O “lobisomen”continua vivo | Por André Curvello

André Curvello é jornalista, e Secretário de Comunicação Social do Estado da Bahia.

André Curvello é jornalista, e Secretário de Comunicação Social do Estado da Bahia.

Manoel Anchieta Nery de Souza atuou como professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), e secretário de comunicação do Município de Feira de Santana. Natural de Rodelas, Anchieta Nery faleceu no dia 30 de abril de 2015 em Feira de Santana.

Manoel Anchieta Nery de Souza atuou como professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), e secretário de comunicação do Município de Feira de Santana. Natural de Rodelas, Anchieta Nery faleceu no dia 30 de abril de 2015 em Feira de Santana.

A chuva que castigava Salvador chegou até o cemitério Jardim da Saudade bem na hora da missa de corpo presente. Antes das 17 horas, um funcionário do cemitério pediu para que eu saísse do lugar onde estava pois por alí passaria o caixão encoberto pela bandeira do município de Rodelas, no interior da Bahia, onde nasceu o jornalista Anchieta Neri e  cujo o corpo seria cremado pouco tempo depois. Era uma tarde que parecia noite melancólica marcada por dúvidas e tristeza.

A dúvida vinha de uma de uma pergunta comum neste tipo de situação: por que uma morte tão prematura? Por que ele partiu tão jovem? Por que logo ele?  De um irmão, ouvi: “A ficha não caiu”. Enfim, são perguntas que jamais conseguirão ser respondidas e que são feitas todos os dias naquele mesmo lugar. É o mistério da vida. Resta-nos absorver os fatos e tocar em frente e seguir até o dia traçado  pelo nosso destino.

De uma irmã de Anchieta, ouvi que ela não sabia que ele era uma figura tão respeitada e tão querida. De uma das filhas, ouvi que seu pai deixa um exemplo de solidariedade, de simplicidade e de cidadania. Era um sujeito que vivia para a família e que se preocupava com todos que estavam ao seu redor. Foi assim sempre e continuou sendo quando decidiu escolher Feira de Santana como sua terra para viver.

Anchieta Neri era um belo jornalista, um fazedor de amigos. Era também professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, onde ajudou a formar uma geração de gente e cidadãos. Culto, bem humorado, praticava a seriedade e defendida o bom caráter. Foi secretário de comunicação da Prefeitura de Feira. Antes, entre tantas outras missões, foi editor chefe do extinto jornal Feira Hoje. Foi um vencedor.

Costumo dizer que Feira de Santana é a minha segunda cidade. Adotei Feira porque Feira me adotou. Cheguei na cidade em plena eleição presidencial de 1989 e lá morei durante mais de quatro anos. Primeiro, a convite do inesquecível Arthur Luiz D`Almeida Couto, estruturei a redação da sucursal de A TARDE, dentro do programa por ele criado de interiorização do jornalismo. O dr. Arthur era um visionário, um sujeito ímpar. Em seguida, fui secretário de comunicação da prefeitura local, na gestão do dr. João Durval Carneiro.

Naquele período próximo de final de século XX, conheci Anchieta e rapidamente ficamos amigos. Com ele, aprendi muito sobre a cidade e sobre a vida. É importante que a gente sempre reflita sobre nossas ações observando as ações dos outros. Na verdade, Anchieta era um exemplo de solidariedade e compreensão. Ajudou a formar uma geração de jornalistas com o seu talento e bom exemplo.

Não me lembro mais quantos foram os apelidos que lhe foram dados, mas na minha memória os mais marcantes foram “Vira Bicho”e “Lobisomen”. Uma boa turma de profissionais da comunicação costumava se reunir em pontos “estratégicos” na fria noite de Feira de Santana. Quase sempre, íamos para o Ponto do Zequinha, Ferro de Engomar ou para o Timbau. De um “orelhão” próximo, ligávamos para a redação do Feira Hoje pedindo para falar com o editor chefe e quando Anchieta atendia o telefonema alguma de nós gritava “Vira Bicho”ou uivava imitando um lobisomen. Do outro lado da linha, a resposta era imediata e obviamente impublicável. Passava o tempo, Feira Hoje fechado, e Anchieta se juntava a uma mesa de bar para discutir política, cultura e dar boas risadas.

Foram várias noites assim, curtindo uma boemia quase saudável tão característica entre jornalistas de outros tempos, discutindo os problemas da cidade, elaborando projetos e sobre tudo consolidando amizades.  Foi uma Feira de Santana que eu vivi, que me acolheu e me ajudou a crescer profissionalmente e que me apresentou a um belo ser humano chamado Anchieta Neri.

Não é exagero afirmar Rodelas está mais triste e que Feira de Santana está de luto. A cidade perdeu um homem simples e do bem, uma daquelas criaturas raras que viveu para fazer o bem. Sinceramente, não acredito que gente deste tipo desapareça. Acho que o “lobisomen” continua vivo.

Sábado, 2 de maio de 2015.

*André Curvello é jornalista, e Secretário de Comunicação Social do Estado da Bahia.

Compartilhe e Comente

Redes sociais do JGB

Publicidade

Faça uma doação ao JGB

Perfil do Autor

Redação
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: [email protected]