Sublimes balanços de luz: a Barquinha do Mestre Daniel Pereira de Mattos | Por Juarez Duarte Bomfim

Daniel Pereira de Mattos (13.07.1888 – 08.09.1958)Daniel Pereira de Mattos (13.07.1888 – 08.09.1958)
Daniel Pereira de Mattos (13.07.1888 – 08.09.1958)

Daniel Pereira de Mattos (13.07.1888 – 08.09.1958)

Por Juarez Duarte Bomfim

O despertar de Daniel

Na movimentada margem direita do Rio Acre, em Rio Branco, onde ainda hoje se avista frondosa gameleira, numerosos navios chegavam e zarpavam em direção aos rios Purus e Amazonas — único meio de escoamento da produção econômica da atividade seringueira da região. Corria o ano de 1937.

Passageiros e mercadorias se misturavam, no sobe e desce das embarcações. Transeuntes que se espalhavam pelas margens do barrento e caudaloso rio repetiam o hábito de acenar lenços brancos, em sinal de adeus, ao terceiro e último melancólico apito das naus.

Daniel também balançou o seu lenço para os passageiros daquele navio que partia, num singelo gesto de despedida. O que Daniel não sabia é que aquele triste navio transportava de volta para o saudoso Maranhão a sua própria família, esposa e filhos que dele fugiam.

Fugiam de sua vida desregrada, das suas bebedeiras, noitadas e boemia no bairro do Papôco, baixo meretrício da Cidade. Fugiam do seu descaso e abandono para com a família que deveria zelar e proteger. Ao tomar conhecimento da triste partida, Daniel entendeu que não cumpria, como deveria ser, a sua função de pai e marido. Muito sofreu por isso.

A dor da separação e a vergonha de si mesmo fizeram Daniel cair mais ainda no vício do álcool, na vida dissoluta e sem perspectiva. Problemas de fígado, decorrentes do abuso da bebida, o levaram a adoecer gravemente.

Este era o período mais crítico da vida de Daniel. Porém, nem sempre fora assim. O negro maranhense Daniel Pereira de Mattos era um homem muito benquisto na pequena cidade de Rio Branco, capital do Território do Acre. De estatura média, tinha cabelos crespos, ombros largos, musculoso, bom de conversa na sua voz grave.

Homem de muitas habilidades, sabia desempenhar doze tarefas, aprendidas na Escola de Aprendizes Marinheiros: era construtor naval, cozinheiro, músico, alfaiate, carpinteiro, marceneiro, artesão, poeta, pedreiro, sapateiro, padeiro e barbeiro — esta última, de onde tirava o seu sustento.

Na condição de músico tocava violão, violino (rabeca) e instrumentos de sopro: pistom e clarinete — entre outros.

A sua barbearia localizava-se na Rua 6 de agosto, no Centro da Cidade de Rio Branco – Acre. Lá, entre seus inúmeros clientes, Daniel tinha um amigo especial. Era o conterrâneo Raimundo Irineu Serra, também negro maranhense, que migrara para a Amazônia no início do século, acompanhando a saga da borracha. É possível que os dois se conhecessem desde o Maranhão.

Raimundo Irineu Serra era conhecido na cidade de Rio Branco como um líder comunitário que fazia trabalhos espirituais usando Daime (Ayahuasca), uma bebida de origem indígena, de poderes inacreditáveis.

Curandeiro para alguns, feiticeiro para outros, o que Irineu Serra de fato se constituía era em amigo, padrinho e mestre de sua gente, uma irmandade humilde que o acompanhava no seu misterioso culto.

Vendo toda a aflição e enfermidade do amigo Daniel, Mestre Irineu resolve ajudá-lo. E o convida para um tratamento físico e espiritual onde se localizava a sua residência e sede de serviços, na Vila Ivonete.

Entregue à bebida e à doença, Daniel não reúne forças para lá se dirigir sozinho. Sabedor disso, Irineu manda alguns companheiros trazê-lo, e a primeira vez que Daniel adentra o recinto de cura do seu amigo e futuro mestre é desfalecido, deitado numa carroça puxada a boi, na qual foram buscá-lo.

Conta-se que, neste primeiro tratamento, Daniel residiu por seis meses na comunidade liderada por Mestre Irineu, cuidando da saúde, para superar problemas de alcoolismo e suas nefastas consequências, como a doença do fígado. Nessa época Daniel bebeu o Santo Daime pela primeira vez, ainda em 1937.

Além do deterioro físico e mental, o seu estado de penúria material chegara a tal ponto que, não tendo como pagar a roupa costurada para ele pela menina Percília (Percília Matos da Silva), filha de criação do Mestre Irineu, a compensou compondo uma canção e a ofertando — que foi aceita de bom grado.

As primeiras vivências com o Daime fizeram Daniel rememorar toda a sua vida, e o chamado para a sua destinação espiritual que o acompanhava desde a infância.

Desde criança que certa visão, ou sonho, seguia Daniel. A aparição de dois formosos Anjos que desciam dos céus e lhe entregavam um Livro Azul. Os Anjos de Deus lhes falavam do cumprimento de uma missão contida nas páginas deste Sagrado Livro.

Mas não nos adiantemos. Revisitemos primeiro a infância e juventude do jovem Daniel, até a sua chegada ao Acre.

A infância

Daniel Pereira de Mattos nascera na Fazenda dos Prazeres, próxima a uma antiga feitoria de escravos denominada Freguesia de São Sebastião de Vargem Grande — atual município de Vargem Grande — no Estado do Maranhão, em 13 de julho de 1888, junto aos antigos quilombos de Piqui da Rampa e Rampa — dois meses depois de abolida a escravidão.

Foi num ambiente rural e religioso que o menino Daniel cresceu, pois a cidade de Vargem Grande é terra de engenhos de açúcar, fazendas de algodão e de criação de gado. Tradicionalmente é berço de devoção, romarias e festas a São Raimundo Nonato.

Filho de Thomás Pereira de Mattos e Anna Francisca do Nascimento Mattos, fica órfão de pai aos nove anos de idade. Ao falecer em agosto de 1897, seu pai deixa-lhe como herança uma faixa de terra na localidade de Barra do rio Munim.

É então tutorado pelo padrinho. Ingressa, com dez anos de idade, na Escola de Aprendizes Marinheiros do Maranhão, em São Luiz.

A Escola de Aprendizes Marinheiros atendia a crianças pobres, órfãos e desvalidos que não apresentassem nenhum problema físico ou de saúde, e tinha o objetivo de preparar mão-de-obra qualificada, transformando-os em futuros marinheiros para os serviços da Marinha de Guerra Nacional.

O menor aprendiz recebia instrução militar (manejar armas e outras instruções marciais), náutica (construção naval, costura, escultura e entalhe…), esportiva (natação) e instrução elementar: ler, escrever, contar, riscar mapas e aprendiam também a Doutrina Cristã com o capelão do Arsenal da Marinha.

Estes aprendizados foram essenciais para toda a vida futura de Daniel e a construção da sua Missão aqui na Terra.

Com a conclusão do curso na Escola de Aprendizes, o grumete Daniel é recrutado como marinheiro da Marinha de Guerra e visita o Acre pela primeira vez em 1905.

Pertencendo à Marinha Brasileira realiza lindas viagens de instrução, quando viaja por toda a Europa, visita o Oriente Médio e a cidade sagrada de Jerusalém, berço do cristianismo e de outras religiões. Esta viagem servirá para reforçar a sua fé em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Meus irmãos amigos

Me prestem bem atenção

Estou numa linda viagem

Junto com os meus irmãos.

 

Esta viagem é tão sublime

É uma linda Missão

Vamos ao Oriente Médio

Pedir Paz e União.

(Trecho de Salmo da Barquinha)

O viver de Daniel no Território do Acre

A primeira viagem que Daniel Pereira de Mattos fez ao Acre foi em missão de paz, pela Marinha de Guerra do Brasil.

A pacificação com a Bolívia já havia sido feita, em 1903, com a vitória da Revolução Acreana e a assinatura do Tratado de Petrópolis — negociado com habilidade diplomática pelo Barão de Rio Branco, que tornou as terras do Acre brasileiras.

Porém, a República do Peru reivindicava parte do território acreano para si. Essas disputas e conflitos eram motivados pelo cobiçado látex extraído da seringueira, produto muito valorizado no comércio internacional.

Com a soberania sobre o seu recém-conquistado território ameaçada, o Exército e a Marinha brasileira enviam soldados e navios para as zonas em disputa. O conflito entre Brasil e Peru só será solucionado em 8 de setembro de 1909, com a assinatura de um tratado entre os dois países, que delimitava as suas respectivas fronteiras.

Antes disso, o jovem Daniel realiza três viagens ao Território do Acre, compondo os batalhões enviados em defesa da terra brasileira. Naquele período, segundo ele, os soldados e marinheiros enfrentavam duas guerras numa só guerra: a guerra contra os peruanos e a batalha contra a fome — que provocava o temível beribéri.

O amor cultivado por Daniel pelo Acre o leva a fazer mais duas viagens ao Território, por conta própria — quando de licença da instituição naval — até se fixar definitivamente no Território em 7 de abril de 1907, após receber baixa da Marinha em Belém do Pará, na condição de 2º Sargento.

Naquele tempo, o Seringal Empresa tinha se tornado a Vila Rio Branco, um arruado de não mais que 20 casas situadas à margem direita do Rio Acre, e a faina cotidiana acontecia nos seringais.

Sendo habitante deste Território Federal praticamente desde a sua origem, é certo que Daniel viu o Acre nascer. Ele é um que conheceu cada pedra ou tijolo colocado nas primeiras paredes deste “Castelo Místico” de riquezas invejadas — como poeticamente descreveu a terra amada.

Na terra que então se desbravara, Daniel teve oportunidade de exercer todos os seus ofícios. Trabalhou pessoalmente com o Coronel Plácido de Castro, com o Coronel Daniel Ferreira e foi cozinheiro do seringal de José Ferreira.

Na defesa do território acreano, lutou em viagens perigosas e conheceu desde a primeira trincheira ao “penúltimo perigo”, ao lado do Coronel Alexandrino José da Silva. Por fim, trabalhou com José Galdino no Xapuri.

Daniel deu a sua cívica contribuição para tornar Puerto Alonso em Porto Acre — e o Acre brasileiro. A sua mocidade foi registrada e bem selada com o selo do patriotismo e do amor à terra que viu nascer.

Na profissão de barbeiro instalou-se no ano de 1925 em uma das primeiras ruas da “Penápolis” — margem esquerda do Rio Acre — a Epaminondas Jácome. Morou na Rua 1º de maio, antiga Rua da África e em 1926 transferiu sua barbearia de 3ª classe para a Rua 6 de agosto, onde ficou até meados de 1930. Posteriormente mudou-se para a Rua General Rondon, no bairro do Papôco. Neste bairro sua barbearia era na casa de Mamede Caboco, um “turco velho” que vendia banana, carvão e outras coisas.

Daniel casou-se com a também negra maranhense Maria do Nascimento Viegas no ano de 1928, em cerimônia simples, sacramentado pelo padre na residência do seu amigo Manuel Cassiano de Oliveira, situada à Rua 1º de Maio.

Para abrigar a família que começa a plantar, Daniel encaminha requerimento à Intendência Municipal de Rio Branco (atual Prefeitura) solicitando autorização para ampliação de sua residência.

Consciente dos seus deveres cívicos, na condição de barbeiro de 3ª classe paga impostos à mesma Intendência no valor de 35$000 (trinta e cinco mil Réis) pelos serviços prestados em sua barbearia.

Daniel e Maria Viegas tiveram quatro filhos: Ormite, Creusolina, Nazareth e Manoel do Nascimento Mattos, nascidos até 1934 e batizados na Catedral de Nossa Senhora de Nazaré.

Residindo no bairro do Papôco — zona boêmia da cidade — vizinho da “Bagunça da Anália”, Daniel passou a ter dificuldades para manter a sua saúde e a sua própria família.  Na boemia rio-branquense viveu várias noitadas acompanhado de seu inseparável violão. Músico inspirado, compunha canções que falavam de amor, paixão e busca pela mulher amada. Músicas que fluíam pelos seus dedos ao violão, em serenatas, que embriagavam homens e mulheres de cantigas e cachaça.

Cansada de suportar a vida libertina e o abuso do álcool pelo seu esposo, dona Maria Viegas resolve abandoná-lo, e volta para o Maranhão com os seus quatro filhos, praticamente fugindo do marido, pois este ignorava tal ato — e até acenou candidamente saudando o navio que partia, levando a sua prole.

Com a vergonha e a decepção de si mesmo, Daniel se afundou mais ainda na bebida, até que o Mestre Irineu mandou buscá-lo…

Daniel Pereira de Mattos e a Santa Luz do Daime

Foi aí, no ano de 1937, que Daniel tomou o Daime pela primeira vez, pelas mãos do Mestre Raimundo Irineu Serra. Dá-se início a graça da sua cura.

Vinho das almas, liana dos espíritos, cipó dos mortos. O Daime é o vinho do êxtase espiritual. E depois que provou do vinho do êxtase espiritual Daniel soube que nenhuma outra experiência podia ser igual.

Ele reconheceu que os prazeres que o álcool lhe proporcionara foram transitórios, e terminaram por lhe trazer a infelicidade. Mas a sagrada bem-aventurança da Luz do Daime nunca teria fim.

Na miração Deus fez com que Daniel experimentasse esse sagrado estado mental, imerso na paz curativa. A alegria divina o elevou em Espírito. Ao sobrevir o profundo êxtase de Deus os seus pensamentos se aquietaram, banidos pelo comando mágico da alma. Ao beber a bem-aventurança Divina, que é o Daime, Daniel experimentou uma embriaguez de alegria que nem todo álcool do mundo poderia lhe proporcionar.

A miração é o estado de comunhão com Deus, quando se transcende a consciência mundana e se percebe o seu ser como Espírito, feito à imagem do Divino. A consciência expandida levou Daniel ao despertar da sua destinação espiritual, e começar a compreender a Missão que lhe era reservada. O Daime lhe levou a viajar por outros planos e dimensões.

Estou bem longe, pelas florestas

Pelas campinas, à beira-mar

Com a Rainha e a Santa Fé

E o Santo Daime a passear {…}

 

Eu passeei longínquas terras

Lindos planetas eu percorri

A Paz de Deus seja convosco

Irmãos e irmãs estou aqui.

(Trecho de Salmo da Barquinha)

Ao entrar na vida corporal, por disposição Divina o Espírito perde, momentaneamente, a lembrança de suas existências anteriores e o compromisso espiritual assumido perante Deus. É como se um véu os ocultasse, para que o homem passe pelas provas terrestres — assim como o Nosso Senhor Jesus Cristo foi destinado a passar. Deus em Sua sabedoria quis assim.

Porém, na Santa Luz do Daime, Daniel compreendeu que a memória divina é eterna. E a memória divina residia nele como Uma parte do Todo que se individualiza através do Espírito. Ao retirar o véu que encobre a Verdade Daniel ligou-se firmemente ao seu aspecto eterno, a sua essência — que é Deus. E assim começou o seu retorno à casa do Pai.

O período de seis meses que Daniel residiu na comunidade religiosa liderada pelo Padrinho Irineu foi de cura dos problemas de fígado e de abuso do álcool, e também de aprendizagem e iniciação espiritual. Aprendeu durante esse período a preparar e usar o Daime conforme as recomendações reveladas ao Mestre Irineu pela Rainha da Floresta, Nossa Senhora da Conceição.

Aprendeu, por exemplo, da importância da abstinência sexual para tomar o Daime e a necessidade de estado físico e mental harmonioso daqueles que irão comungar desta santa bebida.

Daniel relembra as revelações espirituais que o acompanhavam desde a infância, quando ele via Seres de Luz que o entregavam um Livro Azul, a mando da Virgem Maria e São Francisco das Chagas, e lhes diziam:

— Essa é uma Missão que te mandaram cumprir sobre a Terra.

Já na idade adulta, quando se encontrava entregue ao vício do álcool, Daniel relembra quando, ao retornar de uma festa, resolveu descansar em um lugar conhecido por Poço das Cobras. Bêbado, teve uma visão na qual dois luminosos Anjos desciam do Céu e lhe entregavam o mesmo Livro de cor Azul. Estando na ilusão da vida mundana, Daniel desconsiderou o chamamento espiritual. Chamamento este que já lhe havia sido feito em outras oportunidades. Sua única reação foi a de despejar o restante da aguardente no Rio Acre.

Tornou-se discípulo do Mestre Irineu Serra no início de caminhada espiritual deste amigo conterrâneo, que abrira os seus trabalhos com Daime no ano de 1930. Na Doutrina que então se estruturava, Daniel Pereira terá uma posição destacada, pois, músico como era, tocava o seu violino (rabeca) nas sessões de Concentração das quartas-feiras.

Quando se começou a cantar hinário, Daniel foi pioneiro em tocar instrumentos musicais para abrilhantar as festas.

De 1937 a 1945 ele acompanhou o Padrinho Irineu na sua Missão. Foi um período de instrução e preparo para seguir a sua destinação espiritual e fundar a sua própria Missão mais adiante.

Daniel P Mattos é o segundo à esquerda do Mestre Irineu

Daniel P Mattos é o segundo à esquerda do Mestre Irineu

Integrando aquela comunidade ordeira e trabalhadora, voltada para atividades agrícolas, Daniel prestava serviços nas habilidades em que era bom profissional: carpintaria, marcenaria, barbearia e, na condição de escolarizado, secretariou as atividades da nova doutrina cristã.

Exercendo ocupações humildes, Daniel foi cozinheiro na Cidade de Rio Branco, e teve como companheira — por um período — uma senhora de nome Maria de Lourdes.

O seu processo de cura e aprendizagem não se deu sem percalços. Com a saúde recuperada, após aqueles seis meses iniciais, Daniel retorna à vida libertina e caí novamente na boemia e na bebedeira. Neste período, uma de suas paixões foi pela senhora Maria Emília, residente à época na Rua dos Canudos.

Paciente, seu amigo Irineu manda buscá-lo novamente. Tantas vezes Daniel caiu e tantas vezes uma mão amiga estava ali, disposta a ajudá-lo — na nobre missão de amor e caridade ao próximo.

Início da Missão Espiritual de Daniel Pereira de Mattos

No ano de 1945 o Mestre Raimundo Irineu Serra se transfere da Vila Ivonete para as terras do antigo Seringal Espalhado. Terras doadas pelo governo do Estado ao Padrinho Irineu. Sua irmandade trabalhadora o segue para a labuta no campo. Este lugar, que se chamava Alto da Santa Cruz será rebatizado como Alto Santo.

O Mestre Irineu para lá transferiu os seus trabalhos espirituais — e o primeiro hinário na nova sede de serviços acontecerá na noite de São João.

Corria o mesmo ano de 1945 e, ao término de um trabalho de Concentração, Daniel, que vinha tomando uma pequena quantidade diária de Daime para o tratamento de saúde, pediu permissão ao Mestre Irineu para tomar um copo cheio. E mentalizou:

— Sei que nesse Daime, nessa bebida, eu tenho possibilidade de alcançar o sonho que eu tive.

Quando a força chegou, ele teve uma visão, uma miração: romperam-se os céus e de lá desceram dois esplendorosos Anjos que, por ordem do Pai de Bondade e da Virgem da Conceição, lhe entregaram o Livro Azul e lhe falaram no cumprimento de uma missão.

Daniel rogou a Deus e a Virgem Maria que lhe mostrassem o significado daquela mensagem. Então apareceu um soldado celestial com o mesmo Livro Azul nas mãos e lhe entregou dizendo:

— Aqui está a Missão que tens que cumprir. Deste mundo à eternidade. A sua Missão está neste livro. Fé.

O mensageiro de Deus lhe disse também que ele deveria sair dali, pois aquela não era a sua linha espiritual.

Ao sair do transe místico, Mestre Irineu lhe perguntou:

— Aonde é que tu andava, Daniel, que espiritualmente te procurei e não te encontrei?

— Padrinho Irineu, a minha Mãe me entregou uma Missão Espiritual.

Aí ele contou ao Mestre Irineu a miração que teve. Este lhe aconselhou a fazer o que tinham lhe ordenado, pois ele estava recebendo uma Missão e tinha que cumprir.

Daniel pediu a permissão, benção e o apoio do Mestre Irineu para iniciar a sua Missão Espiritual aqui na Terra. Do Padrinho Irineu ele recebeu a licença, a benção e os primeiros litros de Daime usados na abertura dos seus trabalhos.

Dentro da Santa Luz, Daniel foi recebendo os salmos sagrados do Livro Azul. Com a sua rabeca entoava as melodias. Assim surgiu a Doutrina do Daime de Mestre Daniel Pereira de Mattos.

A amizade, admiração e respeito mútuo entre esses 2 mestres ayahuasqueiros, irmãos de cor e conterrâneos maranhenses, vai durar neste mundo até o desencarne de Daniel — no ano de 1958 — e continua por toda a eternidade.

Capelinha de São Francisco: feita de Cipó e Folha

Em 1945 Daniel Pereira de Mattos se instalou na Vila Ivonete — que já lhe era conhecida — nas margens de uma estrada do seringal Empresa, em área pertencente ao Capitão Manuel Julião de Souza, seu compadre.

No ano de 1946 essas terras tornaram-se parte da Colônia Agrícola Cecília Parente, criada pelo governo para acomodar as levas de ex-seringueiros que viviam na Cidade de Rio Branco, endividados e desempregados, com o fim do Ciclo da Borracha.

Sua primeira moradia foi uma humilde palhoça à beira do igarapé Fundo. Logo depois, Daniel construiu para si uma casinha de paxiúba, coberta de palha, semelhante a uma pequena casa de seringal: sala, o quarto no meio e a cozinha nos fundos. Na sala tinha uma cadeira de barbeiro, lembrança da sua antiga profissão, e próximo à janela uma outra cadeira, onde sentado apreciava as pessoas que passavam no varadouro em frente. Na cozinha uma mesa, o fogão de barro no canto e o jirau de lavar louça.

Daniel criava pequenos animais, como galinhas e porcos, para garantir a alimentação — além de alguma caça. Mas ele vivia mesmo era da caridade alheia. Os irmãos amigos que lhes visitavam traziam farinha, carne e outros produtos alimentícios que eram partilhados comunitariamente.

O segundo presidente do Centro Espírita fundado por Daniel, sr. Manuel Hipólito de Araújo (10.06.1921 – 17.08.2000), depõe:

— Daniel Pereira de Mattos era um homem pobre, humilde, que vivia na vida franciscana. Comia de esmola. Quem recebia os benefícios dos seus trabalhos espirituais lhe levava um pão, um pedacinho de carne, um litro de leite; e assim ele vivia, como São Francisco de Assis, quase da caridade pública. Era Deus quem lhe dava.

Ao lado da sua humilde casinha Daniel ergueu uma pequena capela voltada para o Nascente, medindo mais ou menos 3X5m, uma construção rústica de taipa e paus roliços, coberta de palha, e a consagrou a São Francisco das Chagas. À frente da capelinha ergueu um Cruzeiro de madeira.

No interior do modesto templo erigiu um altar com a imagem de São Francisco, uma mesa e bancos de paus roliços, por ele construídos. Era tão pequena a igrejinha, que parte dos primeiros frequentadores tomavam o Daime e sentavam nos banquinhos do lado de fora, no terreiro.

Mestre Daniel sempre dizia, entusiasticamente:

— Vamos trabalhar que um dia nós vamos poder construir a nossa Igreja!

Isto é, um templo maior, de alvenaria.

Esta Igrejinha era chamada de “capelinha” pelo Mestre Daniel e passou a ser conhecida como Capelinha de São Francisco pelos seringueiros e caçadores da região que, junto com seus familiares, procuravam aquele senhor pretinho de óculos para aconselhamentos, rezas em crianças e lhes tirar panema. Pouco tempo depois, moradores da zona urbana de Rio Branco passaram a procurá-lo.

Na cidade se comentava que na Vila Ivonete vivia um “nêgo véio” curador, vidente, que rezava em crianças e caçadores da localidade e usava o Daime para mostrar a verdadeira situação da pessoa.

— Vamos lá na Vila Ivonete que tem um Preto Velho que advinha.

O primeiro presidente do Centro Espírita fundado por Daniel, Antônio Geraldo da Silva (25.05.1922 – 28.07.2000), comenta:

— Ele andou adiante, servindo Daime no mato e começou a receber hinos, começou a rezar em crianças, adultos… caçadores que passavam por lá, encostavam para tomar água e ele ficava lá, tocando aqueles hinos bonitos, aquelas coisas bonitas, né? Conversando, e o pessoal foi dizendo que em tal parte tinha um velhinho assim, preto, que rezava em criança muito bem.

Pessoas humildes com problemas de saúde, dor de dente, espinhela caída, dificuldades familiares e alcoolismo recorriam a Daniel em busca de ajuda. O encontravam sentado num banquinho, lenço branco amarrado na cabeça, com quatro nós dados nas pontas, pronto para atender, conversar, aconselhar, ensinar remédio caseiro, banho de ervas… Dele recebiam uma palavra amiga, um conforto e a cura através do Santo Daime.

Lenço branco amarrado na cabeça, com quatro nós dados nas pontas, pronto para atender

Lenço branco amarrado na cabeça, com quatro nós dados nas pontas, pronto para atender

— Eu sempre tinha contato com o seu Daniel, eu conhecia ele, ele era o médico dos meus filhos, porque eu não tinha recurso de ir ao médico e o seu Daniel era o médico verdadeiro de meus filhos, ensinava chá, remédio e tudo e rezava. Qualquer coisa eu ia com Daniel.

Testemunha Maria Belarmina de Souza Lopes, uma das muitas pessoas agraciadas pela cura divina através do aparelho de Daniel.

A chegada à casa de Daniel nem sempre era fácil. O acesso da área urbana de Rio Branco se dava por um varadouro que cortava um vasto campo de goiabeiras. Logo abaixo do lugar que escolhera para iniciar a sua Missão tinha um pequeno riacho cristalino (Igarapé Fundo), que abastecia Daniel de água — fonte da vida.

Os transeuntes atravessavam o igarapé por cima de uma pinguela. Na época das chuvas, quando o igarapé inundava, o cruzavam nadando. Homens, mulheres e crianças traziam uma muda de roupa dentro de um saco plástico para trocarem ao chegar à Igrejinha.

Assim começou o trabalho de atendimento nas Obras de Caridade em benefício dos irmãos necessitados. Muitos daqueles que recebiam a graça divina retribuíam ao se tornar trabalhadores daquela casinha. Surgiram os primeiros discípulos do Mestre Daniel.

Um dos primeiros seguidores, Manoel Fernandes de Oliveira (Manoel Touro), ouviu esta palavra amiga de consolo:

— Olha, você vai ficar ciente de tudo que já passou na vida. Você já teve muito doente, teve uma vida aperreada, já sofreu muito, mas você vai ficar bom, se Deus quiser.

E esta outra mensagem de coragem:

— E não tenha medo, você não morreu até hoje e ainda vai passar por todas as provações.

Atormentada por tumores que lhe cobriam o corpo dos pés a cabeça, Francisca Campos do Nascimento, dona Chica Gabriel, estava como que “desenganada pelos médicos”. Os medicamentos já não surtiam efeitos.

Foi quando o seu marido, Francisco Gabriel do Nascimento  (03.07.1914 – 02.03.2017), seu Chico Gabriel, a levou para uma consulta com o Mestre Daniel. Era uma manhã de domingo, 20 de maio de 1957 e, caminhando pelo estreito varadouro a caminho da Vila Ivonete, dona Chica elevou o pensamento, rogando por sua cura. Prometeu que se ficasse boa continuaria naquela casa, naquela igreja, até o dia que Deus permitisse.

Mestre Daniel os recebeu, e perguntou para dona Chica Gabriel:

— A senhora acredita em São Francisco das Chagas?

Ele repetiu esta pergunta três vezes. Por três vezes ela respondeu afirmativamente.

— Olhe dona Chiquinha, assim como a senhora acredita que existe São Francisco das Chagas pode acreditar que a senhora vai ficar boa.

Palavras de fé e esperança firmadas pelo fundador desta Casa de Jesus e da Virgem da Conceição.

Mandou que ela entrasse naquela humilde igrejinha de taipa, e que sentasse no banquinho de pau roliço. Chamou o irmão José Joaquim e o autorizou a fazer uma busca espiritual para descobrir a causa dos seus males.

A sua doença era um mal secreto que lhe fizeram quando estava no terceiro dia de resguardo. Mestre Daniel lhe disse que ficaria curada, mas não seria logo, demoraria um tempo. A convidou para ser trabalhadora da Missão.

Diagnosticada a doença espiritual, começou o tratamento. Mestre Daniel rezou e pediu a outros irmãos que rezassem nela, ensinou remédio caseiro, banho de ervas e lhe deu o Daime nos primeiros meses como medicamento.

O recinto de cura de Mestre Daniel, a Capelinha de São Francisco, é a Fonte de Luz e prova material de amor e compromisso para com o Pai de Bondade e a Mãe de Bondade a uma vida de entrega, pobreza, abnegação, penitência, humildade e caridade.

De cipó e folha erigiu o seu culto de oração e cânticos sagrados, para nesta forma poética e amorosa louvar a Deus Jesus Nosso Senhor.

Os salmos recebidos do mítico Castelo do Monte Azulado, contidos nos Livros das 12 Ciências e Mistérios, constituem o Hinário Sagrado desta linda Doutrina.

Os hinos são a expressão de amor, arrependimento, rogativa, humildade, simplicidade, confissão, gratidão e piedade pelos inocentes e por todos os irmãos necessitados.

A Missão de Mestre Daniel Pereira de Mattos é a preparação do nosso espírito numa linda viagem dentro do Barco Santa Cruz, que singra os mares sagrados recolhendo as almas penitentes e as levando para os santos pés de Jesus.

Os soldados dos Exércitos de Jesus

O Mestre Daniel trabalhou ininterruptamente por 12 anos e alguns meses. Pediu permissão ao Capitão Manuel Julião de Souza e construiu sua casinha de paxiúba com telhado de palha, no meio da mata, onde foi morar sozinho. Ao lado edificou uma Capelinha simples, de taipa, e na frente levantou um Cruzeiro de madeira.

Na construção da Igrejinha foi ajudado pelos discípulos de primeira hora José Joaquim da Silva e Anelino Cavalcante da Silva. No interior da Igrejinha construiu um altarzinho de tijolo, e colocou imagens de santos que ele mesmo fazia com canivete e pedaços de madeira.

Começou a receber o Hinário, que entoava com a sua rabeca e eternizava nas partituras. Rezava em crianças e os caçadores que vinham caçar nas matas ao redor paravam na sua porta para beber um copo d’água ou um café. Ouviam aquelas canções, aqueles hinos bonitos por ele cantados e levavam a notícia para a cidade.

Principiou então a chegar gente de todos os lugares para apreciar o trabalho, trazer crianças para rezar, adultos para tratar da saúde. Vinha muita gente buscar a cura física e espiritual com Daniel, no Centro Espírita que surgia no meio da mata.

No começo ele assumia todos os afazeres. Batia o jagube, fazia o Daime, distribuía, administrava o pequeno Centro. Devoto de São Francisco das Chagas, a este santo querido consagrou a sua vida e missão.

Franciscanamente deixou a cidade e se embrenhou na floresta. Fez uma promessa de não se afastar das imediações do templo nem ir à Cidade pelo prazo de dez anos. Abandonou toda e qualquer atividade remunerada. Viveu para a caridade e da caridade do seu próximo, cumprindo as palavras do Nosso Senhor Jesus Cristo: “o que de graça recebestes, de graça darás”.

As profissões, ofícios e habilidades profissionais que acompanharam Daniel por toda a vida — aprendidas na Escola de Aprendizes Marinheiros — o auxiliariam na edificação da Doutrina.

Como marceneiro, fabricou violões e rabecas, com os quais entoava os hinos e salmos sagrados; como músico, escreveu e perenizou as partituras; como carpinteiro e pedreiro edificou a Capelinha de São Francisco, uma casinha rústica de taipa e paus roliços. Depois, iniciou a construção do templo em alvenaria.

Daniel tinha pressa. Tinha urgência. Este profeta da floresta sabia que o seu apostolado não seria longo, pois tinha recebido a Doutrina já em idade provecta. Incansavelmente, todas as noites reunia os amigos, tocava o violão e abria o Culto Santo para prestar Obras de Caridade. Procurava assim alcançar as promessas de Cristo: “onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome lá eu estarei”.

As pessoas que a ele recorriam em busca de um conforto para os males físicos e espirituais, e alcançavam a graça divina da cura através da Luz do Santo Daime, se tornavam testemunhas da seriedade do trabalho. Alguns poucos retribuíam a graça se constituindo em trabalhadores da casa. Surgiam os primeiros discípulos do Mestre – os soldados dos Exércitos de Jesus.

Testifica Antônio Lopes da Silva:

— Na época de Daniel nós fazíamos o Daime ali adiante, na mangueira. Eu já cheguei a bater um Daime pra ele. Ele é quem fazia o Daime. Depois é que chegou o Chico Tenório. O Chico Tenório fez Daime com ele e ele ainda carregou Daime com nós da Chapada. Naquela época tinha pouquinha gente.

Companheiro de trabalho de primeira hora, José Joaquim da Silva, em vida de matéria, foi um dos principais colaboradores das Obras de Caridade desta Casa Espírita. Pelos seus dons mediúnicos, se tornou responsável por ser o procurador das almas penitentes para, à luz do Santo Daime, resgatá-las da escuridão e dar-lhes a doutrinação. Consagrado santo missionário pelos mistérios da Santa Doutrina, Frei José Joaquim (25.03.1895 – 09.09.1957) continua ainda hoje a ser o Pastor das Almas, lá do mundo espiritual.

Muitos irmãos, levados pela necessidade, procuravam o Mestre:

— É o senhor que é seu Daniel?

— Sou eu mesmo. Eu sei quem você é e o que está sentindo. Sei o que veio à procura.

Manifestando os seus dons de vidência, Daniel relatava para a pessoa quem ela era e o que queria. Os consulentes testificavam:

— Sim, senhor, é isso mesmo.

Ele então rezava na pessoa ou ensinava o que ela devia fazer.

Quando Antônio Lopes chegou pela primeira vez na Casa de Daniel, este lhe falou:

— Antônio, você quer ver toda a passagem que está prometida a atravessar, a passar na sua vida?

— Quero, sim senhor.

Todos os caminhos existentes foram apresentados a Antônio, para um caminho ele escolher. Escolheu permanecer com o Mestre, e assim Antônio Lopes da Silva (26.06.1921 — 09.11.2008) — missionário e feitor da Santa Luz — continua por toda a eternidade.

Gregório Nobre de Oliveira tinha trinta e três anos e estava disposto a dar um fim à própria vida:

— Eu cheguei a conclusão de pegar uma espingarda, que já fazia muito tempo que eu estava doente, ir para a mata e procurar um lugar que não tivesse gente e atirar em mim.

Procurou Mestre Daniel, que com um livro nas mãos lhe perguntou:

— Você sabe rezar?

— Sei muito pouco.

— Você vai na igreja e lá faz uma rogativa para o santo que seja de seu agrado.

Aos pés da imagem de São Francisco das Chagas aqueles pensamentos destrutivos desaparecerem do coração e da mente de Gregório. Ele se firmou naquela Casa de Jesus. Muito tempo depois, após o desencarne do seu Mestre ele ainda via Daniel em miração o proteger e guarnecer:

— De você, Gregório, eu preciso para entregar a meu Pai.

Antônia Ferreira da Silva conhecia Daniel desde menina, quando ele exercia a humilde profissão de cozinheiro numa pensão de Rio Branco. Tempos depois, tem notícia que ele prestava obras de caridade na Vila Ivonete e que era procurado por pessoas em busca de curas físicas e espirituais. Corria o ano de 1955.

Dona Antônia procura Daniel em busca de auxílio para um irmão seu, gravemente enfermo, pois havia contraído sífilis.

É acompanhada pelo marido, Antônio Geraldo da Silva. A família passava por dificuldades materiais, decorrente do desemprego do esposo. Daniel a reconhece:

— Êi, você por aqui! Já casou?

E completa:

— Eu já sei o que é que tu veio atrás, mas conte.

Dona Antônia conta a história da doença do irmão.

Daniel reflete:

— É… A formiga que muito anda tem rabo sujo.

Ele era engraçado! Lembra Dona Antônia.

Após a conversa do casal com o Mestre, Daniel lhes falou:

— Com dez dias vocês vêm aqui.

— Sim senhor.

Decorridos dez dias, Dona Antônia retorna à Capelinha.

— Pronto, seu Daniel.

Sobre a saúde do irmão de Antônia, Daniel afirma para ela que não pode fazer mais nada, devido ao estado adiantado da doença (sífilis).

E pergunta:

— Cadê o menino?

Se referindo a Antônio Geraldo da Silva, seu marido.

— Ficou em casa.

Daniel então vaticina:

— Amanhã ele vai se empregar.

Como prenunciado pelo Mestre, no dia seguinte Antonio Geraldo é contratado para serviço de construção civil na obra do prédio da Maternidade de Rio Branco.

Francisca Josino de Melo, dona Chiquita, tomou Daime pela primeira vez das mãos do Mestre Daniel aos trinta anos de idade, e teve o seu despertar para a espiritualidade:

— Fiz um trabalho muito bonito, vi os santos e fiquei tocada pelos hinos que chamam muito a atenção da gente e dá de entender que a gente está tendo um contato com Deus ou com os santos, dá aquela coisa boa na gente.

Após isso, dona Chiquita começou o seu preparo pelas mãos do Mestre Daniel para se tornar trabalhadora da Casa, emprestando o seu aparelho aos seres curadores para prestar atendimento nas Obras de Caridade aos irmãos necessitados.

Maria Rosa de Almeida, a Maria Baiana, frequentava a Missão de Mestre Daniel escondida do marido, alcoólatra e violento. Tinha medo de ser assassinada por ele, durante as suas bebedeiras.

— Não minha filha, ele não vai lhe matar. Ele vai se firmar no caminho desta casa.

Maria Baiana ria, “mangando” dele, desacreditada das palavras do Velho Mestre.

Dois meses depois do desencarne de Daniel, um vizinho, adepto da Doutrina e morador da Rua 1º de Maio, convida Juarez Martins Xavier (17/12/1924 – 04/02/2015) — o marido de Maria Baiana — para conhecer a Capelinha de São Francisco. Marido e mulher vão juntos.

— Eu quero tomar esta bebida!

Como desconhecia que Maria Baiana frequentava a casa e bebia o Daime, tratou de proibi-la:

— Você não vai tomar não!

Depõe Juarez Martins Xavier:

— Aí eu tomei a primeira, a segunda, a terceira vez. Desse dia em diante me tornei um homem completamente diferente devido aos ensinamentos que a Luz me mostrava.

E continua:

— Eu bebia, eu jogava, fazia tudo quanto era coisa ruim. Mas foi com 33 anos de idade que saí da vida, morri de uma vida e surgi para outra.

Outros soldados dos Exércitos de Jesus 

Durante os 12 anos que trabalhou construindo esta linda Doutrina, Mestre Daniel foi acompanhado por estes e outros irmãos de fé: Agostinho Henrique de Paiva era o responsável pela pesquisa e busca do Daime (cipó Jagube e folha Rainha) nas matas — assim como pesquisador das almas; Elias Nassif Correa Kemel foi o mestre de obras da nova igrejinha, do Parque de festejos e do Cruzeiro de alvenaria.

Ao todo eram mais de 40 os oficiais do Centro Espírita fundado por Daniel. Alguns deles: Avelino Simão, Benedita Alves Ferreira Kemel, Maria Henrique de Oliveira, José Luiz da Silva, Ernesto Júlio de Oliveira, Milton Brígido da Silva, João Amâncio dos Santos, Maria do Carmo da Silva, Cecília Alves da Silva, Olinto Alves da Silva, Alípio da Silveira, José Gabriel do Nascimento, Rosa Henrique de Paiva, Angelino José da Silva, Jerônimo Alves da Silva, Maria José Correa, Francisco da Silva Souto, Jovano Martins da Fonseca, Maria Alves da Silva, Rosa Cândida Cabral, Firmino dos Santos Borges, Leonor Santos da Silva, Joana Torquato de Araújo, José Honório Alves, Ademar Sales de Oliveira e Maria de Lourdes Lima de Almeida.

João Martins de Oliveira Filho levava uma vida desregrada. Apesar de trabalhar, jogava muito, bebia e vivia uma vida mundana de vícios. Foi levado para conhecer Daniel por um amigo com os mesmos problemas de jogatina, álcool e vida devassa.

Testifica João Martins:

— Inicialmente eu vi ele como homem, como eu e outro qualquer, mas depois com o decorrer do tempo, aí reconheci ele uma criatura inigualável, um professor, um dos melhores professores que eu vi na vida. Ele me deu uma aula tão grande de vida que hoje eu passei a ser e a reconhecer a ser um verdadeiro esposo e um verdadeiro pai. O maior prazer do Mestre Daniel e a alegria dele era receber os irmãos naquela simples capelazinha.

João de Deus Filho chegou à Missão no ano de 1954. E nos dá o testemunho de sua fé:

— O Mestre Daniel representa o meu protetor, eu rezo todo dia e peço que ele me guie. Eu tenho ele assim como um intermediário, o meu mediador. Mestre Daniel me acolheu e acolhia a todos da melhor forma possível. A pessoa ficava grata e voltava. Eu me sinto muito feliz, porque vejo que este é o caminho da salvação. Aquele que se afirmar neste caminho será feliz deste mundo à eternidade.

Deste mundo à eternidade

Foi em 1956 que Mestre Daniel começou a preparar a sua irmandade para uma viagem que deveria fazer brevemente. Era um tipo de viagem misteriosa, considerada por alguns um retorno para a sua terra natal, o Maranhão. Mas algumas pessoas interpretavam como a sua provável desencarnação.

Após muitos anos de solidão, Daniel Pereira de Mattos desposa a jovem Maria Ferrugem (Maria Souza Mattos) em 1954, com a qual teve um filho, Francisco Mattos. A grande diferença de idade — ela, quase uma menina — e a personalidade da jovem médium, ciumenta e briguenta, cria problemas de relacionamento com a irmandade.

Mestre Daniel lamentava com os amigos mais próximos:

— Meu filho, eu cometi um erro dentro da Missão. Eu vou fazer uma viagem, eu vou viajar, o erro que cometi foi que na idade que estou foi ter procurado uma mulher para mim casar. A mulher que apareceu foi um aparelho novo demais. É ciumenta e vem causando desgosto para mim e com a irmandade.

Era inevitável a separação. De novo solitário, Daniel tem um relacionamento afetivo com outra jovem, recém-chegada à irmandade, Francinete Oliveira dos Santos, com a qual teve um filho também de nome Francisco, nascido em 1959, depois do falecimento do pai.

Ele sente que é chegada a hora de deixar a vida de matéria. Voltar à Casa do Pai, à morada que Deus lhe destinou — o Castelo de Cristal sobre o Monte Azulado. Eleva o pensamento ao Salvador e pede uma Luz, uma orientação.

Do Alto recebe uma instrução: deveria fazer um preparo, uma penitência de noventa dias. Entregaria a penitência ao término da Romaria de São Francisco, seu santo protetor.

Jesus e a Virgem Mãe

Me ordenou noventa dias

Para mim e os meus irmãos

Seguir nossas Romarias.

(Trecho de Salmo da Barquinha)

Logo em seguida Daniel adoeceu. Nasce um tumor em sua garganta e, com o passar dos dias, vai crescendo e a doença se agravando.

Daniel desencarnou na tarde do dia 8 de setembro de 1958, as 18h30, no oitavo dia da Romaria de São Francisco das Chagas. O seu passamento aconteceu na casinha de feitio do Daime, nos braços de Manuel Hipólito de Araújo. Logo após, o tumor que o havia matado foi diminuindo até desaparecer.

Testifica Manuel Hipólito de Araújo:

— Eu trabalhei dois anos com o Mestre Daniel. Antes de desencarnar, ele fez uma penitência de noventa dias. Apareceu um caroço no pescoço dele, foi ficando vermelho e cada dia maior. Ele não resistiu e desencarnou no limiar dos noventa dias. Assim que ele morreu, aquele caroço desapareceu completamente. Ele desencarnou nos meus braços, no dia 8 de setembro de 1958, às seis horas da tarde. Quem colocou a vela em suas mãos fui eu.

Seu corpo foi colocado no interior da Igreja ainda em construção, sobre a mesa de concreto que ele mesmo havia construído. Nesta noite e durante o dia seguinte, 9 de setembro, a irmandade realizou um trabalho especial e prolongado de homenagens ao seu Mestre. Seu corpo foi sepultado às duas e meia da tarde.

Belarmina Maria de Souza Lopes relata que:

— Muita gente conta que quando ele desencarnou o Céu mudou de cor, foi a coisa mais linda do mundo, não sei se deu vento ou foi chuva, eu sei que foi uma coisa muito linda mesmo, na hora da partida dele.

Assim Daniel deixou este mundo e viajou para a eternidade. Lá do Mundo Espiritual continua a presidir os trabalhos, nos dando força, nos dando Luz, intercedendo junto ao Senhor São Francisco das Chagas, Nosso Senhor Jesus Cristo e a Virgem da Conceição.

Patriarca de Luz, Mensageiro de Luz, Professor de Luz, Zelador da Casa, Sacerdote de Jesus, Servo de Deus, Servo de Jesus. Nos mistérios da sagrada Doutrina Mestre Daniel Pereira de Mattos é o santo missionário franciscano Frei Daniel, o Marinheiro de Luz firme no leme do Barco Santa Cruz, o comandante da grande viagem das nossas vidas, deste mundo à eternidade, no caminho da Salvação.

… E o Barquinho continua a navegar

Não foi por acaso o fundador desta Doutrina marítima, Daniel Pereira de Mattos, ter sido membro da Marinha de Guerra do Brasil e depois reservista, ao receber baixa da Marinha em Belém do Pará, na condição de 2º Sargento. Esta foi uma determinação Divina, e Daniel um predestinado.

Com dez anos de idade ingressou na Escola de Aprendizes Marinheiros do Maranhão, em São Luiz. Os aprendizados lá recebidos foram essenciais para toda a vida futura de Daniel e a construção da sua Missão aqui na Terra.

Com a conclusão do curso na Escola de Aprendizes Marinheiro, o grumete Daniel é recrutado como marinheiro da Marinha de Guerra do Brasil e viaja ao Acre pela primeira vez em 1905. O amor cultivado por Daniel pelo Acre o leva a fazer mais duas viagens ao Território, por conta própria — quando de licença da instituição naval — até se fixar definitivamente no Território em 07 de abril de 1907.

Com o passamento de Mestre Daniel para o mundo espiritual, esta Doutrina marítima — Barquinha — vai ter continuidade através dos seus discípulos e sucessores, e hoje desperta o interesse do universo ayahuasqueiro por sua originalidade e pouco conhecimento que dela se tem fora das fronteiras do Estado do Acre.

Doutrina não expansionista, conta com alguns Pontos de Luz autorizados a trabalhar nas cidades de Ji-Paraná (Rondônia), Rio de Janeiro e Niterói (Rio de Janeiro) e Fortaleza (Ceará).

Bases doutrinárias da Missão de Daniel Pereira de Mattos

No ano de 1945, Mestre Daniel Pereira de Mattos fundou uma religião na Cidade de Rio Branco – Acre, baseada no uso ritual do Daime (Ayahuasca), celebrações litúrgicas, romarias, Obras de Caridade e nos cânticos do Livro Azul — hinário com salmos e hinos que contêm a essência da Doutrina Espírita Cristã.

Os trabalhos abertos por Mestre Daniel eram — e continuam a ser — de preparação espiritual dos irmãos amigos que procuravam o seu auxílio.  Ele efetuava aconselhamentos, passes mediúnicos, receitas de chás e banhos com ervas medicinais, cura de doenças, batismo de eguns (espíritos sem luz) e a doutrinação das almas. Esta Missão é continuada por seus discípulos; filiados aos centros espíritas da linha espiritual fundada por Daniel.

Igreja, Escola, Hospital e Quartel dos Santos Exércitos de Jesus

Uma singularidade da linha espiritual fundada por Mestre Daniel (Barquinha) é que ela é, ao mesmo tempo, Igreja, Escola, Hospital e Quartel dos Santos Exércitos de Jesus.

Vejamos:

  1. Igreja

A Barquinha é uma Igreja porque ali se congrega a comunidade evangélica do Nosso Salvador, confiante nas promessas de Jesus Cristo:

— Onde se reunirem dois ou três em meu Nome, ali Eu estarei no meio deles.

Os templos físicos das casas da Barquinha, constituem-se em uma estrutura arquitetônica dedicada ao serviço religioso. Um lugar sagrado. Porém, são os cânticos, as preces e os bons pensamentos dos devotos que os sacralizam.

Em sentido figurado, o templo (Igreja) é a habitação de Deus sobre a terra.

Ao expulsar os vendilhões do Templo, usando um grosso chicote de Cipó, Jesus os repreendeu, dizendo:

— Não façais da Casa do meu Pai um covil de ladrões. A Casa de meu Pai é uma Casa de Oração.

Contestaram, pois, os judeus, e disseram-lhe:

— Que autoridade tens para fazeres isto?

Jesus respondeu, e disse-lhes:

— Derribai este templo, e em três dias o levantarei.

Disseram, pois, os judeus:

— Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu o levantarás em três dias?

Mas Jesus falava do Templo do seu Corpo.

  1. Escola

Esta Casa Espírita é uma Escola porque ali o devoto ouve e guarda, no fundo do coração, as palavras sagradas cantadas em lindos salmos, melodiosas canções. Doutrina transmitida através dos hinos — valsas-serenatas, marchas e outros ritmos — que embelezam os cânticos de louvor e instruções morais entoados.

É uma Escola Espiritual porque se aprende com o Daime, bebida de poder inacreditável, planta mestra, professor dos professores.

A Barquinha é uma Doutrina de Cristianismo Exotérico e Cristianismo Esotérico. As ciências e mistérios aprendidos objetivam o fortalecimento da amplitude consciencional e, consequentemente, o desenvolvimento espiritual.

  1.     Hospital

Esta Casa de Jesus e da Virgem da Conceição é também um Pronto Socorro Espiritual (Hospital), pronto a receber todos que chegar; atender os doentes — encarnados e desencarnados — que veem em busca de um conforto, uma cura para os males físicos e espirituais.

  1. Quartel

O participante que decide permanecer neste navio-escola e navio-hospital, trabalhando em obras de caridade, ingressa como soldado dos Santos Exércitos de Jesus — do Céu, da Terra e do Mar — recebe o Símbolo de Salomão (Hexagrama) e assume o compromisso de servir neste Quartel como marinheiro de luz no Barco Santa Cruz; e a Santa Cruz Bendita se torna a arma de defesa de quem decide assumir esta Missão como sua religião, no batalhão sob o comando de Mestre Daniel.

Meus irmãos recebam a farda

Capacete, escudo e lança {…}

Nossa farda é a firmeza

O capacete é o Amor

O nosso escudo é a Fé

As lanças são as devoções.

(Trecho de Salmo da Barquinha)

 

Síntese doutrinária

Na Missão Sagrada de Mestre Daniel, recebida de Deus e da Virgem Mãe da Conceição, estão presentes cinco elementos que formam a Doutrina desta Casa de Jesus, que são:

  1. Espiritismo Cristão, fundamentado na comunicação entre o mundo dos vivos e dos mortos, dos encarnados e desencarnados; Doutrina reencarnacionista, admite que Deus dá uma oportunidade de salvação no retorno da alma sobre à Terra, dentro de um corpo físico: “ao que vencer, farei dele uma coluna do templo do meu Deus; e nunca mais de lá sairá” (Apocalipse 3:12),  isto é, estará livre da ‘roda de samsara’, do ciclo de nascimento e morte, encarnação e desencarnação — e alcançará a iluminação;
  2. O catolicismo popular, base das devoções e dos dias consagrados do Calendário Cristão, presente na Missão;
  3. Os cultos afros, presentes principalmente no trabalho de Obras de Caridade e nas evocações das entidades afro-brasileiras no Bailado do Parque;
  4. O elemento indígena através da bebida utilizada como sacramento — Daime (Ayahuasca) — e também nas evocações das entidades ameríndias que vêm bailar no Parque;
  5. A filosofia esotérica, presente nos fundamentos da Doutrina — Harmonia, Amor, Verdade e Justiça — nos símbolos da Missão e na arquitetura sagrada dos templos.

Doutrina cristã exotérica e esotérica

Daniel Pereira de Mattos era filiado ao Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento (CECP) e a Doutrina a ele revelada terá forte influência da filosofia esotérica. Mais do que isso: sendo esta (CECP) uma linha humanista e mentalista, as suas instruções casam perfeitamente com a corrente do Daime dentro dos campos espirituais, estão de acordo com os ensinos do Senhor São Francisco das Chagas, patrono da Missão de Daniel.

A Doutrina revelada a Mestre Daniel possui uma particularidade exotérica – aberta ou exterior — e um núcleo esotérico — oculto ou interior. O aspecto exotérico é percebido pelos não adeptos da Doutrina. Já o aspecto esotérico é um mistério revelado aos oficiais dos Exércitos de Jesus.

O aspecto exterior desta linda Doutrina é a sua imagem pública, abalizada pelo conteúdo ético e moral dos hinos, pelas Obras de Caridade realizadas e pelo exemplar comportamento de seus membros na vida familiar e integração harmoniosa na vida em sociedade.

Já o aspecto esotérico da Doutrina é alcançado na Santa Luz do Daime, na autêntica comunhão da alma com Deus, na experiência interna da Divindade. No êxtase místico proporcionado pela miração, o Daime possibilita a revelação das percepções intuitivas da alma a respeito das verdades mais profundas.

Certo dia, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram:

— Por que falas ao povo por parábolas?

Ele respondeu:

— A vocês foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos céus, mas a eles não. Porque vendo, eles não veem e, ouvindo, não ouvem nem entendem. Mas, felizes são os olhos de vocês, porque veem; e os ouvidos de vocês, porque ouvem.

Dessa maneira, a Doutrina de Mestre Daniel é cristã exotérica e cristã esotérica. É cristianismo exotérico e cristianismo esotérico.

A Missão de Daniel e o Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento

O Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento (CECP) é antigo e foi a primeira ordem ocultista estabelecida no Brasil. Fundado em 1909 por Antônio Olívio Rodrigues (1880-1943), um migrante português, autodidata, se apresenta como uma entidade altruísta, sem fins lucrativos. Pessoas de todas as religiões, filosofias, credos, sexos, raças, classes sociais e nacionalidades podem nela se filiar.

O CECP difundiu ideias de várias correntes esotéricas que se desenvolveram nos Estados Unidos e na Europa no século XIX. Esta organização caracteriza-se por uma doutrina sem dogmas rígidos, aberta ás várias crenças atentas aos laços de fraternidade universal e à evolução humana.

O ideal cultivado é de “comunhão do pensamento”, isto é, uma corrente mental coletiva, visando à geração de ondas irradiadoras de pensamentos de Harmonia, Amor, Verdade e Justiça — lemas da Ordem.

 O Círculo Esotérico se expandiu vertiginosamente. Já em 1910 são criados os Tattwas – Centros de Irradiação Mental, células do Círculo — em diferentes localidades. Durante o final desta primeira década do Século XX e nas décadas seguintes ocorre o crescimento acelerado do CECP, com a participação de influentes personalidades da vida política, social e econômica, notadamente em São Paulo.

Baseado num projeto editorial vigoroso, da Editora Pensamento, o CECP tem forte relação com os livros e a leitura. Isso atrai a elite e a classe média urbana, culta, das cidades brasileiras. Todavia, isso não impede que nos rincões profundos do Brasil haja uma grande quantidade de filiações ao Círculo Esotérico: tanto no interior do Nordeste brasileiro como na longínqua tríplice fronteira com a Bolívia e o Peru, no então município de Brazylia, hoje Brasileia, no Acre, nos anos 1910.

Nesta região de vastos seringais, onde o jovem Raimundo Irineu Serra bebeu Ayahuasca pela primeira vez (1914), organizou-se um Tattwa, o Círculo de Regeneração e Fé (CRF), e os participantes não lembravam em nada o perfil do esoterista urbano classe média, descrito acima, pois esta organização possivelmente comportava entre seus participantes uma maioria negra, a começar do presidente, Antônio Raimundo Costa, sendo de profissão seringueiros, caçadores, agricultores, trabalhadores braçais humildes e semialfabetizados.

Quando se mudou para Rio Branco (Acre), em 1930, e fundou a sua Doutrina, Raimundo Irineu Serra foi formalizando e institucionalizando a sua agremiação religiosa pouco a pouco, ao longo de quatro décadas, através dos rituais de hinário e Concentração. Estimula os seus seguidores a se filiarem ao CECP. Quando já com um certo número de inscritos, funda o Tattwa Centro de Irradiação Mental Luz Divina, do qual era o Presidente de Honra. Isto se deu em 27 de maio de 1963, sendo o dia e número 27 emblemáticos para aquela organização esotérica.

O Centro de Irradiação Mental Tattwa Luz Divina, filial rio-branquense do CECP, encerra as suas atividades ao término dos anos 1960. Contam que um membro de destaque do Tattwa, o sr. Francisco Ferreira (Chicão), rivalizando com o Mestre Irineu pela direção do Centro, denunciou à direção nacional da entidade que, nas reuniões acreanas, se fazia uso de uma beberagem alucinógena, de nome hoasca.

Fontes orais afirmam que a sra. Matilde Preiswerk Cândido, Presidente do Supremo Conselho do Círculo Esotérico, teria enviado uma carta à direção e irmandade do Tattwa acreano, explicitando a incompatibilidade dos anseios da diretoria do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento com o uso do Daime.

Contam que a resposta de Mestre Irineu foi imediata:

— Se não querem o meu Daime, também não me querem: eu sou o Daime e o Daime sou eu.

Frase que ficaria gravada no coração e na mente de todos os seus discípulos, a partir de então.

Com o afastamento do Mestre Irineu, os outros daimistas membros do Tattwa também se retiraram. A reunião do Tattwa Centro de Irradiação Mental Luz Divina, que ocorreria na semana seguinte foi cancelada, por falta de participantes. Assim, extinguiu-se o núcleo do CECP de Rio branco – Acre, em 1969.

Daniel Pereira de Mattos, letrado, ex-aluno da Escola de Aprendizes Marinheiros, possivelmente se tornará esoterista e filiado ao CECP no período que seguiu Mestre Irineu e sua Doutrina, entre os anos de 1937 e 1945. Quando Daniel funda uma segunda doutrina ayahuasqueira (1945), ele funda também uma segunda doutrina ayahuasqueira esoterista, denominada Barquinha — ou Barco Santa Cruz.

Todavia, mesmo sem organização formal naquele Estado, os esoteristas acreanos continuaram esoteristas, obviamente. E encontram-se elementos esotéricos e influências do Círculo Esotérico nas duas doutrinas ayahuasqueiras surgidas no Acre. Não há conflito algum entre as duas doutrinas espíritas-cristãs e os ensinamentos do CECP. Muito pelo contrário, estes contribuem de forma positiva para os trabalhos espirituais com o Daime.

Além do Mestre Irineu Serra e do Mestre Daniel, foram discípulos dos ensinamentos do Círculo Esotérico vários membros da Barquinha, como Antônio Geraldo da Silva, Manuel Hipólito de Araújo, Elias Kemel, Francisca Josino de Melo (Dona Chiquita), Alípio da Silveira Torres, Milton Brígido da Silva, Olinto Alves da Silva e outros soldados dos Exércitos de Jesus.

A Missão de Mestre Daniel possui múltiplos aspectos na sua simbologia e na arquitetura dos templos, que vieram da influência do Círculo Esotérico. Por exemplo:

  1. o direcionamento da fachada da Igreja — fundada por Daniel — para o Nascente do Sol;
  2. O Símbolo de Salomão — a Estrela de seis pontas com a Cruz no meio — presente no fardamento, na igreja e no salão de Obras de Caridade, que simboliza o equilíbrio entre o corpo físico e o corpo astral e o equilíbrio universal;
  3. Os emblemas de Paz, Amor, Verdade e Justiça” como base ético-moral da Doutrina;
  4. A definição do dia 27 de cada mês como dia de entrega e prestação de contas dos trabalhos da Casa, sendo também o dia dedicado para a Corrente de Saúde;
  5. Através da comunhão que se procura praticar ao cumprir o calendário da Missão, elevando em conjunto preces, rogativas e bons pensamentos em benefício dos inocentes e de toda a humanidade; inclusive procurando estar em comunhão de mente e coração com a corrente espiritual dos trabalhos quando, por motivo justo, algum membro da Casa esteja impossibilitado de estra presente na Igreja. Quando isto é feito, está se praticando um dos principais ensinamentos do Círculo Esotérico: a comunhão do pensamento.
  6. A Doutrina de Mestre Daniel Pereira de Mattos se alicerça nos 12 livros azuis das Ciências e Mistérios, que são as mesmas 12 Ciências Esotéricas reveladas por Valdomiro Lorenz no Livro de Instruções do CECP.
O Símbolo de Salomão: a Estrela de seis pontas com a Cruz no meio

O Símbolo de Salomão: a Estrela de seis pontas com a Cruz no meio

O Livro Azul. O Hinário

A Doutrina do Mestre Daniel Pereira de Mattos é praticada através de culto essencialmente musical. Os hinos (salmos) expressam o contato com a realidade sagrada, são revelações divinas manifestadas na forma musical. O conteúdo das mensagens, trazido como poesia musicada, expressa a base religiosa desta Doutrina Cristã.

Este lindo Hinário foi denominado por Daniel de “Livro Azul — o Livro das 12 Ciências e Mistérios”.

O Hinário foi recebido pelo Mestre Daniel das mãos de dois anjos que, por ordem do Pai de Bondade e da Virgem da Conceição, lhe entregaram este livro sagrado e lhe falaram no cumprimento da Missão.

Dentro da Santa Luz do Daime, Daniel recebeu os salmos sagrados do Livro Azul, escreveu as partituras e entoou as melodias com a sua prestimosa rabeca. Assim surgiu e foi firmada a sua Doutrina.

Os salmos comumente são do gênero fox-canção ou valsa-serenata — doces e poéticos cânticos devocionais. Trazem mensagens de louvor a Deus e aos seres divinos; de instruções morais; de reforço, limpeza e proteção; rogos de cura e hinos de conforto, comemoração e consagração dos membros da irmandade e do trabalho espiritual que está se realizando.

Alguns seguidores do Mestre Daniel — como Antônio Geraldo da Silva, Manuel Hipólito de Araújo, Francisca Campos do Nascimento, entre outros — receberam hinos doutrinários, que foram acrescentados aos salmos recebidos pelo próprio Mestre. A base doutrinária está expressa num conjunto de mais de 400 salmos contidos no Livro Azul. Todavia, cada Igreja da Barquinha tem salmos e hinos acrescentados a estes, recebidos por seus dirigentes e filiados.

O Hinário da Barquinha não está fechado, isto é, dado por completo. É possível que revelações sagradas continuem a ser enviadas lá do Mundo Espiritual e adicionadas ao Livro Azul.

O Bailado no Parque

Além dos salmos cantados no Culto Santo, as casas da Barquinha reúnem um grande número de hinos-pontos e pontos, cantados nos festejos do Parque (Bailado).

Estes hinos-pontos e pontos saúdam as entidades dos mistérios do Céu, da Terra e do Mar que trabalham nesta linha espírita, e descem ao círculo sagrado para confraternizar com os irmãos encarnados que bailam na festa do Senhor — irradiando todos os presentes com as suas divinas presenças.

São orixás, caboclos, pretos velhos e erês; reis, rainhas, príncipes e princesas das moradas eternas do Pai. E também os Encantos do Céu, da Terra e do Mar que se manifestam como fadas, sereias, cobras, botos, peixes etc., e se apresentam como oficiais da Casa para dançar junto com os presentes, no sacro terreiro do templo.

Troco-troco vem chegando

Troco-troco já chegou

Reforço em Cavalarias

Que Jesus Cristo mandou.

(Trecho de Salmo da Barquinha)

Igreja Espírita Apostólica Cristã

Manuel Hipólito de Araújo designava a Doutrina de Daniel Pereira de Mattos como Espírita Apostólica Cristã.

— Nós somos Espíritas Apostólicos Cristãos, haja vista que o mediador da nossa casa é São Francisco das Chagas. No início da vida de Jesus na Terra, ele cumpriu uma missão, ele veio para cumprir uma missão sobre a Terra. Ele veio para ensinar os filhos a se prepararem para quando desencarnarem subirem ao Reino Celestial.

“São Francisco, dentro da sua missão divina sobre a Terra, usou o mesmo que Jesus usava fazendo a caridade: fazer o bem sem olhar a quem. Fazendo preparos, fazendo atendimentos aos pobres, aos doentes, aos desajustados, para poder cumprir a missão dele.

“Assim, nós continuamos a Missão que Jesus iniciou e que São Francisco continuou. Nós estamos dando esta mesma continuação dentro desta Casa, que é fazer o bem sem olhar a quem. As Obras de Caridade são feitas exclusivamente por amor a Deus e por amor ao próximo. Desde o início da Missão é assim”.

A Santa Luz do Daime

Nas atividades litúrgicas da Doutrina de Mestre Daniel é ingerida a bebida de poder inacreditável denominada Daime — a Santa Luz.

O Santo Daime é resultante do cozimento da folha Rainha (psychotria viridis) e do cipó Jagube (banisteriopsis caapi) e é central para o desenvolvimento dos trabalhos espirituais desta linha religiosa.

A Ayahuasca, nome quéchua que se dá à bebida, é usada desde tempos imemoriais por comunidades indígenas da Amazônia Ocidental. O uso religioso desta santa bebida é garantido e assegurado pelo governo da República Federativa do Brasil.

Foi o Mestre Raimundo Irineu Serra quem recebeu esta Santa Luz das mãos da Rainha da Floresta, a Virgem da Conceição, e começou a usá-la na doutrina cristã a ele revelada.

O Daime é a Luz de Jesus. “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida”.

Daniel Pereira de Mattos conheceu o Daime através do seu amigo, mestre e conterrâneo Irineu Serra e obteve a graça da cura de seus males físicos e espirituais através desta sagrada bebida. Quando iniciou a sua Missão espiritual, foi das mãos de Mestre Irineu que Daniel recebeu os primeiros litros de Daime com os quais abriu o Culto Santo.

Comungar da Santa Luz nas atividades litúrgicas desta Casa Espírita é um privilégio que nos é dado por Deus. O Daime é um veículo para a concentração mais profunda, mais sensível e aguçada de autoconhecimento e aperfeiçoamento pessoal.

Viajar na Santa Luz do Daime é uma experiência indizível e inenarrável, só compreendida por aqueles que a vivenciam.

O voo espiritual proporcionado pela Luz do Daime nos leva aos planos superiores do mundo sideral, para que lá possamos admirar as belezas e as maravilhas das obras do nosso Pai Celestial.

Nesta Luz se vê verdade

Quem nos mostra é o Criador

Santos mistérios de Luz

Aonde Deus derrama as graças

Para quem tem fé e amor.

(Trecho de Salmo da Barquinha)

Ayahuasca (Daime)

Ayahuasca (Daime)

O Barco Santa Cruz

A imagem de um barco — o Barquinho Santa Cruz — simboliza toda a Doutrina organizada por Mestre Daniel Pereira de Mattos. Significa a grande viagem das nossas vidas até a hora da morte; a viagem que estamos fazendo desta encarnação à desencarnação; o caminho que percorremos deste mundo à eternidade.

O irmão pertencente a este Culto de Oração, soldado dos Exércitos de Jesus, está fazendo um preparo, aproveitando a oportunidade que lhe é concedida para a salvação de sua alma.

O Barquinho representa esta Missão, onde todos se reúnem dentro dele, dando louvores a Deus e a Sempre Virgem Maria, e trabalhando em Obras de Caridade em benefício dos inocentes e de toda a humanidade.

Quem cumpre condignamente a sua missão dentro desta Casa de Jesus e da Virgem da Conceição não deve temer a morte, pois a morte física significa o nascimento para a espiritualidade, desprendido do fardo pecaminoso que é a matéria. O preparo através de uma vida reta e justa aqui no plano terrestre nos habilita para a verdadeira vida — a vida espiritual.

Entretanto, aquele que desperdiça a sua existência vivendo em pecado, faz que a vida de matéria se torne na realidade a morte do espírito.

Esclarece Manuel Hipólito de Araújo:

— O filho veio para este plano com uma finalidade de se preparar para a volta de Jesus. O filho vem, encarna e fica neste plano, é obrigação o dever sagrado de fazer um preparo para a vida eterna. Ele tem o tempo necessário. Se ele não fizer aquele preparo, quando ele desencarnar, ele fica nas trevas, na escuridão como alma penitente. Alma quer dizer que o sujeito está almejando alguma coisa. Chama-se alma porque é o espírito que está almejando a luz, almejando o preparo espiritual.

O caminho para a salvação nesta Casa Espírita é navegar pelo mar sagrado, seguindo nas ondas do Daime, dentro do Barquinho Santa Cruz, pilotado por São Francisco das Chagas, o Soldado Guerreiro Mártir São Sebastião, o Patriarca Senhor São José e Daniel Pereira de Mattos, o fundador da Missão.

Nas Santas Romarias realizadas no calendário litúrgico desta Fonte de Luz, o Barquinho sai do caís do porto no primeiro dia e penetra no mar sagrado. Na metade da romaria ele dá a volta em alto-mar e retorna para o porto de chegada, onde desembarcaremos revigorados.

As viagens que fazemos em romaria são viagens dentro da grande viagem das nossas vidas rumo aos Santos Pés de Jesus. O Barco Santa Cruz, a Missão recebida por Mestre Daniel, só irá ancorar definitivamente no dia do julgamento final, quando triunfantes recebermos a Luz da Salvação.

Ó Meu Pai de Bondade

Tenha de nós compaixão

E no julgamento final

Nos dê a Luz da Salvação.

Marília Mello e o Barquinho de Luz

Marília Mello e o Barquinho de Luz

 

Nota

Os depoimentos, presentes no texto, de Antônio Geraldo da Silva, Manuel Hipólito de Araújo e outros “soldados dos Exércitos de Jesus” foram extraídos das obras: SENA ARAÚJO, Wladimyr. Navegando sobre as ondas do Daime: história, cosmologia e ritual da Barquinha. Campinas-SP: UNICAMP, 1999; ALMEIDA, Fátima; FIGUEIREDO, Edimilson; DEUS, João de. Mestre Antônio Geraldo e o Santo Daime. Centro Espírita Daniel Pereira de Matos Barquinha. Rio Branco, Bobgraf, 1996 (2ª Edição 2008) e MARGARIDO, Silvio Francisco Lima; ARAÚJO NETO, Francisco Hipólito (Orgs.). Mestre Daniel. História com a ayahuasca. Rio Branco – Acre, Fundação Garibaldi Brasil, 2005.

Bibliografia consultada e utilizada

ALMEIDA, Fátima; FIGUEIREDO, Edimilson; DEUS, João de. Mestre Antônio Geraldo e o Santo Daime. Centro Espírita Daniel Pereira de Matos Barquinha. Rio Branco, Bobgraf, 1996 (2ª Edição 2008).

ARAÚJO NETO, Francisco Hipólito e outros (Orgs.). No caminho de Mestre Daniel. Rio Branco – Acre: Gknoronha, 2010.

Bíblia Sagrada – traduzida por João Ferreira de Almeida, s/d.

CASTRO, Rozenilda. O surgimento da Companhia de Aprendizes de Marinheiros da Província do Piauí. Disponível em http://www.opiagui.com.br/2009/09/o-surgimento-da-companhia-de-aprendizes-marinheiros-da-provincia-do-piaui/ Acesso em 04 set 2010.

GOULART, Sandra Lucia. Contrastes e Continuidades em uma Tradição Amazônica: as religiões da ayahuasca (Tese de Doutorado). IFCH – UNICAMP, Campinas, São Paulo, 2004.

Livro Azul — o Livro das 12 Ciências e Mistérios – Centro Espírita e Obras de caridade príncipe Espadarte, s/d.

Livro de Instruções. Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, 2ª Edição, São Paulo, 2011.

MACRAE, Edward. El Santo Daime y la Espiritualidad Brasileña. Quito: Ediones Abya Yala, 2000.

MAGALHÃES, Eloi dos Santos. Balanços de Luz: devoção e experiência a bordo do Barquinho Santa Cruz (Tese de Doutorado). UFCG, Campina Grande, Paraiba, 2013.

MARGARIDO, Silvio Francisco Lima; ARAÚJO NETO, Francisco Hipólito (Orgs.). Mestre Daniel. História com a ayahuasca. Rio Branco – Acre, Fundação Garibaldi Brasil, 2005.

Noções de Simbologia Esotérica do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento (livreto), s/d.

OLIVEIRA, Rosana Martins de. De folha e cipó é a Capelinha de São Francisco: a religiosidade popular na Cidade de Rio Branco – Acre 1945-1958 (Dissertação de Mestrado). Recife: UFPE, 2002.

RIBORDY, Léonard. Arquitetura e Geometria Sagradas pelo mundo – à Luz do Número de Ouro. São Paulo: Madras, 2012.

SENA ARAÚJO, Wladimyr. Navegando sobre as ondas do Daime: história, cosmologia e ritual da Barquinha. Campinas-SP: UNICAMP, 1999.

Compartilhe e Comente

Redes sociais do JGB

Faça uma doação ao JGB

About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]