Um ministro anódino | Por Luiz Holanda

Joaquim Vieira Ferreira Levy, Ministro da Fazenda.
Joaquim Vieira Ferreira Levy, Ministro da Fazenda.
Joaquim Vieira Ferreira Levy, Ministro da Fazenda.
Joaquim Vieira Ferreira Levy, Ministro da Fazenda.

Gilberto Amado, em A chave de Salomão e Outros Escritos, afirmou que “O que convencionamos chamar “bom caráter”, no Brasil, é o homem anódino, quase sempre sem gosto literário ou artístico, que não briga, não tem opiniões próprias, não toma responsabilidades, sorri gravemente, cumprimenta com austeridade, procura ganhar sua vida sem aborrecer os outros, logrando na sombra de uma aparente doçura irritar o menos possível, não suscitar reação, seguindo os caminhos abertos pelos outros, ou ficando no seu canto, com boa cara e postura sossegada. Lutou, perdeu o caráter”.

Tal afirmação, mutatis mutandis, se assemelha muito com a situação do ministro Joaquim Levy no governo Dilma Rousseff, cujo comportamento, nos últimos episódios por ele vividos, deixa muito a desejar. Um dia após o governo tentar reduzir a desoneração da folha de pagamento das empresas visando o reequilíbrio das contas públicas, a presidente Dilma começou a justificar sua atitude em relação às medidas anteriormente tomadas não sem antes ofender –com a grosseria de sempre-, o seu ministro da Fazenda, fazendo-o recuar nas declarações que acertadamente dera à imprensa.

Ao dizer que o ministro foi “infeliz” quando considerou como “brincadeira” a desoneração da folha de pagamento, a presidente não só o ofendeu como o humilhou publicamente ao forçá-lo a mudar de opinião para reconhecer que fora infeliz em suas colocações. E olha que o ministro estava certo quanto ao absurdo da desoneração “uma brincadeira que nos custou R$ 25 bilhões e não tem criado e nem sequer protegido emprego”.

Agora o ministro está acuado, isolado no governo, hostilizado pelo PT, agredido pelos sindicatos e ainda levando bronca de dona Dilma por não atender prontamente às suas convocações. Não bastasse isso, os esculachos presidenciais são sempre acompanhados de adjetivos impublicáveis, que jamais deveriam ser recebidos por um homem digno e independente.

Até onde se sabe, o ministro pode até não ser um economista brilhante, mas certamente sabe que “Nas coisas grandes e duvidosas, a maior dificuldade está no princípio”. Se o começo do ministro foi tomando medidas que impuseram ao povo o sacrifício de pagá-las, que pelo menos as defenda com fervor, mesmo que fique só no meio de todos, e, se necessário, contra todos, principalmente contra a presidente.

Integrante do quadro de diretores do Bradesco -o maior banco privado do país-, o bancário Levy ganhava muito mais do que como ministro. Mesmo não sendo um CEO na organização, exercia uma função que lhe agradava e que lhe proporcionava uma vida digna, além, é claro, da oportunidade de trabalhar com um grupo de influentes connoisseurs.

De acordo com suas declarações, o governo estaria gastando R$ 100 mil para manter cada emprego nos setores que foram beneficiados, algo que “não vale a pena”. Não contente com isso, acrescentou: “É por isso que a gente está reduzindo, pela relativa influência dela. Ela [a desoneração] não tem alcançado os objetivos para que foi desenhada. É saber ajustar quando uma coisa não está dando resultado. A intenção era boa, a execução foi a melhor possível, mas temos que pegar as coisas [as medidas] que são menos eficientes e reduzir”.

Ao se humilhar diante de todos os seus colegas de ministério e reconhecer, solícito, que foi “coloquial demais” em suas declarações, ele não só aceitou a coação moral que lhe foi imposta pela presidente (coactus tamen voluit), como demonstrou medo, receio e pavor de ser demitido, ou seja: coagido, mas aceitou.

Acorrentado pelas circunstâncias, pela incerteza de talvez não ter tomado as medidas corretas e carregando o peso de muitos erros cometidos por seu antecessor, o ministro, sem o saber, está dando os primeiros passos rumo àquele perigoso limiar a partir do qual todas as linhas e todas as vias convergem para um único ponto: o ponto da fuga.

Ninguém põe em dúvida que o que dissemos em relação à conduta de alguém pode e deve ser objeto de alguma apreciação crítica, favorável ou desfavorável, mas sempre em linguagem respeitosa, ainda que veemente. E é justamente com essa intenção que aconselhamos o ministro a deixar de ser anódino, a deixar de ser o “bom caráter” de que falava Gilberto Amado e tomar a única atitude que no momento lhe cabe: pedir demissão. Vá embora, ministro.

*Luiz Holanda é advogado, professor universitário e conselheiro do Tribunal de ética e Disciplina da OAB/BA.

Sobre Luiz Holanda 350 Artigos
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia. E-mail para contato: [email protected]