Cultura fortalece democratização da festa; Confira números do Carnaval 2015 da Bahia

Cena do carnaval 2015 em Salvador, no circuito Batatinha.
Cena do carnaval 2015 em Salvador, no circuito Batatinha.

O folião tomou conta das ruas, avenidas e praças durante o Carnaval da Cultura 2015, um movimento que representa o espírito democrático da festa e expressão maior da cultura popular. Da quinta-feira, 12 de fevereiro, à terça-feira (17/02/2015), os projetos apoiados pelo Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura (SecultBA) – Carnaval Ouro Negro, Carnaval do Pelô, Carnaval Pipoca e Outros Carnavais – envolveram mais de 8 mil artistas – entre cantores, bailarinos e instrumentistas, em mais de 200 shows e performances artísticas.

O Carnaval da Cultura 2015 contou com investimento da ordem de R$ 10 milhões, e teve, entre seus principais destaques, participações inéditas de grandes artistas no Carnaval do Pelô, como Jorge Aragão e Edson Gomes, recorde de público em shows como o de homenagem a dona Edith do Prato e da BaianaSystem, com uma média de 10 mil pessoas, cada, além de Moraes Moreira – que havia ficado fora do carnaval de Salvador em 2014 e da maior participação de microtrios para animar o folião pipoca. Nos dias de reinado de Momo, a festa no Pelourinho contou com público de cerca de 1 milhão de pessoas.

Com uma diversidade de ritmos e manifestações culturais, o Carnaval da Cultura 2015 contemplou blocos afros, afoxés, de índios, de samba, microtrios, bandas de sopro e percussão, performances, palcos para shows e desfiles de chão. Este ano, o programa Ouro Negro beneficiou 93 entidades, em sua maioria agremiações que desenvolvem, durante todo o ano, trabalhos sociais.

O secretário de Cultura do Estado da Bahia, Jorge Portugal, avalia de forma positiva os resultados conquistados: “O Carnaval da Cultura bateu em cheio em minhas expectativas e, em alguns momentos, excedeu. A gente teve diversidade e criatividade sem cordas. O Pelourinho ofereceu toda essa diversidade que está no discurso, no desejo das pessoas, aliada ao padrão de civilidade do público. Foi muita emoção desde o primeiro dia. Chorei vendo a homenagem de Mariene de Castro e das vozes femininas a Edith do Prato. No segundo dia, as pessoas esperando Jorge Aragão até às duas da manhã. A celebração ao reggae com Sine Calmon e Edson Gomes. O Largo do Pelourinho totalmente lotado com BaianaSystem e os outros largos sempre muito cheios”. Portugal informa ainda que o planejamento do Carnaval de 2016 já começou e confirma que pretende ampliar a participação dos microtrios nos circuitos da festa.

Ouro Negro

O projeto Ouro Negro levou cerca de 80 mil pessoas para os circuitos Batatinha, Dodô e Osmar, que desfilaram em blocos de afoxés, afro, índio, reggae e samba. Para muitos, o carnaval é a única oportunidade de visibilidade destes projetos, além de ser um momento de valorização da autoestima e afirmação de afrodescendentes por exemplo, que levam referências de suas culturas para as ruas.

Nas agremiações de pequeno e médio porte, principalmente, o apoio cedido pelo projeto – que há oito anos viabiliza a participação destas entidades no carnaval – é fundamental e, muitas vezes, o único, tendo em vista a dificuldade de conseguir patrocínio. O Ouro Negro tornou possível desfiles de cerca de 30 afoxés como o Laroyê Arriba Afoxé Dança Bahia, o Afoxé Korin Nagô, Filhos de Omolú, Filhos de Ogum de Ronda, agremiações culturais de diversas origens que têm referência musical no ijexá, verdadeiros candomblés de rua. Para Roberto Santos, diretor do bloco Mundo Negro, o apoio do projeto atende a uma demanda social, além do carnaval.

Entre tambores, panos, beleza, dança e cultura existe similaridade também entre os blocos de matriz africana: o trabalho comunitário. É o caso de blocos afro tradicionais como o Muzenza, as Filhas e Filhos de Gandhy, Olodum, Okanbí, o Bankoma, Os Negões, Malê Debalê, Didá, que desfilaram nos circuitos levando em diversas alas como as de dança, de capoeira, baianas e alas percussivas, característica destas entidades, mais de mil pessoas. Neste carnaval, a cultura afro foi representada nos circuitos por blocos que juntos contabilizam mais de 300 anos de tradição negra no carnaval e em 15 blocos afro contemplados pelo Ouro Negro. Além do afro percussivo, o afro do reggae esteve presente através de entidades como Reggae, o Bloco, Banana Reggae e Aspiral do Reggae.

A cultura indígena também desfilou na Avenida, com os blocos Commanche do Pelô e Apaches do Tororó, com seus mais de cinco mil foliões dentre índios de comunidades do sul da Bahia como Pataxós e Kiriris e foliões fantasiados a caráter, homenageando diversas aldeias.

Este ano, o samba teve comemoração especial com os 40 anos do Bloco Alvorada, primeiro do gênero a desfilar na sexta-feira de carnaval e mais antigo bloco de samba da Bahia. O presidente, Vadinho França, celebra pontuando o quanto Ouro Negro otimizou o desfile da entidade. “Além da garantia mínima do recurso para assegurar custos prioritário, o Projeto ajudou a reestruturar a autoestima das entidades e o posicionamento diante às entidades privadas”, comenta o presidente do Alvorada.

Junto ao aniversariante, mais 18 entidades de samba marcaram, principalmente, os primeiros dias de folia no circuito oficial – Campo Grande. O samba levou uma multidão de mais de 50 mil bambas às ruas para cantar sucessos com grandes nomes do samba baiano e participações de artistas como Fundo de Quintal Xande Pilares, Ju Moraes, Nelson Rufino, Roberto Mendes e Dudu Nobre, que desfilou no sábado de carnaval no Vem Sambar.

Carnaval do Pelô

O Carnaval do Pelô encheu de colorido e animação as ruas, vielas e largos envolvidos na programação da festa popular. Um dos principais cartões-postais da Bahia, o Pelourinho atraiu públicos de diferentes faixas etárias, de crianças a idosos, que vestiram a fantasia carnavalesca e se entregaram às marchinhas, bandinhas, bandões e grandes shows musicais. Durante os seis dias de folia, baianos e turistas curtiram cada uma das 95 atrações que foram apresentadas durante a festa momesca.

Os números do Carnaval do Pelô 2015 superam os do ano passado, tanto em público quanto em quantidade de artistas envolvidos na realização do evento. Para cumprir a programação ampla e diversificada, participaram cerca de 1,5 mil artistas e músicos, contra os 950 do ano anterior. Ao total, foram 20 shows no palco principal, montado no Largo do Pelourinho, 38 apresentações nos largos Pedro Archanjo, Tereza Batista e Quincas Berro D’Água, além dos desfiles de 37 grupos de performance, bandinhas e bandões de sopro e percussão, que ocuparam 14 ruas do Pelourinho com muitas cores e musicalidade. No total de todas as apresentações dos grupos pelas ruas do Pelô, foram percorridos por eles 227,5 km nos dias da folia. Cerca de 1 milhão de pessoas passaram pelo Centro Histórico durante o período carnavalesco, superando o registro de 900 mil pessoas em 2014.

“Este ano, o carnaval da Bahia, especialmente no Pelourinho, atingiu mais maturidade. Tanto na qualidade da programação, quanto na questão da confiabilidade e segurança. As pessoas estão se sentindo mais tranquilas para pular o carnaval, muitos acompanhados de suas famílias e até mesmo das crianças. Estamos retornando à essência da coletividade, que é o que faz do carnaval esta grande festa. Eu me sinto muito satisfeita com o saldo positivo de participação popular que tivemos este ano”, declara Arany Santana, diretora do Centro de Culturas Populares e Identitárias (CCPI), unidade da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia responsável pela coordenação do Carnaval do Pelourinho.

As primeiras atrações do Carnaval do Pelô foram apresentadas ainda na quinta-feira, 12 de fevereiro, mas foi na sexta de carnaval que aconteceu a abertura oficial no Largo do Pelourinho, com uma emocionante homenagem póstuma à sambista santo-amarense Edith do Prato (1916-2009), reunindo as vozes de Mariene de Castro, Margareth Menezes, Carol Soares, Manuela Rodrigues, Mariela Santiago, Virgínia Rodrigues e Will Carvalho, além do grupo de samba de roda Raízes de Santo Amaro, com participação especial de Dona Elza, irmã da homenageada, e de Dona Nicinha. O show foi idealizado pelo secretário de Cultura Jorge Portugal, e teve direção de Zebrinha e Jarbas Bittencourt, em reconhecimento ao samba de roda e à cultura do Recôncavo baiano.

Muitos artistas já consagrados pelo público tocaram pela primeira vez no Carnaval do Pelô. Entre eles, Jorge Aragão, Chico César, Jussara Silveira, Anelis Assumpção, Fabiana Cozza, Ana Mametto, I.F.Á Afrobeat, e Edson Gomes, que retornou após cinco anos ausente do carnaval baiano. Entre os destaques da programação, o BaianaSystem, que levou uma legião de fãs para o Largo do Pelourinho – em uma das apresentações mais vibrantes da festa popular, Gerônimo, Juliana Ribeiro, Larissa Luz, Claudia Cunha, Júlio Caldas, Alexandre Leão e Moraes Moreira, entre tantos outros que trouxeram milhares de foliões ao Pelô. Ainda se destacaram as seis orquestras que, cada uma por dia, realizaram divertidos bailes que relembraram os antigos carnavais no Largo Pedro Archanjo.

O Carnaval do Pelô 2015 teve as Festas Populares como tema, o que inspirou a decoração produzida pela artista Telma Calheira para as ruas do Centro Histórico. A decoração destaca a Lavagem do Bonfim, a Festa de Iemanjá, o Bumba-meu-boi, as Caretas e Mascarados de Maragojipe e a Devoção ao Divino Espírito Santo. A decoração se tornou um sucesso e uma atração à parte: milhares de pessoas decidiram vir ao Pelourinho para vê-la de perto, e claro, fazer muitas selfies.

Carnaval Pipoca

Em 2015, amplia-se o diálogo para novas perspectivas sob o viés da democratização da festa. Neste contexto de inclusão e abertura para a participação popular, os microtrios conquistam cada vez mais admiradores, arrastando o folião pipoca por todos os circuitos do Carnaval da Cultura 2015 – Dodô, Osmar e Batatinha, com o toque da criatividade – tão presente na cultura baiana. Em 2014, houve a inscrição para a participação na festa de dez projetos, sendo oito apoiados pela SecultBA. Em 2015, o número de inscritos mais do que dobrou: foram 32, com dez apoios confirmados no processo de credenciamento.

Sem compromisso com agremiações ou blocos, alguns itens positivos contam a favor deles: baixo nível de decibéis, proximidade com o público, repertório que geralmente inclui frevos e marchinhas de antigos carnavais. Como boa opção para quem deseja brincar no carnaval, o secretário de Cultura do Estado da Bahia, Jorge Portugal, elenca alguns fatores: “Os microtrios estão puxando cada vez mais gente, poluindo cada vez menos e, por não ocuparem tanto espaço, promovem uma aproximação maior entre o artista e o público. O microtrio vem formando uma sólida tendência no Carnaval da Bahia. Por tudo isso, queremos ampliar a quantidade projetos apoiados em 2016”, frisa Portugal.

Para o cantor e compositor Gilberto Gil, a proposta tende a ser um viés atrativo de democratização no carnaval de Salvador. “Contempla uma tendência que é de pulverizar, individualizar mais, fazer coisas que sejam mais horizontais, que dê pra muita gente. O microtrio possibilita isso”, afirma.

O microtrio Garampiola, que estreou no Carnaval de Salvador, foi um dos dez projetos apoiados neste ano pela SecultBA. A programação contou também com as participações do Gente Boa se Atrai, microtrio repleto de instrumentos percussivos feitos com pneus sob o comando de Peu Meurray; Tuk Tuk Sonoro, comandado pela cantora Sylvia Patrícia, ganhou desfilou ornamentado com luzes, flores e frutas em homenagem a Carmem Miranda; Rixô Elétrico, sob o comando de Fred Menendez, o Rixô, único do carnaval movido por pedais de bicicleta e pela propulsão humana; o Bereguedê Transeunte, idealizado por Léo Garrido e pelo músico Batata, sendo capitaneado pela cantora Maíra Lins; Coreto Elétrico, com repertório focado em marchinhas de carnavais; Bahia de Todos os Sambas, microtrio comandado pelo sambista Neto Bala que canta canções de sua autoria como “Amor Paixão” e outros sambas consagrados; Carroça Elétrica, com repertório que inclui música de samba e marchinhas de carnavais; Peixinho Elétrico, criado por Chico Gomes e Marcela Lopes com cenografia de Mauricio Pedrosa; Microtrio Solar 2015, que utiliza um coletor para aproveitar a energia do sol, alimentando parte do funcionamento elétrico do veículo. À frente do Microtrio Solar 2015, o veterano Ivan Huol.

Outros Carnavais

O Carnaval de Maragojipe, que integra o projeto Outros Carnavais, da SecultBA, tem mais de 180 anos. Na cidade com cerca de 40 mil habitantes, localizada a 140 quilômetros da capital baiana, é preservada e renovada a cada ano a tradição dos mascarados, que se esbaldaram durante o Carnaval da Cultura 2015. Iniciada no sábado (14.02) e finalizada na terça-feira (17.02), a festa reúne cerca de 80 mil pessoas. Além da programação com shows com mais de 36 atrações, reunindo mais de cem artistas, como Mariene de Castro, Bailinho de Quinta, Marcia Freire, Jau, Jota Velloso e Jorge Zarath, o destaque foi o disputado concurso dos mascarados, que envolveu este ano 90 inscritos, com idades variando de 2 a 60 anos, com suas fantasias e máscaras de diversos materiais, concorrendo a troféus em seis categorias.

O secretário de Cultura Jorge Portugal acompanhou as disputas dos mascarados na segunda-feira, 16 de fevereiro. “Se a gente fala em diversidade, você não pode esquecer dos carnavais do passado que estão aí. Existe todo um repertório que ainda é cantado e recantado em muitos carnavais de destaque do Brasil, como no Rio de Janeiro e em São Paulo. E Maragojipe, uma cidade do recôncavo da Bahia, que mantém, há quase 200 anos, o carnaval daquele jeito. Claro que há novos ingredientes, mas a cidade mantém uma memória estética”, avaliou o gestor.

“O comentário geral é que este é o melhor carnaval dos últimos dez anos”, relata a prefeita Vera Lúcia Santos, destacando que o governo do estado apoia 70% dos recursos necessários para a realização do evento. O carnaval dos mascarados em Maragojipe é Patrimônio imaterial do estado desde 2009.

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