Editorial: as contradições históricas na reportagem do G1, em que é relatada delação do ex-executivo da Odebrecht, citação do prefeito ACM Neto e obra da Orla da Barra contratada pela Prefeitura de Salvador

Reportagem do G1 cita delação envolvendo ex-executivo da Odebrecht, citação do prefeito ACM Neto e obra da Orla da Barra contratada pela Prefeitura de Salvador.
Reportagem do G1 cita delação envolvendo ex-executivo da Odebrecht, citação do prefeito ACM Neto e obra da Orla da Barra contratada pela Prefeitura de Salvador.

Com o título ‘Obra em Salvador citada em delação da Odebrecht custou R$ 4,4 milhões a mais do que o previsto’, reportagem do G1 Bahia, publicada no sábado (24/06/2017), cita narrativa do ex-executivo da Odebrecht André Vital, em que delator revela que a obra da Orla da Barra, em Salvador, foi contrapartida ao financiamento concedido pela empreiteira, através de recursos não contabilizados, para campanha eleitoral do prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM). Segundo o delator, o processo licitatório da obra foi executado de forma irregular. Na matéria do G1, a Prefeitura de Salvador nega irregularidades.

O portal de notícias G1 Bahia é uma das empresas associadas ao grupo de comunicação Rede Bahia. A companhia retransmite no estado o sinal da Rede Globo de Comunicação, empresa que tem intensos vínculos com processos antidemocráticos, a exemplo do regime de exceção iniciado com o Golpe Civil/Militar de 1964 e com a usurpação do mandato popular da presidente Dilma Rousseff (PT/RS), através do Golpe Parlamentar de 2016.

Curiosamente, a Rede Bahia é presidida pelo ex-senador Antonio Carlos Magalhães Junior, pai de ACM Neto, e filho do falecido senador Antonio Carlos Peixoto de Magalhães (ACM, 1927 – 2007). Uma fotografia exposta na sede do ‘Instituto ACM – Ação, Cidadania e Memória’, no Pelourinho, em Salvador, apresenta a imagem do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, e o registro de agradecimento ao então deputado Antônio Carlos Magalhães (ACM) pelo apoio ao Golpe Civil/Militar de 1964. Na dedicatória, o primeiro presidente do Golpe Militar (15 de abril de 1964 a 15 de março de 1967), Castelo Branco, se refere a ACM como ‘Deputado da Revolução de 1964’.

Vínculos

Reportagem publicada pelo Jornal Grande Bahia, em 24 de dezembro de 2016, revela que pagamento de propinas por empreiteiras se consolidou durante ditadura militar. A reportagem é baseada na tese de doutorado do historiador Pedro Henrique Pedreira Campos, cujo estudo deu origem a publicação ‘Estranhas catedrais: as empreiteiras brasileiras e a Ditadura Civil/Militar, 1964 – 1988’.

Como em um ciclo que se repete ao longo da história, o ex-presidente do Conselho Administrativo da Organização Odebrecht, Emílio Odebrecht, relatou que o esquema desvelado pela força-tarefa do Caso Lava Jato se repete há pelo menos 30 anos, e que ocorria desde o tempo em que o pai, Norberto Odebrecht, dirigia a empreiteira.

Em outro depoimento à procuradores da República, Emílio Odebrecht cita a relação estabelecida com o falecido senador ACM, e revela que o mesmo não quis manter diálogo com o sucessor, Marcelo Odebrecht. Segundo Emílio Odebrecht, ACM permaneceu sendo um dos poucos políticos que dialogavam diretamente com ele, os pleitos que desejava que Organização atendesse.

Marcelo Odebrecht é filho de Emílio Odebrecht. Ele foi preso e condenado no Caso Lava Jato. Foi sob o comando de Marcelo Odebrecht, que, segundo André Vital, a empreiteira repassou recursos não contabilizados para a campanha eleitoral de ACM Neto.

Epitáfio

Observa-se que como personagens de um mesmo enredo, o lapso temporal que liga os atores se reconecta no transcorrer dos anos. O ciclo repetitivo de relações estabelecidas entre interesse público, privado, enriquecimento e poder se revelam, descortinando o véu da realidade que mantinha como pseudoverdade os discursos em contrafação dos associados atores, que negavam a factualidade corrupta subjacente.

Por fim, com relação à reportagem do G1 Bahia, além do fato de expor superficialmente o inquérito remetido pela Procuradoria-Geral da República contra o prefeito ACM Neto, para a Justiça Federal em Salvador, o demérito da reportagem é, por obvio, o evidente objetivo em transmitir a tese de que toda a relação estabelecida transcorreu através do princípio da legalidade.

Neste aspecto, infere-se que sob aparência de pseudolegalidade, mascaram-se relações ao longo da história. Relações que foram desveladas pela objetividade dos fatos e pelos vínculos estabelecidos entre os atores, no transcurso das investigações e julgamentos do Caso Lava Jato.

*Carlos Augusto é cientista social e jornalista.

Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco agradece ao então deputado Antônio Carlos Magalhães (ACM) pelo apoio ao Golpe Civil/Militar de 1964. Na dedicatória, o primeiro presidente do Golpe Militar (15 de abril de 1964 a 15 de março de 1967), Castelo Branco, se refere a ACM como ‘Deputado da Revolução de 1964’.
Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco agradece ao então deputado Antônio Carlos Magalhães (ACM) pelo apoio ao Golpe Civil/Militar de 1964. Na dedicatória, o primeiro presidente do Golpe Militar (15 de abril de 1964 a 15 de março de 1967), Castelo Branco, se refere a ACM como ‘Deputado da Revolução de 1964’.
Reportagem do G1 cita delação envolvendo ex-executivo da Odebrecht, citação do prefeito ACM Neto e obra da Orla da Barra contratada pela Prefeitura de Salvador.
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