Raimundo Irineu Serra e José Gabriel da Costa: mestres ayahuasqueiros e amigos na eternidade

Conta-se que, a pedido de Mestre Irineu Serra, o Sr. Virgílio Nogueira do Amaral entregou ao Mestre Gabriel um litro de Daime, um presente em sinal de consideração e respeito ao trabalho espiritual desenvolvido por aquele mestre ayahuasqueiro.

Na sua humilde olaria, onde realizava as sessões religiosas, Mestre Gabriel distribuiu entre os participantes o Daime recebido, e, no decorrer desta sessão, traz ao mundo a chamada em que parafraseia a palavra “Daime”, cuja origem é o verbo dar, invocando os divinos poderes contidos neste misterioso chá.

O Mestre Raimundo Irineu Serra organizou um culto cristão, em Rio Branco – Acre (1930), onde uma das principais práticas ritualísticas está na ingestão da bebida de origem indígena ayahuasca, nome quéchua para a decocção do cipó banisteriopsis caapi e da folha psychotria viridis.

Esta é a Doutrina do Daime, ou Santo Daime, nome que designa a bebida de “poder inacreditável”. Vinho das almas, liana do espírito, cipó dos mortos. O Daime é o vinho do êxtase espiritual. E quem provar do vinho do êxtase espiritual saberá que nenhuma outra experiência pode ser igual.

A Doutrina do Santo Daime é praticada através de culto essencialmente musical. Os hinos expressam o contato do daimista com a realidade sagrada, são revelações divinas manifestadas em forma musical.

Os hinos do Daime são recebidos do Astral Superior, numa comunicação dos indivíduos encarnados com os planos invisíveis. É uma doutrina de excorporação, o voo espiritual que o Daime/Ayahuasca propicia. Por isso que na hora de entoação da Oração que Jesus nos ensinou, os daimistas clamam: “vamos nós ao Vosso Reino”.

Barquinha e União do Vegetal

Existem duas outras doutrinas ayahuasqueiras surgidas no Norte do país, religiões genuinamente brasileiras. São doutrinas cristãs reveladas.

Uma delas é denominada de Barquinha, e foi fundada por Mestre Daniel Pereira de Mattos, em 1945. A terceira doutrina ayahuasqueira é a União do Vegetal, (re)criada por José Gabriel da Costa, o Mestre Gabriel, em 1961.

A União do Vegetal

A União do Vegetal tem por objetivo contribuir para o desenvolvimento humano, com o aprimoramento de suas qualidades intelectuais e suas virtudes morais e espirituais.

Antes de fundar — ou recriar — a sua doutrina, José Gabriel participou ativamente dos cultos afro-brasileiros, nos quais se iniciou ainda em Salvador, na Bahia.

Em Porto Velho, Rondônia, para onde migrou como soldado da borracha, “seu” Gabriel atendia pessoas em sua casa, onde jogava búzios. Mais tarde, se torna ogã e pai do Terreiro de São Benedito, da mãe-de-santo Chica Macaxeira.

Desde os anos 1950 que José Gabriel “recebia” o caboclo Sultão das Matas, quando trabalhava num terreiro que armou no seringal. Como Sultão das Matas ele realizava trabalhos de cura e ficou famoso em uma região onde a medicina científica era praticamente inexistente naquela época. Há registro de muitas curas patrocinadas por esta entidade, inclusive no seio da própria família de José Gabriel.

No terreiro de Chica Macaxeira, José Gabriel joga búzios, promove curas e pratica o bem para o seu próximo. Vai se afastar deste culto quando bebe o chá ayahuasca e (re)cria a sua própria doutrina: a União do Vegetal.

— Eu quero falar pra vocês que tudo que o Sultão das Matas fez eu sei: Sultão das Matas sou eu.

Este é um dos momentos mais importantes de ruptura de José Gabriel com a tradição religiosa à qual estava ligado anteriormente.

Ao postular para si mesmo o poder antes atribuído à entidade Sultão das Matas, o agora Mestre Gabriel interdita a incorporação dos cultos de caboclo na doutrina que se inicia e configura o transe que será típico da União do Vegetal: a burracheira.

A burracheira, que segundo Mestre Gabriel significa “força estranha”, é a presença da força e da luz do Vegetal na consciência daquele que bebeu o chá. O objetivo da ingestão ritualística deste chá é de proporcionar ao usuário um estado equilibrado de concentração mental para a sua evolução espiritual.

A Sede da UDV em Porto Velho – Rondônia

Em 1964, José Gabriel da Costa se muda em definitivo para a capital do Território Federal de Rondônia. Porto Velho era então um pequeno vilarejo, carente de toda infraestrutura. Nenhum edifício, quase todas as ruas de terra batida, esburacadas pelas constantes chuvas, casas em sua maioria choupanas, sem conforto ou saneamento básico, poucos carros, muitos veículos de tração animal e bicicletas.

José Gabriel adquire um modesto imóvel na rua Abunã, nº 1.215. Essa mansarda é descrita como uma choupana de chão de barro, cheia de altos e baixos — casa de caboclo: dois quartos, sala, cozinha e banheiro do lado de fora.

No terreno da casa havia um barracão anexo, que só abrigará as sessões da União do Vegetal no final de 1965, e será chamada de “Sede”.

— É Sede porque eu cedi.

Ensina Mestre Gabriel o significado oculto das palavras, seus mistérios para além do sentido imediato com que são ditas.

Para o sustento de sua família organiza uma olaria não mecanizada. Além da feitura dos tijolos para venda, ali são realizados os preparos do Vegetal.

É nesse período que Mestre Gabriel estrutura o seu culto. Acontecem as primeiras Sessões de Escala, são instituídos o arco, o uniforme e introduzidas músicas de mensagens edificantes para embelezar as sessões e doutrinar os discípulos.

Irineu Serra e José Gabriel: mestres ayahuasqueiros

Irineu Serra e José Gabriel foram contemporâneos, e faleceram no mesmo ano da graça de 1971. Não se conheceram pessoalmente, todavia um teve notícia do trabalho espiritual realizado pelo colega ayahuasqueiro, mesmo com as precárias comunicações da época.

É que tinham amigos comuns em Porto Velho, Rondônia, onde Mestre Gabriel distribuía o chá Hoasca — ou Vegetal — junto à sua pequena comunidade religiosa.

Dentre esses amigos comuns se destacava o dirigente do CECLU de Porto Velho, Sr. Virgílio Nogueira do Amaral. O Centro Eclético Cristão Luz Universal era a única sede de serviços de Daime autorizada a funcionar fora do Acre, pelo Mestre Irineu.

O CECLU não era uma filial ou extensão do CICLU do Mestre Irineu – Centro de Iluminação Cristã Luz Universal. Era uma instituição autônoma e independente, inclusive com rituais específicos introduzidos pela esposa de seu Virgílio, dona Francisca. Mestre Irineu abençoara e autorizara Virgílio a dar seguimento em Rondônia à Doutrina do Daime por ele fundada.

Daime Força, Daime Luz

Conta-se que, a pedido de Mestre Irineu Serra, seu Virgílio entregou ao Mestre Gabriel um litro de Daime, um presente em sinal de consideração e respeito ao trabalho espiritual desenvolvido por aquele mestre ayahuasqueiro.

A pessoa responsável por fazer este Daime chegar às mãos do Mestre Gabriel chamava-se Guilherme. Guilherme é falecido, e seu filho, Zé Guilherme, hoje é fardado e músico da Doutrina lá no Alto Santo (Rio Branco – Acre).

Na sua humilde olaria, onde realizava as sessões religiosas, Mestre Gabriel distribuiu entre os participantes o Daime recebido, e, no decorrer desta sessão, traz ao mundo a chamada em que parafraseia a palavra “Daime”, cuja origem é o verbo dar, invocando os divinos poderes contidos neste misterioso chá.

Dai-me Força

Dai-me Luz

Dai-me o seu Divino Amor

Esta chamada intitula-se “Correi para onde tem sombra”.

Importante assinalar que num hino recebido por uma discípula de primeira hora do Rei Juramidã — nome mítico do fundador da Doutrina do Daime — o Mestre Irineu se define como “ uma Árvore Sombreira”, isto é, aquele que traz conforto para os seus amigos e discípulos.

E nós, discípulos dos bons mestres ayahuasqueiros, rogamos a estas Árvores sombreiras, Irineu e Gabriel, que “Daime Paz e Daime Amor” — e nos mostrem esta Divina Luz.

Nossa eterna gratidão aos mestres Irineu e Gabriel, que trabalham em benefício da humanidade numa só emanação de amor.

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Sobre Juarez Duarte Bomfim 742 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]