6 de Julho, passagem para a vida espiritual do Mestre Raimundo Irineu Serra Juramidã | Por Juarez Duarte Bomfim

Mestre Raimundo Irineu Serra Juramidã.
Mestre Raimundo Irineu Serra Juramidã.
Mestre Raimundo Irineu Serra Juramidã.
Mestre Raimundo Irineu Serra Juramidã.

Todo aquele que de ti se recorde e te chame de coração, e confie, receberá a Luz.

Alquebrado pelo peso da idade e sentindo que se aproximava o dia de sua passagem para o mundo espiritual, Mestre Raimundo Irineu Serra dizia a todos que o procuravam:

– Eu não sinto dor. Eu não sinto fome. Eu não sinto nada. O que eu sinto é não ter para quem entregar o meu trabalho. E saudades de vocês. Eu sinto uma saudade tão grande de vocês que é isto que está me abatendo.

Já não comia carne, dizia que o organismo dele não mais aceitava essas coisas. No final de junho de 1971 ele chamou a um de seus seguidores mais próximos, Leôncio Gomes da Silva e lhe entregou a direção dos trabalhos, dizendo:

– Leôncio, tu vai assumir a direção dos trabalhos. Tu não vai ser o chefe. O chefe sou eu. Mas fique aí para receber as pessoas, para ensinar a doutrina. Escuta o que estou te dizendo, não faça mais do que estou te entregando.

Perto do dia 30 de junho de 1971, Percília Matos da Silva, discípula dileta, pergunta para ele:

– O senhor não gostaria de uma Concentração para melhorar sua saúde?

– É bom! Então vamos fazer. Chame o pessoal mais próximo.

E assim, a Concentração da noite de 30 de junho de 1971 – poucos dias antes do seu passamento – foi feita em benefício da sua cura. No final da função religiosa, Mestre Irineu perguntou:

– Quem foi que viu o meu enterro?

Os presentes disseram que não tinham visto nada, e ele disse que havia recebido um remédio e que ficaria bem.

– E que remédio é este, mestre?

– É um remédio que tem em todo lugar… Eu cheguei a um salão onde havia uma mesa arrumada, toda composta com as cadeiras em seu lugar, só havia uma cadeira vazia, a da cabeceira. Foi então quando a Virgem Mãe Soberana chegou ao meu lado e disse: “De hoje em diante você é o Chefe Geral dessa missão. O General. Tu és o chefe no Céu, na Terra e no Mar. Para todos os efeitos. Todo aquele que de ti se recorde e te chame de coração, e confie, receberá a Luz”.

Foi assim que, depois de 50 anos de trabalho, a Virgem da Conceição, Rainha da Floresta, afirmou e reafirmou o seu comando espiritual.

6 de julho de 1971. Depõe Percília:

“Todo dia quando eu saia daqui, ia lá. E, se não fosse, ele reclamava. Nesse dia eu fui. Ele estava alegre, alegre. Parecia não estar sentindo coisa nenhuma. Conversava e contava história. Fiquei um tempo por lá e disse que ia voltar pra casa pra fazer o almoço. Ele disse:

— Você não vai não. Você ‘tá com fome? – e chamou a menina para botar o almoço na mesa.

– Você não vai agora não. Quero conversar com você.

“Ele estava na maior alegria, contando tudo! Eu pensei: ‘Graças a Deus! Ele está bom!’ E disse para ele:

— Amanhã eu vou à rua, pois vou receber.

— Vá. Pode ir.

“Aí eu tomei benção e ele fez uma recomendação como nunca tinha feito antes. Não entendi nada. Eu o vi tão alegre que não suspeitei de coisa alguma. Ele me recomendou que eu fosse muito feliz. Saí tranquila… e satisfeita”.

A um grande mestre é dado o poder de saber a hora da sua passagem desta vida para o mundo espiritual. Jesus Cristo tinha todo o conhecimento da sua trajetória aqui na Terra, e isso, mais que facilitar a sua missão, aumentava o desafio rumo à vitória.

Prevendo o sofrimento que o esperava com a vil crucificação, suou “grossas gotas de sangue” no Horto das Oliveiras.

— Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice, não se faça, contudo, a minha vontade, mas a tua.

Então vindo do Céu, apareceu-Lhe um anjo que O confortava.

“Quando chegamos (Percília e Pedro, seu marido) em frente ao Palácio (Palácio Rio Branco, no centro da capital do Acre) encontramos a esposa do Seu Doca. Ela vinha amarela, com os cabelos assanhados. Foi logo dizendo:

— O Mestre, meu Deus! O Mestre morreu!

“Só acreditei quando cheguei. Ele ainda estava na cama. O suor derramando como se estivesse trabalhando muito”.

Foi nesta tarde de verão amazônico de 6 de Julho de 1971 que Raimundo Irineu Serra fez a sua passagem para o mundo espiritual, enquanto esperava um chá de folha de laranjeira que a filha Marta preparava. Nesse mesmo dia o seu corpo baixou à sepultura.

Pisei na terra fria
Nela eu senti calor.
Ela é quem me dá o pão
A minha Mãe que nos criou.

Havia ali um vaso cheio de vinagre. Imediatamente correu um deles (soldado) a tomar uma esponja, embebeu-a em vinagre e, fixando-a numa cana e levando-a à sua boca dava-lhe de beber”… “Então Jesus, depois de ter tomado o vinagre, disse:

– Está consumado!

Depois, tornando a dar um grande grito, Jesus entregou o Espírito, dizendo:

– Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito.

Dizendo isso, inclinou a cabeça, entregou o Espírito e expirou.

A minha Mãe que nos criou
E me dá todos os ensinos
A matéria eu entrego a ela
E meu espírito ao Divino

Nosso mestre, Raimundo Irineu Serra, adotou o lema do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento — Hei de Vencer — que hoje adorna as portas de entrada de muitas casas e centros daimistas. O que temos de vencer é o pecado e a morte, para alcançarmos as promessas do Nosso Senhor Jesus Cristo: “Ao que vencer, farei dele uma coluna do templo do meu Deus; e nunca mais de lá sairá”, isto é, estará livre da “roda de sansara”, do ciclo de nascimento e morte, encarnação e desencarne… livre das agruras de ter que — “se Deus lhe der licença” — voltar a este plano de expiação e resgate que é o Planeta Terra.

Do sangue das minhas veias
Eu fiz minha assinatura
O meu espírito eu entrego a Deus
E o meu corpo à sepultura

Dona Percília esclarece: “e a história do remédio que ele tinha recebido é a terra onde se pisa. Ele não foi pra debaixo da terra? Ele não disse que tem em todo lugar? È a própria terra…”

 Jesus Cristo, o Bom Pastor, veio para os seus: “Eu não deixo perecer nenhum daqueles que são meus”; Raimundo Irineu Serra, Mestre Ensinador, poderia afirmar, assim como o Cristo afirmou: “Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz”, pois “bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!”

A um irmão descrente que foi visitá-lo, e que lhe falou da dificuldade de acreditar em Deus, Mestre Irineu recomendou:

– Acredite em mim, que estou aqui, frente a você, que eu acredito em Deus por vós.

Aqui eu findei

Faço a minha narração

Para sempre se lembrarem

Do velho Juramidã.

(Publicado originalmente em 06/07/2014)

Juarez Duarte Bomfim
Sobre Juarez Duarte Bomfim 740 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]