“Um europeu de coração”: a ascensão do candidato à presidente da França Emmanuel Macron

Emmanuel Jean-Michel Frédéric Macron (Amiens, 21 de dezembro de 1977) é um político, funcionário público e banqueiro francês [1]. Macron estudou filosofia na Universidade de Paris X - Nanterre, concluiu um mestrado em políticas públicas no Instituto de Estudos Políticos de Paris, e depois se formou na Escola Nacional de Administração em 2004. Em seguida, passou a trabalhar na Inspeção-Geral de Finanças antes de se tornar um sócio do banco Rothschild.
Emmanuel Macron: "Precisamos encontrar a resposta europeia relevante diante de todos os desafios".

Após os favoritos tropeçarem em escândalos, político de 39 anos vence primeiro turno da corrida presidencial francesa. Discurso é direto e claro: sem a Europa, não há solução para a França avançar.

Na verdade, Emmanuel Macron é um filósofo. Pelo menos a julgar pela primeira faculdade que cursou. Ele escreveu sobre Maquiavel e Hegel. O que na Alemanha muitas vezes termina em uma carreira como motorista de táxi, na França pode muito bem qualificar para a entrada, após passagens por outras universidades de elite, em um alto escalão no governo e na economia.

Pois o filho de um casal de médicos de Amiens, no norte da França, também visitou a elitista Escola Nacional de Administração (ENA), em Estrasburgo. “Ele é um produto dessas elites francesas e teve uma formação completa. Ele vem da classe média educada e representa aquilo contra que Marine Le Pen faz sua campanha”, diz Stefan Seidendorf, vice-diretor do Instituto Franco-Alemão.

Mas ao contrário de muitos dos antecessores proeminentes, Macron passou, após um curto período como diretor financeiro na administração pública, para o banco de investimento privado Rothschild, em Paris. Lá, ele acompanhou um dos maiores acordos de investimento entre o conglomerado alimentício suíço Nestlé e a gigante farmacêutica americana Pfizer no valor de nove bilhões de euros.

Seu talento como administrador e seu conhecimento sobre questões econômicas levaram em 2012 a se tornar assessor do presidente François Hollande, que o nomeou ministro da Economia em 2014.

Desagradando a amigos

Macron às vezes também consegue desagradar aos próprios aliados, como quando contrariou os sindicatos, ou no caso de um escândalo sobre impostos que causou sua rejeição momentânea entre a população. Suas brigas constantes com o primeiro-ministro Manuel Valls quase causaram sua demissão por Hollande. Mas Macron foi mais rápido e, em 2016, anunciou sua renúncia e a criação do movimento “En Marche”.

Macron tem apoio de diferentes grupos políticos. O cientista político francês Alfred Grosser declarou recentemente seu apoio ao político de 39 anos, além de vários membros da velha esquerda e do verde Daniel Cohn-Bendit.

Ele tenta algo completamente novo. Fundou um novo partido e conseguiu a adesão de cerca de 190 mil dentro de poucos meses. É tido como um candidato para transmitir esperança e o único que diz tão radical e claramente aos franceses que sem a Europa a França não tem solução.

“Ele consegue criar fluxos de entusiasmo, mobilizar em prol do projeto europeu, algo que há muito tempo não ocorria na França”, lembrou Cohn-Bendit recentemente durante uma entrevista a uma rádio alemã.

Macron é, de fato, um europeu convicto. “Precisamos encontrar a resposta europeia relevante diante de todos os desafios, porque só a nível europeu conseguiremos resolver estes problemas. A tarefa da França e da Alemanha é fazer tudo para aprofundar a integração europeia nas áreas de finanças e economia, de defesa e segurança e na política de refugiados”, afirmou o francês em uma entrevista ao jornal alemão Die Welt no ano passado.

Ele também não poupa críticas ao presidente dos EUA, Donald Trump, como quando disse que a política americana anti-imigrantes e de meio ambiente é um erro. Ele quer cortar 60 milhões de euros de gastos públicos e eliminar 120 mil postos de trabalho nesta área, caso ganhe a eleição. No entanto, planeja investir 50 bilhões de euros em programas de financiamento, como para projetos ambientais, por exemplo.

Entre outras coisas, o candidato independente promete flexibilizar a semana de 35 horas. Além disso, quer que o seguro desemprego seja disponibilizado para outros grupos profissionais, ao mesmo tempo em que propõe uma maior pressão sobre os desempregados, para que eles aceitem os empregos encaminhados pelas agências de trabalho. A taxação das empresas deve ser reduzida dos atuais 33,3% para 25%. A polícia e o Exército devem ser reforçados.

O ex-banqueiro é um humanista. Certa vez, ele cunhou a frase “refugiados são pessoas resistentes e inovadoras”. Ele elogiou com firmeza a política migratória de Angela Merkel, afirmando que ela “salvou a honra da Europa”.

No meio político francês, marcado por personalidades relativamente desinteressantes, o jovem político em ascensão é uma espécie de figura exótica. Ele é casado com uma ex-professora, que é 24 anos mais velha e já é avó. Ela ás vezes ajuda Macron a escrever seus discursos.

“Felizmente, eu nunca paguei algo a ela por isso”, brincou Macron recentemente, soltando, assim, uma farpa contra seu rival conservador François Fillon.

Ileso em meio a escândalos

Ele está bem posicionado em uma campanha eleitoral marcada por escândalos. “No momento, parece que ele está se tornando um candidato promissor, apesar de sua posição mais à esquerda. Isso se deve também ao fato de os outros candidatos estarem se destruindo a si mesmos”, afirma Stefan Seidendorf, do Instituto Franco-Alemão em Ludwigsburg.

Segundo ele, Macron tem senso de política, traz propostas realistas, é um europeu de coração e sabe governar. “Para Macron, Alemanha e França são a espinha dorsal da UE”, acrescenta Seidendorf.

O conservador François Fillon tem de lidar com o caso do emprego fantasma de sua esposa; a populista de direita Marine Le Pen perdeu sua imunidade por ter divulgado no Twitter fotos mostrando atrocidades cometidas contra vítimas da milícia terrorista Estado Islâmico (EI). Le Pen está também envolvida em um caso de emprego fantasma em seu escritório no Parlamento Europeu.

Segundo as últimas pesquisas, apesar da margem apertada no primeiro turno, Macron vencerá Le Pen com facilidade na votação final, em 7 de maio.

Establishment político francês declara apoio a Emmanuel Macron

Socialistas e republicanos se unem para barrar Marine Le Pen e declaram apoiar o centrista no segundo turno da eleição presidencial na França. Apoio de partidos será vital para garantir maioria parlamentar.

O centrista Emmanuel Macron e a populista de direita Marine Le Pen vão se enfrentar no segundo turno da eleição presidencial na França. Após o fechamento das urnas, que deram uma leve vantagem ao ex-ministro da Economia, candidatos derrotados e figuras proeminentes da política e opositores, como os ex-premiês François Fillon, Alain Juppé e Jean-Pierre Raffarin pediram votos para Macron.

Após a divulgação dos resultados, alguns dos candidatos derrotados rapidamente demonstraram seu apoio a Macron para impedir que Le Pen consiga assumir a presidência francesa. O republicano Fillon disse em seu discurso de concessão que a “Frente Nacional (FN) de Le Pen é bem conhecida por sua violência e sua intolerância, e seu programa levaria nosso país à bancarrota e a Europa ao caos”.

“Votarei em Emmanuel Macron e considero que é meu dever dizer isso francamente. Não há outra escolha a não ser votar contra a extrema direita. Cabe a vocês refletirem sobre o que é melhor para seu país e seus filhos”, disse Fillon a correligionários.

O também republicano e ex-primeiro-ministro Alain Juppé proferiu uma mensagem semelhante. “Apoio Macron sem hesitação em seu duelo com a FN, que levaria a França ao desastre. Apelo aos franceses que façam o mesmo.” Outro republicano e também ex-premiê do país, Jean-Pierre Raffarin, expressou seu apoio ao candidato centrista: “Sem hesitação, no que me diz respeito, temos de apoiar Emmanuel Macron”.

O candidato socialista derrotado Hamon, ao lado do atual premiê da França, Bernard Cazeneuve, também encorajou seu eleitorado a apoiar Macron. “Eu solenemente peço por votos para Emmanuel Macron no segundo turno, a fim de derrotar a Frente Nacional e travar o projeto desastroso de Marine Le Pen que levaria a França a retroceder e dividirá o povo francês”, afirmou.

Ao mesmo tempo em que insistiu que Macron “não pertence à esquerda”, Hamon afirmou que há “uma clara distinção entre um adversário político e um inimigo da República”, referindo-se a Macron e Le Pen, respectivamente. No pleito deste domingo, Hamon obteve apenas 6% dos votos. Ele pagou o preço dos baixos índices de popularidade do presidente François Hollande, o primeiro chefe de Estado da Quinta República (fundada em 1958) a não tentar a reeleição.

Infográfico com o resultado do primeiro turno da eleição presidencial da França em 2017

Mélenchon indeciso

Já o candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, revelou que consultará os militantes de seu movimento, França Insubmissa, para decidir se apoia o centrista Macron ou a populista Le Pen. “Os ‘mediacratas’ [termo pejorativo com que frequentemente se refere aos meios de comunicação e o que considera uma excessiva influência deles sobre a opinião pública] e os oligarcas estão eufóricos. Nada é melhor para eles do que um segundo turno entre dois candidatos que querem prolongar as instituições atuais, que não expressam nenhuma consciência ecológica e que pensam em tomar as conquistas sociais mais elementares”, disse.

Segundo a apuração final dos votos, Macron recebeu 23,86% dos votos, e Le Pen, 21,43%. Seguiram Fillon (19,94%), Mélenchon (19,62%) e Hamon (6,35%). A participação eleitoral foi estimada em 80%, similar à de cinco anos atrás.

Pesquisas de opinião publicadas no domingo deram a Macron uma grande vantagem no segundo turno, marcado para 7 de maio. Uma pesquisa do instituto Harris indicou que Macron ganharia com 64% dos votos contra a 36% para Le Pen. O instituto de pesquisa Ipsos / Sopra Steria obteve um resultado semelhante.

Passado o pleito presidencial, o próximo desafio na França são as eleições legislativas de junho. Quem quer que seja eleito presidente precisará do apoio dos outros partidos para conseguir formar uma maioria parlamentar para governar. Na França, o presidente nomeia o primeiro-ministro. E, normalmente, o premiê é escolhido porque lidera a corrente política mais poderosa dentro da maioria na Assembleia Nacional.

*Com informações do DW.

Sobre Redação do Jornal Grande Bahia 109697 Artigos
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: [email protected]