Feira, costuma levar seu grupo para todas as cidades do interior da região e do nordeste, na época do Carnaval, com quadros de Samba de Roda e Maculelê. Nos seus terreiros as festas do calendário religioso são comemoradas com muito respeito e animação. Ela vai contando nos dedos e dizendo: Oxôssi, em 23 de abril, Ogum em 13 de junho, São Roque em 16 de agosto, São Lázaro, em 16 de julho, entre outras.

Nos seus 80 quilos, Mãe Socorro nos leva para conhecer a casa. No Peji, há uma moça que veio de Alagoas para se tratar. Passamos por ela, deitada numa esteira, bata imaculadamente branca, torso na cabeça e cabelos raspados. “Está em tratamento”, informa a mãe-de-Santo. “Amanhã mesmo vamos sair numa excursão ao interior levando a Escola de Samba, mas ela vai ficar aqui ainda uns dias”.

E ao passar em revista os objetos da casa vai explicando que ali está o retrato de Faria Lima, “um homem maravilhoso que conheci e ele me pediu para rezar”. Além de Chico Pinto e outras personalidades da política atual. Já esteve no Paraguai, Rio de Janeiro e São Paulo. Foi levada em algumas cidades por Franklin Machado. Faz fé mesmo na sua Escola de Samba, que possui 450 figurantes e recebe verbas da Secretaria de Turismo de Feira – Cr$ 20.000,00 todos os anos. Aluga as fantasias de destaque, cujos preços variam de um a dois mil cruzeiros.

– Estejam à vontade – e volta a sentar-se no seu trono, onde a nora, uma jovem de rosto redondo e adolescente volta a fazer-lhe cafuné.

*Adilson Simas é jornalista.

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