O destino numa nuvem | Por Luiz Holanda

Banner do JGB: Campanha ‘Siga a página do Jornal Grande Bahia no Google Notícias’.
Artigo aborda publicação do livro autobiográfico 'A nuvem', de autoria de Sebastião Nery.
Artigo aborda publicação do livro autobiográfico 'A nuvem', de autoria de Sebastião Nery.

Maurice Druon, escritor, político e ex-presidente da Academia Francesa de letras escreveu que os homens chamados a representar papel decisivo na história dos povos ignoram, na maior parte das vezes, quais os destinos que neles se encarnam.

Sebastião Nery, também escritor, jornalista, político e historiador brasileiro, com certeza ignorava o que lhe reservava o destino quando, deitado sob uma jaqueira, na fazenda de seus pais, Palmeira, em Jaguaquara, sob um céu com ar de primavera, viu seu futuro através de uma nuvem.

A nuvem parecia dizer-lhe que o levaria para longe, primeiro para o seminário de Amargosa, depois para Minas, São Paulo, Rio e Brasília. Em seguida, para Paris, e daí para o mundo. Para a nuvem, aquele jovem franzino e frágil já lhe demonstrara que possuía os talentos afortunados de um gênio sem compromissos. Ela sabia que aquele jovem jamais aprenderia as coisas do mundo como certas pessoas, para as quais até mesmo o inferno é mais tolerável que o nada.

Ela anunciava que sua pequena Jaguaquara, de trepadeiras verdes nos terraços das casas, do restolho pardacento das terras cultivadas e dos caniços da beira do rio envoltos na neblina das manhãs teriam que ser deixados para trás, por que ali ele não solucionaria as suas inquietações. Tinha que partir, pois precisava encontrar as suas soluções pessoais no seu devido tempo e lugar.

Por isso ele olhava, da janela do trem, a nuvem que o guiava. Sim, ela ia levá-lo para os lugares onde ele nunca estivera. Bastava apenas que ele transformasse seus braços em asas e a seguisse, rumo a um imenso céu azul.

Nery tinha medo, mesmo sabendo que o medo está em todos os lugares. Sentia que precisava de coragem para voar, completamente livre, pois nenhum pássaro voa numa gaiola.

Hyunga indagava se o destino era como uma nuvem que flutua em uma corrente predeterminada ou se era capaz de pegar a corrente que ela mesma escolhera. Para ele, as que possuíam vontade própria eram as verdadeiras e poderosas. Para Nery, sua nuvem era assim, precisava segui-la.

O instinto lhe dizia que ela o estava guiando por um caminho que justificaria a sua existência, tornando-o narrador de fantásticas histórias do nosso país, durante décadas, com muitas reviravoltas e personagens fascinantes, aqui e em todas as cidades que conheceu e viveu, com destaque para Paris, cidade que mais amou e onde mais foi amado.

Realmente, a nuvem o guiou. Aquele jovem franzino, magro e frágil, tornou-se professor de Latim e Português, radialista, jornalista, escritor, correspondente internacional de jornais e revistas, adido cultural do Brasil em Roma e Paris, e cronista famoso do folclore político brasileiro.

Em suas crônicas, Nery se debruça sobre os acontecimentos por ele vistos e vividos, extremamente ricos de fatos e de pessoas, movendo os cordéis de grandes personagens e fantoches humanos, esquadrinhando as raízes psicológicas de seus atos e a sutileza complexa de suas motivações.

É assim que ele nos passa, em ondas atropeladas de emoções e hilaridades, a história política de nosso país, as peripécias, os imprevistos, os heroísmos e covardias de nossos representantes, os golpes, contragolpes, baixezas e grandezas lindamente narradas através de sua pena, hoje imortalizada em seus livros e crônicas.

Na simbologia das nuvens, devido a sua natureza de impermanência, elas têm inúmeros significados. De acordo com o esoterismo islâmico, elas são a manifestação da nebulosidade da vida corrente, a sombra da epifania de Alá. Já para os gregos e romanos, elas aparecem agarradas ao Monte Olimpo, e representam a morada dos deuses.

Segundo a antiga tradição chinesa, a nuvem simboliza transformações e traz mensagens de acordo com o seu aspecto. Se clara, cheia de luminosidade, é sinal de acontecimentos positivos. A nuvem de Nery era assim. Levou-o pelo mundo e o trouxe de volta, parecendo dizer-lhe que, por causa dela, sua vida não foi em vão.

Este artigo teve como incentivador o político e escritor Carlos Sodré, amigo irmão de Sebastião Nery, Para ele e para o amigo, a admiração do autor.

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.

Sobre Luiz Holanda 372 Artigos
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia. E-mail para contato: lh3472@hotmail.com.