Sob a liderança do deputado Zé Neto, PT fenece em Feira de Santana

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Sérgio Carneiro e José Cerqueira de Santana Neto (Zé Neto), união desfeita.
Sérgio Carneiro e José Cerqueira de Santana Neto (Zé Neto), união desfeita.
Sérgio Carneiro e José Cerqueira de Santana Neto (Zé Neto) união desfeita.
Sérgio Carneiro e José Cerqueira de Santana Neto (Zé Neto), união desfeita.
José Cerqueira de Santana Neto (Zé Neto – PT/BA) e Sérgio Carneiro. Sem a partilha dos cargos e participação no governo Sérgio Carneiro optou por retornar ao projeto conservador.
José Cerqueira de Santana Neto (Zé Neto – PT/BA) e Sérgio Carneiro. Sem a partilha dos cargos e participação no governo Sérgio Carneiro optou por retornar ao projeto conservador.
José Ronaldo de Carvalho e João Durval Carneiro. Conservadores voltam a compartilhar projeto comum.
José Ronaldo de Carvalho e João Durval Carneiro. Conservadores voltam a compartilhar projeto comum.

A tragicomédia humana ocorre quando indivíduos deixam de perceber que as mentiras que contam não convencem mais as pessoas que estão em torno delas. A entrevista concedida pelo deputado estadual José Cerqueira de Santana Neto (Zé Neto – PT/BA) ao jornal Metro 1, publicada no dia 29 maio de 2015 com o título ‘Zé Neto ironiza ida de Carneiro para base do DEM: “Movimento pirotécnico”’, pode ser inserida no contexto da tragicomédia política.

Ao analisar a saída do ex-deputado federal Sérgio Carneiro do PT e o ingresso no governo do prefeito de Feira de Santana, liderado por José Ronaldo de Carvalho (Democratas – DEM), infere-se que o deputado Zé Neto emitiu toscas avaliações sob o que efetivamente tem ocorrido com o Partido dos Trabalhadores (PT) no âmbito municipal e nacional.

Sob a saída de Carneiro, Zé Neto declara:

– Vejo isso como um movimento pirotécnico para fazer um volume na ocupação de espaço na mídia política. João Durval [ex-senador, pai de Sérgio] sempre esteve lá, não me apoiou quando fui candidato a prefeito de Feira. Sérgio era PT, mas não se movimentava dentro do partido há quatro anos.

Ao analisar a declaração do deputado, observa-se que nem sempre o conservador João Durval foi aliado do Democratas. Entretanto, a falta de espaço para os membros da família e lideranças ligadas ao durvalismo fez com que o ex-senador e ex-governador retorna-se a origem conservadora, apoiando a eleição de José Ronaldo em 2012.

Observa-se, também, que o deputado ou desconhece o fato da Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Santana não ter convocado os jornalistas que acompanham eventos do governo para a posse de Sérgio Carneiro, ou mente com a intenção de distorcer a realidade política que subjaz, ou seja, que um petista com 15 anos de militância preferiu abandonar o partido, reingressando nas fileiras do conservadorismo por não ter oportunidade de participar do governo que ajudou a eleger.

A relação política ente Sérgio Carneiro e Zé Neto é um episódio com vários atos. Um conflito que se estabeleceu em 2008, quando Sérgio Carneiro disputou e venceu a prévia contra Zé Neto. Na sequência, disputou e perdeu a eleição para prefeito de Feira de Santana, sendo eleito Tarcízio Pimenta (DEM). No processo eletivo de 2008, foi estabelecida uma crise entre grupos liderados por Carneiro e Neto. A crise se estendeu até 2010, oportunidade em que Sérgio Carneiro perdeu a eleição para deputado federal, passando a ocupar a suplência.

Crise e corrupção

Em uma tentativa de relativizar a perda política representada pela saída de Sérgio Carneiro, Zé Neto comenta:

– Nós estamos vivendo um momento de comer sal. Só ficam no sal os companheiros de jornada, os que têm o PT na pele. Quem não tem a bandeira do PT na pele vai sair. Vejo muito satanás rezando quaresma, querendo endemonizar o PT. Respeito muito Sérgio, não tenho nada contra ele, mas ele optou por outro caminho. Agora meu problema é enfrentar a crise no país, no estado e na minha cidade, para chegar em 2016 com as coisas mais arrumadas.

A tragicomédia da frase pode ser sintetizada com a seguinte passagem “quem não tem a bandeira do PT na pele vai sair.”. Infere-se que um partido não tem relação com um órgão do corpo, a pele. Um partido político tem relação com a ideologia. Observa-se que os inúmeros casos de corrupção em que personalidades do Partido dos Trabalhadores se envolveram, o extraordinário enriquecimento que alguns petistas apresentam conduz partidários a abandonarem a legenda.

Em entrevista a TVeja, em 21 de maio de 2015, um dos fundadores do PT, o cientista político José Álvaro Moisés avaliou que ‘o PT perdeu a alma’, e que as instituições brasileiras foram enfraquecidas com os sucessivos escândalos de corrupção durante os governos petistas. Aplicando a análise de Moisés em perspectiva com a afirmação de Zé Neto, observa-se que a afirmação do deputado está em dissonância com o cenário político do momento.

Efetivamente, o país atravessa uma grave crise. Ela é decorrente de falhas da gestão do primeiro governo Rousseff, e do elevado grau de corrupção identificado em inúmeras instituições federais. Em diversos casos, a corrupção foi protagonizada por petistas e aliados.

Cenário local

Na província, Feira de Santana, o PT fenece em decorrência do desmensurado apetite por cargos e poder protagonizado pelo deputado Zé Neto. Se efetivamente as escolhas para ocupar cargos no governo do estado produzissem repercussões positivas, o cenário seria propositivo para o deputado. Todavia, o que se observa são pessoas envolvidas em cargos públicos, indicadas pelo deputado, cuja contribuição é insignificante.

O Jornal Grande Bahia tem recebido relatos de corrupção envolvendo o CIS, Detran, e Hospital Clériston Andrade. As fontes revelam fatos estarrecedores, entretanto não apresentam documentos que confirmem as denúncias. Apenas auditorias comprometidas com uma proba governança podem identificar se, e como, a corrupção tem ocorrido, e quais os envolvidos.

Um indicador da incapacidade de consolidar uma efetiva liderança por parte de Zé Neto é observada na Câmara Municipal de Feira de Santana. O Partido dos Trabalhadores elegeu três vereadores. Um desfilou-se, Pablo Roberto. Enquanto os outros dois, Alberto Nery e Beldes Ramos não representam uma oposição qualificada contra a gestão do prefeito José Ronaldo. Várias questões que afetam a vida na urbe foram relativizadas em toscos discursos pelos edis.

Observa-se, também, que em diversos momentos os vereadores petistas se omitiram em defender o deputado Zé Neto de ataques dos aliados de Ronaldo na Câmara. A impressão é que o deputado apenas lidera ele mesmo, e os poucos que ocupam cargos de confiança indicados diretamente por ele.

Burguese e proletários

Observa-se, por fim, que a atuação do deputado Zé Neto está muito mais em consonância com os interesses dos burgueses do que com a defesa da classe trabalhadora. A apática oposição representada pelo deputado contra a gestão de José Ronaldo é a síntese da convergência dos interesses burgueses, representada pela inação.

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Sobre Carlos Augusto 9612 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).