Entrevista II: Evandro do Nascimento e Norma Lúcia avaliam a relação da Uefs com a comunidade da Região Metropolitana de Feira de Santana

Banner do JGB: Campanha ‘Siga a página do Jornal Grande Bahia no Google Notícias’.
Norma Lúcia de Almeida e Evandro do Nascimento Silva reconhecem o perfil conservador da Uefs e dizem que mudanças tem ocorrido.
Norma Lúcia de Almeida e Evandro do Nascimento Silva reconhecem o perfil conservador da Uefs e dizem que mudanças tem ocorrido.
Norma Lúcia de Almeida e Evandro do Nascimento Silva reconhecem o perfil conservador da Uefs e dizem que mudanças tem ocorrido.
Norma Lúcia de Almeida e Evandro do Nascimento Silva reconhecem o perfil conservador da Uefs e dizem que mudanças tem ocorrido.7

O Jornal Grande Bahia entrevista os professores doutores Evandro de Nascimento Silva e Norma Lúcia de Almeida. Eles foram eleitos, respectivamente, reitor e vice-reitora da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). O mandato tem início no dia 15 de maio de 2015.

Com 40 minutos de duração, a entrevista foi dividida em quatro blocos, com os seguintes temas: orçamento, gestão, relação institucional com a comunidade da Região Metropolitana de Feira de Santana, e perspectivas futuras.

No bloco II, eles comentam sobre o perfil conservador da instituição e a relação com a comunidade da Região Metropolitana de Feira de Santana (RMFS).

Confira a entrevista

JGB – Como vocês avaliam o papel da UEFS na relação com a região metropolitana de Feira de Santana? Considerando a população dessa região como público externo da Universidade e o protagonismo que a Universidade deve ter no debate das questões que afetam estas comunidades?

Gostaria de pontuar que o Jornal compreende que a Universidade surge a partir de um protagonismo das forças conservadoras. Na trajetória da instituição isso ficou bastante demarcado, pelo distanciamento da Universidade em relação as questões sociais. Isso fez com que mesmo com a presença física de uma universidade, que possui profissionais com excelente formação, não fossem protagonizados debates socioambientais mais profundos. Permanecendo um debate raso, muito a quem do potencial da instituição. Como avaliam a opinião do Jornal Grande Bahia com relação ao protagonismo da instituição?

Evandro do Nascimento – Nós podemos ter uma certa concordância na análise que o Jornal faz. Em relação ao distanciamento da sociedade, desde sua fundação até oito anos atrás, por um grupo que era notadamente conservador e que esteve à frente da Universidade. A instituição para alguns propósitos, era uma vitrine para esse determinado grupo político e para pessoas, que depois serviu, que se projetaram a partir da passagem pela universidade.

Porém, nesses últimos 8 anos, a gestão do ‘Grupo Mais UEFS’, a qual nós nos juntamos, fazemos parte, estamos trabalhando, sempre fizemos a crítica de que necessitávamos de uma Universidade socialmente referenciada, ou seja, que o fazer acadêmico no ensino, na pesquisa e na extensão se voltasse para esse diálogo com a sociedade, e acredito que tivemos vários avanços.

Por exemplo, o resgate do patrimônio cultural de Feira de Santana, nós resgatamos a festa do bando anunciador. Não foi só a festa, por si mesmo, a preparação do bando anunciador que é antes daquele dia, da saída do bloco. O CUCA chama artistas, intelectuais para conversar para discutir sobre a cultura, o papel do bando, a cultura na cidade. Então os artistas, os intelectuais e autoridades começam a ser chamados pela Universidade para discutir esse símbolo e como significá-lo e foi assim, que há 7 anos aconteceu a primeira saída do bando anunciador.

Outro exemplo, a feira do livro. A gente identificou desde o início dessa gestão que o Brasil tem problemas na formação de leitores. A nossa educação básica falha em formar leitores desde a escola básica. Resultado, nós somos um dos países que tem um dos menores índices de livros lidos por ano por habitante, talvez na ordem de 4 livros por ano em São Paulo, Rio, Sudeste e Nordeste 1,7 livros por ano. Países desenvolvidos estão na faixa de 8, 10 livros por ano por habitante, lidos. Então, nós procuramos fazer a feira do livro, não para vender livro, mas como espaço com diversas linguagens, com grande ênfase na literatura, mas também no cordel, na “contação” de histórias, trazendo artistas regionais para terem espaço que dificilmente tem no meio comercial.

E a partir daí a gente acha que de uma primeira edição com 5 mil visitantes até a última com mais de 50 mil visitantes, de escolas públicas e privadas de vários municípios dessa região metropolitana, começa a despertar esse interesse pela leitura, vai formando leitores. Então esse diálogo, começa a partir do momento que esse grupo, que está à frente da gestão da Universidade, enxerga que ela precisa sair dos muros e realizar essas ações. Mesmo dependente do grupo político que esteja a frente Universidade, é inegável que ela tem uma importância para essa região, independente de provocar discussões, simplesmente pelo fato de formar mão-de-obra, de formar profissionais e de certa forma, massa crítica na região.

Nós temos o professor Saulo Rocha, do departamento de ciências sociais aplicadas, ele fez a tese de doutorado em desenvolvimento regional, que versava sobre a importância da UEFS para a consolidação do Centro Industrial Subaé. Ele verificou, nessa tese de doutorado que as histórias cronológicas paralelas do CIS e da UEFS estão intimamente ligadas e que foi presença da UEFS produzindo profissionais, como administradores, contadores, engenheiros e diversas outras formações que ajudou a consolidar o Centro Industrial do Subaé.

Hoje mesmo, nós temos ainda essa expansão do Centro Industrial Subaé. Nós tivemos empresas como a Nestlé, como a PepsiCo que vieram para cá. Claro que conta para uma empresa vim para cá, saber que vai ter administradores, que vai ter contadores e por exemplo engenheiros de alimentos, que são formados aonde na região? O único lugar é na UEFS. Mesmo as cervejarias de Alagoinhas, a Schincariol quando veio há mais de dez anos atrás, e a Itaipava que veio recentemente, recebem engenheiros de alimentos formados pela UEFS. Porque lá se pesquisa fermentação de cerveja.

Então veja, que existe uma importância, sim, da instituição para a região. A gente poderia tentar dar muitos exemplos, mas claro, nós temos que continuar fazendo a crítica de que precisamos, cada vez mais, estreitar esses laços da Universidade e pautar, sim, esses temas relevantes. Por exemplo, violência. Quando a Prefeitura de Feira de Santana foi discutir a Secretaria de Prevenção à Violência, houve reuniões a nível de administração da UEFS e a Prefeitura, para que alguns dados que a UEFS tem pudessem ser utilizados nas proposições de algumas políticas de combate a violência. A Polícia Militar, aqui na região de Feira de Santana, utiliza alguns dados de pesquisa da UEFS para traçar algumas estratégias de combate a violência.

Então na verdade, a gente tem sim uma interação diferente, principalmente em Feira de Santana. Talvez menos nas cidades vizinhas, e reconhecemos que precisamos, sim, estreitar esse laço. Por exemplo, nós participamos do conselho, do território de identidade Portal do Sertão, que é uma forma do Estado discutir com os municípios do território. Em algumas questões a Universidade pode colaborar.

Norma Lúcia – Aliás, a instituição participa de vários outros conselhos. Conselho Municipal de Educação, Conselho da Secretaria de Saneamento Básico. A gente é representante em vários, no caso especifico do município, em vários conselhos e são pessoas que problematizam esses problemas.

JGB – Nós não colocamos que a instituição não tem uma contribuição. Nós colocamos, e ficou bastante evidente na fala de vocês, é que efetivamente ela não consegue interagir com a população. Vocês acabaram de falar, “nós interagimos com a Polícia Militar, com a Prefeitura”, mas onde está a interação com a população?

Existe um estudo de ventos produzido pela UEFS, que demonstra que a posição do CIS está em um lugar equivocado. Se a Universidade tivesse um protagonismo efetivo na construção do CIS, Centro Industrial Subaé, nós teríamos um Centro Industrial organizado. Nós temos um Centro Industrial altamente fragmentado, porque faltou um nível de debate profundo com a sociedade. Nós temos industrias espalhadas pelo núcleo urbano, nós temos industrias espalhadas pelo Tomba e ao longo da BR 324. E o que é mais importante, não temos industrias, onde deveríamos ter, que seria na BR 116 Norte, segundo os estudos da própria UEFS.

Mas eu não diria só isso, quando eu estava produzindo matérias sobre questões ambientais, principalmente concernentes a lagoa, eu percebi que vocês tinham produzido, enquanto instituição, muito conhecimento. Mas por que esse conhecimento que não foi levado para a sociedade? E eu não quero me prender a Feira de Santana, porque aí vai a provocação do Jornal Grande Bahia, professores, justamente no sentido em que precisa-se enxergar que nós estamos, não apenas em Feira de Santana, mas na região metropolitana, e ocorre esse debate sobre a Região Metropolitana. Era muito importante que a Universidade tivesse um protagonismo, que não teve.

Essas são questões que nós colocamos e criticamente, diante de vocês que estão assumindo a gestão da Uefs, Como uma forma de refletir o papel da instituição. Observa-se que os professores devem ter feito doutorado fora da Bahia. Então, sabem que é muito comum as Universidades promoverem o ciclo de debates sobre temas que afetam, as vezes o Estado, as vezes a Região, e as vezes a cidade. Observa-se que infelizmente, a partir dos estudos feitos pelos professores e pelos alunos, se  isso acontece não é divulgado. Mas, me parece que ultimamente isso não acontece, ficou evidente na fala de vocês.

Observa-se que ao comentarem que a Universidade resgatou as questões culturais, não posso deixar de reconhecer isso. Nós divulgamos isso. Nós acompanhamos o dia-a-dia da Universidade através da assessoria de vocês. Mas, também, não podemos deixar de reconhecer que outras questões, também importantes, como as do campo socioeconômica, foram postas de lado. São questões que afetam a urbes, questões que afetam a própria construção de identidade da região metropolitana. Esse posicionamento crítico ocorre como uma provocação para a reflexão.  É nossa posição, e nós respeitamos a de vocês.

Sobre Carlos Augusto 9662 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).