Os médicos brasileiros e a morte da ex-primeira-dama | Por Manoel Olavo Teixeira

Há alívio, sim, mas permanece o choque de perceber que muitos médicos brasileiros estão agindo como monstros morais.", comenta Manoel Olavo Teixeira.
Há alívio, sim, mas permanece o choque de perceber que muitos médicos brasileiros estão agindo como monstros morais.", comenta Manoel Olavo Teixeira.
Há alívio, sim, mas permanece o choque de perceber que muitos médicos brasileiros estão agindo como monstros morais.", comenta Manoel Olavo Teixeira.
Há alívio, sim, mas permanece o choque de perceber que muitos médicos brasileiros estão agindo como monstros morais.”, comenta Manoel Olavo Teixeira.

Não tem sido raro ver médicos se divertindo ou fazendo piadas sádicas às custas da doença e morte de Dona Marisa Letícia. Algumas destas abominações vazaram para as redes sociais. Pra quem usa branco, não é preciso ir muito longe para ouvir piadinhas de mau gosto sobre o caso, contadas por algum colega – (antes que alguém faça graça: não, eu não uso branco. Psiquiatras usam roupas comuns, exceto em situações excepcionais).

A minha classe, por dever de ofício, deveria ter, no mínimo, algum pudor quanto a gozar sadicamente com o sofrimento e a morte de outro ser humano. A profissão médica envolve compromissos sérios. Não gosto de dizer o óbvio (Brecht dizia durante o nazismo: que tempos são esses em que é preciso dizer o óbvio?), mas o juramento de Hipócrates compromete o médico com a defesa e o respeito à vida, em sua acepção mais ampla. Sem distinção de pessoas. Falo de princípios básicos de humanismo e respeito ao sofrimento humano. De algo chamado ética médica, que estudamos em deontologia e diceologia, lá pelo 4 ano do curso de medicina. Lembram-se?

Porém, de novo, alguns colegas conseguem superar-se em sua desumanidade – ultrapassando de longe o comportamento abjeto de manipular pacientes em consultas para votar contra o PT (remember 2014) ou de recusar-se a atender “petistas”.  Mais uma vez, uma parcela de minha classe me enche de vergonha. Sinto algum alívio por saber que existem respeitáveis exceções. Felizmente, com muitas delas tive e tenho o prazer de compartilhar meu percurso profissional.

Há alívio, sim, mas permanece o choque de perceber que muitos médicos brasileiros estão agindo como monstros morais. Muitos deles são jovens recém-formados. Acham que sua adesão à militância de direita antipetista justifica qualquer tipo de atrocidade, mesmo ética ou profissional, para tripudiar sobre o suposto inimigo.

De repente, me ocorreu que, nos primeiros anos de ascensão do nazismo, o maior número de militantes do partido nacional socialista era composto por médicos. Que contribuíram decisivamente na elaboração das teorias de superioridade racial ariana – (principalmente psiquiatras, pra não dizerem que estou sendo corporativo dentro do corporativismo). É a triste sina histórica da medicina, fruto do oportunismo político e, sobretudo, da origem de classe da maior parte dos seus membros. Ao longo da história, a medicina é uma profissão para os filhos da elite. É uma ciência, um conhecimento, um saber, uma arte, mas é também uma marca de distinção social e poder.

E não podemos nos esquecer que estamos no Brasil. O país onde seu coronel mandava o filho estudar medicina (ou direito) em Coimbra ou Montpellier, para voltar como doutor e somar credibilidade intelectual ao poder político do dono do grande latifúndio.

Num país com o nível de desigualdade social e cultural como o nosso, o peso da distinção social conferido pela formação médica é ainda maior. Estudantes de medicina de classe média baixa, rapidamente, incorporam valores conservadores, argentários e consumistas durante sua formação. Valores identificados como padrões característicos da elite brasileira. O compromisso ético e humanitário fica em segundo plano.

Não podemos nos esquecer que, entre outros crimes, os governos petistas mexeram nesse vespeiro. Pela primeira vez, em 31 anos de profissão, vi negros e pessoas de origem social humilde cursando graduação, residência e pós-graduação em medicina. Por razões evidentes, isto é imperdoável.

Apesar desta reflexão, uma pergunta fica ecoando em meus ouvidos. É possível entender um médico assumir posições conservadoras, na defesa de seus valores corporativos e meritocráticos. É possível entender um médico desumanizar-se por colocar o ganho financeiro como seu único valor. É possível compreender um médico jovem se identificar com os valores da elite, para perseguir sua sonhada ascensão sócio-econômica.

Mas eu não consigo entender como um médico pode,  conscientemente,  fazer chacota e festejar publicamente a morte dolorosa de uma mulher de 66 anos. Aí saímos do terreno da sociologia das profissões e entramos no perigoso pântano do horror fascista.

Este é o meu maior temor.

*Manoel Olavo Teixeira é médico

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