Feira de Santana: quando o Bairro Jardim Cruzeiro concentrava os terreiros | Por Adilson Simas

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Terreiro, nos cultos afro-brasileiros, é o local onde se realizam os cultos cerimoniais.
Terreiro, nos cultos afro-brasileiros, é o local onde se realizam os cultos cerimoniais.
Terreiro, nos cultos afro-brasileiros, é o local onde se realizam os cultos cerimoniais.
Terreiro, nos cultos afro-brasileiros, é o local onde se realizam os cultos cerimoniais.

Em 1978, no aniversário de emancipação política de Feira de Santana, o jornal ‘A Tarde’ circulou uma edição especial sobre a cidade. Com o título ‘Bandeira branca nos domínios dos terreiros de mães-de-santo’, falando dos candomblés, a reportagem deu destaque a Helena do Bode e Mãe Socorro. Vale a pena recordar.

A mãe-de-santo Helena do Bode

Jornal ‘A Tarde’, em 1978

Se a casa tiver uma bandeira branca, é casa de Mãe-de-Santo. Assim é no bairro do Cruzeiro, a dois quilômetros do centro de Feira de Santana. Ali estão concentrados os principais terreiros de candomblés, de macumba, de espiritismo. Helena do Bode, como é conhecida popularmente esta imensa preta de gorduras que se derramam pelo pescoço, num gigantesco colo e não menos enormes ancas, é simplesmente Maria Helena de Andrade, 44 anos, 105 quilos (mas deve ter muito mais porque há muito não enfrenta a realidade diante de uma balança) é baiana nascida e criada no Rio Vermelho, precisamente na Rua da Lama, na Vasco da Gama, em Salvador.

Seus olhos negros graúdos parecem saltar-lhe das órbitas, mas um olhar triste e vago dá a esta folclórica e popular figura um tom enigmático. Dela se diz muitas histórias. Por que Helena do Bode? Segundo contam, quando Helena se estabeleceu em Feira criava um bode preto que era o símbolo do êxito de suas rezas, seus trabalhos. Mas dizia-se que o bode só a ajudava para o mal. Se alguém queria se livrar de alguém que andava atrapalhando a sua vida. Helena fazia um trabalho qualquer e pronto. Mas com o tempo o bode foi ficando velho e acabou morrendo. Com ele foi-se esvaindo a fama da temida Helena do Bode. Ficou-lhe apenas o nome.

Há vinte anos em Feira, esconde no seu sorriso matreiro, maiores explicações sobre a sua vida e os seus poderes. Informa apenas que a visita não foi em boa hora. Sua festa para Omolu é prestigiada, com casa cheia de gente que vem de São Paulo, Minas, Goiás, Pernambuco, além de mães e pais-de-santo de quase toda a Bahia. Além das rezas e dos trabalhos espíritas, para tirar mau-olhado, tem no seu terreiro as festas de quase todo o calendário das cerimônias afro-brasileiras.

Olha pelo canto do olho, um sorriso desconfiado e responde laconicamente à indagação das razões de tanta gordura:

– Tenho apetite e como de tudo, mas gosto principalmente de frutas e comidas de dendê.

É um sábado e Helena informa que não atende a consultas: “Só olho no meio da semana. Nunca aos sábados nem aos domingos”. Suas consultas são cobradas à razão de Cr$ 50,00. Depois é para se acertar, seja qual tratamento for: desde os maus-olhados, até os corpos carregados, doenças, vida apertada, prender marido, etc.

Marlene, uma jovem sarará de belos dentes e corpo esguio, provocante decote numa moderna blusa de malha, ostenta no braço uma pulseira de Omolu. Seu grande sonho é tornar-se mãe-de-santo e está trabalhando e vivendo para isso, mas – segundo ela – as despesas variam entre 3 e 4 mil cruzeiros.

Helena não fala das suas atividades. Abre a casa para nós, leva-nos até o Peji, onde a fotografamos em meio aos pratos e aos jarros para a comida do Santo, que se distribuem entre as imagens. Ali ressaltada e num canto de destaque, dentro de uma fonte, Iemanjá, sereia menina, colorida e sorridente, onde também, no dia 2 de fevereiro, ali mesmo há festa para ela.

*Adilson Simas é jornalista.

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