Como a comunista China se tornou a maior defensora da globalização após a ascensão de Donald Trump

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China lidera defesa da globalização.
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China lidera defesa da globalização.

Um imenso galo com a cabeleira dourada e a expressão do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, diante de um shopping center na cidade de Taiyuan, na província chinesa de Shanxi, tem atraído clientes e curiosos.

O fascínio pela imagem do americano também aumentou as vendas de réplicas da escultura e de outros brinquedos que lembrem o republicano na internet.

Mas o mesmo Trump que tem sido usado para estimular vendas na China pode acabar causando prejuízos ao país, ao comércio global e, ironicamente, fazer da República Popular da China a maior defensora do mundo globalizado durante o novo governo americano, que se inicia no dia 20, uma semana antes do Ano Novo Chinês – o Ano do Galo.

Os chineses identificam uma “preocupante” onda protecionista nos Estados Unidos – o que teria sido confirmado pela eleição presidencial – e na Europa – com o fato de os britânicos terem optado por deixar a União Europeia.

Já há alguns meses, eles vêm defendendo que a globalização é um processo sem volta, contra o qual lutar seria um grande equívoco.

“É irreversível! Lutar contra isso é um erro. O que se vê agora (uma onda protecionista) são retrocessos”, disse o professor Shi Zhiqin, especialista do Centro de Política Global da Carnegie-Tsinghua Center.

Na última cúpula do G20, realizada em Hangzhou em setembro de 2016, os chineses foram os primeiros a sair em defesa da globalização. Ciente das críticas aos efeitos dela, o presidente Xi Jinping afirmou que o processo deve ser inclusivo.

Roberto Azevedo, diretor-geral da OMC, também defendeu em Hangzhou a globalização, dizendo que o fenômeno é responsável por apenas 20% dos empregos perdidos no mundo.

A maior causa do desemprego, segundo ele, são as inovações tecnológicas e o aumento da produtividade. Azevedo, candidato à reeleição na OMC, diz que tentar contornar o desemprego por meio de políticas protecionistas – uma das bandeiras de Trump – é um erro.

O tema acabou entrando na declaração final do encontro por insistência da própria China, que presidiu o grupo no ano passado.

Os movimentos antiglobalização mundo afora defendem justamente que o processo aprofundou as desigualdades entre ricos e pobres.

Argumento que, segundo especialistas, teria levado os americanos a alçar Trump à Casa Banca, e os britânicos a tirar o Reino Unido da União Europeia.

Para o professor Shi Zhigin, desde que deu início ao processo de abertura da economia e de reformas, a China passou a se integrar gradualmente ao mundo globalizado, tendo obtido imensos benefícios com isso – o que também teria acontecido com o resto do mundo.

O processo de globalização, segundo ele, sofreu muitas interrupções ou perda de velocidade desde seu começo, sobretudo por conta das duas grandes guerras mundiais e da Guerra Fria, mas nunca foi encerrado de vez.

“Com o fim da Guerra Fria, testemunhamos uma aceleração da globalização que mudou imensamente o nosso mundo e estimulou a economia mundial. Ela agora sofre nova interrupção, o que é cíclico. Temos que admitir que a globalização tem problemas, como o aumento da distância entre ricos e pobres, mas ela não é um erro. Os problemas causados por ela devem ser corrigidos “, afirmou Zhigin.

A disputa sobre a globalização deve ganhar ainda mais destaque com uma esperada queda de braço entre Estados Unidos e China na administração Trump.

Para o economista-chefe do Centro Chinês para Intercâmbio Econômico, Zhang Yansheng, um think tank próximo do governo, a expectativa de aumento na inflação americana neste ano deve enfraquecer as exportações dos Estados Unidos e obrigar o país a importar mais, segundo reportagem do jornal estatal China Daily.

Isso deve agravar o imenso deficit comercial americano, e, de acordo com o Yansheng, “fazer da China um bode expiatório”.

Os americanos têm comprado sistematicamente mais da China do que os chineses deles.

De janeiro a novembro de 2016, o saldo negativo na balança comercial entre os dois países favorecia a China em US$ 319,3 bilhões. Em 1996, o deficit não passava de US$ 39,52 bilhões. Mas isso não quer dizer que os Estados Unidos saíram perdendo nestas duas últimas décadas.

Comércio entre EUA e China, em US$ bilhões

                                             1996       2006        2015         2016 (jan a nov)

Exportações dos EUA     11,99       53,67       116,07       104,14

Exportações da China     51,51       287,77     483,24       423,43

Saldo negativo dos EUA   39,52     234,10    367,17      319,30

A verdade é que o comércio entre os dois países cresce como nunca. Em 20 anos, as exportações americanas para a China passaram de US$ 11,99 bilhões em 1996 para US$ 104,14 bilhões de janeiro a novembro de 2016. Ou seja, um aumento de 768,6%.

O percentual é superior ao aumento das exportações chinesas para os Estados Unidos, que saíram de US$ 51,51 bilhões em 1996 para US$ 423,43 bilhões, no período, ou 707,9% a mais.

Se Trump resolver restringir o comércio e elevar tarifas para produtos “made in China” em até 45%, como anunciou durante a campanha, as medidas podem afetar o comércio chinês em um primeiro momento, mas também podem ser um tiro no pé dos americanos.

“Se isso acontecer, as importações chinesas vão custar pelo menos US$ 20 bilhões a mais para os consumidores americanos. Como explicar isso para eles? Para a China pode não ser tão grave. Temos outros parceiros no mundo”, afirmou Xue Rongjiu, vice-presidente do Instituto para OMC do Ministério do Comércio, e um dos maiores especialistas em negociações comerciais do país.

Ele disse ainda que a Europa não pode atribuir ao comércio com a China ao desemprego nos seus países.

“A UE deve refletir sobre isso. E não nos culpar. Não é justo. A China criou muitos empregos na Europa por meio de investimentos.”

‘Economia de mercado’

Durante a cúpula da APEC, a sigla da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, em novembro passado, o presidente Xi Jinping foi categórico ao afirmar que “a história provou que o protecionismo não leva a lugar algum”.

É assim que a China pretende continuar pensando e conduzindo a sua política externa. Desde o mês passado, o país passou a ser considerado, no âmbito da Organização Mundial de Comércio (OMC), uma “economia de mercado”, conforme acordo assinado há 15 anos.

Embora muitos países tenham dado a entender que pretendem fazer vista grossa para este item do acordo, os chineses já avisaram que não aceitam outro tipo de interpretação. Eles querem tratamento igualitário nas questões comerciais e anunciaram que estão mais preparados do nunca para se lançar em batalhas comerciais.

Resta saber se a guerra de titãs se dará dentro das regras da OMC – a China garante que sim.

“Claro que a China vai considerar as regras da OMC. Não vamos nunca contra as regras da OMC. Tudo estaria previsto dentro das regras e do quadro da OMC, mas a China não quer ver isso acontecer (o enfrentamento)”, disse Ronjiu.

Agenda futura

A agenda entre Estados Unidos e China daqui para frente é longa – há muitas arestas a aparar. E o magnata Donald Trump já deu a entender que as negociações podem ir muito além da esfera comercial.

Em entrevista à Foxnews, deixou no ar que poderia usar a questão Taiwan para pressionar os chineses, um assunto caro à China.

Uma das primeiras iniciativas de Trump após vencer as eleições foi ligar para a presidente de Taiwan, gesto político que irritou Pequim e preocupou o resto do mundo.

“Entendo totalmente a política de uma China única, mas não sei por que temos de estar sujeitos a ela, a não ser que cheguemos a um acordo com a China em outros assuntos, de comércio inclusive”, disse.

Questionado sobre a China ser hoje a maior defensora da globalização no mundo, Ronjiu sorriu:

“Somos um dos seus advogados. Se o maior, não tenho certeza. Mas aprovamos a globalização e somos contra qualquer retrocesso deste processo.”

*Por Vivian Oswald da BBC Brasil.

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