Acre: a Índia brasileira. A saga de Irmão José da Cruz

Irmão José da Cruz

Irmão José da Cruz

Pela narrativa extraordinária de seus devotos, o Irmão José da Cruz andava sobre as águas e perambulava por baixo da Terra — como um ser intraterrestre. Realizou o milagre da multiplicação de frangos e de farinha para alimentar a multidão que o seguia — ele mesmo passava semanas sem nada comer, apenas alimentado pela fé em Jesus.

Pense num lugar onde santos e santas passeiam por poeirentas estradas, margens de rios, calçadas urbanas e respiram o mesmo prana que nós outros, mortais comuns. Imagine um longínquo rincão, onde mestres iluminados deram a graça de suas divinas presenças…

Sim, estamos falando da Índia, pátria espiritual da humanidade.

O Ocidente teve a oportunidade de conhecer melhor aquele mágico e surpreendente país após a divulgação de dois célebres livros sobre a espiritualidade indiana. Inicialmente “A Índia Secreta”, de Paul Brunton, de 1934 e, principalmente, “Autobiografia de um Iogue”, de Paramahansa Yogananda, publicado em 1946.

Mas… também existe uma parcela do território pátrio, o Estado amazônico do Acre, que surpreende e encanta pelas extraordinárias biografias e histórias de seus profetas, mestres iluminados, santos e santas que pisaram – e ainda pisam – o seu sagrado solo.

O Livro Sagrado afirma que santo é “aquele que é limpo de mãos e puro de coração; que não entrega a sua alma à vaidade, nem jura enganosamente”. Os homens santos de Deus “falam inspirados pelo Espírito Santo”, nos ensina o Apóstolo da Igreja de Cristo, o Senhor São Pedro.

Ao falar do Planeta Acre, lembramos imediatamente dos iluminados mestres ayahuasqueiros, que fundaram doutrinas cristãs, reveladas a esses profetas da floresta — verdadeiros mensageiros do Pai Criador.

Da saga dos mestres fundadores de religiões ayahuasqueiras tenho escrito regularmente aqui neste prestigioso periódico virtual http://www.jornalgrandebahia.com.br/author/juarez-duarte-bomfim/ e lido com interesse por meus dois ou três fiéis leitores.

Porém, hoje, quero escrever sobre um outro santo da religiosidade popular do Acre, que é objeto de veneração do humilde povo caboclo das matas e verdes vales dos caudalosos rios amazónicos.

Irmão José da Cruz

Há um santo acreano, do Vale do Juruá, venerado por muitos caboclos amazônicos, cujo nome é Irmão José da Cruz. O Vale do Rio Juruá é um dos locais mais recônditos do território brasileiro. De difícil acesso, suas matas virgens possibilitam inclusive a existência de povos indígenas isolados, nos rincões mais distantes.

Pois foi nos longínquos povoados de beira de rio, nestas densas florestas que, nos anos 1970-80, o penitente brasileiro de nome José Francisco da Cruz, cumpriu a sua missão evangelizadora de difundir o culto e devoção à Santa Cruz bendita – a Santa Cruz que o Salvador Jesus carregou pela remissão dos nossos pecados.

O Irmão José da Cruz cultivava uma longa barba e vestia hábito franciscano. Começou a sua perambulação sozinho, mas logo angariou seguidores, e percorreu mais de 500 cidades, aldeias, comunidades e povoados ao longo dos grandes rios amazônicos, no Brasil e países limítrofes, levando a sua palavra de fé.

O movimento liderado por este profeta da floresta pode ser considerado messiânico, e está inserido entre as manifestações de catolicismo popular. O catolicismo tradicional popular é um tipo de catolicismo não institucionalizado, não romanizado. São manifestações espontâneas das populações rurais brasileiras que, por necessidade, criam e organizam as suas devoções à margem da Igreja Católica.

A vastidão da floresta amazônica e a escassez de padres nas matas e nos seringais fez da figura de um padre algo raro de se ver. Anos e anos se passavam até um padre aparecer nas comunidades ribeirinhas para as “desobrigas” — realizar batismos em crianças já crescidas, e casamentos em casais já de longa convivência marital.

Na ausência da religião institucionalizada, o povo tomou para si a responsabilidade de organização do culto, construindo capelas, rezando o Terço e fazendo novenas. Isto possibilitou o surgimento de líderes carismáticos messiânicos, como o Irmão José da Cruz.

Por onde passava, predicando, o Irmão José levantava um Santo Cruzeiro de madeira na comunidade, e estruturava informalmente uma irmandade da Santa Cruz, com a finalidade de preservar a devoção e zelar por seus ensinamentos. Até hoje é comum se encontrar esses grandes cruzeiros nas comunidades ribeirinhas do Vale do Juruá, registro físico e testemunho material da passagem do líder religioso por aquelas localidades.

Em alguns lugares a irmandade da Santa Cruz — por ele criada — frutificou, e esta forma de culto está estruturado como religião no Estado do Amazonas e na Amazônia peruana. Além disso, ocorre uma intensa devoção ao Irmão José, praticada pelos mais velhos, seus contemporâneos, que o conheceram e obtiveram a graça de uma cura física ou mental; a conversão religiosa; e testemunharam a realização de seus milagres e prodígios. A continuidade histórica da veneração a este santo está relacionada à uma exitosa transmissão geracional de sua recordação, em tempos de rápidas mudanças sociais.

O que quero destacar nesta breve comunicação é a dimensão mitológica e a memória social de alguns dos seus devotos, que em muitas partes da Amazônia consideram o Irmão José como um miraculoso homem santo.

Irmão José, um santo brasileiro

Disse Jesus, profetizando sobre aqueles que viriam em seu nome:

— Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai.

Para cumprir as promessas de Cristo vieram à Terra São Francisco de Assis, Santo Antônio de Pádua, São Sebastião… e tantos outros santos anônimos que passaram por aqui, muitas vezes conhecidos só por suas pequenas comunidades.

Muitos santos são conhecidos pelos seus prodígios e milagres. Seus mágicos poderes. O Apóstolo Paulo curava com a imposição das mãos, em nome de Cristo Jesus; a sombra do corpo de Pedro curava enfermos, por onde ele passava; as relíquias de São Sebastião debelaram pestes em Roma, Milão e Lisboa.

E recordemos dos prodígios atribuídos à vida de São João Evangelista, um dos poucos cristão dos primeiros tempos que não morreu martirizado. Há um mágico episódio de sua história, que aconteceu quando os romanos o jogaram ao fogo na Ilha de Patmos, para ser queimado vivo, e deste flagelo ele saiu incólume, sequer chamuscado.

E em terras acreanas peregrinou o Irmão José da Cruz, santo apócrifo da religiosidade popular brasileira. Santo apócrifo é aquele que não passou pelo processo de beatificação e canonização do Vaticano. Melhor assim, pois ele foi aclamado e santificado pela intensa devoção dos fiéis.

As narrativas das peregrinações do Irmão José, em sua missão apostólica pelas cidades, vilas, aldeias e comunidades ribeirinhas do Vale do Juruá são sobrenaturais, supranormais e transcendentais. Em muito lembra os yogues autorrealizados da Índia, portadores dos sidhis.

Sidhis, palavra do sânscrito, significa os poderes transcendentais de um grande yogue iluminado. Isso os torna capazes de controlar e dominar os mundos mineral, vegetal, animal e hominal — este último na condição de predicadores do Amor, da Paz, da Verdade e da Justiça.

Pela narrativa extraordinária de seus devotos, o Irmão José da Cruz andava sobre as águas e perambulava por baixo da Terra — como um ser intraterrestre. Realizou o milagre da multiplicação de frangos e de farinha para alimentar a multidão que o seguia — ele mesmo passava semanas sem nada comer, apenas alimentado pela fé em Jesus.

Em êxtase místico, Irmão José conversava com o Mestre, o Senhor Jesus Cristo, que lhe fez três grandes revelações; assim como Francisco de Assis, ele recebeu os estigmas de Cristo Crucificado. As chagas nas mãos, nos pés e no peito, quando da vil crucificação do Nosso Salvador.

A narrativa que ouvi de um prodígio seu: Irmão José tinha chegado a uma cidade, junto com os seus seguidores, e iria predicar à noite. Receoso com a presença daquela pequena multidão, como forma de afugentá-los, o prefeito resolveu cortar a energia elétrica do lugar. Quando anoiteceu, miraculosamente as luzes se acenderam e assim permaneceu durante toda a pregação feita por aquele santo missionário.

No Estado do Amazonas existe o túmulo do Irmão José da Cruz, que se tornou lugar de devoção e peregrinação. Entretanto, ouvi de uma misteriosa devota sua que ele não morreu, subiu aos céus em corpo e espírito, como o poderoso Profeta Elias numa carruagem de fogo; e a subida aos céus do corpo luminoso de Jesus Ressurrecto, para sentar à direita de Deus Pai.

A permanência e continuidade da devoção ao Irmão José da Cruz não acontece por acaso na Floresta Amazônica. Se este santo popular brasileiro é venerado, isso ocorre porque, mesmo não mais estando entre nós no seu corpo físico, ele continua a agraciar os seus fiéis com aquilo que melhor fazia em vida de matéria: a cura de enfermos pela graça divina.

Numa época que a medicina científica não alcançava aquelas matas, ele já curava. Hoje em dia, que a triste realidade de abandono da humilde população rural brasileira não mudou, Irmão José da Cruz continua a interceder junto ao Pai Criador, pela saúde de seus irmãos. Por isto para sempre ele será lembrado.

Amém, Jesus, Maria e José.

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Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]