Transumância Amazônica e a formação das religiões ayahuasqueiras. De soldados da borracha a soldados da Rainha da Floresta

Extração da seringa

Extração da seringa

As grandes secas que afligiram o Nordeste brasileiro, desde 1877 e ao longo do século XX, com a destruição das lavouras e situação de penúria do sertanejo, forçou uma migração em massa para a Região Norte, em busca de trabalho nos seringais amazônicos. O migrante nordestino sofreu todo tipo de agruras, num ambiente social e natural hostil: discriminação social e racial, semiescravidão, fome, doenças e mortes.

Apesar de tudo e seguindo uma determinação divina, homens simples do povo, trabalhadores rurais de baixa-escolaridade, fundaram três genuínas religiões brasileiras, de rica cosmologia doutrinária, replantadas e recriadas à luz da Ayahuasca, bebida de poder inacreditável.

Um grande enigma a decifrar me acompanhava desde os anos 1970. A pergunta que não queria calar:

— Qual o destino das levas e mais levas de nordestinos que migraram para a Amazônia durante os Ciclos da Borracha, ao longo do Século XX?

À época destes questionamentos — década de 1970 — a população dos Estados amazônicos ainda era rarefeita, escassa. Pressupunha-se que uma alta taxa de mortalidade se abateu sobre aqueles depauperados nordestinos, nossos irmãos, que não sobreviveram às adversidades encontradas no âmbito hostil da floresta. Naquele tempo, lembrem, esse grandioso patrimônio natural era chamado de “inferno verde”.

O tema havia se tornado objeto de minha preocupação juvenil devido a atenta leitura do fundamental livro “Formação Econômica do Brasil”, do mestre Celso Furtado. E nas décadas seguintes a resposta para tão premente assunto ficou latente, adormecida… mas não esquecida.

Transumância Amazônica

Entre o final do século XIX e início do século XX a borracha tornou-se a matéria-prima de mais rápida expansão no mercado mundial. A escassez de mão-de-obra levou o governo brasileiro e os agentes econômicos a atraírem os trabalhadores rurais nordestinos para a Amazônia, com a oferta de emprego e renda.

As condições para o êxodo de população da Região Nordeste estavam criadas: a crise da economia algodoeira e, principalmente, as secas prolongadas do período.

Foi quando se deu a Triste Partida da Asa Branca e do sertanejo nordestino, fugindo da grande seca e seus efeitos: destruição de lavouras, morte do gado e desemprego que provocaram o êxodo rural em massa dos agricultores, em busca de sobrevivência. Essa intensa migração para a Região Norte ficou conhecida como Transumância Amazônica.

O processo migratório era perverso e desumano, e o regime de trabalho se estruturava em condições de semiescravidão ou servil. O nordestino já chegava aos seringais endividado pelos gastos de viagem; comprava o produto para sua subsistência das mãos de seus empregadores, aumentando a dívida; vivia no isolamento e em condições insalubres. As mulheres eram raras nos seringais, a taxa de fecundidade baixa e a mortalidade elevada — os seringueiros se reproduziam pouco e morriam cedo.

Assim, os nordestinos que se aventuraram na Amazônia viviam em condições de servidão e, se era possível piorar, com as crises da borracha brasileira no mercado mundial, viriam a passar por situação de extrema miséria e retorno a mais primitiva forma de economia de subsistência.

Foi para este ambiente inóspito e hostil que os futuros mestres fundadores de religiões ayahuasqueiras migraram. Guiados pela lua e atraídos pela luz da floresta.

O Jovem soldado da borracha, José Gabriel da Costa, futuro Mestre Gabriel e fundador da União do Vegetal (UDV), confortava a sua esposa Pequenina, quando retornavam da Cidade de Porto Velho – Rondônia para as condições de vida difíceis e precárias dos seringais, com a seguinte profecia:

— Indo aos seringais, vamos encontrar um tesouro.

Ele prenunciava o encontro com a luz da Hoasca (Ayahuasca). O ouro que tem na Terra e a luz que brilha mais.

Raimundo Irineu Serra beirando a terra, beirando o mar

No dia 15 de dezembro de 1892, nascia em São Vicente de Férrer, no Maranhão, o menino que chamar-se-ia Raimundo Irineu Serra. Seus pais, Sanches Serra e Joana Assunção Serra, eram oriundos de família humilde, descendentes de escravos que viviam do trabalho de cultivo da terra.

Lá pelos seus 19 anos o jovem Irineu, junto com seu primo Casemiro, foram a uma festa de tambor-de-crioula e se envolveram em uma briga de rapazes. Aqueles dois rapagões de quase dois metros de altura ‘botaram todo mundo para correr’, derrubaram porta e com um facão saíram cortando tudo quanto era punho de rede da casa.

Dessa travessura de juventude ele foi severamente disciplinado pelo seu tio e padrinho Paulo Serra, com uma dura peia de cipó. Duplamente envergonhado, pelo que tinha feito de malcriação e pela surra que tinha levado do tio que o criara como um filho, decidiu ganhar a vida longe da sua terra natal. Viajou a São Luís do Maranhão e no porto da Praia Grande viu um navio alistando gente para ir para o Amazonas.

Em 1912 Irineu Serra embarcou em um navio e, numa longuíssima viagem — e extensas paradas — margeou a costa brasileira até́ Belém do Pará, onde trabalhou como jardineiro para conseguir dinheiro e seguir viagem até Manaus.

Na capital amazônica, juntou-se a um grupo de nordestinos que iam para o Acre, território que sofria forte migração nordestina, impulsionada pela seca que castigava o nordeste desde 1877, para trabalhar na exploração do látex (borracha).

De Manaus ele subiu o Rio Amazonas até́ o encontro com o Rio Purus, subiu o Purus até́ a Boca do Acre, continuou a epopeia e chegou ao então Território Federal do Acre.

Desembarca em Brasileia, onde tinha notícias de estarem conterrâneos seus, os irmãos Antônio e André Costa, e se instaura na região da tríplice fronteira —Brasil, Peru e Bolívia. Ali o jovem Irineu conseguiu o seu primeiro emprego como seringueiro, na colocação de um rico seringalista.

Irineu Serra conheceu a bebida Ayahuasca com os caboclos da mata, que tinham herdado dos indígenas do lugar o hábito de “beber cipó”. Foi assim que numa noite de lua cheia, numa linda miração, a Virgem da Conceição, Rainha da Floresta, lhe apareceu dentro da lua, sentada em um trono, tendo uma águia sobre a cabeça, e lhe entregou uma linda Doutrina para ele replantar.

Daniel Pereira de Mattos singrando os rios amazônicos no Barquinho Santa Cruz

Daniel Pereira de Mattos nasceu na Fazenda dos Prazeres, próximo a uma antiga feitoria de escravos denominada Freguesia de São Sebastião de Vargem Grande — atual município de Vargem Grande — no Estado do Maranhão, em 13 de julho de 1888, junto aos antigos quilombos de Piqui da Rampa e Rampa — dois meses depois de abolida a assinatura do Tratado de Petrópolis — negociado com habilidade diplomática pelo Barão de Rio Branco, que tornou as terras do Acre brasileiras.

Porém, a República do Peru reivindicava parte do território acreano para si. Essas disputas e conflitos eram motivados pelo cobiçado látex extraído da seringueira, produto muito valorizado no comércio internacional.

Com a soberania sobre o seu recém-conquistado território ameaçada, o Exército e a Marinha brasileira enviam soldados e navios para as zonas em disputa. O conflito entre Brasil e Peru só será solucionado em 8 de setembro de 1909, com a assinatura de um tratado entre os dois países, que delimitava as suas respectivas fronteiras.

Antes disso, o jovem Daniel realiza três viagens ao Território do Acre, compondo os batalhões enviados em defesa da terra brasileira. Naquele período, segundo ele, os soldados e marinheiros enfrentavam duas guerras numa só guerra: a guerra contra os peruanos e a batalha contra a fome — que provocava o temível beribéri.

O amor cultivado por Daniel pelo Acre o leva a fazer mais duas viagens ao Território, por conta própria — quando de licença da instituição naval — até se fixar definitivamente no Território em 7 de abril de 1907, após receber baixa da Marinha em Belém do Pará, na condição de 2º Sargento.

Naquele tempo, o Seringal Empresa tinha se tornado a Vila Rio Branco, um arruado de não mais que 20 casas situadas à margem direita do Rio Acre, e a faina cotidiana acontecia nos seringais.

Sendo habitante deste Território Federal praticamente desde a sua origem, é certo que Daniel viu o Acre nascer. Ele é um que conheceu cada pedra ou tijolo colocado nas primeiras paredes deste “Castelo Místico” de riquezas invejadas — como poeticamente descreveu a terra amada.

Na terra que então se desbravara, Daniel teve oportunidade de exercer todos os seus ofícios obtidos na Escola de Aprendizes Marinheiros. Trabalhou pessoalmente com o Coronel Plácido de Castro, com o Coronel Daniel Ferreira e foi cozinheiro do seringal de José Ferreira.

Depois disso, Daniel Pereira se radica definitivamente em Rio Branco – Acre, onde exercerá a profissão de barbeiro na Rua 6 de agosto. Esta humilde barbearia era frequentada por Raimundo Irineu Serra, conterrâneo de Daniel, e os dois se tornam amigos.

No ano de 1937 Daniel passava por problemas físicos e psíquicos decorrentes de abuso do álcool, e Irineu Serra resolve ajudá-lo. Irineu liderava uma pequena comunidade religiosa que desenvolvia trabalhos com Daime (Ayahuasca), o nome que ele deu a esta bebida de poderes inacreditáveis, e era reconhecido como mestre por seus discípulos.  Mestre Irineu convida Daniel para um tratamento físico e espiritual onde se situava a sua residência e sede de serviços, na Vila Ivonete.

Entregue à bebida e à doença, Daniel não reúne forças para lá se dirigir sozinho. Sabedor disso, Irineu manda alguns companheiros trazê-lo, e a primeira vez que Daniel adentra o recinto de cura do seu amigo e futuro mestre é desfalecido, deitado numa carroça puxada a boi, na qual foram buscá-lo. Foi aí que Daniel tomou o Daime pela primeira vez, pelas mãos do Mestre Irineu. Dá-se início a graça da sua cura.

Alguns anos depois (1945), sob efeito do Daime, Daniel Pereira teve uma visão, uma miração: romperam-se os céus e de lá desceram dois esplendorosos Anjos que, por ordem do Pai de Bondade e da Virgem da Conceição, lhe entregaram um Livro Azul e lhe falaram do cumprimento de uma missão.

Estas visões o acompanhavam desde a infância, e Daniel não compreendia. Mas foi ali, na luz do Daime que tudo se revelou. E com as bênçãos do Padrinho Irineu ele partiu para fundar uma segunda doutrina ayahuasqueira — a Barquinha — e sob a proteção de São Francisco das Chagas, Mestre Daniel assumiu o comando do Barco Santa Cruz, singrando os mares sagrados, recolhendo almas penitentes para entregá-las aos Santos Pés de Jesus.

Daniel desencarnou na tarde do dia 8 de setembro de 1958. O seu passamento aconteceu na casinha de feitio do Daime, rodeado por seus amigos e discípulos.

José Gabriel da Costa e o II Ciclo da Borracha

José Gabriel da Costa nasceu no dia 10 de fevereiro de 1922, no município de Coração de Maria – Bahia. Filho de Manoel Gabriel da Costa e Prima Feliciana da Costa, pequenos agricultores. É o oitavo de 14 irmãos, educados na fé cristã e no árduo trabalho da roça.

Aos 20 anos de idade o jovem José Gabriel foi residir em Salvador – Bahia, trabalhou no comércio e também como condutor de bonde. Participou ativamente dos cultos afro-brasileiros, nos quais se iniciou na capital baiana. Aos domingos, jogava capoeira na praia de Amaralina, onde era chamado de Zé Bahia e conhecido por sua agilidade.

Em 1944, José Gabriel embarca em um navio para Belém do Pará, com destino à Porto Velho, então Capital do Território Federal do Guaporé (atual Rondônia), para se alistar como “soldado da borracha”.

O Brasil havia entrado na II Guerra Mundial (1939-1945) ao lado dos Aliados e jovens brasileiros eram recrutados para lutar na Itália. Um outro contingente de alistados — geralmente nordestinos — foi enviado pelo governo a Amazônia para participar do esforço de guerra de suprir os americanos de borracha vegetal para a industrial civil e bélica.

Os soldados da borracha escapavam da violência e morte da II Guerra Mundial, mas não escapavam de doenças como a malária e do tratamento brutal e desumano perpetrados pelos seringalistas contra os seringueiros.

Na Amazônia, José Gabriel trabalhou em diferentes seringais do Acre, de Rondônia e também na Bolívia. Armou um terreiro de culto afro-brasileiro no meio da mata e nos seus trabalhos espirituais “recebia” o caboclo Sultão das Matas. Como Sultão das Matas ele realizava trabalhos de cura e ficou famoso em uma região onde a medicina científica era praticamente inexistente naquela época. Há registro de muitas curas patrocinadas por esta entidade, inclusive no seio da própria família de José Gabriel.

O Sultão das Matas se apresentava com a entoação deste ponto:

Tava nas mata virgens

Quando mandaram me chama

Eu me chamo Sultão das Matas

Aqui nesse cajual.

Casado com Raimunda Ferreira da Costa (Pequenina), José Gabriel mudou da cidade de Porto Velho para os seringais por quatro vezes. Em uma destas ocasiões, Pequenina não queria sair da cidade com os filhos para ir novamente morar nas chamadas “colocações de seringa”, onde as condições de vida eram precárias e muito difíceis. José Gabriel a confortou com a seguinte frase premonitória:

— Indo aos seringais, vamos encontrar um tesouro.

E foi no seringal Guarapari, em abril de 1959, na fronteira entre o Acre e a Bolívia, que José Gabriel bebeu o Chá Hoasca (Ayahuasca) pela primeira vez. Fazendo uso deste chá misterioso, ele recordou de suas encarnações anteriores, revelaram-se os ensinos do Rei Salomão e, dessa maneira, Jose Gabriel da Costa recriou a União do Vegetal em 22 de julho de 1961, e se tornou um mestre para a comunidade religiosa que passou a se reunir em torno dele.

A União do Vegetal (UDV) é uma religião genuinamente brasileira, e tem como peculiaridade a ingestão do chá Hoasca (Ayahuasca) utilizado desde tempos imemoriais pelas comunidades indígenas amazônicas.

Mestre Gabriel volta a residir em Porto Velho – Rondônia com a sua família, e anuncia que o propósito da União do Vegetal é de trazer Luz, Paz e Amor à humanidade; e de contribuir para o desenvolvimento humano, com o aprimoramento de suas qualidades intelectuais e suas virtudes morais e espirituais.

Na sua Missão Espiritual, José Gabriel foi ajudado por inúmeros amigos que se tornaram seus discípulos. Um deles foi um jovem pernambucano, soldado da borracha, que na década de 1940 saiu da Cidade de Limoeiro – Pernambuco em direção ao Norte até chegar a Porto Velho – Rondônia. Trabalhou naquela cidade por quatro anos e depois foi para o seringal Guarapari. Lá, dentro de um terreiro de culto afro-brasileiro conheceu José Gabriel e iniciou a sua amizade com aquele também soldado da borracha.

Quando José se torna o Mestre Gabriel e funda a União do Vegetal, aquele seu seguidor, que viria a ser o Mestre Pernambuco, se faz um discípulo de primeira hora, e participa ativamente da UDV até o dia do seu passamento. Cumpre a trajetória de soldado da borracha até alistar-se no Destacamento de Mestre Gabriel.

Em 24 de setembro de 1971 José Gabriel da Costa desencarnou em Brasília – DF. Ele legou para a humanidade a União do Vegetal — plantada na Terra e confirmada no Astral Superior.

Os “soldados da borracha” continuam as obras dos mestres ayahuasqueiros

O fim do II Ciclo da Borracha aconteceu com o término da II Guerra Mundial e a reorganização da produção de látex da Ásia. Não podendo concorrer com aquela produção eficiente e racionalizada, a borracha amazônica entra em crise.

A Cidade de Rio Branco – Acre foi então invadida por levas de seringueiros falidos e desempregados, e para abrigar esse contingente humano, o Governo cria um programa de assentamento na forma de colônias agrícolas, nas terras do antigo Seringal Empresa.

É neste período (1945) que o Mestre Raimundo Irineu Serra se transfere com a sua comunidade religiosa da Vila Ivonete para a antiga colocação Espalhado, que ele rebatiza de Alto da Santa Cruz e, depois, de Alto Santo.

Lá na atual Vila Irineu Serra, comunidade do Alto Santo (Rio Branco – Acre), ainda residem alguns poucos “soldados da borracha” ou suas viúvas pensionistas. Muito idosos, são trabalhadores rurais nordestinos que deram o seu sangue e suor para livrar o Brasil e o mundo das garras da tirania, contribuindo na luta pela liberdade.

Estes soldados da borracha e da Rainha da Floresta deram continuidade a obra do Mestre Imperador Rei Juramidã.

Lembro que em visita ao seu Loredo, feitor de Daime do Mestre Irineu e patriarca de uma numerosa família, residente no Barro Vermelho — zona rural de Rio Branco – Acre —, ornamentava a sala de sua humilde casa um quadro com a sua fotografia de “soldado da borracha”, o que era motivo de orgulho para si e seus descendentes. Porém, o soldado da borracha Loredo se tornou também um soldado da Rainha da Floresta.

Loredo (sr. Raimundo Ferreira) faleceu em 20 de janeiro de 2009, dia de São Sebastião.

Os “soldados da borracha” e a Missão Franciscana de Frei Daniel

Na comunidade religiosa fundada por Mestre Daniel Pereira de Mattos (Barquinha), na Vila Ivonete (Rio Branco – Acre), os “soldados da borracha” também darão continuidade às obras de caridade do Frei Daniel e sua Missão Franciscana. Um deles será o sr. Antônio Geraldo da Silva.

Antônio Geraldo nasceu em 25 de maio de 1922, na cidade de União – Ceará e chegou a Rio Branco – Acre em 30 de junho de 1944, na condição de soldado da borracha. Por ser arrimo de família e pela forte oposição materna de enviar seu filho à guerra, foi poupado de lutar nos campos de batalha italianos.

Inicialmente, Antônio Geraldo trabalhou como oleiro, depois foi enviado aos seringais. Adoeceu, retornou à cidade. Trabalhou novamente como oleiro. Passou inúmeras dificuldades materiais com desempregos frequentes e doenças como o impaludismo.

No ano de 1948 casou-se com Antônia Ferreira da Silva. Tiveram nove filhos. Dona Antônia ajudava no orçamento familiar exercendo a atividade de lavadeira. Foi através de sua esposa Antônia que Antônio Geraldo conheceu o Mestre Daniel.

Na Santa Luz do Daime Daniel percebeu o seu valor e reconheceu nele um dos irmãos amigos a quem confiar a continuidade da Missão. Antônio Geraldo se tornou a partir daí um discípulo do Mestre Daniel — de soldado da borracha a soldado dos exércitos de Jesus.

Quando do desencarne do Fundador, após breve crise sucessória em que os trabalhos estiveram suspensos por dois meses, os membros da comunidade se reuniram e foram à casa de Antônio Geraldo convidá-lo a assumir a primeira presidência daquele Centro Espírita ayahuasqueiro.

Este Marinheiro de Luz, Mestre Conselheiro Antônio Geraldo da Silva, cumpriu a sua missão franciscana até o dia 28 de julho de 2000, quando faleceu aqui em vida de matéria e renasceu lá no mundo espiritual.

O soldado da borracha Frei Manuel

Aquele que viria a se tornar o Velho Pastor Frei Manuel, patrono do ‘Centro de Regeneração Espiritual Casa de Jesus e Lar de Frei Manuel’ — a Barquinha de Ji-Paraná – Rondônia — foi convocado para lutar pelo Exército brasileiro nos campos de batalha da II Guerra Mundial, junto com seu irmão gêmeo José. Temerosos com o destino dos filhos, seus pais conseguiram que um deles, Manuel, permanecesse no Brasil como arrimo de família.

José seguiu para a Guerra, da qual voltou vivo em 1945; Manuel se alistou em Fortaleza como soldado da borracha e embarcou com os pais para o Acre, em 1942, no navio “Comandante Ripper”, da Companhia Loide Brasileiro, chegando à capital do Território no dia 4 de fevereiro de 1943.

Em Rio Branco, Manuel foi empregado na Secretaria de Saúde do Território Federal do Acre, pois tinha trabalhado como técnico de laboratório e análises clínicas no Estado do Ceará, e assim deu a sua contribuição de profissional qualificado naquele distante rincão, tão carente de mão-de-obra especializada.

Por uma necessidade de ordem pessoal, Manuel é convidado por um amigo a conhecer os trabalhos espirituais com Daime (Ayahuasca) realizados pelo Mestre Daniel Pereira de Mattos. Naquela humilde igrejinha no meio da floresta, que era a Vila Ivonete em 1956, ele conhece o poder da Santa Luz e se torna um zelador dessa Casa de Jesus e da Virgem da Conceição. O soldado da borracha Manuel se torna um soldado dos exércitos de Jesus.

Manuel passou deste mundo a eternidade no ano de 2000. Após quase cinco décadas ininterruptas de dedicação a esta Missão de Luz, nos mistérios da Santa Doutrina ele foi consagrado como o Velho Pastor Frei Manuel, e lá dos planos superiores onde se encontra, pastoreia as ovelhas de Deus “em lindos rebanhos, no Santíssimo Caminho do Céu”.

O soldado do Exército Juarez Martins Xavier e o fim da II Guerra Mundial

Registro aqui o caso do meu xará, Juarez Martins Xavier, pela excepcionalidade. Juarez, residindo em Rio branco – Acre, será um soldado do Exército Brasileiro convocado a lutar nos campos da Itália, e não nos seringais amazônicos.

Foi assim: o jovem Juarez Xavier chegou à pequena Cidade de Rio Branco – Acre em 22 de abril de 1942, então um pequeno arruado de casas cercado pela floresta por todos os lados. Tinha 16 anos de idade e acompanhava a família. Logo começou a trabalhar. Primeiro como servente de obras e depois foi alçado à condição de pedreiro. Ajudou a construir a Catedral de Nossa Senhora de Nazaré.

Aos 18 anos, Juarez Martins foi convocado a se alistar no Exército Brasileiro e lutar nos campos de batalha da Itália (II Guerra Mundial). Foi enviado para Manaus – Amazonas a se preparar para o confronto.

Próximo do dia de Juarez embarcar para o grande conflito, a guerra acabou. Com isso, o jovem voltou para casa. Quis o destino que Juarez Xavier fosse poupado da carnificina e derramamento de sangue que foi aquela violenta Guerra, que são todas as guerras.

Juarez casou-se com Maria Rosa de Almeida, a dona Maria Baiana, que frequentava a Missão religiosa de Mestre Daniel Pereira de Mattos escondida do marido, alcoólatra e violento. Certo dia um amigo o convidou para conhecer a Missão de Daniel. Juarez levou consigo a esposa, com a seguinte recomendação:

— Eu quero tomar essa bebida. Mas você não vai tomar não!

Ele desconhecia que Maria Baiana frequentava aquela Casa Espírita e já bebia o Daime. Juarez bebeu da Santa Luz dado a ele pelo sucessor de Daniel, o sr. Antônio Geraldo da Silva.

Naquele momento sua vida se transformou, deixou a bebida alcoólica e vida desregrada. E se tornou um membro daquela Casa espírita ayahuasqueira. O soldado do Exército Brasileiro se fez um soldado dos exércitos de Jesus.

No ano de 1965 o casal se afasta daquela Igreja para, em 24 de julho de 1967 fundar o ‘Centro Espírita Luz Amor e Caridade’, localizado na zona rural de Rio Branco, às margens do Rio Acre.

Por seu ano de fundação, a igreja daimista formada por Juarez Martins Xavier (17/12/1924 – 04/02/2015), é o quarto centro de religiões da Ayahuasca mais antigo do Mundo Terra.

Batalhões e destacamentos no amor a Deus e serviço ao próximo

As grandes secas que afligiram o Nordeste brasileiro, desde 1877 e ao longo do século XX, com a destruição das lavouras e situação de penúria do sertanejo, forçou uma migração em massa para a Região Norte, em busca de trabalho nos seringais amazônicos. O migrante nordestino sofreu todo tipo de agruras, num ambiente social e natural hostil: discriminação social e racial, semiescravidão, fome, doenças e mortes.

Apesar de tudo e seguindo uma determinação divina, homens simples do povo, trabalhadores rurais de baixa-escolaridade, fundaram três genuínas religiões brasileiras, de rica cosmologia doutrinária, replantadas e recriadas à luz da Ayahuasca, bebida de poder inacreditável.

Seus primeiros discípulos e amigos eram homens e mulheres simples e humildes, assim como os seus mestres, e se alistaram aos seus batalhões, aos seus destacamentos, com o propósito de amar a Deus e servir ao próximo, cultivando a paz, o amor, a verdade e a justiça para toda a humanidade.

Amém!

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Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]