Recebimento de hinos na Doutrina do Daime: o Amigo Índio de Tony Jarbas

Osmildo Kuntanawa

A etnia kuntanawa foi quase totalmente dizimada, por motivos como: doenças adquiridas pelo contato com a população branco-mestiça, seguida de altas taxas de mortalidade; assassinatos terríveis e cruéis a mando de fazendeiros que roubaram suas terras; a perda do vínculo com a terra levou a perda da língua, cultura, medicina e tradições.

Sob o comando da Ayahuasca — que se tornou guia e professora dos índios Kuntanawa —  eles passaram a explorar dimensões insondáveis do universo, acessaram sua memória ancestral e trouxeram de volta para seu povo pinturas corporais, cânticos e conhecimentos mágicos e etnobotânicos.

A Doutrina do Santo Daime é praticada através de culto essencialmente musical. A mensagem doutrinária se apresenta através da palavra cantada — os hinos — que são “recebidos” do mundo espiritual pelos adeptos.

Os hinos expressam o contato do daimista com a realidade sagrada, são revelações divinas manifestadas em forma musical. O conteúdo das mensagens trazido na forma de poesia musicada expressa a base religiosa e filosófica da Doutrina.

São cânticos de estrutura melódica simples, e o compasso dos hinos é marcado pelo toque dos maracás. Dessa forma poética e amorosa os adeptos cantam e bailam hinos de louvor a Deus e aos Seres Divinos, assim como cânticos de instrução moral.

Existe o hinário tronco da Doutrina, “O Cruzeiro” do Mestre Raimundo Irineu Serra Juramidã, outros hinários de base doutrinária espírita cristã e, com o surgimento de dissidências da linha original, novas cosmologias que podem ser consideradas como “sublinhas” — com a incorporação de novos elementos doutrinários diferentes ou complementares do original.

Quando em vida de matéria, Mestre Irineu “passava um visto” ou “passava a limpo” os hinos recebidos por seus discípulos, e só permaneciam nos hinários os hinos que ele atestava como doutrinários.

Parece que o próprio Irineu Serra retirou 3 dos seus cânticos d’O Cruzeiro, por não serem “da linha do hinário” — por isso onde deveriam estar completadas as “132 flores” estão, de fato, 129 (hinos).

Atualmente, a legitimidade da mensagem doutrinária dos hinos recebidos pelos daimistas é testificada, primeiro, pela intuição do próprio aparelho receptor e, depois, pelos dirigentes do Centro Livre (Igreja) ao qual este adepto está vinculado.

O fenômeno extraordinário de recebimento dos hinos pode ser considerado — aproximadamente — como psicofônico, isto é, uma forma específica e original de psicofonia que existe nesta linha espiritual, quando o adepto (daimista) ouve mentalmente a canção que lhe é trazida por seres que habitam o mundo invisível.

Todavia, não é apenas uma comunicação mental psicofônica; assim como não existe um padrão estabelecido para o recebimento de hinos — o fenômeno pode acontecer de diversos modos, em qualquer ambiente ou lugar.

O recebimento de hinos pode se dar, por exemplo, durante a miração. Entre os daimistas (ayahuasqueiros) se diz que depois de tomar a bebida, o indivíduo fica “pegado” ou “mira”. Nesse estado ele está sujeito não só a experiências visionárias e auditivas como também a revelações ou intuições de grande profundidade e emoções.

Miração é o estado de expansão da consciência proporcionado pela bebida de “poder inacreditável” denominada Daime (Ayahuasca). O estado de comunhão com Deus, quando se transcende a consciência mundana e se percebe o seu ser como Espírito, feito à imagem do Divino.

Bebida visionária, designa-se o verbo “mirar” porque corresponde a olhar, contemplar. Dele deriva-se o substantivo “mirante”, que é um local alto e isolado onde se pode descortinar uma vasta paisagem e ali se revelarem as visões celestiais. A experiência visionária é característica do êxtase místico-espiritual. Na Doutrina do Daime pode ser simbolizado pela viagem da águia voando em direção ao sol.

Daí que a experiência visionária (miração) pode vir acompanhada do recebimento de um hino. Amigos daimistas (ayahuasqueiros) já descreveram o momento que precedeu a entoação interior do hino, com a visão de uma orquestra composta por músicos celestiais, que tocaram os acordes iniciais da valsa — ou marcha, ou mazurca — antes mesmo da cantoria encher os céus e os ouvidos do aparelho receptor.

O hino pode ‘descer’ durante uma dura peia (castigo), disciplinadora, e neste caso, é provável que a mensagem doutrinária seja de cunho ético-moral.

A experiência transcendental, extraordinária, pode ocorrer sem a ingestão de Daime, apenas do aparelho receptor estar em contato com o meio ambiente — beira de praia, de rio, cachoeira… ou até mesmo no estresse do trânsito de uma cidade grande.

O hino pode ser recebido durante o estado de vigília ordinário; no sonho; ou naquele momento de transição do sono para a vigília. Se o aparelho receptor dele lembrar, ao acordar, e zelar do hino, será conhecido e cantado por outros.

Tão importante quanto receber o hino é dele zelar, cultivar. Se os hinos (hinário) daquele adepto do culto não forem cantados periodicamente, não for lembrado, corre o risco de ser esquecido, e morrer com o dono do hino, quando este ao Pai se apresentar.

Cultivar um hinário e mantê-lo vivo depende principalmente do próprio “dono do hinário”, seus familiares e a irmandade com a qual ele comunga o Santo Daime. Alguns hinos e hinários são cantados mundialmente.

Tony Jarbas e o Amigo Índio Osmildo Kuntanawa

Oficialmente ele é o Engº Agro PhD. em Ciência do Solo, pesquisador da Embrapa Tony Jarbas Ferreira Cunha. Mas o que Tony é mesmo é irmão, amigo, aparelho mediúnico receptor de belos hinos, caboclo sertanejo e beiradeiro, nascido em Juazeiro da Bahia, e para esta terra semiárida levou a luz do Santo Daime ao fundar a Casa de Oração São Francisco de Assis, da qual ele é padrinho e presidente.

Tony Jarbas estava em viagem de trabalho em Brasília – DF, era Dia do Índio e, passeando pela Esplanada dos Ministérios se deparou com uma grande feira indígena armada nos jardins do canteiro central.

Aconteciam ao mesmo tempo protestos indígenas, manifestações culturais com canto, dança, exposição e venda de artesanato, num alegre e colorido desfile de cocares e pinturas dos nativos brasileiros.

Ao passar por uma barraca, Tony ouviu um hino do Santo Daime cantado e tocado ao violão. Entrou no recinto e, lá, encontrou uma roda de índios em cantoria. Discretamente sentou e começou a tocar e cantar junto. Ao término, conversou bastante com os presentes e fez amizade com um índio alto, forte, de nome Osmildo Kuntanawa.

Em comum entre os dois novos amigos é que ambos são violeiros e fardados na Doutrina do Santo Daime. Tony Jarbas fardou-se na Igreja Céu do Mar, do Rio de Janeiro – RJ, e Osmildo Kuntanawa no Ciclu Alto Santo, em Rio Branco – Acre.

A nação Kuntanawa é uma das 17 etnias indígenas ayahuasqueiras acreanas, e sofreram etnocídio cultural e físico durante as perseguições armadas aos povos indígenas, as “correrias”, que acompanharam a abertura e a instalação dos seringais em todo o Acre, no final do século XIX e início do século XX.

A etnia kuntanawa foi quase totalmente dizimada, por motivos como: doenças adquiridas pelo contato com a população branco-mestiça, seguida de altas taxas de mortalidade; assassinatos terríveis e cruéis a mando de fazendeiros que roubaram suas terras; a perda do vínculo com a terra levou a perda da língua, cultura, medicina e tradições.

Os últimos descendentes conhecidos da etnia kuntanawa são os membros de uma família extensa, conhecida até recentemente no Alto Juruá como “os caboclos do Milton”, numa referência ao nome do seu patriarca (Milton Gomes da Conceição).

Osmildo Kuntanawa — o amigo índio de Tony Jarbas — é um dos filhos de Milton da Conceição, e nos anos 1990 se destacou como uma jovem liderança comunitária, com o propósito de afirmação da identidade indígena do grupo.

O uso ritual da Ayahuasca foi aprendido com os “parentes” Ashaninka, Kaxinawá e Yawanawa, e proporcionaram a Osmildo, seu irmão Pedrinho e demais membros da comunidade, conhecerem os poderes misteriosos desta sagrada bebida.

As relações de contato e ações comuns com os povos indígenas vizinhos se estreitaram, a partir do partilhamento das experiências com o sagrado. A consciência da discriminação étnica e política reforçaram os laços de solidariedade entre esses brasileiros até então marginalizados pela sociedade envolvente.

Sob o comando da Ayahuasca — que se tornou guia e professora dos índios Kuntanawa —  eles passaram a explorar dimensões insondáveis do universo, acessaram sua memória ancestral e trouxeram de volta para seu povo pinturas corporais, cânticos e conhecimentos mágicos e etnobotânicos.

Assim aconteceu a retomada da origem indígena do grupo, que resultou num profundo sentimento de indianidade, amparado na ascendência étnica e na história particular da comunidade. Porém, tudo isso só se solidifica e cria raízes com a solução do problema das terras indígenas. Daí a importância da luta recente pela criação e manutenção da Reserva Extrativista do Alto Juruá; a demarcação de terras indígenas como fundamental para a sobrevivência das etnias indígenas ameaçadas pela dita civilização, tão brutal e desumana.

Guerreiros da Paz e da Esperança, os Kuntanawa continuam a luta pela sobrevivência e afirmação étnica. A importância de líderes comunitários como Osmildo é fundamental para o reviver da cultura, da língua, da medicina e dos costumes deste sofrido povo.

Ser um adepto (fardado) da Doutrina Cristã da Floresta não fez de Osmildo um desculturado e desenraizado, muito pelo contrário. O uso do Santo Daime (Ayahuasca) tem sido motivador e estimulador dos indígenas para reafirmação de suas culturas nativas, valorizando e reafirmando valores étnicos.

Recebimento do hino “Amigo Índio” por Tony Jarbas

Passam-se vários meses e, em nova viagem de trabalho, Tony Jarbas visita a Cidade de Cruzeiro do Sul, no Acre. Esta Cidade é porta de entrada do Vale do Rio Juruá e um dos locais mais recônditos do território brasileiro. De difícil acesso, suas matas virgens possibilitam inclusive a existência de povos indígenas isolados, nos rincões mais distantes.

No Mercado Municipal, Tony sai à procura de uma concorrida medicina da floresta: o rapé de índio. Pressurosos comerciantes indicam a ele o lugar de compra, uma banca de medicina indígena: raízes, folhas, preparados, garrafadas e o popular rapé. Quem o atende é o mesmo Osmildo Kuntanawa que havia conhecido em Brasília. À primeira vista não se reconhecem…

— O amigo vem de onde?

— Da Bahia.

— Da Bahia?! Tenho um amigo baiano: Tony Jarbas!

— Tony Jarbas sou eu!

Riem. Se reconhecem. Se abraçam, renovando os laços de amizade. Osmildo lhe faz então o convite.

— Hoje à noite vamos tomar Ayahuasca e, se tu quiser, está convidado.

Tony imediatamente aceita o convite, retorna ao hotel e, na hora estipulada, se apresenta na casa do amigo índio. Este o aguarda devidamente paramentado, acompanhado de uma jovem companheira.

Tomam Ayahuasca, cheiram rapé, cantam hinos. A miração chega forte. Na miração Tony experimenta o sagrado estado mental imerso na paz curativa. Quando a alegria divina chega, ele é elevado no Espírito. Ao sobrevir o profundo êxtase de Deus os pensamentos se aquietam banidos pelo comando mágico da alma.

Tony bebe a bem-aventurança divina; vivencia uma emoção profunda e muito forte; a sensação de estar em harmonia ou em comunhão com o universo; a sensação de que é uma experiência muito especial que seria difícil ou impossível descrevê-la adequadamente com palavras; uma sensação de profundo conhecimento ou profundo entendimento. É quando “desce” o hino, e ele começa a cantar:

Eu estou aqui

Com um velho índio amigo meu

Conhecendo nas matas,

As medicinas que Deus nos deu.

 

Cipó, folha, rapé, sananga, kambô

Para curar

E também minha Santa Maria

Para confortar.

 

Meu Amigo Índio, amigo das matas

Tu sois um Beija-flor

Deus te acompanha

E meu Mestre Ensinador.

 

Guerreiro, Xamã, Pajé,

Da tribo de Juramidã

Tu sois filho do meu Pai

Das matas tu sois defensor.

O Eu Superior que habita o aparelho mediúnico Tony Jarbas, reconhece a importância e grandeza da luta de Osmildo Kuntanawa pelo destino e sobrevivência do seu povo, sua língua, sua cultura, sua medicina e tradições.

O hino nos traz várias compressões. Por exemplo, a grande dívida que o Brasil tem com os povos indígenas e a lamentável perda de um rico cabedal de conhecimentos e patrimônio cultural da humanidade, se o país não reconhecer e zelar por toda essa diversidade existente no solo pátrio.

Todavia, a espiritualidade está atenta. Os protege e ampara. O Rei Juramidã zela por sua tribo.

Haux, Haux!

Link para o hino Amigo Índio:

 

 

 

 

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Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]